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Ferro Frio, Mãos Quentes — romance de vampiros grátisGrátis · Exclusiva

romance de vampiros grátis

Ferro Frio, Mãos Quentes

Ela segura o ferro que eles não podem tocar. Três guardiões Fae precisam das mãos dela, e querem muito mais.

  • Harém Reverso
  • Proximidade Forçada
  • Guardiões Fae
  • Herói Ferido
  • Segredos Guardados

🌶️🌶️🌶️🌶️ Cerca de 65 min de leitura · 14.837 palavras

A ferradora Augusta Carrow trabalha o ferro desde os nove anos. Então encontra um homem queimando numa armadilha de arame preto, ao lado da nascente aonde o pai lhe proibiu ir depois de escurecer. Pela manhã, três guardiões Fae estão escondidos no celeiro dela, e os homens que armaram a armadilha batem à porta.

Arame no Espinheiro

Augusta

O último cavalo do dia a chutou na coxa, e Augusta Carrow agradeceu.

— Justo — disse ela ao baio grande, pousando o casco dele no chão do celeiro. — Eu também chutaria, se um estranho passasse uma hora aos meus pés.

O castrado soprou forte pelo nariz e virou a cabeça para olhá-la. Tinha quatro ferraduras novas, o casco aparado e a expressão de um cavalo que pretendia se lembrar daquilo.

— Ele gosta de você — disse a dona Mabry, da porta. Tinha oitenta e um anos e ainda usava o casaco de lida do falecido marido, com as mangas dobradas quatro vezes. — Mordeu o último homem.

— Ele pensou em me morder. — Augusta tirou o avental de couro e o enrolou em volta da faca de casco. — Depois pensou melhor.

— Seu pai dizia que cavalo sente o cheiro de mentiroso.

— Papai dizia muita coisa.

A dona Mabry pôs duas notas de vinte dobradas na mão dela e segurou um segundo a mais do que devia. Augusta conhecia aquele aperto. Desde fevereiro, metade do condado vinha segurando a mão dela um segundo a mais. Na loja de ração. No correio. No jantar da igreja que ela deixara mais cedo, porque mais uma caçarola teria quebrado dentro do seu peito uma coisa que ela ainda não estava pronta para quebrar.

— Você come hoje — disse a dona Mabry.

— Sim, senhora.

— Isso é um “sim” de ferradora. Não quer dizer nada.

Augusta riu, porque a velha tinha razão, e levou as ferramentas até a caminhonete.

A caminhonete era uma Ford branca mais velha do que ela, com uma oficina de ferrar soldada na caçamba. Bigorna, forja a gás, um suporte com ferraduras de aço por tamanho, uma caixa de pregos, grosas, alicates de casco e um ímã do tamanho de um punho, para achar prego perdido na palha. O pai tinha montado a estrutura no ano em que ela fez nove anos, o ano em que ele a deixou segurar um martelo sobre uma ferradura em brasa. Vinte anos de ferro viajavam naquela caçamba. Na maioria dos dias ela não conseguia baixar a tampa traseira sem ouvir a voz dele.

Bata onde está mole, Gussie. Não onde é fácil.

Foi para casa com a janela aberta.

Era a última semana de outubro, e as serras tinham ficado da cor de ferrugem e de moedas velhas. A estrada subia do vale em curvas longas e preguiçosas, passava pela igreja batista escura e pela barraca de frutas fechada, até o asfalto acabar e começar o cascalho. Carrow Hollow ficava no fim do cascalho, dobrada entre duas serras como um segredo que alguém parara de contar.

No meio da subida, ela notou o silêncio.

As matas nunca eram quietas em outubro. Devia haver grilos, um bacurau tardio, um guaxinim brigando com as latas de lixo. Não havia nada. Até o vento tinha parado. A névoa descera da serra mais cedo e ficava entre as árvores, sem se mover, só parada, como se esperasse para ser deixada entrar.

Augusta desligou o rádio. O silêncio piorou.

No painel, o velho rádio da polícia do pai chiou.

Ela o guardava porque ele o guardara. Quase sempre só dava batida de carro, vaca solta e os suspiros da atendente. Naquela noite estalou três vezes, curto e seco. Uma pausa. Depois um pulso eletrônico longo, como uma respiração contida.

Depois nada.

Aquilo não era a atendente. Não era nenhum tráfego que ela conhecesse.

Ela diminuiu a marcha na boca da velha estrada de lenhadores que subia pelos fundos das terras dela, e os faróis pegaram uma forma que não pertencia ali.

Uma caminhonete. Verde-escura, quase preta, de ré, bem fundo no louro, onde ninguém a veria da estrada. Sem placas. Alguém tinha espalhado agulhas de pinheiro sobre as marcas dos pneus, mas fizera um serviço preguiçoso.

Augusta parou e ficou sentada com o motor ligado.

Caçadores, disse a si mesma. Caçadores ilegais atrás de um veado. Algum imbecil da cidade que achava que ficar sem placa o tornava esperto.

Desceu mesmo assim.

A caminhonete estava vazia e trancada. O capô estava frio. Na lama, ao lado do pneu traseiro, havia uma abraçadeira de plástico preta, cortada de uma ponta à outra. Ela a pegou. Estampado na cabeça quadrada, um pequeno símbolo branco: um círculo partido ao meio por uma única barra reta.

Nunca o vira antes. Ele fez a nuca dela se enrijecer.

Guardou a abraçadeira no bolso da jaqueta e olhou para cima, pela estrada de lenhadores, na direção da cabeceira do vale, onde ficava a nascente.

Não suba até a nascente depois de escurecer, Gussie.

O pai dissera isso do jeito que outros pais diziam não brinque na estrada. Nunca um motivo. Nunca uma história. Só a regra, como as ferraduras que ele pregara sobre todas as portas da casa, com as pontas para cima, para segurar a sorte lá dentro. Todas as portas menos uma. O celeiro nunca tivera ferradura. Quando ela perguntou por quê, aos dez anos, ele ficou olhando muito tempo o espaço vazio sobre a porta do celeiro e disse: O celeiro não precisa.

Ele estava morto havia oito meses. Ela tinha vinte e nove anos. E alguma coisa nas terras dela fizera a floresta inteira prender a respiração.

Augusta pegou a lanterna e o alicate de cerca na caminhonete. A espingarda do pai ficou em casa, no armário do corredor, porque a única coisa que ela já acertara com ela fora uma caixa de correio.

Subiu.

A nascente ficava num anel de espinheiros na cabeceira do vale, velhos e tortos, os galhos entrelaçados por cima. No meio do anel erguia-se uma pedra cinzenta do tamanho de um homem ajoelhado, polida pela água, com uma concavidade no topo onde a chuva se juntava. O pai a chamava de Pedra Ajoelhada. Quando menina, ela acreditara que era um gigante que se ajoelhara para beber e esquecera de se levantar.

Naquela noite havia fumaça nos espinheiros.

Cheirava errado. Não era fumaça de lenha. Algo mais agudo, como fósforo riscado e cabelo queimado.

Augusta atravessou o último trecho de louro e ergueu a lanterna.

Um homem estava ajoelhado ao lado da pedra.

Estava preso numa armadilha. Arame preto laçava o pulso direito dele e puxava o braço na direção de uma estaca de ferro cravada no chão. Uma segunda volta cruzava as costelas e o prendia à mesma estaca pelo outro lado. Onde o arame tocava a pele, fumegava. A pele embaixo tinha escurecido e empolado, e das bordas das queimaduras linhas finas e negras se espalhavam sob a superfície como rachaduras no gelo.

Ele ergueu a cabeça para a luz dela.

Tinha cabelo preto até a gola, com uma mecha prateada na têmpora esquerda. O rosto era longo, severo e branco de dor. Uma cicatriz corria pelo lado esquerdo da mandíbula. Os olhos eram cinzentos, o cinza claro de água de riacho sobre ardósia, e não pareciam surpresos de vê-la.

E as orelhas dele terminavam em ponta.

Augusta ficou muito quieta.

— Dê meia-volta — disse o homem. A voz era grave e rouca, com um sotaque que ela não soube situar. — Volte por onde veio.

— Você está pegando fogo.

— Estou ciente.

— Quem fez isso com você?

— Homens que voltarão antes do nascer da lua. — Ele respirou entre os dentes quando o arame sibilou. — Se a encontrarem perto de mim, não vão perguntar seu nome antes de decidir o que fazer com você.

Disse isso sem rodeios, sem drama, como ela diria a um cliente que o cavalo estava com o casco rachado. Um fato. Nada mais.

Augusta olhou para o arame. Depois para a estaca. Depois para as linhas negras que subiam pelo antebraço dele.

— Fique parado — disse ela, e se ajoelhou.

— Não toque nisso.

— É arame. — Ela encostou as mandíbulas do alicate de cerca na primeira volta. — Eu seguro ferro desde os nove anos.

O arame era mais grosso que arame de cerca e trançado em três fios. Exigiu as duas mãos e todo o peso dela. O primeiro fio cedeu com um estalo seco. O segundo. O terceiro. A volta no pulso dele se soltou de repente, e ele fez um som baixo na garganta que ela ia lembrar por muito tempo.

Ela descolou o arame da pele dele. Saiu com um leve ruído de rasgo. As próprias palmas dela, calejadas e cortadas por uma velha cicatriz branca na esquerda, não sentiram nada além de metal frio.

Ele olhava para as mãos dela.

— Você o segura como se não fosse nada — disse ele.

— Para mim não é. — Ela passou para a volta que cruzava as costelas. — Expire. Esta vai doer.

— Tudo vai doer.

— Então expire mesmo assim.

Ele expirou. Ela cortou. A volta caiu, e ele se dobrou para a frente sobre os joelhos, tremendo. Augusta o segurou pelo ombro antes que ele caísse de cara na nascente. Era mais pesado do que parecia e ardia de quente através do casaco. O casaco era de lã cinza-escura, longo e fino, bordado nos punhos com fio de prata num desenho de espinhos.

Ninguém naquele condado tinha um casaco assim.

— Sou Augusta Carrow — disse ela, porque a mãe, antes de ir embora, lhe ensinara a dizer o nome às pessoas antes de tocá-las. — Estas terras são minhas.

Alguma coisa atravessou o rosto dele. Não era surpresa. Era mais como um homem ouvindo um sino que esperava havia muito tempo, e não gostando do som.

— Sei de quem são as terras — disse ele.

— E você é?

— Brannoc.

— Só Brannoc?

— Esta noite, sim.

Ela aproximou a lanterna. Nas queimaduras, sob as bolhas, pequenas lascas negras brilhavam como pimenta. Ferro. O arame tinha se esfarelado dentro dele.

— Ainda tem metal em você — disse ela. — Por isso as linhas negras estão se espalhando. Consegue andar?

— Se for preciso.

— É preciso. Não posso carregar você por quatrocentos metros.

Ele olhou para os espinheiros, para a escuridão além deles, para a pedra. Por um instante o olhar dele pousou no topo da Pedra Ajoelhada, e ela viu ali algo que nunca notara em vinte e nove anos. Uma cabeça de prego preta e quadrada, larga como um dólar de prata, cravada fundo na rocha cinzenta onde ficava a concavidade da chuva.

A pequena poça na concavidade estava seca.

— Envenenaram — disse Brannoc baixinho, a ninguém.

— Envenenaram o quê?

Ele não respondeu. Firmou um pé debaixo do corpo, depois o outro, e se apoiou nela com mais peso do que ela desconfiava que ele queria.

A casa era mais perto, mas quando saíram das árvores e a luz da varanda os alcançou, Brannoc parou de estalo.

— Aí não.

— Tenho um kit de primeiros socorros na cozinha.

— Há ferro sobre a sua porta.

Augusta olhou para a casa. Para a ferradura pregada sobre a porta da cozinha, com as pontas para cima, enferrujada por trinta anos de intempérie.

— Tem ferro na minha caminhonete inteira — disse ela.

— Senti da estrada.

Ela pensou no espaço vazio sobre a porta do celeiro. O celeiro não precisa.

— Celeiro, então — disse ela.

O celeiro estava escuro e cheirava a feno, couro e mula velha. Parson, a mula zarolha do pai dela, pôs a cabeça por cima da porta da baia e apertou o olho para eles. Parson odiava todo mundo. Tinha mordido o veterinário duas vezes e o pastor uma.

Esticou o pescoço na direção de Brannoc e encostou o focinho cinzento no ombro bom do homem, macio como um cachorro.

Augusta ficou olhando.

— Velho amigo — murmurou Brannoc. Não disse de quem.

Ela o levou até a sala dos arreios e o acomodou numa pilha de cobertas de cavalo limpas. Na luz amarela da única lâmpada, ele parecia pior. O suor brotava na testa. As linhas negras tinham passado do cotovelo.

— Fique aí — disse ela. — Vou buscar o kit e o meu ímã.

— O seu ímã.

— Para o ferro na sua pele. Tem ideia melhor?

Ele fechou os olhos. Um canto da boca se mexeu, bem de leve.

— Não.

Ela correu para a casa. O kit de baixo da pia, a pinça, toalhas limpas, um frasco de iodo, o ímã grande de ferrar, pego na caminhonete. Encheu a chaleira e a pôs no fogão antes de lembrar que não podia carregar água fervendo e todo o resto ao mesmo tempo. Deixou a chaleira. Correu de volta.

A porta do celeiro estava mais aberta do que ela deixara.

Dois homens estavam lá dentro, entre ela e a sala dos arreios.

Um era alto e largo de ombros, de pele escura e cabelo escuro preso em tranças longas, segurando um arco preto com uma flecha já na corda. Não apontava para ela. Não precisava. Os olhos eram cor de âmbar, como olhos de cachorro no escuro, e acompanhavam cada movimento dela.

O outro era esguio e pálido, de cabelo dourado até os ombros e o rosto cheio de sardas. Usava um casaco como o de Brannoc, com os mesmos espinhos de prata nos punhos. Uma fina argola de prata contornava a ponta da orelha esquerda. Sorria para ela, caloroso e à vontade, como se tivessem se conhecido num piquenique da igreja.

— Boa noite — disse o sorridente. — Viemos buscar nosso capitão. Preferiríamos muito fazê-lo com educação.

Atrás deles, na sala dos arreios, Augusta ouviu Brannoc rir uma vez, baixo e cansado.

— Abaixe o arco, Rhun — disse ele. — Foi ela quem me soltou.

Três na Porta do Celeiro

Brannoc

A mulher mortal arrancava o ferro de dentro dele uma lasca de cada vez, e Brannoc deixava.

Ela estava ajoelhada ao lado dele nas cobertas de cavalo, com as mangas empurradas além dos cotovelos. Os antebraços eram fortes e pontilhados de pequenas cicatrizes brancas, marcas de faíscas de forja. O cabelo louro-escuro estava preso numa trança apertada, sob um boné desbotado. Ela segurava o grande ímã preto a um dedo de distância do pulso queimado e o movia devagar, e as lascas subiam da pele empolada como limalha de ferro num truque de sala de aula.

Cada uma deixava uma dor limpa e clara para trás. Cada uma também levava consigo um pouco do veneno.

As linhas negras no braço dele já tinham parado de subir.

— Fique parado — disse Augusta, pela quarta vez.

— Estou parado.

— Você está prendendo a respiração. É diferente.

Na porta, Sorrel riu.

— Ah, eu gosto dela.

— Você gosta de todo mundo — disse Rhun, do vão do celeiro, sem se virar. Ele estava na abertura com o arco, vigiando o pátio escuro e a estrada além, imóvel como um poste.

— Eu gosto de todo mundo um pouco. Dela eu gosto muito. Ela fala com ele do jeito que ele fala com a gente.

Augusta ergueu os olhos.

— E quem é você, exatamente?

Sorrel fez uma reverência tão profunda que o cabelo dourado roçou a palha.

— Sorrel, da Corte da Noite, guardião da Pedra Ajoelhada, harpista razoável, espadachim medíocre e inteiramente às suas ordens. O sombrio ali na porta é Rhun. Ele é um espadachim muito melhor e não toca coisa alguma.

— Sorrel — repetiu Augusta. — É cor de cavalo.

— É mesmo?

— Alazão. Como castanho, só que mais claro.

Ele pareceu encantado.

— Então fui batizado com algo que você ama. Parece um bom começo.

Brannoc a viu decidir não sorrir, e fracassar pela metade.

Ele esperara muitas coisas nas últimas duas semanas. Fome. Frio. O arame de ferro. Homens com máquinas que estalavam no escuro. Não esperara Augusta Carrow ajoelhada no celeiro dela com um ímã, franzindo a testa para a pele dele como se fosse um casco rachado que ela estava totalmente decidida a salvar.

Devia ter esperado.

Sabia mais sobre aquela mulher do que ela gostaria. Conhecia o som da caminhonete dela no cascalho e a hora em que costumava chegar em casa. Sabia que ela assobiava quando estava brava e cantarolava quando estava triste. Sabia de quem ela era filha, o que aquele homem lhe pedira, e como já o quebrara feio só por deixá-la soltá-lo.

A verdade tinha arestas. Brannoc vivera muito tempo, e aprendera a andar ao longo delas sem sangrar.

Não contou o resto.

— O que vocês são? — perguntou Augusta. Não tirou os olhos do pulso dele. — Os três. Diga sem enfeite.

— Fae — disse Brannoc.

— Tipo fadas.

— Nada parecido com o que você viu numa lancheira.

— Nunca vi nada numa lancheira com orelhas assim. — Ela baixou o ímã. — Como sei que é verdade?

— Peça-me para mentir.

Ela o examinou. Depois:

— Diga que o céu é verde.

Brannoc abriu a boca. As palavras ficaram atrás dos dentes, sólidas e impossíveis, como uma pedra que ele não conseguia engolir. Nada saiu.

Augusta se sentou sobre os calcanhares.

— Nós não podemos mentir — disse Sorrel com gentileza. — É a coisa mais inconveniente a nosso respeito. Podemos calar. Podemos escolher o que dizer. Mas não podemos dizer o que sabemos ser falso.

— Então, se eu fizer uma pergunta, recebo a verdade.

— Você recebe uma verdade — disse Brannoc. — Pergunte com cuidado.

Ela o estudou por um longo momento. Ele se obrigou a encarar os olhos dela. Eram castanhos, quentes como carvalho, e afiados demais.

— Está bem — disse ela. — Com cuidado, então. O que é aquela pedra lá em cima?

— Uma porta.

— Para onde?

— Para casa. Um reino chamado Tenebris. Nosso Alto Senhor governa a Corte da Noite lá, e a Corte da Noite guarda as passagens nestas montanhas. A maioria é larga, barulhenta e vigiada por muitos. A Pedra Ajoelhada é uma das pequenas. Uma trilha, não uma estrada. Nós três a guardamos há mais tempo do que o seu condado tem nome.

— E o prego no topo?

O ar no celeiro pareceu esfriar.

— Há duas semanas — disse Brannoc —, homens subiram pela sua estrada de lenhadores à noite, com uma máquina que estala. Cravaram um prego de ferro forjado no coração da pedra. Toda passagem precisa de uma âncora, Augusta. A pedra era nossa. O ferro a matou. A porta se fechou. Estamos do lado errado dela desde então.

— Vocês não podem voltar para casa.

— Não podemos voltar para casa, e não podemos mandar aviso de que estamos presos. Eles armam laços. Esta noite caí em um.

— O que eles querem?

— Nós — disse Rhun, da porta. — Vivos.

Augusta se virou.

— Por que vivos?

Rhun não respondeu. Depois de um momento Brannoc entendeu que ele não sabia, e não queria arriscar um palpite em voz alta.

— Não sei por quê — disse Brannoc. — Não pretendo descobrir de dentro de uma das caminhonetes deles.

Ela ficou quieta um tempo. Limpou a queimadura do pulso dele com água de uma jarra e a pintou com algo marrom que ardeu como vespas. Depois voltou a se sentar sobre os calcanhares.

— Por que as minhas terras?

Ele escolheu as palavras como um homem escolhe onde pisar no gelo.

— A pedra estava aqui muito antes da sua casa.

Era verdade. Era também uma porta fechada na cara dela, e ele a viu sentir o formato daquilo sem saber o que era.

— Daqui a três noites — continuou ele, antes que ela perguntasse de novo —, a Caçada Selvagem cavalga por estas montanhas. Quando ela cavalga, o Véu afina ao longo de cada serra, por cento e sessenta quilômetros. Se o prego já tivesse sido tirado até lá, a pedra poderia despertar.

— Poderia.

— Poderia.

— E vocês não podem tirá-lo sozinhos, porque é ferro.

— Você viu o que o ferro faz comigo.

Ela olhou para o pulso dele. Depois para as próprias mãos. Ele viu o pensamento chegar ao rosto dela, claro e perigoso, e a viu pô-lo de lado para depois. Era uma mulher que terminava um serviço antes de começar o seguinte.

— As linhas negras ainda estão nas suas costelas — disse ela. — Preciso de luz melhor. E de água quente. E das minhas pinças boas, que estão em casa.

— A casa tem ferro sobre a porta.

— Então eu tiro.

O sorriso de Sorrel sumiu.

Brannoc disse, mais baixo do que pretendia:

— É melhor saber o que está fazendo antes de fazer.

— Então me conte.

— Uma casa é uma porta como outra qualquer. O seu ferro diz fique de fora. Se você o tirar, ainda terá de me convidar a entrar. E, depois de convidar, eu poderei voltar.

— Você quer voltar?

Ele não podia mentir.

— Quero — disse Brannoc.

Ela arrancou a ferradura da porta da cozinha com a unha do martelo. Os pregos velhos gritaram na madeira. Pousou a ferradura no corrimão da varanda, bem lá na ponta, e se virou para ele.

— Entre, Brannoc.

Ele cruzou a soleira, e a casa o recebeu.

Foi uma sensação pequena, como água morna fechando-se sobre seus pés. Fazia vinte e dois anos que não atravessava aquela soleira. Esquecera como era ser querido num lugar com paredes.

A cozinha mal mudara. Essa era a pior parte. A mesa azul. As cortinas amarelas com a mancha de café. O calendário da loja de ração ainda virado em fevereiro, porque ninguém tivera coragem de virar a página.

Augusta o viu olhando.

— Meu pai morreu em fevereiro — disse ela. Puxou uma cadeira da mesa e apontou para ela até ele se sentar. — O coração. Estava na forja, e então não estava mais. Eu o encontrei de manhã.

Brannoc sabia exatamente como o homem tinha morrido. Estivera lá, sob os espinheiros, quando Hiram Carrow se sentou contra a Pedra Ajoelhada com uma mão apertada no peito e disse: Nem pense em contar a ela, Brannoc. Ainda não.

Não disse isso. Não era a história dele para gastar.

— Lamento — disse, e isso também era verdade.

Ela ferveu água. Pôs uma lâmpada de trabalho sobre a mesa e a dobrou baixa sobre as costelas dele. Cortou a camisa arruinada sob o casaco sem pedir, depois parou, de tesoura erguida, e pediu.

— Sim — disse ele.

Os dedos dela eram ásperos, quentes e absolutamente firmes. Achou as últimas lascas de ferro com o ímã e a pinça e as largou, uma a uma, num pires, onde chocalharam como sementes. Duas vezes olhou para o rosto dele. Duas vezes ele desviou o olhar primeiro, o que não lhe acontecia havia séculos.

A dor estava passando. No lugar dela veio algo pior: consciência. O calor da lâmpada. O hálito dela contra a pele dele. O pequeno vinco entre as sobrancelhas quando ela se concentrava.

Ele estava em apuros muito sérios.

Lá fora, uma luz varreu as cortinas amarelas.

Augusta ergueu a cabeça. Cascalho rangeu. Um motor ficou em marcha lenta, depois parou. Lá no escuro, do celeiro, veio um único assobio baixo, como o de um pássaro noturno. O aviso de Rhun.

— Caminhonete — sussurrou ela.

— Verde — disse Brannoc. — Sem placas.

Ela não perdeu um fôlego. Puxou-o pelo braço bom e o empurrou para dentro da despensa, entre os sacos de farinha e as prateleiras das conservas de pêssego do pai, e fechou a porta sobre ele. Pela fresta estreita da dobradiça, ele a viu varrer a camisa ensanguentada e o pires de ferro para dentro de uma gaveta. Ela apagou a lâmpada de trabalho e pôs a chaleira de volta no fogão.

Bateram à porta da cozinha. Três batidas educadas.

Ela abriu.

O homem na varanda era comum em tudo, e foi isso que fez a pele de Brannoc se arrepiar. Meia-idade. Corta-vento cinza. Boné sem nome. Uma prancheta sob um braço, uma lanterna na mão. Sorria do jeito que os homens sorriem quando já decidiram que você vai fazer o que eles pedem.

— Boa noite, senhorita Carrow — disse ele.

Sabia o nome dela.

— Posso ajudar? — disse Augusta.

— Meu nome é Haskett. Estou numa equipe de levantamento, contratada pelo condado. Desculpe incomodar a esta hora. — Não parecia desculpar-se. — Estamos procurando um homem. Alto. Cabelo escuro, com uma mecha branca de um lado. Está ferido. Queimaduras no pulso direito. É perigoso, senhora. Muito mais perigoso do que parece.

— Não vi ninguém assim.

— Tem certeza?

— Tenho.

Haskett assentiu, lento e amigável. A lanterna dele desceu, ociosa, pelo linóleo limpo.

Parou numa única gota de sangue preto, brilhando entre as botas dela e a porta da despensa.

Espere — Brannoc está sangrando atrás da porta da despensa. O homem na varanda quer saber onde ele está…

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