Mãos Erguidas Diante das Barreiras
Belle
Sessenta e uma noites sem chuva, e a encosta sul inteira soava como papel.
Fiquei na muralha, acima do portão sul, escutando. O capim descia das pedras por meia milha, pálido e na altura da cintura, até encontrar a linha negra dos pinheiros. Qualquer vento pequeno o movia. Cada movimento fazia um chiado seco, sussurrado, como se a montanha contasse segredos que deveria ter guardado.
Eu não gostava daquilo. Não gostava de nada que fizesse um ruído que eu não conseguisse calar.
— Tenente. — Pike veio pelo passadiço com o fuzil no ombro. Fora transformado havia oitenta anos e ainda andava como o menino de fazenda que tinha sido, calcanhar primeiro. — A patrulha leste voltou. Nada na estrada. Nada nas árvores.
— Então por que os corvos estão quietos?
Ele escutou. O rosto mudou. Todo crepúsculo os pinheiros lá embaixo se enchiam de corvos, e todo crepúsculo eles brigavam pelo último resto de luz. Naquela noite, as árvores estavam em silêncio.
— Veados? — disse ele.
— Veados não assustam corvos.
As barreiras zumbiam sob as minhas botas. Darren as tinha cravado nessas pedras antes de a cidade lá embaixo ter nome. Para um humano, eram uma pressão atrás dos olhos, uma vontade súbita de dar meia-volta com o carro e voltar para casa. Para um de nós que não tivesse sido convidado, eram fogo.
Na beira das árvores, o capim se moveu contra o vento.
Pousei a mão no cabo do meu estilete esquerdo. A empunhadura de couro estava gasta e lisa por dois séculos da minha palma. O pomo de prata estava frio.
Um homem saiu dos pinheiros.
Vinha devagar, as mãos erguidas à altura dos ombros, com as palmas abertas para a muralha. Alto. Um casaco de lona rasgado. Cabelo escuro preso na nuca. As botas esmagavam o capim seco, e no silêncio eu ouvia cada passo.
— Atiro? — perguntou Pike.
— Ainda não.
— Ele é um de nós.
— É. — O vento trouxe o cheiro dele até mim. Sangue frio, poeira de estrada e fumaça. Fumaça antiga de lenha, entranhada fundo na lona. — Vamos ver o quanto ele quer entrar.
A barreira externa corria pelo capim a duzentas jardas abaixo da muralha. Nada a marcava. Nenhum poste, nenhum arame, nenhum aviso. Ele chegou até ela e não parou.
A fumaça subiu primeiro das mãos erguidas. Depois do rosto. Vi a pele das faces avermelhar e depois escurecer, e ele continuou andando, no mesmo passo lento, como se a montanha não estivesse tentando queimá-lo para fora do seu flanco.
Pike xingou baixinho.
A cem jardas, o casaco fumegava nos ombros. A cinquenta, eu podia ouvir a pele dele. Ele não correu. Não baixou as mãos.
A maioria das criaturas teria dado meia-volta. A maioria teria gritado. Esse atravessava o fogo com o queixo erguido, como um homem que cumpre um compromisso marcado.
A trinta jardas, caiu sobre um joelho.
Levantou-se.
Eu já estava do outro lado da muralha antes de terminar de decidir ir. Uma queda de doze metros, o chão duro, uma rolagem pelo capim, e me levantei já correndo. Encontrei-o na linha interna das barreiras. Ele me viu chegar e não ergueu a mão para lutar.
Derrubei-o do mesmo jeito.
O ombro no peito dele, a bota atrás do joelho, e estávamos os dois no capim, com o meu joelho no esterno dele e o meu estilete sob o seu queixo. A ponta repousava exatamente onde precisava repousar. Um empurrão a levaria pela boca até o cérebro.
De perto, ele cheirava a casa queimada. Bolhas cobriam as maçãs do rosto e as costas das mãos, e estavam se curando enquanto eu olhava, mas devagar, porque as barreiras mordem fundo. O cabelo tinha se soltado do laço. Os olhos eram âmbar.
Eu conhecia aquela cor. Todo vampiro que Gresham Stevens já fez a carregava.
Ele olhou para mim e sorriu.
— Boa noite — disse. — Eu esperava que alguém descesse. Não achei que mandariam a melhor.
— Ninguém me mandou.
— Melhor ainda.
— Quem é você?
— Alguém com notícias para Darren Vargas. — A voz era lenta e tranquila, rouca de fumaça, moldada pelo interior seco ao sul do grande rio. — Gresham vem subir esta colina daqui a nove noites. Direto por todo esse capim bonito. Traz uns trezentos dos filhos mais novos dele, e ninguém dá de comer a eles desde agosto.
O capim chiava ao nosso redor. Em algum ponto lá em cima, o fuzil de Pike seguia cada respiração do estranho.
— Você atravessou as barreiras para me dizer isso.
— A porta da frente parecia indelicada. — Ele engoliu contra a minha lâmina. — E eu queria que você visse que eu atravessaria o fogo para dizer.
— Ou que Gresham quis que eu visse.
— Esse é o problema, não é? — Ele não piscou. — Você não tem como saber.
Eu não tinha. Era isso que fazia a minha mão querer terminar o movimento. Um estranho morto não podia mentir para mim. Um estranho morto não podia abrir um portão.
Peguei o pulso esquerdo dele e o virei para a luz das estrelas.
Uma linha fina e pálida cruzava o centro da palma, por baixo da pele. Uma lasca de madeira fora costurada dentro da carne. A pele em volta era cinzenta e franzida, como se nunca tivesse parado de tentar sarar.
Freixo-branco. Eu o reconheceria às cegas. Os Caçadores entalhavam suas estacas nessa madeira. Ela nos entorpecia. Reduzia a nossa cura ao ritmo humano. Todo vampiro que eu conhecia a evitava como os humanos evitam um fogão quente.
Esse a carregava dentro da própria mão.
— O que é isto?
— Mantém a minha cabeça limpa.
— De quê?
O sorriso dele afinou. — Dele.
Uma corda chiou muralha abaixo, às minhas costas. Pike e dois guardas saltaram no capim e avançaram com os fuzis erguidos. Não tirei os olhos do estranho.
Toda tenente da Propriedade levava no cinto uma algema de freixo-branco. A minha era de ferro velho, o aro interno forrado de madeira clara, alisado por cada pulso que já prendera. Fechei-a no pulso direito dele. Ele sibilou entre os dentes, e senti a força escoar do braço dele sob a minha mão.
— Nome — falei.
— Corvus.
— Isso é uma ave. Não é um nome.
— É o que eu tenho. Foi ele quem me deu. — Alguma coisa se moveu por trás do âmbar, rápida e escondida. — Eu tinha outro antes. Vou dá-lo a alguém em quem eu confie.
— Então você morrerá com ele.
— Talvez. — Ele estudou o meu rosto no escuro como se tivéssemos todo o tempo do mundo. — E o seu?
— Tenente.
— Isso é uma patente.
— É tudo o que você vai ter.
Ergui-o pelo braço. Ele se levantou com facilidade, fácil demais para um homem que acabara de ser cozido pelas barreiras, e ficou uma cabeça mais alto que eu. Encostei o estilete na base de suas costas.
— Ande.
— Sim, senhora.
Levamos o homem pelo portão sul, atravessamos o pátio de pedras arredondadas e passamos sob a fachada escura de pedra da casa. Havia lampiões acesos nas janelas altas da Ala Leste, onde Darren mantinha o escritório. A Ala Oeste estava escura. Corvus inclinou a cabeça para trás ao cruzarmos, olhando as torres e as videiras entalhadas que subiam pelos batentes.
— Hum — disse. — Eu sempre a imaginei maior.
— Você a imaginava?
— Por uns sessenta anos. Ele fala deste lugar como alguns homens falam da mulher que os deixou. — Ele me olhou por cima do ombro. — Ele a deseja demais.
— Não vai tê-la.
— É por isso que estou aqui.
As celas ficavam sob a Ala Oeste, no fim de uma escada estreita que quatrocentos anos de pés tinham gastado em concavidade. Pedra fria. Uma única lâmpada numa gaiola de arame. Seis portas de ferro, cinco abertas. Pus Corvus na última, por ser a mais funda, e prendi a algema à argola da parede.
Pike e os guardas esperaram no corredor. Corvus sentou-se no banco de pedra como se tivesse alugado o quarto.
— Ele vai mandar alguém atrás de mim antes de vir atrás de vocês — disse. — Não gosta que as coisas dele vão embora. Quando vierem, prefiro que seja você a segurar a faca.
— Por quê?
— Porque você faria rápido. — Ele encostou a cabeça na parede úmida e me olhou por baixo dos cílios. — E porque você desceu daquela muralha antes de o seu amigo terminar de perguntar se devia atirar.
Não respondi.
Fechei a porta de ferro com um empurrão, girei a chave e a larguei no bolso do casaco. Por entre as grades, os olhos âmbar dele me acompanharam até a escada.
No alto, no corredor vazio da Ala Oeste, parei e olhei para a minha mão direita.
Ela não tremia.
Conferi duas vezes.
O Corvo Sob a Ala Oeste
Corvus
Gresham me encontrou uma hora antes do amanhecer.
Não o corpo dele. O corpo dele estava a doze milhas ao sul, no alojamento de um acampamento madeireiro morto, dormindo num colchão que roubara de um motel. O que me encontrou foi a outra coisa. A voz que ele pusera no meu sangue no verão de 1931 e nunca mais tirara.
Volte para casa, corvo.
Chegou como sempre chegava, como uma mão quente se fechando na minha nuca. Não alta. Gresham nunca era alto dentro da sua cabeça. Era paciente. Era razoável. Fazia cada ordem soar como aquilo que você desejara desde o começo.
Você está com frio aí. Está queimado. Volte para casa e eu o perdoo. Eu sempre perdoo.
Fechei a mão esquerda.
A farpa na minha palma acordou. O freixo-branco não dói como uma lâmina dói. Dói como geladura, uma dor funda e dormente que sobe pelos ossos do braço e se instala atrás dos dentes. Apertei até os dedos tremerem. A dor subiu. A mão quente na minha nuca se afrouxou, um dedo de cada vez, e largou.
Soltei o ar. Eu não precisava respirar. Mesmo assim ajudava.
A cela eram oito pés de pedra úmida e uma lâmpada engaiolada. A algema no pulso direito fazia o braço inteiro parecer de outra pessoa. O rosto coçava onde as queimaduras se fechavam, devagar, porque as barreiras desta casa eram mais velhas e mais cruéis do que quaisquer outras que eu já atravessara. Acima de mim, a casa grande se acomodava. Eu a ouvia como se ouve um animal dormindo: uma porta se fechando três andares acima, água correndo em canos antigos, o zumbido elétrico baixo de algo que não pertencia ao século de onde vinham as pedras.
E eu a ouvia voltando.
Eu memorizara o passo dela na descida. Leve, regular, sem peso desperdiçado. Ela andava como lutava, e lutava como uma lâmina que alguém tivesse afiado toda manhã por muito, muito tempo.
Havia um segundo par de passos com os dela. Só que não havia. Havia apenas o ritmo dela na escada e, ao lado, um silêncio em forma de homem, e o ar do corredor caindo três graus antes de ele chegar às grades.
Darren Vargas parou diante da minha cela.
Passei sessenta e cinco anos ouvindo Gresham descrevê-lo. Um covarde de terno bonito. Um banqueiro de presas. Um velho escondido numa montanha. Gresham nunca estivera perto o bastante para vê-lo direito, e agora eu entendia por quê.
Ele vestia lã cor de carvão, perfeitamente cortada. Cabelo escuro penteado para trás, sobre uma testa dura. Um anel de sinete de platina no indicador direito. Os olhos eram negros de ponta a ponta, sem linha entre pupila e íris, e quando pousaram em mim senti com toda a clareza que estava sendo lido como um homem lê uma coluna de números. Somando. Subtraindo. Decidindo a que eu vim.
A Tenente estava ao ombro dele, de couro preto, uma das mãos sobre um pomo de prata. Não olhou para mim. Foi assim que eu soube que estava prestando atenção.
— Você atravessou as minhas barreiras — disse Vargas. A voz era baixa e exata. — Ninguém faz isso há um século.
— Eu estava com pressa.
— Diga-me por quê.
Então eu disse.
Falei do acampamento madeireiro morto do outro lado do vale, no fim da velha estrada Kessler. Falei do verão: as cidades de serraria e os motéis de rodovia no sul do Oregon, os turnos da noite que nunca voltavam para casa, os trezentos novos transformados que Gresham fizera entre junho e setembro. Falei que Gresham os mantinha trancados nos antigos galpões de equipamento do acampamento e não lhes dava nada.
— Nada — repetiu Vargas.
— Um transformado faminto atravessa qualquer coisa para chegar ao sangue. Paredes. Tiros. Quase qualquer coisa. — Mantive a voz chapada. — Ele os quer fora de si quando chegarem ao seu portão. Diz que a fome faz um soldado melhor do que a lealdade, porque a fome nunca muda de ideia.
— Quando?
— Na lua nova. Daqui a nove noites. Oito, depois deste amanhecer. — Indiquei o teto com a cabeça, a encosta que eu não podia ver. — Pelo lado sul. É o único caminho para esta montanha que não é penhasco. E ele vai esperar um vento leste.
Os olhos da Tenente finalmente se moveram para mim. Prateados. Sem pupilas, apenas duas moedas de luz fria. — Por que o vento?
— Ele acha que o vento leva o cheiro dele adiante. Para os inimigos terem medo antes de ele chegar. — Dei de ombros com o único ombro bom. — Na maior parte, leva o fedor.
A boca dela não se mexeu. Alguma coisa nos olhos, sim.
— Por que você está aqui? — perguntou Vargas.
Aí estava. Eu sabia que viria desde que saíra dos pinheiros, e mesmo assim precisei olhar o chão por um momento antes de poder responder.
— Em agosto ele pegou o turno da noite da serraria Calder. Quarenta e uma pessoas. Levou-as para o acampamento e mandou eu transformá-las. — Ergui os olhos. — Eu disse não.
— Transformados não dizem não ao seu criador.
— Não. Não dizem. — Abri a mão esquerda e lhe mostrei a linha cinzenta na palma. — Costurei isto há seis anos com uma agulha de pesca. Toda vez que ele manda eu fazer alguma coisa, fecho o punho. Às vezes basta. Naquela noite bastou para eu sair andando. Não bastou para levá-los comigo. Ele mesmo os transformou, depois. — Fechei a mão de novo. — Eu fui feito numa torre de vigia numa montanha, em 1931, por um homem que subiu e me perguntou se eu estava solitário. Eu disse que sim. Aquelas quarenta e uma pessoas nunca foram perguntadas de nada. Eu não ia ser quem faria isso com elas.
A lâmpada zumbiu. Água pingava em algum lugar atrás da parede.
— O que você era para ele? — perguntou Vargas.
— Um batedor. — Obriguei-me a sustentar aqueles olhos negros. — Eu vigiava de lugares altos. É daí que vem o nome.
Não era exatamente mentira. Era a menor coisa verdadeira que eu conseguira encontrar, e eu me escondi atrás dela como um homem se esconde atrás de uma muda de árvore para fugir de um urso.
A Tenente me olhou por um longo momento. Eu não olhei de volta. Senti o olhar dela mesmo assim, na lateral do meu rosto, na minha mão fechada.
Vargas virou a cabeça um quarto de polegada na direção dela.
— Belle — disse. — Ele é seu. Se mentir, mate-o. Se fugir, mate-o.
— E se estiver dizendo a verdade?
— Então você terá acertado em descer da muralha. — Ele fez uma pausa. — Não esperou a minha ordem.
— O senhor não estava na muralha.
— Não. — Algo próximo de humor seco cruzou o rosto dele e se foi. — Não estava.
Ele partiu. A temperatura do corredor subiu de novo atrás dele, devagar, como um quarto se recuperando de uma janela aberta.
Ela ficou.
— Belle — falei, experimentando. Combinava com ela. Curto e afiado, com um som macio no meio que ela claramente não queria que ninguém notasse. — É mais bonito que Tenente.
— Diga de novo e eu arranco a sua língua.
— Você teria que entrar aqui para isso.
Ela me olhou pelas grades. Depois virou-se e subiu a escada, e pensei que a conversa tinha acabado, até ela voltar dez minutos depois com uma bolsa plástica de sangue da enfermaria, gelada da geladeira, e jogá-la em mim por entre as grades. Peguei com a mão esquerda.
— Beba — disse ela. — Você parece um assado queimado.
— É a segunda coisa mais simpática que você me disse.
— E qual foi a primeira?
— “Ande.” Significava que você ainda não ia me matar.
Rasguei a bolsa com os dentes e bebi. Sangue humano de um desconhecido, de duas semanas e frio como água de rio. Tinha gosto de refeição feita sozinho num balcão de beira de estrada. O meu corpo não se importou. O calor se espalhou do estômago até os dedos. A pele do rosto parou de coçar e ficou lisa.
Ela me viu beber. Viu a minha garganta. Quando baixei a bolsa vazia, ela desviou o olhar primeiro, e guardei isso com muito cuidado, num lugar que Gresham nunca conseguiu alcançar.
— Funciona? — perguntou. — A farpa.
— Estou aqui.
— Isso não é resposta.
— É a única que eu tenho. Algumas noites funciona. Em outras, fico sentado no escuro com o punho fechado até o sol nascer. — Virei a bolsa vazia entre as mãos. — Ele fala comigo desde que cheguei. Não parou.
A mão dela apertou o pomo. — O que ele diz?
— Que me perdoa. Que estou com frio. — Sorri um pouco. — Ele tem razão na segunda parte.
Ela ficou em silêncio por um instante. Depois disse: — Amanhã, em plena escuridão, você vai me levar pela encosta sul. Vai me mostrar onde os batedores dele sobem e onde se escondem. Todo caminho. Toda pedra.
— Só você e eu? No escuro? Em todo esse capim seco?
— E as minhas duas facas.
— Tenente — falei —, é a coisa mais simpática que alguém me diz em anos.
Ela saiu sem responder. Ouvi-a subir a escada, cada passo leve e regular, até a Ala Oeste engolir o som.
O dia chegou. Senti-o pressionar as pedras acima de mim como um grande peso. A lâmpada zumbia. A algema doía.
Volte para casa, corvo.
Fechei o punho e pensei em olhos prateados.
Capim Seco, Facas Brilhantes
Belle
Acorrentei-o a mim.
Noventa centímetros de ferro negro corriam da algema no pulso direito dele até uma argola no meu cinto. Pike olhou para aquilo quando subi a escada das celas com Corvus atrás de mim, e o rosto de menino de fazenda enrijeceu de desaprovação.
— Tenente. Leve pelo menos dois de nós.
— Dois de vocês fariam barulho. Ele ouviria a própria gente chegando, e eles também.
— E se ele fugir?
— Então vai ter que me arrastar. — Olhei para Corvus. — Não irá longe.
— Ela tem razão — disse Corvus a Pike. — Eu não passaria de dez jardas. Estaria ocupado demais pedindo desculpas.
Pike não riu. Eu também não. Mas virei o rosto para o portão para que ninguém visse se eu queria.
Saímos pela pequena porta de ferro ao lado do portão sul e descemos para o capim. Não havia lua. A última lasca fina dela só nasceria perto do amanhecer, e as estrelas sobre as Cascatas eram duras e próximas. Os pinheiros no pé da encosta se erguiam como uma muralha negra. O capim chiava contra as nossas pernas. A corrente balançava entre nós, e a cada poucos passos tocava a minha coxa, fria, e se afastava.
Ele andava bem. Andava como um homem que passara a vida em encostas, o peso adiante, os olhos no chão à frente e depois no horizonte, depois no chão de novo.
— Você conhece esse tipo de terra — falei.
— Conheço esse tipo de capim. — Ele parou, agachou-se e passou a mão livre por um tufo. As hastes quebraram sob os dedos dele com um som de papel rasgando. — Antes de Gresham, eu vigiava incêndios. No verão de 31, eu estava numa torre de vigia no pico de uma montanha das Siskiyou. Quatro metros e pouco de lado. Vidro por todos os lados. Uma mesa de mapas, um catre, um fogão e trezentos quilômetros de floresta para cuidar. — Ele se levantou. — A gente aprende coisas numa torre. Como a rapidez com que o capim queima quando o vento vem de trás dele.
— Quão rápido?
Ele olhou encosta acima, na direção da muralha. Na direção da casa. No escuro, os olhos âmbar dele pegaram o pouco de luz que havia e a seguraram.
— Numa encosta assim, com vento leste? Mais rápido do que um cavalo corre. O fogo adora subir. Vai subir esta colina como se tivesse sido chamado.
Não disse nada.
Sob as nossas botas, um metro abaixo na terra seca, uma malha de cano de ferro cruzava toda a encosta sul, dos pinheiros até a muralha. Darren a instalara em 1952, depois da última vez que alguém tentou esta colina. Os canos continham óleo misturado com freixo-branco moído, e as válvulas abriam de um único lugar, uma caixa de ferro numa salinha dentro da muralha. A caixa tinha duas fechaduras e duas chaves. Darren levava uma. Eu levava a outra.
Eu não disse a Corvus o que havia sob os nossos pés. Eu o vi caminhar sobre aquilo.
— Mostre como eles sobem — falei.
Ele mostrou.
Um leito de riacho seco cortava o lado oeste da encosta, fundo o bastante para esconder um homem agachado até os ombros. Um campo de rochedos cinzentos jazia no fim dele, onde um batedor podia descansar e vigiar a muralha sem ser visto. Mais acima, um cedro caído atravessava a encosta com as raízes no ar, e o oco debaixo dessas raízes abrigaria três corpos.
— Eles gostam do cedro — disse. — Os batedores de Gresham são preguiçosos. Ficam lá a noite toda, comem esquilos e reclamam do frio.
— Você os conhece bem.
— Conheço todos. — Disse com leveza. Os ombros não disseram com leveza.
Sentamos num dos rochedos do leito do riacho, porque a corrente tornava impossível ficar separados e desconfortável ficar juntos. A pedra guardava o último calor do longo dia seco. Ele esticou as pernas. Eu não.
— Há quanto tempo você está com ele? — perguntou. — Vargas.
— Duzentos e oitenta e dois anos.
Ele assobiou baixinho. — Você escolheu?
Ninguém me perguntava isso havia um século. Observei a linha da muralha acima de nós, negra contra as estrelas, e me surpreendi ao ouvir a mim mesma responder.
— Nasci em Plymouth. Meu pai fazia corda. Tinha uma cordoaria perto do porto, um galpão comprido, de um quarto de milha, onde o cânhamo era torcido. Trabalhei lá desde os seis anos. — A lembrança veio limpa, o cheiro de alcatrão, cânhamo molhado e sal. — Quando eu tinha vinte e três, um oficial de navio veio comprar corda para o capitão. Ele acreditava que a filha do cordoeiro vinha junto com o pedido. Eu discordei com um passador.
— Isso é um…
— Um espeto de aço para abrir nós. Também abre homens. — Girei um estilete entre os dedos, por hábito. — Enforcavam mulheres por menos que isso. Eu ia ser enforcada ao amanhecer. Na noite anterior, um homem de casaco cor de carvão entrou na minha cela por uma porta trancada e disse que podia me oferecer outro fim. — Embainhei a lâmina. — Eu disse sim antes de ele terminar a frase.
Corvus ficou quieto por um momento.
— Você se arrepende?
— Não me arrependo de nada que me deixou ficar com o passador.
Ele riu. Saiu dele baixo e surpreso, como se tivesse esquecido que o som estava ali dentro. Correu pela corrente até o meu cinto e subiu pela minha espinha, e eu não soube o que fazer com aquilo, então não fiz nada.
— Alguém naquela casa chama você de outra coisa além de Tenente? — perguntou.
— O Mestre me chama de Belle.
— E quem a chama de algo suave?
— Ninguém.
— Você quer que chamem?
Virei a cabeça e olhei para ele. Estava mais perto do que eu pensara. A corrente era curta, e em algum momento dos últimos minutos um de nós se movera, e eu não sabia qual. A luz das estrelas deitava ao longo da maçã do rosto dele, já curada, lisa. O cabelo se soltara de novo. Ele olhava a minha boca e não fingia que não.
— Vou dizer uma coisa — falou baixo — e você pode me cortar por isso.
— Diga.
— Eu quero beijar você desde que me derrubou no capim.
O leito do riacho estava muito imóvel. A minha mão se fechara na frente do casaco dele. Eu também não me lembrava de ter decidido fazer isso. A lona era áspera e ainda cheirava levemente a fumaça, e por baixo dela o corpo dele era frio e sólido e absolutamente imóvel, esperando.
Ele não tomaria. Entendi isso com uma clareza súbita e estranha. Ficaria sentado ali no rochedo com a minha mão no casaco dele até o amanhecer queimar a nós dois, e não se aproximaria um centímetro a menos que eu puxasse.
Comecei a puxar.
Acima de nós, nos pinheiros no topo do leito do riacho, todos os corvos levantaram voo de uma vez.
Eu estava de pé, com os dois estiletes na mão, antes de a primeira batida de asas se extinguir. A corrente puxou. Corvus se ergueu ao meu lado, rápido, o braço algemado pendendo pesado.
— Três — disse. — Descendo pelo riacho. Acharam o meu rastro.
— Seus amigos?
— Não mais.
Saíram da escuridão num ímpeto, baixos e silenciosos, como Gresham treinava a sua gente. Olhos âmbar. Facas longas. O primeiro foi para cima de Corvus, porque Corvus era quem tinham vindo buscar, e eu cruzei por cima da corrente e abri o braço dele do pulso ao cotovelo e depois a garganta. Ele caiu nas pedras.
O segundo veio pelas minhas costas. Eu o ouvi. Não consegui virar rápido o bastante, com noventa centímetros de ferro me ligando a um homem que mal conseguia levantar o braço direito.
Corvus se virou por mim.
Ele recebeu nas próprias costelas a faca destinada à minha coluna. Ouvi a lâmina raspar no osso. Senti o cheiro do que era feita, um cheiro frio, limpo, de seiva, e o meu estômago despencou. Freixo-branco. A gente de Gresham andava roubando Caçadores mortos.
Corvus não fez um som. Agarrou a mão da faca do batedor com a esquerda, a da farpa, e quebrou o pulso, e então tomou a cabeça do batedor entre as duas mãos, a algemada e a livre, e a girou até o pescoço ceder. Eu vira muitas mortes desde Plymouth. Raramente vira uma feita de forma tão limpa por um homem tão enfraquecido.
O terceiro batedor parou na beira dos rochedos. Olhou os dois corpos. Olhou Corvus, sangrando negro pelo flanco, e a corrente, e a mim.
Então riu e correu para cima de mim mesmo assim.
Enfiei o estilete esquerdo no peito dele, sob o esterno, até o coração. Ele se dobrou em volta da lâmina e caiu de joelhos nas pedras secas, ainda segurando o meu pulso, os olhos âmbar fixos em Corvus por cima do meu ombro.
— Olhe só para você — disse. O sangue borbulhava nos lábios. — Numa coleira. Por uma mulher de facas.
— Cale a boca — disse Corvus.
— Sessenta e cinco anos ao lado dele. O primeiro criado dele. A mão direita. — O batedor sorriu, de dentes vermelhos. — Ele lhe deu tudo, e você veio rastejando até aqui para lamber as botas de Vargas. Ele vai queimar você devagar por isso, Corvus. Vai fazer durar um ano.
A luz se apagou nos olhos dele. Escorregou da minha lâmina para as pedras.
O leito do riacho ficou em silêncio. Até o capim parara de se mover.
Virei-me.
Corvus estava a um metro, exatamente o tanto que a corrente permitia. Uma das mãos apertava as costelas, sangue negro escorrendo entre os dedos. O ferimento não fechava. O freixo-branco o manteria aberto por horas. Ele me olhava, e não havia nada de fácil no rosto dele.
Ergui o estilete, ainda molhado, e encostei a ponta no côncavo da garganta dele.
— Um batedor — falei.
— Eu disse que vigiava de lugares altos.
— O primeiro criado dele. A mão direita. — A minha voz saiu muito calma. Eu aprendera havia muito que calma assusta mais as pessoas do que gritos. — Sessenta e cinco anos.
Ele não se afastou da lâmina. Não ergueu a mão.
— Diga que ele estava mentindo — falei.
A corrente pendia entre nós. Lá em cima, na muralha, alguém gritava o meu nome.
Corvus engoliu contra a minha faca.
— Não estava — disse.




































