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Chamado Fantasma — romance médico grátisGrátis · Exclusiva

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Chamado Fantasma

Quatro vezes neste mês, a ambulância dela correu até uma batida que não existia. Esta noite, o homem que fez o chamado está parado sob um toldo, observando-a.

  • Herói Moralmente Ambíguo
  • Heroína Paramédica
  • De Inimigos a Amantes
  • Gato e Rato
  • Ele Se Apaixona Primeiro

🌶️🌶️🌶️🌶️ Cerca de 67 min de leitura · 15.496 palavras

A paramédica Margo Bodnar correu para quatro acidentes que nunca aconteceram. Esta noite ela encontra o homem que deu o aviso de todos eles, parado e seco sob um toldo, na chuva. Hollis Fenwick faz problemas desaparecerem para um médico que não existe. Agora alguém roubou o truque dele, e Margo é o problema que querem eliminar.

Ninguém na Rua Locke

O chamado entrou às 2h38 da madrugada, e Margo Bodnar soube que era mentira antes de Ozzie tirar a viatura da garagem.

— Unidade 12, prioridade um. Vários veículos, esquina da Locke com a Garnet. O solicitante informa pessoas presas nas ferragens e vazamento de combustível.

Ozzie Amari ligou o giroflex e a sirene e cuspiu a casca de uma semente de girassol no porta-copos.

— Locke com Garnet. Isso fica do outro lado do distrito, garota.

— Eu sei onde fica.

— Você está com a cara.

— Eu não estou com cara nenhuma.

— Está com a cara que tinha na terça. E no domingo anterior.

Margo ficou olhando os limpadores brigarem com a chuva. Novembro naquela cidade era água que nunca chegava a virar neve, ruas que brilhavam feito óleo e motoristas que esqueciam como se usava freio. Um engavetamento de verdade na Locke com a Garnet era possível. Tudo era possível. Era a primeira coisa que ensinavam, e a última que a gente esquecia.

Mas era o quarto chamado de colisão múltipla naquele mês. O quarto no meio da madrugada, na chuva, com gente presa e alguma coisa vazando. Os outros três tinham dado em nada. Nenhum carro. Nenhum vidro. Nenhum combustível. Só um cruzamento molhado sob um semáforo que mudava de cor para ninguém.

Ela tirou a caderneta do bolso do peito. Era pequena e preta, com um elástico em volta, e as páginas estavam macias de oito anos de chuva. Anotou a hora. Anotou o endereço.

Ozzie espiou.

— Você e essa caderneta.

— Alguém tem que manter o registro.

— O County mantém o registro.

— O County acha que foram trotes.

— Talvez tenham sido.

— Trotes não usam as mesmas palavras quatro vezes, Oz.

Ele não respondeu. Só dirigiu, rápido e macio, como fazia havia vinte e seis anos, e Margo contou baixinho. Ela sempre contava. Segundos, minutos, quarteirões. Contava desde os catorze anos e nunca tinha achado um jeito de parar.

Chegaram à Locke com a Garnet às 2h51.

Nada.

O semáforo balançava no fio. A chuva chiava nas sarjetas. Uma placa de farmácia piscava azul na esquina, e um gato os observava de baixo de um carro estacionado, com olhos chapados e indiferentes. Nenhuma lataria retorcida. Nenhuma fumaça. Ninguém gritando.

Ozzie desligou a sirene, mas deixou as luzes. Vermelho e branco lavaram a rua vazia.

— Bem — disse ele. — Droga.

Margo já tinha descido da cabine.

Percorreu o cruzamento mesmo assim, porque essa era a regra. A gente olhava. Olhava embaixo das coisas, atrás das coisas, dentro das portas escuras, porque a única vez que a gente não olhava era a vez em que havia alguém. As botas espirraram numa poça. A chuva encharcou a gola. Ela verificou o abrigo de ônibus. Verificou o beco atrás da farmácia.

Foi então que viu a van.

Era preta e quadrada, e saiu de um beco dois quarteirões adiante com os faróis apagados. Virou à esquerda sem sinalizar, movendo-se do jeito que um homem cuidadoso anda numa casa às escuras. A placa traseira estava sem luz. Então sumiu, e a rua ficou vazia de novo.

Margo girou devagar sobre si mesma.

Em frente à farmácia havia uma lavanderia com a porta de aço baixada para a noite. Um toldo verde pendia sobre a entrada. E debaixo daquele toldo, perfeitamente seco, havia um homem.

Era alto e magro, de sobretudo escuro sobre um terno cinza-chumbo. Segurava um telefone numa das mãos enluvadas e não olhava para ele. Olhava para ela. Tinha a quietude de quem estava ali havia muito tempo e não via motivo para parar.

Margo atravessou a rua.

— Bodnar — chamou Ozzie da viatura. — Bodnar, vem.

Ela não parou até estar debaixo do toldo com ele, pingando sobre o piso de ladrilho.

De perto, ele era mais velho do que ela tinha imaginado. Quarenta, talvez um pouco mais. Fios prateados cruzavam o cabelo escuro nas têmporas. O rosto era só linhas limpas e paciência, e os olhos eram de um cinza frio e desbotado, como o céu um segundo antes de decidir chover. Cheirava vagamente a café e a sabonete caro.

— Boa noite — disse ele.

A voz era grave e áspera, como se alguém a tivesse lixado e depois polido.

— Foi você que ligou — disse Margo.

Uma sobrancelha escura se ergueu.

— Ligou para quê?

— Vários veículos na Locke com a Garnet. Pessoas presas. Combustível vazando.

— Que coisa terrível.

— Seria, se fosse verdade.

— Então fico feliz que não seja. — Ele olhou o nome bordado na jaqueta dela. — Bodnar. Sobrenome húngaro?

— Não faça isso.

— Fazer o quê?

— Puxar conversa. Você está debaixo de um toldo às três da manhã, em frente a uma batida que nunca aconteceu, e uma van sem faróis acabou de sair daquele beco como quem está atrasado para a missa.

— Estou esperando o ônibus.

— Não passa ônibus na Rua Locke.

— Então vou esperar bastante. — Ele inclinou a cabeça na direção da viatura, na direção da luz vermelha girando sobre o asfalto molhado. — Seu parceiro está chamando.

— Meu parceiro pode esperar.

— Pode mesmo?

Alguma coisa no jeito como ele disse isso fez a nuca dela gelar.

Margo puxou o celular. Ergueu-o, enquadrou o rosto dele e tirou a foto. O flash o acendeu em branco contra a porta de aço. Ele não piscou. Não desviou o rosto. Se muito, parecia vagamente interessado, como um homem vendo um pássaro fazer algo esperto.

— Fique com ela — disse ele. — Não vai ajudar.

— Veremos.

— Senhorita Bodnar. — Pronunciou o nome com cuidado, como quem pousa algo quebradiço. — Volte para o seu caminhão. É uma noite fria para ficar no lugar errado.

— Isso é uma ameaça?

— É uma previsão do tempo.

O rádio estalou no ombro dela.

— Unidade 12, prioridade um. Parada cardíaca, Rua Delancey, 4410. Homem de setenta e um anos, familiar fazendo massagem. Vocês são a unidade disponível mais próxima.

O corpo inteiro de Margo congelou.

A Delancey ficava de volta pelo caminho por onde tinham vindo. De volta pelo rio, de volta por todo o distrito. Quatro minutos do posto. Dali, era uma vida inteira.

— Mais próxima — disse ela em voz alta. — Somos a mais próxima.

O homem debaixo do toldo não disse nada. Mas por um segundo algo mudou nos olhos cinzentos. Estava ali e sumiu tão rápido que ela quase não viu.

Ela correu.

Ozzie dirigiu como se a estrada lhe devesse dinheiro.

Margo foi atrás, com o monitor e a bolsa, apoiada no banco, contando. Um minuto. Dois. A sirene gritava nos prédios molhados. Os carros encostavam, lentos e confusos. A ponte passou num lampejo, água preta embaixo, luzes brancas em cima. Quatro minutos. Cinco.

— Central, Unidade 12. A que distância está a próxima unidade?

— Unidade 12, a Unidade 7 está empenhada no County. A Unidade 3 está a vinte minutos.

— Não tem mais ninguém a leste do rio?

— Negativo, Unidade 12. São vocês.

Sete minutos. Oito.

Ela pensou numa cozinha. Sempre pensava numa cozinha em momentos assim. Ladrilho amarelo, um rádio tocando, o pai caído de costas com os olhos abertos. Ela tinha catorze anos. Tinha empurrado o peito dele com as duas mãos e contado em voz alta, do jeito que a mulher do telefone mandou, enquanto a ambulância ia para o endereço errado, no lado errado da cidade. Dezenove minutos. Ela tinha contado cada um deles.

Dez minutos. Onze.

— Delancey — gritou Ozzie. — Chegando, à direita.

O número 4410 era um sobradinho estreito de tijolos, com a luz da varanda acesa. A porta estava aberta. Uma moça estava de joelhos no hall, as mãos entrelaçadas sobre o peito de um velho de cardigã, empurrando, contando e chorando, tudo ao mesmo tempo.

— Eu assumo — disse Margo, caindo ao lado dela. — Você foi ótima. Foi ótima mesmo. Continue até eu mandar parar.

A moça continuou. Não podia ter mais de dezenove anos. Tinha as tranças presas com um xuxinha, e um cordão de crachá da faculdade de enfermagem pendia do pescoço.

Ozzie já tinha os eletrodos na mão. Margo cortou o cardigã e a camisa por baixo. A pele do velho estava cinzenta. Os lábios, azuis. Os eletrodos foram colados, frios e grudentos.

— Mãos fora.

A moça levantou as mãos. O monitor traçou uma linha irregular e caótica na tela.

— Fibrilação ventricular — disse Margo. — Carregando. Todos afastados.

Apertou o botão. O corpo do velho saltou contra o chão.

— De volta ao peito.

Ozzie assumiu as compressões. Margo cuidou da via aérea. Moviam-se um em volta do outro como já tinham feito mil vezes, sem palavras, sem um gesto sobrando. A moça se encostou na parede, com as mãos apertadas sobre a boca.

— Qual é o nome dele? — perguntou Margo.

— Lionel. Lionel Pemberton. É meu avô. Dirigiu o ônibus da linha seis por trinta anos. Estava fazendo chá. Ele só caiu. Ele só…

— Lionel — disse Margo, perto do ouvido dele. — Lionel, estamos aqui. Fique com a gente.

Dois minutos. Checagem. Ainda caos na tela. Choque de novo. De volta ao peito. Adrenalina no acesso. Mais dois minutos. O rosto de Ozzie brilhava de suor. A luz da varanda zumbia. Em algum lugar nos fundos da casa, uma chaleira ainda gritava, e ninguém a tinha desligado.

— Checar ritmo.

A linha no monitor saltou. Depois saltou de novo. Depois se acomodou em picos pequenos e firmes.

— Tenho pulso — disse Ozzie. — Carótida. Tenho pulso.

Margo soltou um ar que sentia estar prendendo desde a Rua Locke.

— Simone — sussurrou a moça. — Meu nome é Simone.

— Simone — disse Margo. — Vá desligar a chaleira. Depois pegue os remédios dele e o documento. Vamos levá-lo para o County, e você vai na frente.

Entregaram Lionel Pemberton à equipe de trauma do County às 3h34 da madrugada. Ele respirava sozinho. Tinha apertado os dedos de Margo uma vez na traseira da viatura, fraco e desajeitado, e ela carregaria aquele aperto por uma semana.

A médica disse que ele tinha uma chance. Uma de verdade.

— Quem fez a massagem salvou o cérebro dele — disse. — Quem chegou rápido salvou o resto.

Margo não contou a ela que não tinham sido rápidos.

Sentou-se no para-choque traseiro da viatura, na baia das ambulâncias, enquanto Ozzie repunha o material. A chuva tinha afinado para uma garoa. Ela pegou a caderneta, tirou o elástico e escreveu embaixo da linha vazia da Locke com a Garnet.

3h01. Delancey, 4410. Lionel Pemberton, 71. Parada por FV. Pulso de volta. Neta Simone fez a massagem. Tempo de resposta: onze minutos.

Ficou encarando as duas últimas palavras.

Do posto, teriam sido quatro. Cinco, talvez, com chuva. Tinham sido mandados para o outro lado do distrito, para uma batida que não existia, e enquanto estavam parados num cruzamento vazio, um velho motorista de ônibus tinha parado de respirar no chão do corredor de casa. Se Simone não estivesse em casa, se não fosse estudante de enfermagem, se estivesse dormindo de fones de ouvido…

Margo fechou a caderneta. A mão tremia. Ela a pressionou contra o joelho até parar.

Ozzie sentou ao lado dela com um saquinho novo de sementes.

— Não faça isso — disse.

— Não faça o quê?

— Aquela coisa de levar para casa.

— Onze minutos, Oz.

— Ele viveu.

— Por causa de uma garota de dezenove anos com mãos boas. Não por nossa causa. — Ela olhou para a baia vazia, para as poças brilhando sob as luzes. — Alguém fez aquela ligação de propósito. Alguém puxou a única unidade a leste do rio para uma rua vazia. Quatro vezes neste mês.

— Você não sabe disso.

— Tinha um homem lá.

Ozzie parou de mastigar.

— Que homem?

Ela abriu a foto no celular e virou a tela para ele. O flash tinha pegado tudo. A porta de aço. O toldo verde. O sobretudo escuro e a prata nas têmporas. Os olhos cinzentos e calmos, encarando a lente como se ele não tivesse nada no mundo a esconder.

Ozzie apertou os olhos.

— Parece advogado.

— Parece mentiroso.

— Uma coisa não exclui a outra, garota.

Margo riu, mas saiu rachado. Olhou a foto até a tela escurecer. Então guardou o celular no bolso e se levantou, porque ainda faltavam três horas de plantão e a cidade não ligava para como ela se sentia.

O celular vibrou contra o quadril.

Ela quase não olhou. Provavelmente era o senhorio falando do radiador de novo, ou a mãe, que nunca lembrava que plantão noturno significava dormir de dia. Olhou mesmo assim.

Uma mensagem de um número desconhecido. Sem nome. Sem foto. Só uma frase curta.

Ele sobreviveu. Bom trabalho, senhorita Bodnar.

A baia das ambulâncias ficou muito quieta em volta dela. A garoa derivava sob as luzes. Em algum lugar dentro do hospital, um monitor apitava num ritmo lento e firme que pertencia a Lionel Pemberton.

Margo olhou a rua escura do outro lado das portas. Não havia ninguém lá. Claro que não havia ninguém lá.

Digitou a resposta com o polegar, com força suficiente para doer.

Quem é você?

A resposta chegou antes que ela guardasse o telefone.

Alguém que devia ter contado melhor.

Café na Rua Kestrel

Hollis Fenwick preferia problemas que vinham com fatura.

Uma rua molhada tinha um custo. Um chamado falso tinha um custo. Uma van sem faróis tinha um motorista, uma rota e uma taxa. Aqueles eram problemas limpos. Fechavam a conta.

A paramédica não fechava.

Ele estava atrás do vidro da sala de observação, dois andares abaixo de uma clínica de enxertos de pele, vendo Jericho Sutter operar um mensageiro dos portos do sul. O mensageiro tinha vinte e quatro anos e uma bala no fígado. Uma hora antes estava deitado num beco a dois quarteirões da Rua Locke, e agora estava sob as luzes mais fortes da cidade, sendo remontado por um homem que não constava em nenhum registro médico.

Jericho trabalhava em silêncio. Sempre trabalhava. As mãos se moviam com uma velocidade que parecia lentidão, cada gesto exato, cada nó dado uma única vez. A enfermeira ao lado dele, Olenna Griggs, passava os instrumentos antes de ele pedir. Ninguém naquela sala desperdiçava uma palavra ou um fôlego.

Hollis olhou para o celular.

Às 2h31, Rudy Tully tinha mandado uma mensagem do andar do despacho do condado. Tully era técnico do turno da noite, com um vício em apostas e um talento para saber onde cada ambulância do distrito estava estacionada. Hollis pagava bem para compartilhar aquele talento.

U12 única unidade a leste do rio hoje. Mantém?

Às 2h32, Hollis tinha respondido.

Aceitável.

Uma palavra. Ele a digitara cem vezes. Significava que a conta fechava. Significava um cruzamento vazio, meia hora perdida, uma equipe entediada tomando café ruim na chuva. Significava que um mensageiro chegava a uma mesa de cirurgia em vez de um necrotério, e ninguém escrevia o nome dele num boletim policial.

Não tinha significado um velho caído no chão de um corredor.

Hollis guardou o celular. Descobriu que não gostava do peso dele no bolso.

As portas do centro cirúrgico se abriram com um sibilo. Jericho saiu, tirando as luvas um dedo de cada vez. Era alto e largo, com olhos escuros que pousavam nas coisas como um bisturi pousa na pele. Jogou as luvas numa lixeira de aço sem olhar para ela.

— Ele vai viver — disse Jericho. — O fígado não vai perdoá-lo.

— Os portos ficarão gratos.

— Os portos nunca são gratos. São apenas cobrados. — Jericho secou as mãos. — Havia uma paramédica.

Claro que ele sabia. A van tinha câmera. Tudo no mundo de Jericho tinha câmera.

— Havia — disse Hollis.

— Ela fotografou você.

— Fotografou.

— Ela é um problema?

Hollis pensou na mulher debaixo do toldo. Trança loira molhada. Uma cicatriz pequena e pálida cruzando a sobrancelha esquerda. O jeito como atravessara a rua direto na direção de um estranho às três da manhã, sem diminuir o passo uma única vez. O jeito como dissera somos a mais próxima como se as palavras a tivessem cortado.

— É uma mulher que conta — disse ele.

Jericho o estudou por um momento, e Hollis teve a estranha sensação de ser examinado por dentro.

— Então faça com que ela conte outra coisa — disse o doutor, e saiu pelo corredor em direção ao escritório.

Hollis conferiu os registros do condado às 4h10. Lionel Pemberton, setenta e um anos, internado na unidade cardíaca do County. Estável. Enviou a mensagem antes que pudesse pensar melhor.

Às 5h45, Tully ligou.

— Sua paramédica fez um pedido — disse Tully. Parecia ter roído as unhas. — Áudio de todos os chamados deste mês que deram em nada. Todos. O supervisor riu dela, mas ela preencheu direito, então vai andar.

— Quantos chamados?

— Seis.

Hollis ficou imóvel.

— Eu fiz quatro.

— É — disse Tully. — Eu sei.

— Então quem fez os outros dois?

Houve uma pausa na linha. Longa. Longa o bastante para gelar a pele de Hollis por baixo da camisa boa.

— Não faço ideia — disse Tully. — Olha, preciso desligar. Troca de turno.

A linha caiu.

Hollis ficou na sala de segurança olhando o mapa da cidade na parede. Quatro dos chamados fantasmas eram dele. Eram cuidadosos. Puxavam unidades para ruas vazias, e nunca havia ninguém lá para se machucar.

Os outros dois tinham mandado ambulâncias a um galpão abandonado e a uma escola fechada. E os dois chamados tinham mencionado uma criança.

Hollis nunca mencionava crianças. Era a primeira regra que ele tinha criado na vida.

Alguém tinha roubado o truque dele. E o tornara mais feio.

Margo chegou em casa às 7h20 com os olhos cheios de areia e o cabelo ainda úmido da chuva.

Morava no terceiro andar de um prédio estreito, sem elevador, na Rua Kestrel, em cima de uma padaria que acendia os fornos às quatro. Na maioria das manhãs, a escada inteira cheirava a pão quente, e na maioria das manhãs era a melhor parte do dia dela.

Naquela manhã, havia um homem sentado nos degraus da porta.

Usava o mesmo terno cinza-chumbo. O sobretudo estava dobrado com capricho no degrau ao lado, e ele segurava dois copos de café de papel, um em cada mão, como quem tinha sido convidado.

Margo parou na calçada. O coração fez algo rápido e desagradável. Pensou no spray de pimenta na bolsa, nas chaves entre os dedos, em quantos segundos levaria para correr de volta até a esquina.

— Você está nos meus degraus — disse ela.

— Estou. — Ele estendeu um dos copos. — Leite de aveia, sem açúcar. Você comprou um na lanchonete do County às 4h15.

— Você estava me vigiando.

— Eu estava vigiando o hospital. Você estava lá dentro por acaso.

— Isso não é melhor.

— Não — concordou ele. — Não é.

Ela não pegou o café. Ele não baixou o braço. Ficaram se olhando na luz cinzenta da manhã enquanto um caminhão de entrega passava roncando e a porta da padaria abria e fechava atrás dele, soltando um sopro de canela.

Por fim, ela pegou o copo, mais porque as mãos estavam frias. Não bebeu.

— Como você sabe onde eu moro?

— Meu trabalho é saber onde as coisas estão.

— Qual é o seu trabalho?

Ele considerou a pergunta como se merecesse uma resposta cuidadosa.

— Cuido para que certas pessoas cheguem a um médico sem virar papelada.

— Pessoas com balas dentro.

Ele não disse nada.

— Aquela van — disse ela. — Na Rua Locke. Tinha alguém na traseira. Alguém ferido. Você mandou a minha viatura para o outro lado do distrito para que ninguém visse sua van buscá-lo.

— É uma teoria interessantíssima.

— Não é teoria. Eu pedi o áudio.

— Eu sei. É por isso que estou aqui. — Ele pousou o próprio café no degrau. — Retire o pedido.

Margo riu. Saiu afiado e cansado.

— Não.

— Senhorita Bodnar…

— Um velho quase morreu ontem à noite. Lionel Pemberton. Dirigiu o ônibus da linha seis por trinta anos, e caiu no chão do corredor de casa enquanto eu estava parada na sua frente numa rua vazia. Onze minutos. Você sabe o que onze minutos significam numa parada cardíaca?

— Sei.

A palavra foi baixa e seca. Fez com que ela parasse por um segundo.

— Então sabe por que não vou retirar nada.

Ele ergueu o rosto para ela. À luz do dia, os olhos eram mais claros, do cinza de pedras de rio. Havia olheiras embaixo deles que ela não tinha notado na noite anterior.

— Você sabia? — perguntou ela. — Quando fez aquela ligação. Sabia que éramos a única unidade a leste do rio?

Ele sustentou o olhar.

— Não — disse.

Ela procurou a mentira no rosto dele. Era boa com rostos. Passara oito anos lendo bêbados, mentirosos e gente assustada que dizia estou bem com as mãos tremendo. O rosto dele não lhe deu nada. Aquilo deveria tê-la tranquilizado. De alguma forma, não tranquilizou.

Ele se levantou. Era mais alto do que ela lembrava, e se movia como um homem que aprendera a ocupar menos espaço do que lhe pertencia. Tirou um cartão do bolso do paletó e o estendeu. Era branco e liso. Sem nome. Só um número de telefone, impresso em preto.

— Alguém tem feito chamados parecidos com os que deixaram você com raiva — disse ele. — Dois deles estão na sua lista. Não são cuidadosos, e não são gentis. Se um desses chamados vier para a sua viatura, não entre.

— Eu sempre entro.

— Eu sei — disse ele. — É isso que me preocupa.

Ela pegou o cartão. Os dedos não se tocaram. Ela ficou ciente, de repente e de modo irritante, de exatamente quão perto não tinham chegado.

— Como devo chamar você?

— Hollis.

— É de verdade?

— É o nome a que respondo. — Ele pegou o sobretudo. — Beba o café, senhorita Bodnar. Não está envenenado. Sou chato demais para isso.

Foi até a esquina e a virou sem olhar para trás nenhuma vez. Margo ficou nos degraus com um copo numa das mãos e um cartão na outra, e o cheiro de pão quente em volta.

Bebeu o café. Estava exatamente no ponto. Isso a deixou mais furiosa do que qualquer outra coisa.

Na noite seguinte, a chuva voltou mais forte.

— Unidade 12, prioridade um. Homem caído, sangrando, antigo pátio Sexton, atrás do silo de grãos. O solicitante diz que uma criança o encontrou.

Ozzie olhou para ela do outro lado da cabine. Margo olhou para o para-brisa.

Não são cuidadosos, e não são gentis.

— É um dos dele — disse Ozzie. Tinha ouvido a história toda no começo do plantão, com as sobrancelhas subindo cada vez mais. — Seu amigo advogado.

— Ele não é meu amigo, e não é advogado. — Ela tirou o cartão do bolso e o girou entre os dedos. — E não é dele. Ele não usa crianças. Esse é o outro tipo.

— Então a gente pula?

Ela pensou. Pensou de verdade. Pensou no cartão, e na voz áspera dizendo não entre. Pensou em como seria fácil dizer à central que era trote e passar direto.

Então pensou na única vez em que havia alguém ali.

— Pode ser verdade — disse. — Peça apoio da polícia. Entramos devagar. Luzes, sem sirene. Se cheirar mal, saímos.

— Garota.

— Pode ser verdade, Oz.

Ele suspirou, cuspiu uma casca e dirigiu.

O pátio Sexton ficava na beira do rio como um cemitério de trens. Vagões enferrujados erguiam-se em fileiras tortas. O silo de grãos dominava tudo, preto e sem janelas, o topo perdido na chuva. O portão estava aberto. Não deveria estar.

— A polícia está a quinze minutos — disse Ozzie, ouvindo o rádio. — Noite movimentada.

— Claro que é.

Entraram pelo portão. Os faróis varreram cascalho molhado, paletes quebrados, um carrinho de supermercado enferrujado tombado de lado. Margo se inclinou para a frente e vasculhou a escuridão entre os vagões.

Então ouviu. Um gemido baixo e úmido, de trás do silo.

Havia alguém ali.

— Fique com a viatura — disse ela.

— Pode esquecer. — Ozzie já descia com a lanterna.

Foram juntos, Margo com a bolsa de trauma no ombro, Ozzie com a luz. A chuva tamborilava nos vagões como dedos numa mesa. O gemido veio de novo, mais perto. Atrás do silo, um homem de moletom escuro estava encolhido no cascalho, as mãos apertadas contra a barriga.

Margo se ajoelhou ao lado dele.

— Senhor, sou paramédica. Onde está machucado?

O homem rolou.

Não estava sangrando. Estava sorrindo.

Alguma coisa se moveu atrás dela. Ozzie disse “Ei…” e então veio um som duro e feio, como um galho quebrando, e a lanterna bateu no cascalho e rolou. O facho girou pelo chão molhado e parou no rosto de Ozzie. Os olhos estavam fechados. Um fio fino de sangue corria da linha do cabelo até a orelha.

— Oz!

Uma mão agarrou a trança dela e puxou sua cabeça para trás. Metal frio apertou embaixo do queixo.

Eram três. Depois quatro. Balaclavas pretas. Luvas de trabalho. Um deles segurava um pedaço de cano, e a ponta estava molhada de algo que não era chuva. O homem no chão se levantou, espanou o moletom e riu.

— A caixa — disse o que segurava o cano. — A caixa de drogas. Abra.

— Está na viatura — disse Margo. A voz saiu firme. Ela não sabia como. — Está trancada. Precisa de código.

— Então você vai nos dar o código.

— Meu parceiro está ferido. Deixe-me ver como ele está. Por favor. Depois vocês levam o que quiserem.

O homem do cano agachou na frente dela. Pelos buracos da balaclava, os olhos eram pálidos e entediados. Inclinou a cabeça, lendo o nome na jaqueta.

— Veja só — disse, baixinho. — Bodnar.

O metal sob o queixo apertou mais.

— Estávamos esperando que você aparecesse hoje — disse ele. — Alguém quer muito conversar com você sobre todos aqueles telefonemas.

Espere — Eles sabem o nome dela. Em algum lugar na chuva, Hollis já está dirigindo…

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