Seis Nomes numa Gaveta
Mirren
O sexto nome apareceu às 3h07 da manhã, e eu soube, antes mesmo de abrir o arquivo, que ele tinha sumido.
YBARRA, RUBEN. Trinta e quatro anos. Atendimento de emergência por punho esquerdo quebrado. Tipo sanguíneo O negativo. Recebeu alta numa quinta-feira, com gesso e uma receita de analgésicos.
E no canto da tela, numa caixinha cinza onde nenhum alerta deveria existir, as mesmas três letras que eu já tinha visto cinco vezes.
PRV.
Recostei na cadeira e fiquei ouvindo o porão do Seattle Grace respirar. Os dutos zumbiam. Uma impressora lá no fim do corredor acordou, pensou no assunto e voltou a dormir. Acima de mim havia nove andares de máquinas apitando, enfermeiras cansadas e gente tentando não morrer. Aqui embaixo só existia eu, uma xícara de café frio e o histórico de todo mundo que algum dia fora carregado por aquelas portas.
Eu era a analista noturna de Informações em Saúde. Que é uma maneira comprida de dizer que eu consertava erros. Um código errado numa conta. Um prontuário arquivado com a data de nascimento trocada. Um pedido que o convênio negou porque alguém digitou um sete no lugar de um um. Ninguém reparava em mim, a não ser que um pagamento voltasse. Eu gostava assim. Gente invisível vê muita coisa.
Abri o alerta. O sistema pediu uma senha que eu não tinha. Fechei de novo.
Depois tirei uma ficha nova da gaveta e escrevi o nome dele em letras de forma, com a data em que ele saíra por aquela porta.
Eu tinha outras cinco fichas ali, presas por um elástico verde. Winnie Lowe, motorista de ônibus aposentada. Um universitário chamado Dominic Pryce. Um cozinheiro. Uma avó. Um homem que vendia guarda-chuvas na feira. Todos O negativo, como eu. Todos marcados com três letras cinzentas. Todos com alta, e depois, em menos de uma semana, desaparecidos.
Mortos, não. Gente morta tem certidão de óbito. Eu saberia, eu é que arquivo.
Desaparecidos.
Eu sabia de Ruben porque a esposa dele tinha ligado às onze daquela noite. O telefone da mesa de registros quase nunca tocava depois do anoitecer, mas ela fora passada de setor em setor até que alguém desistiu e a mandou para o porão. Chamava-se Graciela. Tinha dois filhos dormindo no quarto ao lado e estava se esforçando muito para não chorar ao telefone com uma desconhecida.
— Ele recebeu uma ligação — contou ela. — De um estudo particular. Disseram que o sangue dele era especial. Disseram que iam pagar. Ele me disse que seriam só algumas noites, amor, só algumas noites, e depois a gente conserta o telhado. — Ela respirou, trêmula. — Isso foi há nove dias. Ninguém naquele hospital me diz nada. Por favor. Ele está aí?
Não estava. Eu tinha conferido tudo que me era permitido conferir, e depois algumas coisas que não era.
Prometi a ela que ligaria de volta. Eu ainda não sabia que seria a promessa mais importante da minha vida.
Enfiei a ficha de Ruben na pilha e prendi o elástico em volta dela. Então fiz o que vinha fazendo toda noite havia duas semanas. Mandei a lista de alertas para a impressora velha da sala dos fundos, a que não estava ligada à rede principal, porque eu tinha a sensação de que tudo que passava pela rede principal era notado.
Paranoica, diria minha avó. E em seguida me entregaria uma lanterna e mandaria eu ir olhar mesmo assim.
Peguei a lanterna. As luzes da sala dos fundos estavam queimadas desde a primavera.
A sala de arquivos do Seattle Grace é uma caverna comprida e baixa de estantes de metal que ninguém usa desde que o hospital se digitalizou. Prontuários em papel dos anos noventa. Caixas de filme de raio X. Uma samambaia morta. O ar cheira a poeira, toner e ao suor frio de canos velhos.
Ouvi a impressora antes de vê-la. Já estava funcionando.
Eu ainda não tinha chegado lá.
Parei entre duas estantes. O facho da lanterna tremeu. Havia alguém de pé diante do terminal velho ao lado da impressora, de costas para mim, de moletom preto. A tela iluminava as mãos dele. Dedos longos, pálidos como cera de vela, correndo pelas teclas tão rápido que se embaçavam. Um cabo ia do terminal até um pequeno pen drive prateado na palma dele.
Ele estava copiando a minha lista.
Não a minha lista. A lista. A que eu montara à mão, nome por nome, em duas semanas de madrugadas.
— Ei — falei. Saiu um coaxar. Tentei de novo. — Ei. Esse terminal é só para funcionários.
— Então você devia parar de usá-lo para imprimir provas — disse, sem se virar. — Qualquer um com meio cérebro percebe o que você está fazendo. Infelizmente para você, quem está vigiando tem cérebro inteiro.
A voz era jovem, seca e um pouco entediada. Ele puxou o pen drive. A impressora continuou cuspindo as minhas páginas.
Eu tinha um grampeador na mão esquerda. Não sei quando o peguei. Levantei-o mesmo assim.
— Vou chamar a segurança — avisei.
— A segurança é um senhor de sessenta anos chamado Lloyd, que está dormindo no saguão com as palavras cruzadas no peito. — Por fim ele se virou. — E você está segurando um grampeador como se fosse uma arma.
Parecia ter uns vinte anos. Cabelo preto caindo nos olhos. Maxilar afiado, boca mais afiada ainda, e olheiras fundas, como se não dormisse desde o século passado. Esmalte preto descascado nas unhas. Uma câmera pendurada no pescoço por uma alça, antiga, dessas que ainda usam filme de verdade.
Mas foram os olhos dele que me fizeram recuar um passo. Eram castanhos, e então, quando a lanterna bateu neles, brilharam. Vermelhos, por meio segundo. Como olhos de gato numa estrada escura.
— O que é você? — sussurrei.
— Atrasado — disse ele. — E você está no meu caminho.
Então ele não estava mais junto ao terminal.
Estava bem na minha frente.
Eu não o vi se mexer. Um instante antes havia três metros de chão empoeirado entre nós, e no seguinte não havia nenhum, e o ar que o corpo dele empurrou me bateu no rosto como um tapa. O grampeador não estava mais na minha mão. Estava na dele. Ele olhou para o grampeador, depois para mim, e o pousou com muito cuidado na estante ao lado da minha cabeça.
— Você se chama Mirren Ashcombe — disse baixinho. — Mora sozinha num studio em Beacon Hill. Volta para casa às sete todas as manhãs, passando por uma padaria onde nunca compra nada. E nas últimas duas semanas anda procurando seis pessoas que foram levadas por uma coisa em que você não acredita.
Minhas costas bateram na estante. Uma caixa de prontuários antigos tombou e caiu. O papel escorreu pelo chão como uma maré branca.
— Como você sabe disso? — perguntei.
— Porque estou vigiando você vigiá-los. — O maxilar dele se contraiu. — E esta noite eles também estão.
— Eles quem?
Ele inclinou a cabeça. Escutando. O corpo inteiro ficou imóvel de um jeito que nenhum corpo vivo consegue ficar. Sem respirar. Sem piscar.
— Dash.
A voz nova veio do fundo escuro da sala. Grave e calma, com um leve sotaque francês. Uma voz antiga, pensei. Uma voz de filme em preto e branco.
Um homem entrou no facho da minha lanterna. Era alto e esguio, de sobretudo cinza comprido sobre um colete, com a camisa abotoada até o pescoço. Cabelo escuro, com uma mecha de branco puro na têmpora esquerda. Olhos da cor de um mar de inverno. Ele mantinha as mãos um pouco abertas ao lado do corpo, do jeito que a gente se aproxima de um cachorro assustado.
— Há quatro deles na garagem — disse ao rapaz. — Homens da Corte. Armadura sob os casacos. Desceram pela rampa norte há dois minutos, e não vieram aplicar vacina contra gripe. — O olhar dele passou para mim e se suavizou, só um pouco. — Boa noite, senhorita Ashcombe. Lamento que nos conheçamos assim. Meu nome é Severin. Receio que a senhorita tenha sido muito corajosa numa direção muito perigosa.
— Eu não — falei. — Eu não entendo nada disso.
— Eu sei — disse Severin. — Vai entender. Mas não aqui.
Em algum lugar acima de nós, uma porta bateu. Botas pesadas no concreto. Várias, marchando no mesmo passo.
Dash xingou baixinho. Pegou as páginas da impressora, dobrou duas vezes e enfiou no bolso da frente do moletom. Depois olhou para mim, e pela primeira vez algo no rosto dele rachou. Não era gentileza. Era algo mais próximo de raiva, apontada para um ponto além de mim.
— Eles sabem quem imprime a lista — disse. — Se ficar, você vira a sétima ficha da sua gaveta.
As botas chegaram ao pé da escada.
Pensei em Graciela, chorando baixinho ao telefone para não acordar os filhos. Pensei em Winnie Lowe, que tinha uma risada igual a buzina de carro. Pensei no meu próprio nome em letras de forma numa ficha que ninguém jamais escreveria, porque ninguém jamais iria procurar por mim.
— Minhas fichas — falei. — Estão na minha mesa.
— Você quer voltar para buscar fichas — disse Dash, me encarando.
— Não são fichas. São pessoas.
Alguma coisa passou entre ele e Severin. Um olhar. Então Severin sumiu, e as botas do lado de fora da porta pararam, e alguém soltou um som curto e surpreso, e em seguida veio um estrondo como o de um corpo batendo num armário de metal. Dez segundos depois, Severin voltou ao facho da minha lanterna, alisando a frente do casaco. Trazia na mão a minha pilha de fichas, com o elástico verde ainda no lugar.
— A sua mesa estava destrancada — disse, e me entregou.
Segurei as fichas contra o peito. O coração batia tão forte que doía.
— Saída dos fundos — disse Dash. — Agora. O Bastian está no beco.
— Quem é Bastian?
— Aquele da van — disse Severin. — E o único de nós que sabe cozinhar.
A porta corta-fogo se abriu para a chuva. Claro que sim. Era Seattle em outubro, e o céu chorava havia uma semana.
Uma van branca e surrada esperava no beco, com o motor ligado e os faróis apagados. A porta lateral deslizou antes de chegarmos. O homem ao volante se virou para me olhar, e a primeira coisa que pensei foi que ele era a pessoa mais enorme que eu já tinha visto. Enchia o banco do motorista como um urso numa cabine telefônica. Ombros largos, barba castanha e desgrenhada, camisa de flanela com as mangas arregaçadas sobre antebraços como galhos de árvore. Uma cicatriz velha cortava a sobrancelha direita.
Ele abriu um sorriso. Era um sorriso quente e torto, desses que combinam com um homem distribuindo café de graça num quartel de bombeiros.
— Então essa é a moça do grampeador — disse.
— Dirige — disse Dash.
— Olá para você também. — Mas a van já estava andando. — Senhora. Bastian Szabo. Aperte o cinto, por favor. Eu dirijo como a minha mãe.
— Ela era cuidadosa? — perguntei, num fio de voz.
— Não — disse ele, e pisou fundo.
Despenquei no banco. Severin entrou ao meu lado. Dash foi na frente. Atrás de nós, a porta corta-fogo se escancarou e quatro homens de casacos longos e pretos despejaram-se no beco. Um deles ergueu algo comprido e fino que pegou a luz do poste como uma lâmina.
Então Bastian fez a curva com tanta força que meu ombro bateu no de Severin, e o beco desapareceu.
Olhei para baixo. A palma da minha mão esquerda sangrava. Devia ter me cortado na porta corta-fogo. Uma linha vermelha e fina ia da base do polegar até o pulso, e o sangue pingava nas minhas fichas.
A van ficou muito silenciosa.
Ninguém se mexeu. Ninguém respirou. Percebi, devagar, que nenhum deles estivera respirando antes também. As mãos de Bastian tinham ficado brancas no volante. Dash virara o rosto para a janela. E Severin, ao meu lado, estava tão imóvel que um músculo saltava no maxilar dele.
— Senhorita Ashcombe — disse Severin, muito educado, sem olhar para mim. — Teria a bondade de fechar o punho?
Fechei o punho. O sangue parou de pingar.
Ele soltou um longo suspiro de que não precisava.
— O que vocês são? — perguntei de novo. Mais baixo, dessa vez. Não porque eu não soubesse. Porque eu sabia.
Bastian encontrou meus olhos no espelho retrovisor. Os dele agora eram dourados, brilhando de leve no escuro como brasas.
— A boa notícia — disse ele com delicadeza — é que somos os legais.
— E a má?
— A má notícia — disse Dash — é que os não legais acabaram de descobrir o seu nome.
Atrás da Porta Verde
Severin
O cheiro do sangue dela encheu a van por onze minutos, e Severin Thibault contou cada um deles.
Contou como outrora contara pulsos nos hospitais de campanha nos arredores de Paris, com dois dedos no pulso de um soldado e o fogo dos canhões sacudindo a tenda. Números eram uma corda. Um homem podia sair de quase qualquer coisa por uma corda de números. Um minuto. Dois. A linha vermelha na palma dela, agora fechada dentro do punho. O sal daquilo. O ferro vivo e brilhante que o corpo dele conhecia melhor que qualquer oração.
Cinco minutos. Seis.
Ao lado dele, Mirren Ashcombe estava sentada muito ereta, com a pilha de fichas no colo. Tremia, mas só nas mãos. O rosto estava pálido e sardento e fechado como uma porta trancada. O cabelo ruivo-acastanhado soltara-se do coque, e um lápis ainda estava espetado no que restava dele. Ela cheirava a chuva, toner, café queimado e medo.
Não chorou. Ele reparou nisso. A maioria das pessoas chorava, depois da primeira vez que via o que ele era.
Nove minutos. Dez.
— Chegamos — disse Bastian, e a van parou num beco perto da Occidental, na parte mais antiga da cidade.
A Vigília fora uma capela, nos anos em que Pioneer Square era só serragem e marinheiros. Agora era um prédio estreito de tijolos, espremido entre uma livraria fechada e um estacionamento, com janelas altas pintadas de preto por dentro e uma porta pequena na lateral, pintada do verde suave do cobre velho. Sem placa. Sem campainha. Uma plaquinha de latão do tamanho de uma carta de baralho, gravada com uma lua crescente e um número que só o Conselho sabia ler.
Dash abriu a porta verde com uma chave, um código e o polegar, nessa ordem. Segurou-a aberta sem olhar para ela.
— Bem-vinda ao melhor bar de sangue de Seattle — disse. — Limpe os pés.
Lá dentro, a Vigília era aconchegante. Severin cuidara disso, muito tempo antes, pelos humanos. Abajures de cúpula âmbar. Velhos bancos de madeira empurrados contra as paredes e empilhados de almofadas. Uma mesa comprida onde antes ficava o altar, com uma cafeteira grande, uma cesta de laranjas e um prato dos biscoitos de nozes de Bastian sob uma redoma de vidro. Atrás de uma cortina, nos fundos, ficavam as salas brancas e limpas onde os doadores se deitavam, com camas macias, lençóis novos e uma cópia emoldurada das regras em cada parede.
As regras eram simples. Ninguém entrava sem querer. Ninguém ficava se quisesse ir embora. Todos recebiam em dinheiro antes de sangrar. Todos ganhavam suco, um biscoito e uma carona para casa.
Mirren parou no meio do salão e girou devagar.
— Parece um bazar de igreja — disse.
— Obrigado — disse Bastian, imensamente satisfeito, e foi pôr a chaleira no fogo.
Severin puxou uma cadeira para ela à mesa comprida. — Sente-se, por favor. Deixe-me ver a sua mão.
Ela sentou. Não lhe deu a mão.
— Você é um vampiro — disse.
— Sou.
— Vocês três.
— Sim.
— E este lugar é onde vocês… — Ela olhou para a cortina, para as regras na parede, para as laranjas. — Se alimentam.
— É onde as pessoas que desejam ser alimento vêm se oferecer, com segurança — disse Severin. — Pagamos bem. Elas vão embora quando querem. Algumas vêm pelo dinheiro. Algumas vêm pelo veneno, que dizem ser muito agradável. Algumas vêm porque estão sozinhas e nós escutamos. Winnie Lowe veio toda segunda terça-feira do mês durante seis anos. Trazia palavras cruzadas para nós e dizia a Bastian que os biscoitos dele estavam secos demais.
Mirren ficou imóvel. — Winnie Lowe está na minha lista.
— Sim — disse ele baixinho. — Foi assim que encontramos a senhorita.
Dash largou-se na cadeira em frente e pôs as botas em cima da mesa. Bastian as derrubou ao passar com uma caneca de chá. Dash as pôs de volta.
— A Winnie foi ao Seattle Grace em agosto com dor no peito — disse Dash. — Era azia. Uma semana depois, ela recebe uma ligação. Benfeitor particular. Estudo especial. Sangue raro, pagamento generoso, só algumas noites. Ela contou para a gente bem ali, naquela mesa, toda animada, porque ia comprar um carro para o neto. — Ele virou o pen drive prateado entre os dedos. — Nunca mais voltou. Então fui atrás de quem fez essa ligação, e todas as estradas terminavam no seu porão. Seis pessoas. Um hospital. Um alertinha idiota.
— PRV — disse Mirren.
— Revisão de Aquisição. — A boca de Dash se torceu. — Alguém dentro do seu sistema hospitalar está lendo todos os exames de sangue que passam por lá. O negativo com um certo marcador raro? Plim. O arquivo é marcado, o alerta é enviado para algum lugar que eu ainda não consigo seguir, e uma semana depois uma senhora simpática, de voz simpática, oferece ao paciente muito dinheiro.
— Para quê?
Ninguém respondeu.
Ela olhou para Severin. Tinha olhos muito diretos. Castanho-acinzentados, cansados, vermelhos nas bordas. Ele descobriu que não conseguia mentir para eles, o que era inconveniente, porque mentira a humanos por cento e cinquenta anos com grande habilidade.
— Para a Corte — disse. — Há uma Corte da Noite nesta cidade, senhorita Ashcombe. Vive sob as ruas. É antiga, rica e muito faminta, e é governada por uma Rainha Regente chamada Alodie, que está entediada há três mil anos. Casas como a nossa existem porque o Conselho permite. Pagamos nossas taxas. Seguimos as leis. Somos pequenos, e por isso a Corte, na maior parte do tempo, nos deixa em paz. — Fez uma pausa. — Mas a Corte procura há muito tempo por um certo tipo de sangue. Não sei por quê. Sei apenas que as pessoas que eles levam lá para baixo não voltam a subir.
Os dedos de Mirren se apertaram em volta das fichas. — E os homens da garagem?
— Pretorianos — disse Bastian, da chaleira, toda a calidez sumida da voz. — Os soldados da Rainha. Armadura preta. Prata nas lâminas. Eles em geral não sobem aos hospitais pessoalmente. Têm gente para isso.
— Então por que esta noite?
Dash olhou para o teto. — Porque alguém imprimiu a mesma lista na mesma impressora catorze noites seguidas. Porque o sistema de alertas registra quem abre um arquivo marcado. Você abriu seis. Parabéns. Virou um problema de segurança.
— Você abriu também.
— Eu sou um problema de segurança com presas — disse Dash. — Você é um problema de segurança com grampeador.
— Dash — disse Severin.
— O quê? Ela precisa saber. — Mas Dash desviou o olhar primeiro.
Mirren ficou calada por um longo momento. Então estendeu a mão esquerda, com a palma para cima, e abriu o punho.
O corte voltara a sangrar.
O ambiente mudou. Severin sentiu nos dentes antes de sentir em qualquer outro lugar. Uma dor aguda e doce ao longo das gengivas. Os abajures pareceram brilhar mais forte. Do outro lado da mesa, os olhos de Dash ficaram vermelhos e ele virou o rosto tão depressa que a cadeira rangeu. Na chaleira, Bastian pousou a caneca com muito cuidado, como quem pousa algo que tem medo de esmagar.
Severin não se moveu. Pensou em Lyon. Pensou no jardim da mãe, nas longas alas brancas do Hôtel-Dieu e no soldado menino cujo nome nunca chegou a saber. Números. Um. Dois. Três.
Então pegou, na gaveta sob a mesa, um pano limpo, um frasco de antisséptico e um pacote de tiras brancas finas, porque um cirurgião continua sendo cirurgião depois de morto.
— Vai arder — disse.
— Vampiros curam gente de verdade? — perguntou ela. — Quando lambem um ferimento. Li isso em algum lugar.
— O nosso veneno fecha cortes pequenos — disse ele, limpando a linha de sangue com mãos firmes. — Fecharia este em um minuto. Também faria a senhorita se sentir quente, sonolenta e um pouco embriagada, e a senhorita gostaria, e me conhece há uma hora. — Pôs a primeira tira sobre o corte. — Não farei isso sem um sim. E a senhorita não deve me dar um sim esta noite.
Ela observava as mãos dele. — Você era médico?
— Cirurgião. Na França. Há muito tempo.
— Quanto tempo?
— Fui feito durante o cerco de Paris — disse ele. — Mil oitocentos e setenta e um. Uma granada atingiu o hospital de campanha. Eu morria na lama, e algo antigo e bondoso se inclinou sobre mim e perguntou se eu queria continuar trabalhando. — Colocou a última tira e alisou-a com o polegar. A pele dela era muito quente. — Eu disse que sim. Estou trabalhando desde então.
Ela olhou para o curativo bem-feito. Depois para ele. Algo no rosto dela se soltou, só um pouco.
— Obrigada — disse.
Ele soltou a mão dela. Custou-lhe mais do que deveria.
Às quatro da manhã, Mirren se levantou e anunciou que ia para casa.
— Vou chamar a polícia — disse. — Vou procurar um jornal. Vou contar que um hospital está vendendo dados de pacientes e que pessoas estão desaparecendo. Não preciso dizer a palavra vampiro.
— Pode dizer — falou Bastian, gentilmente. — Não vão acreditar de qualquer jeito.
— Então vou fazer com que acreditem.
Dash abriu o notebook sem uma palavra e virou a tela para ela.
Na tela havia uma imagem de câmera em preto e branco. Um corredor estreito de papel de parede descascando. Uma porta com um número sete de latão. A porta estava aberta. Dois homens de casacos escuros e longos estavam lá dentro, sob uma lâmpada nua. Um deles segurava uma fotografia emoldurada de uma senhora idosa num jardim.
Mirren soltou um som pequeno.
— O seu prédio tem uma câmera só — disse Dash. — Peguei emprestada na terça. Eles entraram há quarenta minutos.
— Essa é a minha avó — sussurrou Mirren. — Essa é a Vovó.
O homem do vídeo pôs a fotografia virada para baixo sobre a mesa. Fez isso devagar, quase com polidez. Depois sentou na única poltrona dela e juntou as mãos, como alguém disposto a esperar a noite toda.
Severin a viu entender. Viu os ombros dela se encolherem e, um segundo depois, se endireitarem de novo. Ela estava assustada. Estava também furiosa. Ele descobriu que gostava muito dela, e isso era um perigo à parte.
— A Vigília é uma casa licenciada — disse ele com delicadeza. — Pela lei do Conselho, nenhum soldado da Corte pode cruzar esta soleira sem mandado. Conseguir um mandado leva tempo. Aqui, a senhorita está segura. Lá fora, não está. — Abriu as mãos. — Fique três noites. Deixe o Dash seguir o alerta. Deixe-nos descobrir para onde levaram a Winnie e o seu senhor Ybarra. Depois, se ainda quiser sair por aquela porta verde, eu mesmo a seguro aberta para a senhorita.
Mirren o olhou por muito tempo.
— Três noites — disse.
— Três noites.
— E eu ganho uma tranca na porta.
— Há um quarto na antiga torre do sino — disse Bastian. — A fechadura é antiga, e o ferrolho é maior que a minha mão. E a cama é muito boa. Comprei para mim e depois bati a cabeça em todas as vigas do quarto.
Apesar de tudo, o canto da boca dela se mexeu. Não era um sorriso. Era o lugar onde um sorriso ficaria, algum dia, se ela deixasse.
Dash fechou o notebook. — Ótimo. Temos uma hóspede. Vou avisar a imprensa.
— Dashiell — disse Severin, brandamente.
— Não me chame pelo nome inteiro na frente da refém.
— Eu não sou refém — disse Mirren.
Dash olhou para ela. Algo cintilou nos olhos dele, ali e sumido. — Não — disse. — Ainda não.
O sol nasceu às sete e trinta e um. Severin o sentiu chegando como um velho marinheiro sente o tempo mudar. Um peso nos ossos. Um puxão em direção à escuridão.
Os três dormiam sob a capela, na velha cripta, atrás de uma porta de aço. Bastian já roncava. Dash adormecera sentado, com o notebook ainda aberto nos joelhos, a tela jogando luz azul sobre o rosto jovem e infeliz. Severin puxou o cobertor sobre ele, como fazia toda manhã havia vinte e seis anos, e Dash resmungou algo grosseiro e não acordou.
Severin deitou-se por último.
Não fechou os olhos. Acima dele, através da pedra, da madeira e de dois andares de vigas velhas, conseguia ouvi-la. Todo vampiro ouve um coração numa casa silenciosa. O dela era rápido e irregular. Ela não dormia. Andava de um lado para o outro no quartinho da torre. Quatro passos. Volta. Quatro passos. Volta.
Então os passos pararam.
Um telefone vibrou.
Ele a ouviu atender. Ouviu o engasgo na respiração dela quando viu a tela, e soube, sem ver, o que dizia. Chamada desconhecida.
Não atenda, pensou.
Ela atendeu.
— Alô?
A voz que saiu do minúsculo alto-falante era de mulher. Nítida, grave e lisa como mercúrio frio. Severin a ouvira uma vez, sessenta anos antes, num salão sob a cidade, e o som dela arrepiou cada pelo dos seus braços.
— Senhorita Ashcombe — disse a voz. — Ligo em nome de um benfeitor particular. A senhorita tem sido muito diligente. Admiramos a diligência. Gostaríamos de lhe oferecer um cargo.
— Eu já tenho um emprego — disse Mirren. A voz dela só tremeu na última palavra.
— A senhorita tinha um emprego. Desde esta manhã, foi demitida por uso indevido de dados de pacientes. É uma infração muito grave. Pode haver acusações. — Uma pequena pausa, como um sorriso. — Ou pode haver um carro, um contrato e muito dinheiro. Essa é a escolha que oferecemos.
— E se eu disser não?
— Então a senhorita pode ficar exatamente onde está, atrás da bonita porta verde do doutor Thibault, enquanto durar a paciência do Conselho. — A voz suavizou, quase bondosa. — E, enquanto espera, faremos uma visita à senhora Graciela Ybarra. Ela tem dois filhos, creio. Quatro e sete anos. Uma casa tão pequena. Um telhado tão fino.
Abaixo do chão, no escuro, Severin já estava de pé antes que o sol pudesse detê-lo.
Acima dele, Mirren Ashcombe não disse nada.
E a voz disse, muito suavemente: — A senhorita tem até o nascer da lua.
A ligação caiu.
































