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O Gosto de uma Mentira — romance contemporâneo grátisGrátis · Exclusiva

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O Gosto de uma Mentira

Ela sente o gosto de uma falsificação em um único gole. Três homens perigosos querem que ela encontre cada mentira na adega deles.

  • Harém Reverso
  • Fetiche por Competência
  • Proximidade Forçada
  • Heróis Moralmente Ambíguos
  • Heróis Protetores

🌶️🌶️🌶️🌶️ Cerca de 68 min de leitura · 15.582 palavras

Camille Roux sente o gosto de uma mentira em um único gole, e esta noite desmascarou uma diante do homem errado. Agora o corretor de Darrow Pryor quer vê-la calada, e três sócios perigosos a querem na adega deles. Quanto mais ela cava no vinho envenenado dos três, mais difícil fica escolher só um.

A Garrafa que Mentiu

Camille

O vinho já estava mentindo para ela antes de chegar à língua.

Camille Roux segurou a taça pela haste e a inclinou contra a toalha branca. Sob os lustres do salão, a cor parecia certa à primeira vista. Vermelho-tijolo na borda. Granada escura no centro. A cor que um Domaine Sauvelle de setenta e nove anos deveria vestir, como uma velha senhora com o seu melhor veludo.

Mas a borda era estreita demais. O halo marrom terminava cedo demais, do jeito que a moldura de um quadro pintado termina antes da tela.

Ela girou a taça uma vez. Ergueu. Respirou fundo o aroma.

Cereja. Cedro. Rosa seca. E então, por baixo de tudo, algo vivo e jovem e ansioso, avançando como um adolescente com o casaco do pai.

Camille pousou a taça sem provar.

À sua volta, a sala de pré-visualização do Leilão de Vinhos Finos Tilley continuava a zumbir. Quarenta colecionadores de lã boa e relógios melhores circulavam entre as mesas dos lotes, murmurando preços como outras pessoas murmuram orações. Lá fora, atrás das janelas altas, a neblina de Carmel apertava-se cinzenta contra o vidro.

— Senhorita Roux? — O diretor do leilão pairava junto ao seu cotovelo. Hugh Tilley era um homem gentil, com um negócio em declínio e a testa úmida. Ele a chamara naquela manhã porque todos os outros autenticadores da costa estavam ocupados, ou caros, ou as duas coisas. — Está tudo bem?

— Quem abriu esta garrafa?

— O consignante ofereceu. Para a degustação dos compradores. É muita generosidade. Três garrafas de quarenta e cinco, e ele abriu uma para que os compradores sérios pudessem…

— Quem é o consignante?

Os olhos de Hugh deslizaram pela sala.

Camille os seguiu, e o estômago dela gelou.

Augustin Beaumont estava perto da janela com uma taça de champanhe que não bebia. Usava um terno cinza-pomba e um lenço violeta no bolso, dobrado em três pontas certinhas. O cabelo prateado estava penteado para trás, sobre um rosto macio e agradável. Parecia um homem que fazia doações a bibliotecas.

Três anos antes, num salão de leilões em Napa, ele havia sorrido para ela exatamente assim enquanto a carreira dela morria diante de duzentas pessoas.

Ele ergueu a champanhe um dedo na direção dela. Um brinde. Uma velha piada entre os dois, da qual só um achava graça.

Camille pegou a taça de novo. A mão não tremeu. Ela se orgulhou disso.

Provou.

O vinho entrou doce e redondo, depois afinou no meio, como uma história com um capítulo faltando. O final foi curto. Curto demais. Um vinho tão velho devia se apagar devagar, uma despedida longa numa estação de trem. Este simplesmente foi embora. E por baixo da cereja, tênue como uma impressão digital, ela encontrou o que a deixou certa. Uma borda verde, de seiva. Carvalho novo. Madeira de barrica que guardara o seu primeiro vinho talvez doze anos antes.

Alguém tinha pegado um pouco de vinho velho genuíno, misturado com um bom vinho jovem e vestido o resultado com um nome famoso.

Ela engoliu, porque cuspir parecia deixá-lo vencer.

— Hugh — disse, baixinho —, preciso da sua lanterna.

Ele a trouxe. Uma pequena lanterna ultravioleta, dessas que toda casa de leilões tinha e poucos usavam. Camille virou as garrafas fechadas na sua direção e a acendeu.

Os rótulos brilharam. Pouco. Um tênue lampejo branco-azulado no papel, suave como luar sobre leite.

— Branqueadores de papel — disse. — Clareadores ópticos. As gráficas começaram a pôr isso no papel de rótulo anos depois da guerra. Este rótulo diz mil novecentos e quarenta e cinco. Foi impresso muito depois disso.

Passou o polegar pela base da cápsula de estanho. Ali. No fundo do aperto, na posição das seis horas, uma pequena crista dupla. Uma mordidinha, como marca de dente. Uma ferramenta moderna de recapsular, e das descuidadas.

— O vidro também está errado — continuou, porque, uma vez que a verdade começava, era mais fácil continuar servindo. — Está vendo a costura no gargalo? Feita à máquina. A Sauvelle ainda usava garrafas acabadas à mão até cinquenta e um. E esta rolha… — Ergueu do pires de prata a rolha já extraída. — Esta rolha tem dois milímetros a mais, e a marca é estampada, não queimada. Estas garrafas são falsas. Boas falsificações. Mas falsas.

A sala tinha se calado em volta da mesa dela. Ela não havia levantado a voz. Não precisara. Colecionadores farejavam um escândalo como ela farejava carvalho novo.

Augustin Beaumont atravessou a sala sem pressa.

— Senhorita Roux. — A voz era calorosa, quase afetuosa. — Que encanto. Soube que a senhorita anda servindo turistas no vale de Carmel. Que desperdício.

— Eu sirvo turistas — disse Camille. — Não minto para eles.

— A senhorita está cansada. Foi uma noite longa. — Ele se virou para Hugh Tilley com um dar de ombros pesaroso. — A senhorita Roux passou por uma experiência difícil em Napa. Todos sabem. Um magnum que ela certificou se revelou falso e, desde então, receio, ela vê fantasmas em cada taça.

Aí estava. A faca, pousada de lado sobre a mesa, diante de todos.

O rosto de Camille queimou. Ela manteve os olhos nos dele.

— Então teste — disse. — Mande uma garrafa para o laboratório que quiser. Datação por carbono no vinho. Análise de papel no rótulo. Eu mesma pago.

— Com o quê? — perguntou Beaumont, bondoso.

Algumas pessoas riram.

— Qual é a sua certeza?

A pergunta veio de trás dela. Uma voz de homem, baixa e firme, sem riso nenhum.

Camille se virou.

Ele estivera de pé ao fundo da sala, perto da chapelaria, a noite inteira. Ela o notara do jeito que notava uma nota estranha num vinho. Um homem alto de terno azul-marinho, sem gravata, cabelo escuro penteado para trás sobre um rosto magro. Segurava um catálogo numa das mãos e, na outra, óculos de leitura com armação dourada. Os olhos eram verde-acinzentados, da cor do oceano numa manhã fria, e fixaram-se nela com uma quietude que pesava.

Hugh Tilley empalideceu.

— Senhor Ferrante. Eu não sabia que o senhor estava aqui pessoalmente.

Então aquele era Lucien Ferrante. Camille ouvira o nome do jeito que todo mundo na Costa Central o ouvia. O dono do Saltworks, na orla de Monterey. O homem com a melhor adega particular entre São Francisco e Los Angeles.

Ele estava prestes a dar um lance no Lote 41. Ela via o número circulado no catálogo.

— Qual é a certeza? — Lucien Ferrante perguntou de novo.

— A suficiente para dizer com ele ali parado — respondeu Camille.

Algo se moveu no rosto dele. Não um sorriso. Mais como uma fechadura girando em algum ponto profundo de uma porta.

Ele fechou o catálogo.

— Hugh. Retiro o meu lance por procuração no Lote 41.

— Senhor Ferrante, por favor, o consignante…

— O consignante — disse Lucien, sem tirar os olhos de Camille — pode mandar as garrafas para um laboratório. Eu teria muito interesse nos resultados.

O sorriso de Beaumont não se mexeu. Só os olhos mudaram. Ficaram opacos e pacientes, como água num poço fundo.

— Retire o lote, Hugh — disse. — Eu não gostaria que a senhorita Roux passasse por mais constrangimento.

Pegou ele mesmo as duas garrafas fechadas, uma em cada mão, como se fossem crianças que levava para casa depois de uma festa ruim. Ao passar por Camille, inclinou-se perto o bastante para ela sentir o cheiro das pastilhas de violeta no seu hálito.

— A senhorita devia ter ficado com os turistas, minha querida — murmurou. — Eles perdoam.

Então ele se foi, e a sala voltou a respirar, e quarenta colecionadores olharam para Camille Roux como se ela tivesse acabado de pôr fogo no próprio cabelo.

Ela saiu pela porta de serviço porque não queria atravessar o saguão com todos os olhos nas costas.

A neblina tinha entrado por completo. Engolira o jardim do hotel e o estacionamento atrás dele, transformando cada luz numa bola amarela e macia. O carro dela estava no fundo, depois das caçambas da cozinha e de uma fileira de vans de bufê. Um velho hatch azul com um amassado na porta traseira. Parecia muito sozinho ali.

Tinha as chaves na mão direita e, no bolso esquerdo, o saca-rolhas de garçom, por hábito. Um saca-rolhas de sommelier, dobrável, com cabo de chifre gasto até ficar liso e uma pequena lâmina serrilhada para cortar o estanho. A mãe lhe dera aos vinte e um anos, com C.R. gravado no aço.

Estava a dez passos do carro quando dois homens saíram da neblina.

Não correram. Era a pior parte. Vieram na direção dela como homens mandados buscar algo pesado. Um tinha a cabeça raspada e uma jaqueta de chuva preta. O outro era menor e mais ágil, com um cigarro escondido na concha da mão.

— Senhorita Roux — disse o careca. — O senhor Beaumont gostaria de uma palavrinha sobre as suas maneiras.

— Ele pode me mandar um e-mail.

— Ele prefere pessoalmente.

Camille recuou. O calcanhar bateu no meio-fio. O mais baixo se deslocou para a esquerda, cortando o caminho dela até a porta do hotel.

Ela abriu o saca-rolhas com o polegar. A lâmina tinha pouco mais de cinco centímetros. Era feita para estanho, não para gente. Mas pegou a luz, e o homem menor hesitou.

— Fofinho — disse ele.

— Chegue mais perto — disse Camille — e descubra o quanto.

Ele riu e avançou.

Ela cortou na direção do pulso dele e sentiu a lâmina pegar no tecido, depois na pele. Ele xingou e agarrou o braço dela. O careca tentou alcançá-la do outro lado, e Camille cravou as chaves no antebraço dele, e por um segundo louco achou que talvez conseguisse mesmo chegar ao carro.

Então uma mão se fechou em volta do cotovelo dela, forte e segura, e a puxou para trás.

Não para perto dos homens. Para longe deles.

— Atrás de mim — disse uma voz. Calma. Grave. Sem pressa, como a de alguém falando do tempo.

Uma forma muito grande se interpôs entre ela e os dois homens. Ombros largos sob um pesado suéter de lã. Cabelo cor de areia, úmido de neblina. Ele não ergueu os punhos. Só ficou ali, e o careca parou como se tivesse dado de cara numa parede.

— Vá para casa, Kenny — disse o homem grande.

— Isto não é da sua conta, Vesey.

— Você está na minha neblina — disse o homem grande. — Isso torna da minha conta.

O menor veio para cima dele assim mesmo. O homem grande se mexeu uma vez. Camille mal viu. Houve um baque, um grunhido, e o homem menor estava sentado no asfalto molhado, segurando o estômago e tentando lembrar como se respirava.

O careca levou a mão ao interior da jaqueta.

Uma assadeira cantou no ar e o atingiu na nuca com um som de sino de igreja.

Ele caiu sobre um joelho. Atrás dele estava um homem de dólmã branca manchada, mangas arregaçadas sobre antebraços tatuados, cabelo escuro e cacheado escapando de um coque na nuca. Segurava a assadeira como uma raquete de tênis e parecia encantado consigo mesmo.

— Desculpe — disse o chef. — Achei que fosse um guaxinim. Aqui aparecem uns bem grandes.

O careca se levantou cambaleando, olhou para os três e tomou uma decisão rápida. Puxou o amigo pela gola, e os dois sumiram na neblina pelo mesmo caminho por onde vieram. Pouco depois, um motor pegou em algum lugar além das vans e se perdeu ao longe.

Camille percebeu que ainda segurava o saca-rolhas esticado à frente. O braço agora tremia. Pelo visto estivera esperando até ser seguro.

— Pode largar isso — disse o homem grande, com delicadeza. — Ou ficar com ele. A escolha é sua. A senhorita o usou bem.

Ela o olhou direito. Olhos cinza-mar. Uma barba curta, dourada e castanha. Uma pequena cicatriz clara no lado esquerdo do queixo, curva como um anzol. Ele cheirava a diesel, sal e ar frio da noite.

— Quem são vocês? — perguntou.

— Idris Vesey. — Ele inclinou a cabeça na direção do chef. — Aquele é o Corin. Não incentive.

— Corin Maddox — disse o chef, estendendo a mão livre. Tinha uma cicatriz de queimadura brilhante nas costas, pálida contra a pele azeitonada. — Eu estava cozinhando o jantar de gala aqui ao lado. Linguado. Estava muito bom. A senhorita perdeu.

— Eu estava ocupada — disse Camille, fraca.

— Ficamos sabendo. — O sorriso de Corin era torto e encantado. Um pequeno aro de ouro reluziu na orelha esquerda. — A cozinha inteira ficou sabendo. Um garçom entrou correndo e disse que uma mulher acabara de chamar Augustin Beaumont de mentiroso na cara dele, na frente de metade do dinheiro do condado de Monterey.

Faróis cortaram a neblina. Um carro preto e comprido deslizou até o meio-fio e parou. O vidro de trás desceu.

Lucien Ferrante olhou para ela. Havia guardado os óculos de leitura.

— Senhorita Roux — disse. — A senhorita acaba de custar trezentos mil dólares a um homem muito perigoso. Ele trabalha para outro pior. Um homem de Chicago chamado Darrow Pryor, que não perdoa ninguém, por coisa nenhuma. — Fez uma pausa. — Gostaria de contratá-la antes que um dos dois decida quanto isso vai lhe custar.

Camille fechou o saca-rolhas e o guardou no bolso. O coração ainda martelava.

— Me contratar para fazer o quê?

— Venha ver.

— Não entro em carro de homem estranho.

— Muito sensato. — Ele não discutiu. Olhou além dela, para o hatch azul e solitário. — Dirija o seu próprio carro, então. Idris irá com a senhorita, se permitir. Se não, ele seguirá a pé, e é mais rápido do que parece.

Ela olhou para Idris. Ele ergueu um ombro enorme, como quem diz ele não está errado.

Pensou no apartamento acima da lavanderia, em Seaside. A porta fina. A janela que não trancava. Kenny e o amigo, que sabiam o nome dela e provavelmente sabiam o endereço também.

— Tudo bem — disse. — Mas eu dirijo, e eu escolho a música.

O Saltworks fora uma fábrica de conserva de sardinha.

Ficava no fim da orla, onde as velhas conserveiras se acabavam, um prédio comprido de tábuas cinzentas desgastadas e janelas altas, metade dele sobre estacas, em cima da água negra. Camille passara por ali de carro uma centena de vezes. Gente como ela não entrava. Não havia placa na porta, só um número de latão e um homem de casaco escuro que se afastou ao ver Idris.

Lá dentro era quente, penumbroso, e cheirava a fumaça de lenha e pão. Um longo balcão de sequoia polida. Um salão de jantar cheio de vozes baixas e luz de velas, com janelas que davam direto para a baía. Corin sumiu por uma porta vaivém, no que ela imaginou ser a cozinha dele, gritando por cima do ombro: “Não comecem sem mim.”

Lucien a conduziu além do balcão até uma pesada porta de aço nos fundos. Pressionou o polegar num painel. A fechadura estalou.

Escadas de pedra desciam. O ar esfriava a cada degrau. Camille o sentiu nos braços nus, o frio profundo e constante de que o vinho gostava. Doze graus. Talvez treze. Umidade em torno de setenta por cento.

Embaixo, Lucien tocou num interruptor.

As luzes se acenderam, fileira após fileira após fileira, correndo para longe, no escuro.

Camille parou de respirar.

A adega se estendia por todo o comprimento da conserveira, sob o piso e para além, sob as estacas. Prateleiras de carvalho escuro subiam do chão de pedra até o teto de tijolo em arco, e todas estavam cheias. Garrafas deitadas de lado, milhares delas, com as bases reluzindo como os olhos de uma plateia à espera num teatro. Ela ouvia o leve sopro do sistema de climatização e, em algum lugar muito longe, o mar se movendo contra as velhas vigas.

— Quatro mil cento e doze garrafas — disse Lucien baixinho, ao lado dela. — Vinte e dois anos de coleção.

— É lindo.

— Está envenenado.

Ela se virou para olhá-lo. Na luz da adega, o rosto dele era só linhas limpas e sombras. Ele não olhava para as prateleiras. Olhava para ela.

— Nos últimos dois anos, comprei trezentas e seis garrafas por intermédio de Augustin Beaumont — disse. — Confiei na papelada. Confiei no meu próprio paladar. Esta noite, vi a senhorita encontrar em cinco minutos o que eu não consegui em dois anos. — Respirou fundo. — Alguém ensinou a minha adega a mentir, senhorita Roux. Quero que a senhorita encontre cada mentira que há nela.

Quatro Mil Pequenas Mentiras

Lucien

Ela não respondeu de imediato, e Lucien Ferrante gostou mais dela por isso.

A maioria das pessoas respondia rápido demais. Diziam sim antes de ele terminar a frase, porque queriam o dinheiro dele, ou não antes de ele começar, porque temiam os motivos dele. Camille Roux não fez nem uma coisa nem outra. Afastou-se dele pelo corredor central da adega, devagar, do jeito que um médico entra numa enfermaria.

Ele a deixou ir.

Ela parou na primeira prateleira e não tocou em nada. Simplesmente olhou. O cabelo preto era cortado reto na altura do queixo, e ela prendeu um lado atrás da orelha ao se curvar para ler o rótulo de um gargalo.

— Estes são os Borgonhas — disse, sem se virar. — Os melhores estão na altura do ombro, onde o senhor não precisa se abaixar. Mantém os vinhos jovens embaixo e os velhos nas prateleiras do meio, longe da porta, porque a porta deixa entrar ar quente quando abre. — Ela olhou para ele por cima do ombro. — O senhor mesmo organizou isso.

— Sim.

— Organizou como alguém que ama.

Ele não soube o que responder, então não disse nada.

Ela seguiu adiante. No fim do corredor, onde a adega virava sob as velhas estacas e o som do mar ficava mais alto, parou de novo. A mão pairou sobre uma fileira de garrafas altas e escuras. Então, com muita delicadeza, puxou uma alguns centímetros e virou a cápsula para a luz. O polegar encontrou a base do aperto.

Ele a viu apertar a boca.

— Quantas destas o senhor comprou dele? — perguntou.

— Doze.

— Então tem pelo menos mais uma falsa bem aqui. — Ela a devolveu ao lugar com enorme ternura, como se a garrafa não tivesse feito nada de errado e fosse apenas uma vítima. — A mesma mordida na posição das seis. A mesma ferramenta.

Lucien sentiu como uma mão se fechando em torno da garganta. Não medo. Algo pior. Vinte e dois anos de paciência, de comprar devagar e com cuidado, de ser o único homem naquela costa que não podia ser enganado. E uma mulher de vestido preto de segunda mão acabara de entrar na adega dele e encontrar a podridão em menos de três minutos.

Devia tê-la odiado por isso.

Queria vê-la fazer de novo.

— Diga o que a senhorita precisa — disse ele.

Conversaram na pequena sala de degustação nos fundos da adega, onde uma única mesa comprida de nogueira negra ficava sob uma luminária pendente. Corin mandara descer pão, uma cunha de queijo curado e uma tigela de azeitonas pequenas e amargas, com um bilhete na letra péssima dele que dizia COMA, VOCÊ AGORA ESTÁ NO MEU RELÓGIO. Camille leu e quase sorriu.

Lucien expôs tudo com clareza, porque suspeitava que ela perceberia se ele não o fizesse.

Augustin Beaumont não era corretor de vinhos. Era uma lavanderia. Darrow Pryor mandava dinheiro sujo de Chicago para o oeste. Beaumont o transformava em garrafas raras, verdadeiras e falsas, e as vendia a homens ricos de cima a baixo da costa. Os homens ricos pagavam dinheiro limpo pelas garrafas. O dinheiro limpo voltava para o leste.

— E o senhor comprou trezentas garrafas dele — disse Camille.

— Trezentas e seis. Antes de saber de quem ele era.

— E depois?

Ele encontrou os olhos dela.

— Depois, continuei comprando. Devagar. Para aprender como ele trabalhava. — Deixou um pequeno silêncio assentar. — Não sou um homem bom, senhorita Roux. Movimento dinheiro para gente que prefere não ser vista. Construí este lugar para que os que mandam nesta costa tivessem onde fechar seus negócios, e eu ouvisse cada palavra. Mas não vendo falsificações. E não gosto de ser usado como máquina de lavar.

Ela o estudou por um longo momento. Ele permitiu. Já fora estudado por banqueiros, juízes e homens armados, e nenhum deles o olhara como ela. Não para o rosto. Através dele. Como se ele fosse um copo erguido contra a luz, e ela lesse a cor da sua borda.

— Por que agora? — perguntou.

— Porque em nove dias o Saltworks sedia o Leilão dos Fundadores. Todo ano, para caridade. Sessenta das minhas melhores garrafas vão a lance, e os compradores vêm de Hong Kong, de Zurique e de Dallas. Se uma única falsificação de Beaumont estiver nesse leilão, ela é vendida com o meu nome. O meu nome a torna limpa. E o dinheiro vai para Darrow Pryor. — Ele girou lentamente o copo de água sobre a mesa. — Há gente federal vigiando Pryor agora. Vigiando todos que o tocam. Se o dinheiro dele passar pelo meu leilão, torno-me sócio dele aos olhos deles. Prefiro não passar os próximos vinte anos numa prisão federal.

— Então o senhor precisa de alguém que limpe a sua adega antes de sábado da semana que vem.

— Preciso de alguém que limpe a minha adega — disse Lucien — e que ponha o nome no catálogo dos Fundadores como autenticadora independente. As regras exigem uma. Beaumont verá o seu nome ali. Todos verão.

Ela ficou muito imóvel.

— Ele vai saber que trabalho para o senhor.

— Já sabe. Soube no instante em que a senhorita entrou no carro com Idris. — Lucien se inclinou para a frente. — Não vou mentir. Estar neste prédio faz da senhorita um alvo. Não estar neste prédio também faz, e mais solitário. Aqui somos três, uma porta de aço e muita água entre a senhorita e a estrada.

— Há outros homens nesta costa que querem Darrow Pryor sangrando — disse Camille. — Por que não procurar esses?

— Já procurei. — Ele pensou numa casa de vidro num penhasco, sessenta e cinco quilômetros ao sul, e num homem de olhos pálidos que certa vez lhe comprara uma empresa de transporte marítimo em onze minutos, sem piscar. — Três homens em Big Sur. Caçam Pryor à maneira deles. Já fiz negócios com eles. Não os recomendaria.

Ela pegou uma azeitona da tigela. Comeu. Pôs o caroço com capricho na borda do prato. Ele se viu olhando a boca dela e se obrigou a parar.

— Meus termos — disse ela.

— Diga.

— O dobro da minha tarifa normal. Por escrito. Paga semanalmente, não no fim. — Ergueu um dedo, depois outro. — Meu nome não vai em nada que eu não tenha testado pessoalmente. Se eu disser que uma garrafa é falsa, ela sai do leilão, não importa de quem seja nem quanto custe ao senhor. Minha mãe mora sozinha em Pacific Grove. Se Beaumont sabe onde eu moro, sabe onde ela mora. Quero alguém vigiando a casa dela esta noite.

— Feito. Idris mandará um homem.

— Trabalho sozinha na adega, a menos que eu peça companhia. Ninguém desce enquanto eu estiver degustando sem me avisar antes. — Fez uma pausa. — E preciso de duas palavras.

Ele esperou.

— Se eu disser decantar, significa me dê ar. Recue. Vá mais devagar. O que quer que esteja acontecendo está perto demais ou rápido demais, e preciso de espaço para respirar. — Os olhos dela sustentaram os dele. — Se eu disser rolhado, significa pare. Tudo para. Trabalho, conversa, toque, tudo. Nenhuma pergunta até eu estar pronta.

— Decantar e rolhado — repetiu ele.

— O senhor acha bobagem.

— Acho a coisa mais sensata que alguém me disse este ano. — Falava sério. — Diga qualquer uma das duas a qualquer um de nós, e será obedecida. A senhorita tem a minha promessa.

— A sua promessa — disse ela — é uma garrafa caríssima que ainda não provei.

— Então prove — disse Lucien. — E me diga se é verdadeira.

O olhar que ela lhe lançou então atravessou o peito dele e se alojou em algum lugar baixo e quente. Não era confiança. Nem de longe. Era interesse. Afiado, cuidadoso, profissional, o mesmo olhar que ela dera ao Sauvelle antes de arruiná-lo.

Já o tinham olhado com desejo. Já o tinham olhado com medo. Ninguém jamais o olhara como se ele valesse a pena ser testado.

Ela trabalhou até quase duas da manhã.

Ele disse a si mesmo que ficara na adega porque era a adega dele e o problema dele. Sentou-se na ponta da sala de degustação com uma pilha de registros de compra e uma caneta, e não leu uma única página. Observou-a.

Ela se movia pelas prateleiras com uma pequena maleta de couro aberta sobre um carrinho ao lado. Lanterna ultravioleta. Lupa de joalheiro. Uma sonda fina para medir o nível do líquido em garrafas antigas. Um caderno de capa preta macia em que escrevia depressa e miúdo, da esquerda para a direita e depois nas margens, pequenas setas ligando uma garrafa a outra.

Não abriu nada. Ainda não. Leu primeiro o vidro, os rótulos, as rolhas pelo gargalo onde dava para vê-las, a poeira. Não explicou nada, e ele não perguntou. Uma vez, segurou uma garrafa contra a bochecha por dez segundos inteiros, de olhos fechados, e ele não fazia ideia do porquê, e foi a coisa mais erótica que viu em toda a vida.

À meia-noite, Idris desceu a escada e parou no último degrau.

— Posso entrar? — disse. Não a Lucien. A ela.

Camille ergueu os olhos da lupa. Algo no rosto dela se suavizou.

— Obrigada por perguntar.

— São as suas regras. — Idris atravessou até a sala de degustação e pousou uma garrafa térmica de café na mesa, ao lado dos papéis intocados de Lucien. Olhou para eles, depois para Lucien, e um canto da boca se ergueu sob a barba.

— A mãe dela? — perguntou Lucien, baixinho.

— O Rocco está estacionado do outro lado da rua. Luzes apagadas. A velhinha dorme. Ninguém por perto.

— Bom.

Idris se acomodou na cadeira em frente e esticou as pernas longas. Ficou observando Camille trabalhar por um tempo, sem falar. Isso era Idris. Podia ficar sentado num barco na neblina durante seis horas sem sentir uma só vez a necessidade de preencher o silêncio.

— Ela achou onze até agora — disse Lucien, por fim.

— Onze o quê?

— Mentiras.

Idris ficou quieto. Depois:

— E quantas você achou? Em dois anos?

— Nenhuma.

— Hum — fez Idris, e isso carregava um mundo de significados.

Corin chegou à meia-noite e meia com uma bandeja, anunciando-se do meio da escada com uma voz alta e alegre.

— Entrando, entrando, não me esfaqueie, trouxe sopa.

Pousou uma tigela de algo dourado e perfumado na ponta do carrinho de Camille, bem longe das garrafas dela, e então se apoiou na prateleira ao lado como um menino debruçado numa cerca para ver uma garota montar um cavalo.

— O que você está fazendo? — perguntou.

— Trabalhando — disse Camille.

— Que garrafa é essa?

— Uma mentira.

— Como sabe?

Ela ergueu a garrafa à luz, entre os dois.

— O nível. Olhe. O vinho chega até o alto do gargalo. Uma garrafa tão velha devia ter perdido um pouco para a rolha em sessenta anos. Devia ter ombros, um pouco de espaço vazio. Esta está cheia até o topo como se tivesse sido envasada na primavera passada. — Recolocou-a. — Alguém completou. Com alguma coisa.

Corin ficou olhando para ela. Depois se virou e olhou para Lucien e Idris com uma expressão de alegria pura e desamparada. Articulou, sem som: Case com ela.

Lucien desviou o rosto para que ela não o visse.

Os três nunca tinham desejado a mesma mulher. Haviam compartilhado todo o resto. Uma conserveira falida que ninguém mais compraria. Dívidas. Brigas. Quinze invernos construindo aquele lugar do nada e da própria teimosia. Corin viera até eles saindo da prisão aos vinte e um anos, com as mãos queimadas e uma boca que não se calava. Idris saíra do mar sem nada além do barco e do silêncio. Lucien trouxera o dinheiro, os planos e a cabeça fria. Funcionavam porque cada um era bom em algo que os outros não eram. Sempre presumiram que era aí que terminava.

Ele a viu rir, baixinho, de alguma coisa que Corin disse. Viu Idris vê-la rir.

Esta noite não, pensou Lucien. Não com ela assustada e cansada e nove dias de trabalho pela frente. Não enquanto estava sob o teto dele porque ele lhe dissera que era o único lugar seguro.

Mas olhou para os dois amigos mais antigos, e eles olharam de volta, e ninguém disse nada, e isso lhe disse tudo.

Às duas menos dez, o celular de Camille vibrou na mesa de degustação.

Ela enfim parara para a sopa. Estava sentada diante de Lucien, de sapatos tirados e os pés de meia dobrados sob o corpo na cadeira, o caderno preto aberto ao lado da tigela. Olhou a tela sem interesse.

Então parou de se mexer.

Lucien viu a cor deixar o rosto dela de uma só vez, como o vinho escorrendo de um copo quebrado.

— Camille.

Ela virou o celular sem uma palavra.

Era uma fotografia. Uma casinha azul numa rua tranquila, um limoeiro junto ao portão, uma varanda com duas cadeiras de vime. A luz da varanda estava acesa. Pela janela da frente, via-se a forma escura de um piano vertical. A imagem era nítida e recente. Tirada do outro lado da rua. Tirada de algum lugar muito perto de onde o carro de Rocco deveria estar.

Embaixo, uma mensagem.

Retire o que disse esta noite. Publicamente. Até sábado. Ou o piano se cala.

Idris já estava de pé. Não perguntou nada. Tirou o celular do bolso, apertou um só número e ficou escutando. Lucien observou o rosto dele. Continuou calmo. Sempre continuava calmo. Mas o maxilar endureceu sob a barba.

— O Rocco não atende — disse.

Já vestia o casaco antes de terminar a frase. As chaves estavam na mão.

Camille se levantou tão depressa que a cadeira arranhou a pedra. Estava de meias. Parecia não perceber.

— Eu vou com você — disse.

Espere — Idris Vesey já está pegando as chaves. Alguém esteve parado diante da casa da mãe dela.

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