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A Voz Sob os Números — romance militar grátisGrátis · Exclusiva

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A Voz Sob os Números

Numa banda de rádio morta, uma mulher cativa conta os dias. Lida é a única que a ouviu, e três guardiões jamais deveriam tocá-la.

  • Harém Reverso
  • Proximidade Forçada
  • Heróis Protetores
  • Regras Proibidas
  • Corrida Contra o Tempo

🌶️🌶️🌶️🌶️ Cerca de 67 min de leitura · 15.473 palavras

A operadora de rádio Lida Brandvold está terminando uma rotação de inverno num posto de escuta enterrado quando a voz de uma desconhecida atravessa a estática: uma cativa, contando os dias. Lida faz o relatório. Na noite seguinte, alguém sobe a montanha para apagar todos os que ouviram.

Dia Nove numa Banda Morta

Lida

A banda estava morta havia trinta e um anos, e às três e dez da manhã ela começou a respirar.

Lida Brandvold ouviu antes de a agulha se mexer. Um chiado suave, como um fôlego contido que se solta devagar. Ela se empertigou na cadeira giratória tão depressa que os fones escorregaram de lado, e os segurou com as duas mãos, apertando-os contra as orelhas.

Ninguém usava aquela frequência. Fora um canal naval soviético um dia, quando a estação tinha outro nome e cem homens em vez de quatro pessoas. Agora estava na lista dela só porque a lista era velha e ninguém se dera ao trabalho de encurtá-la. Ela a varria toda noite por hábito. Toda noite, durante oito semanas, ela não lhe dera nada.

Naquela noite, deu-lhe uma voz de homem.

Ele falava russo. Monótono, entediado, cuidadoso. Lia números em grupos de cinco, do jeito que a avó dela lia os resultados da loteria no rádio da cozinha, em Spokane, com um cigarro e um suspiro entre cada um.

Три. Ноль. Семь. Один. Девять.

Três. Zero. Sete. Um. Nove.

Lida tirou o lápis de trás da orelha e anotou os números no caderno verde sem olhar para a página. A mão dela conhecia o serviço. A mente estava ocupada com outra coisa. Por baixo da voz do homem, bem fraco, ela ouvia um cômodo. Um pingo de água. Uma buzina longa e grave em algum lugar distante, duas notas, a segunda um pouco desafinada.

Então o homem parou, e uma mulher começou a ler.

A voz dela era rouca. Inglês americano, instruído. Ela leu uma lista de palavras que não faziam sentido juntas, devagar, como alguém lendo em voz alta um cardápio estrangeiro. Tonelagem. O nome de um navio. Um porto. Carga retida no cais. Transferência pendente. Segundo manifesto anexado. Cada linha saía mais limpa que a anterior, como se ela tivesse decidido que, se era obrigada a fazer aquilo, ao menos faria bem-feito.

Lida parou de escrever.

A mulher terminou a lista. Houve uma pausa, o arranhar de uma cadeira, um homem dizendo algo em russo, longe demais do microfone para ela entender. E então, muito depressa, numa voz que não estava lendo coisa alguma, a mulher disse:

— Dia nove.

A banda morreu de novo.

Lida ficou sentada no escuro zumbidor da sala de escuta, com o lápis congelado acima da página. O gravador de rolo ao seu lado ainda girava. Sempre girava. A Cinder Nine gravava tudo o que cruzava seus ouvidos, porque os homens que a tinham construído em 1961 não confiavam na memória de ninguém, e as pessoas que a mantinham agora não tinham mudado de ideia.

Ela rebobinou a fita com a mão trêmula. Ouviu de novo.

Dia nove.

Não era código. Não era um número num grupo de cinco. Era uma mulher dizendo a quem quer que pudesse estar ouvindo há quanto tempo estava num lugar onde não queria estar.

Lida tirou os fones. O silêncio da estação apertou ao redor. Doze metros de rocha por cima dela. Uma torre de vigia contra incêndios no alto da rocha, vazia no inverno, fechada com venezianas contra a neve. Embaixo, o velho posto de escuta: o longo corredor de concreto, os quatro quartos de beliche, a cozinha que sempre cheirava a café e óleo de arma. E em algum lugar daquele corredor, três homens que tinham deixado muito claro, oito semanas antes, que a operadora não saía da ala dela depois da meia-noite.

Ela saiu da ala depois da meia-noite.

O corredor estava gelado. Ela esquecera as botas, e o concreto mordia através das meias de lã. Segurava a cópia em cassete no punho. A estação fazia uma para cada interceptação sinalizada, para o mensageiro que vinha duas vezes por mês, e ela tinha duplicado aquela tão depressa que quase arrebentara a fita.

A regra era simples, e estava pintada na parte de dentro da porta da cozinha, em letras maiúsculas pretas. Ela a lera no primeiro dia.

OPERADORA PERMANECE NA ALA DE OPERAÇÕES APÓS 0000. GUARDIÕES NÃO ENTRAM NA ALA DE OPERAÇÕES SEM MOTIVO. GUARDIÕES NÃO TOCAM A CONTRATADA.

Embaixo, menor, pela mesma mão: Sem exceções. — T.W.

Ela estava na Cinder Nine havia cinquenta e seis dias. Em cinquenta e seis dias, nenhum guardião a tocara. Mal falavam com ela. Acenavam com a cabeça na cozinha. Acompanhavam-na até a ala de operações na troca de turno como se ela fosse uma caixa de algo frágil. Um deles cozinhava, e a comida era boa, e ele nunca se sentava para comer com ela.

Dobrou a esquina para a ala dos guardiões e deu de cara com uma parede.

A parede era quente. Vestia uma camiseta térmica preta e cheirava a sabonete e ar frio, e a segurou pelos dois cotovelos antes que ela quicasse para trás.

Então a soltou, rápido, como se ela o tivesse queimado.

— Operadora.

Torin Wilde olhou para baixo, para ela. Era um homem grande, largo de peito e de ombros, com fios grisalhos surgindo nas têmporas e olhos castanho-escuros que não piscavam o bastante. Uma cicatriz pálida e brilhante cobria o dorso da mão esquerda, tecido de queimadura antiga que repuxava quando ele fechava o punho. Ele estava fechando o punho agora. Tinha uma pistola no quadril, mesmo às três da manhã, mesmo de meias.

— Passou da meia-noite — disse ele.

— Eu sei que horas são.

— Então você sabe onde devia estar.

— Eu ouvi uma coisa. — Ela ergueu o cassete. A mão não estava muito firme, e ela viu que ele notou. — Na velha banda naval. Tem uma mulher nela. Está sendo mantida em algum lugar. Ela disse que dia era.

Ele não pegou a fita. Não se mexeu. Só olhou para o rosto dela por um longo momento, do jeito que ela o vira olhar para a neve, das escadas da torre de vigia, procurando rastros.

— Diga de novo. Devagar.

Ela disse de novo. O homem dos números. A mulher da lista. A buzina por baixo do ruído. As duas palavras no fim, tão rápidas que quase foram engolidas.

Quando ela terminou, Torin virou a cabeça e falou corredor adentro sem levantar a voz.

— Lorcan. Tunde. Cozinha.

Duas portas se abriram ao mesmo tempo.

Lorcan Fitch chegou primeiro, puxando um suéter por cima da cabeça, o cabelo ruivo arrepiado de um lado. Era o mais novo dos três, magro e rápido, com olhos verdes e afiados e um dente da frente lascado que aparecia quando ele sorria, o que acontecia quase sempre que estava sendo desagradável. Usava um único fone de ouvido a qualquer hora, até dormindo, ela suspeitava. Era o guardião de comunicações da estação. Em oito semanas, a frase mais longa que dissera a ela fora sobre a maneira correta de registrar uma troca de frequência.

— Se for por causa dos filtros de café — disse ele —, eu já falei, acabaram.

— Não é por causa dos filtros de café.

Tunde Okoye entrou atrás dele e precisou abaixar a cabeça sob o batente. Era o homem mais alto ao lado de quem Lida já ficara, de pele escura, a cabeça raspada e lisa, com rugas de riso nos olhos que nunca sumiam de todo, mesmo quando o rosto estava sério. Deu uma olhada nos pés descalços dela e foi direto para o fogão.

— Sente — disse a ela. Sem aspereza. Apenas certo. — Você está azul.

Ela sentou. Torin ficou de pé. Lorcan pegou o cassete da mão dela, virou-o e franziu a testa para a etiqueta que ela rabiscara: 0310. Banda naval. Mulher.

— A banda naval está morta — disse ele.

— Esta noite não estava.

Ele enfiou o cassete no velho toca-fitas sobre a bancada, o que usavam para conferir as cópias do mensageiro, e apertou o play. A cozinha se encheu de chiado. Depois a voz do homem. Os números.

Lida observou os rostos deles. O de Torin não mudou. Tunde, junto ao fogão, ficou imóvel com a chaleira na mão. A boca de Lorcan ficou reta e dura quando a mulher começou a ler.

Carga retida no cais. Transferência pendente.

— Isso é uma tradução — disse Lorcan baixinho. — Estão fazendo ela traduzir no ar. Prova de produto. Mostrando a um comprador que ela funciona.

Dia nove.

Silêncio.

Tunde pousou a chaleira com muito cuidado, como se ela pudesse quebrar.

— Toque o final de novo — disse Torin.

Lorcan tocou. As duas palavras. O clique. O ar morto.

— Ela sabia que estava sendo transmitido — disse Tunde. A voz dele era grave e quente, com um pouco de Houston ainda dentro. — Sabia que alguém podia ouvir. Arriscou.

— Ou é isca — disse Lorcan.

— Isca pra quem? — disse Lida. — Ninguém escuta aquela banda. Ninguém além de mim.

Lorcan abriu a boca. Fechou. Olhou para ela como se a visse pela primeira vez, e ela não gostou de quanto gostou daquilo.

— Os números — disse Torin. — Você anotou?

Ela abriu o caderno verde e o virou para ele. Cinco fileiras de cinco. Embaixo, na taquigrafia dela, as coisas que ouvira por baixo das vozes. Pingo de água. Buzina, duas notas, a segunda desafinada. Cadeira. Concreto?

Ele estudou a página. Não a tocou. Ela também notou isso. Ele esticou a mão para o caderno e parou a mão a dois centímetros, e então a pousou espalmada sobre a mesa.

— Você ouve tudo isso — disse ele. — Por baixo de uma voz. Através de trinta anos de estática.

— É o meu trabalho.

— O seu trabalho é registrar e enviar. — Ele se endireitou. — Então enviamos. Relatório completo de interceptação, marcado como urgente, cadeia acima esta noite. Lorcan, criptografe e mande na janela da manhã. A cópia do mensageiro vai para o cofre.

— Só isso? — disse Lida.

Torin olhou para ela.

— O que você queria?

Ela não sabia. Queria que alguém subisse numa caminhonete. Queria que alguém descesse a montanha e encontrasse um cômodo com um cano pingando e uma buzina desafinada lá fora e abrisse a porta. Queria que a mulher parasse de contar.

— Quero saber que alguém vai fazer alguma coisa — disse ela.

— Alguém vai — disse Torin. — Não nós. Nós mantemos este posto. Não saímos dele. Não vamos procurar. Esse é o serviço.

Tunde pôs uma caneca de chá na frente dela. Chá preto, doce demais, com leite, do jeito que a avó dela fazia. Ela nunca lhe dissera como tomava o chá. Envolveu a caneca com as mãos geladas e ergueu os olhos, e ele lhe deu o menor dos sorrisos.

— Você fez bem em nos acordar — disse ele.

— Eu quebrei a regra.

— Você tinha motivo — disse Torin. E então, depois de uma pausa, numa voz um pouco mais áspera: — Volte para a sua ala, Operadora. Tranque a porta. Durma um pouco.

Ela se levantou. Na porta da cozinha parou, porque a regra estava ali, pintada à altura dos olhos. GUARDIÕES NÃO TOCAM A CONTRATADA. Pensou nas mãos dele nos cotovelos dela no corredor escuro, quentes e rápidas e depois ausentes.

— Ela disse dia nove — disse Lida, sem se virar. — Isso quer dizer que houve oito antes. Isso quer dizer que amanhã é o dez.

Ninguém respondeu.

Ela voltou sozinha pelo corredor gelado. Mas ouviu passos atrás, lentos e pesados, mantendo exatamente três metros e meio de distância. Pararam na porta da ala de operações. Esperaram até ela girar a tranca.

Então se afastaram.

Ela ficou deitada no beliche estreito com os olhos abertos até as seis, e toda vez que começava a pegar no sono ouvia de novo. A voz rouca. O arranhar da cadeira. A buzina desafinada.

Dia nove.

A Regra em Letras Maiúsculas

Torin

Ao amanhecer, Torin subiu as escadas de ferro até a torre de vigia e escreveu a noite em letras maiúsculas.

DIA 57. 0310. INTERCEPTAÇÃO SEM TAREFA, VELHA BANDA NAVAL. VOZ MASCULINA, RUSSO, GRUPOS DE CINCO DÍGITOS. VOZ FEMININA, INGLÊS, TRADUÇÃO. FEMININA DECLARA “DIA NOVE”. RELATÓRIO ENVIADO NA JANELA DAS 0600. CÓPIA DO MENSAGEIRO GUARDADA.

Ficou algum tempo olhando para a última linha. Depois acrescentou mais uma, menor.

OPERADORA FORA DA ALA 0318. MOTIVO ACEITO.

O livro de registro era mais velho que a regra da porta da cozinha. A capa de lona estava macia como pano e manchada num canto, onde o café derramara numa ventania, três invernos atrás. Ele escrevera nele todos os dias em que mantivera um posto, cinco postos em onze anos, e a letra nunca mudara. Maiúsculas eram mais difíceis de ler errado. Maiúsculas não deixavam espaço para o que um homem quisera dizer em vez do que fizera.

Abaixo dele, a cordilheira Wallowa se estendia branca e azul até a borda do mundo. O vento descia do cume em empurrões longos e regulares e sacudia as venezianas. Nada se movia nas encostas. Nenhum rastro na velha estrada florestal, a não ser os que o trator de neve do mensageiro deixara nove dias atrás, meio cobertos agora e moles nas bordas.

Ele observou a estrada. Pensou em pés descalços no concreto.

Esse era o problema.

Torin fechou o livro de registro e pousou a mão cicatrizada, espalmada, sobre a capa. A queimadura viera de um incêndio de caminhão numa estrada de montanha em outro país, muito tempo atrás, e já não doía. O que ainda doía viera depois, num posto no norte, onde um guardião chamado Haldane se apaixonara por uma analista chamada Anneke. Torin era o chefe. Vira acontecer e dissera a si mesmo que não era da sua conta o que dois adultos faziam no tempo livre.

Então, numa noite, Haldane estava no quarto de Anneke em vez de nos monitores, e os monitores mostraram quatro homens cruzando a cerca, e ninguém estava olhando.

Anneke tinha vinte e nove anos. Torin a carregara para fora com os próprios braços.

Ele pintara a regra no primeiro dia no posto seguinte. Pintara em toda porta de cozinha desde então. Não era uma regra sobre sexo. Era uma regra sobre atenção. Um guardião vigiava a porta. Um guardião não vigiava a mulher.

E na noite passada, por um segundo, num corredor escuro, ele segurara Lida Brandvold pelos dois cotovelos, e o corpo inteiro dele esquecera onde ficava a porta.

A resposta veio na janela do meio-dia.

Lorcan a leu na tela da sala de comunicações sem que lhe pedissem, porque vira Torin à porta e o conhecia bem o bastante para não o fazer esperar.

— “Interceptação recebida. Banda fora da tarefa atual. Cessar monitoramento. Destruir gravações locais após transferência pelo mensageiro. Acusar recebimento.” — Lorcan girou a cadeira. — Só isso.

— Só isso — repetiu Torin.

— Oito anos. — Lorcan bateu na tela com um dedo. — Oito anos mantendo postos de escuta, e ninguém lá em cima jamais me mandou destruir uma fita. Eles acumulam fita. Guardariam a gravação de um homem pedindo pizza se ele pedisse em russo.

— Quem assinou?

— Código de mesa. Sem nome. — Os olhos verdes de Lorcan sustentaram os dele. — Quer que eu acuse recebimento?

Torin pensou nisso por mais tempo do que devia.

— Acuse o recebimento — disse. — Nada além.

— E as fitas?

— As fitas ficam onde estão.

O dente lascado de Lorcan apareceu. Não chegou a ser um sorriso.

— Sim, chefe.

Torin encontrou Lida na cozinha, comendo um dos pães sírios do Tunde em pé junto à bancada, o caderno verde aberto ao lado do prato. Ela prendera o cabelo louro-escuro numa trança improvisada, e havia olheiras sob os olhos cinzentos. Ela ergueu a vista quando ele entrou, e ele a viu ler o rosto dele e tirar a resposta antes que ele dissesse uma palavra.

— Eles não vão fazer nada — disse ela.

— Mandaram a gente parar de ouvir.

Ela largou o pão.

— E você vai parar.

— Eu não disse isso.

— Você também não disse outra coisa.

Tunde estava ao fogão. Não se virou, mas os ombros dele ficaram muito quietos, do jeito que ficavam sobre um fuzil quando ele esperava um fôlego terminar.

Torin puxou uma cadeira e sentou, porque ficar de pé sobre ela parecia uma ameaça, e ele não queria ser mais um homem na vida dela que usava a altura para vencer uma discussão. Isso pôs os olhos dele na altura dos dela.

— Vou dizer a verdade — disse. — Não gosto da ordem. Ninguém manda um posto de escuta destruir uma gravação a menos que não queira que a gravação exista. Isso significa que alguém lá em cima leu o seu relatório e decidiu que era um problema. Não sei quem. Não sei por quê.

Os lábios dela se entreabriram. Ela não esperava honestidade. Ele via isso.

— Então o que a gente faz?

— Fazemos o nosso serviço. Mantemos o posto.

— E às três e dez desta noite?

Ele sustentou o olhar dela.

— A ordem diz que a banda está fora da tarefa. Não diz o que você faz no seu tempo livre.

Por um momento ela só o encarou. Então algo se mexeu no canto da boca dela.

— Se você estiver naquela sala às três e dez — continuou Torin —, eu vou estar nela também.

— Isso é contra a sua regra.

— A regra diz sem motivo. — Ele se levantou. — Uma ordem em que não confio é motivo.

Ao fogão, Tunde fez um som baixo que podia ser uma risada. Torin escolheu não ouvir.

Às três da manhã, a ala de operações estava mais fria que o corredor e menor do que ele lembrava. A sala de escuta era uma caixa de concreto forrada de racks de aço cinza, mostradores brilhando em âmbar, o grande gravador de rolo girando no canto como um coração lento e paciente. Havia uma cadeira. Lida estava sentada nela. Torin ficou de pé atrás, de costas para a parede, de onde via a porta.

Não estava vigiando a porta.

Estava vigiando a nuca dela, onde a trança caíra para a frente, uma faixa pálida de pele acima da gola do suéter, e o jeito como os dedos dela repousavam sobre o botão de sintonia sem se mexer, leves como os de uma pianista. Ela lhe entregara o segundo par de fones sem uma palavra. Cheiravam de leve ao xampu dela. Algo verde, como folhas esmagadas.

— Três e nove — sussurrou ela.

O minuto virou.

A banda respirou.

Ele a sentiu ficar imóvel à sua frente. Então veio a voz do homem, o mesmo russo monótono, os mesmos grupos de cinco dígitos, e o lápis dela começou a se mover. Torin escutou além da voz, como ela dissera que fazia. A princípio, nada além de chiado. Depois, tênue como uma lembrança, um pingo. Uma cadeira. E ao longe, longa e grave, uma buzina. Duas notas. A segunda desafinada.

Sentiu os pelos dos braços se eriçarem.

A mulher leu. A voz dela estava mais rouca esta noite. Tropeçou uma vez numa palavra e se corrigiu, e alguém fora do microfone disse algo ríspido, e ela continuou. Segundo carregamento confirmado. Aguardando pagamento.

Então o homem falou de novo, mas não para o microfone. Para alguém atrás dele. O lápis de Lida parou. O corpo inteiro dela se retesou.

— O que ele disse? — sussurrou Torin.

Ela não respondeu. Escrevia em russo, depressa, e depois, embaixo, em inglês, a mão tremendo tanto que as letras saltavam:

No décimo quarto dia, nós a movemos.

A voz da mulher voltou, junto ao microfone, muito rápida.

— Dia dez. Catorze.

Clique. Ar morto.

Lida tirou os fones. Virou-se na cadeira e olhou para ele, e o rosto dela estava branco.

— Catorze — disse. — Ela disse de propósito. Ele disse que movem ela no décimo quarto dia, e ela disse catorze. Está nos dizendo alguma coisa. Um lugar. Um número. Torin, são quatro dias. São quatro dias e depois ela some.

Ela nunca dissera o nome dele antes.

A mão dela encontrou a dele. Ele não sabia se ela pretendera isso. Os dedos gelados dela se fecharam em volta dos dele, cicatrizados, com força, do jeito que as pessoas se agarram num veículo que está capotando. Ele olhou para a mão dela sobre a sua. Guardiões não tocam a contratada. Ele mesmo pintara aquilo.

Ela o estava tocando. A regra não dizia nada sobre isso.

Ele virou a mão e segurou a dela de volta.

— Eu ouvi — disse. — Ouvi tudo. Você não está sozinha nisso.

O fôlego dela saiu num tremor. Por um segundo, ela encostou a testa no pulso dele. Ele ficou muito quieto e deixou.

A porta bateu aberta.

Lorcan estava nela. O fone de ouvido estava na mão dele em vez de na orelha, e o rosto dele tinha ficado da cor de papel velho.

— Alguém pingou o nosso uplink — disse. — Duas vezes. Com noventa segundos de intervalo. Não foi a cadeia. Alguém de fora, seguindo o nosso sinal de volta até a antena. — Engoliu em seco. — Torin, ninguém fora da cadeia sabe que este posto existe.

Torin soltou a mão de Lida.

— Tunde para a torre — disse. — Vigilância total, térmico na estrada e na bacia norte. Você trava a antena e puxa os registros. Operadora…

— Lida — disse ela.

Ele olhou para ela.

— Se vai me dar ordens — disse ela, pondo-se de pé —, use o meu nome.

Algo se apertou no peito dele que nada tinha a ver com medo.

— Lida — disse. — Sala funda. Agora. Leve as fitas.

Ela já estava em movimento, puxando rolos do rack, varrendo o cassete e o caderno verde para dentro de uma bolsa de lona. Lorcan sumira corredor abaixo, correndo. Torin ouviu os passos pesados de Tunde nas escadas de ferro, subindo.

Estava com a mão no batente da porta quando o monofone da parede estalou.

Todos os monofones da estação estalaram ao mesmo tempo. A cozinha. Os quartos. A torre. Ele os ouviu ecoar corredor abaixo, o mesmo chiado em cinco lugares, e então uma voz saiu de todos eles juntos. Voz de homem. Inglês. Calma, agradável, quase gentil.

— Senhorita Brandvold.

Lida congelou com um rolo em cada mão.

— Só queremos as gravações — disse a voz. — E o caderninho verde. Ninguém precisa se machucar numa montanha no meio do inverno. Seria um desperdício tão grande.

Torin chegou ao monofone em duas passadas e o arrancou da parede.

As luzes se apagaram.

Não o lento esmaecer de uma lâmpada morrendo. Todas de uma vez, os racks, os mostradores, o corredor, um negro tão total que tinha peso. Ele esperou pelo gerador. Três segundos. Cinco. O gerador devia ter pegado no quarto.

Não pegou.

No escuro, o gravador de rolo foi desacelerando, e desacelerando, e parou.

Ele ouviu Lida respirando. Rápido e curto, a dois metros dele. Ouviu-a dar um passo cuidadoso na sua direção.

Achou a mão dela sem olhar. Os dedos dela eram gelo.

— Torin — sussurrou ela. — Como eles sabem o meu nome?

Espere — Torin jurou que nenhum guardião jamais a tocaria. Agora as luzes estão mortas, e um desconhecido no rádio deles está chamando por ela pelo nome…

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