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Deixe a Luz Acesa — Romance de cowboy grátisGrátis · Exclusiva

Romance de cowboy grátis

Deixe a Luz Acesa

Ela nunca pede que ninguém fique. Ele é um peão de rodeio todo machucado, com seis semanas e o quarto do outro lado do corredor.

  • Ranzinza/Raio de Sol
  • Romance de Cidade Pequena
  • Cowboy de Rodeio
  • Proximidade Forçada
  • Ele Se Apaixona Primeiro

🌶️🌶️🌶️🌶️ Cerca de 65 min de leitura · 15.021 palavras

Val Halloway toca a loja de rações de Bitter Creek, em Montana, e nunca pede que ninguém fique. Então um peão de rodeio todo machucado aluga o quarto do outro lado do corredor por seis semanas, um empreendedor imobiliário vem atrás da loja dela, e o homem que deveria ir embora começa a agir como se pertencesse ao lugar.

Pneu Estourado na Main Street

O Mercedes prata estava estacionado na zona de carga de novo.

Val Halloway o viu pela vitrine da Bitter Creek Feed & Seed, e as mãos apertaram o saco de sal mineral de cinquenta libras que ela carregava. Largou o saco na pilha com mais força do que pretendia. Uma nuvenzinha de pó cinzento subiu e pousou nos jeans pretos dela.

Ninguém estacionava na zona de carga. Nem o prefeito, nem o xerife na visita mensal, nem mesmo a velha dona Gable, que estacionava onde bem entendesse porque tinha oitenta e um anos e ensinara metade da cidade a ler. A zona de carga era para caminhões. Para reboques. Para quem vinha comprar ração, sal e grampos de cerca, gente que trabalhava.

Clive Prentiss não trabalhava. Clive Prentiss fazia ofertas.

Eram seis da tarde de uma quinta-feira, no meio de julho, e o calor não cedera o dia inteiro. O termômetro ao lado da porta marcava trinta e quatro graus. Uma névoa fina e marrom pairava sobre as montanhas Sapphire, vinda de um incêndio em algum lugar de Idaho, e fazia o sol parecer uma moeda laranja largada em água suja. O ventilador grande no canto empurrava o ar quente de um lado para o outro sem esfriar nada.

Pistol estava deitado embaixo do ventilador, com o queixo nas patas. Era um blue heeler de quinze anos, grisalho no focinho e duro nos quadris. Quando Val passou pisando forte, ele abriu um olho e tornou a fechá-lo.

— Não me olhe assim — disse Val. — Eu não convidei o sujeito.

Ouviu a porta do escritório abrir, nos fundos da loja. Passos. O clique suave e caro de mocassins no velho piso de pinho.

Prentiss veio pelo corredor entre a ração de cachorro e o vermífugo de cavalo, sorrindo como um homem de catálogo. Camisa polo. Calça bege com vinco. Óculos escuros enfiados num cabelo que nunca ficara debaixo de um chapéu. Trazia um copo de papel da cafeteria de Hamilton, e o cheiro de avelã veio junto, doce e falso.

— Senhorita Halloway — disse ele. — Um dia quente.

— É julho — disse Val.

— Pois é. — Ele parou no balcão e olhou a loja do jeito que se olha um carro usado. O piso de madeira arranhado. O teto de latão com a mancha de umidade em forma de Texas. O quadro de avisos lotado de bilhetes sobre cachorros perdidos, feno à venda e um garoto que queria fazer bico de babá. — Sabe o que este lugar poderia ser? Com o investimento certo?

— Uma loja de rações — disse Val.

Ele riu como se ela tivesse feito uma piada.

— Um armazém western. Velas. Artigos de couro. Mel local em potinhos de vidro. Os hóspedes do resort vão adorar.

— Os hóspedes do resort podem comprar mel em Bozeman.

Prentiss sorriu mais largo. Não parecia se importar de ser detestado. Parecia colecionar isso. Pôs um cartão de visita no balcão, grosso e branco, com letras douradas. Bitter Creek Development and Trust.

— Para o caso de a senhorita querer falar sobre o seu futuro — disse. — Nem todo mundo neste vale tem um. A senhorita talvez tenha.

Ele saiu. A sineta sobre a porta deu seu toque cansado. Val o viu dobrar o corpo para dentro do Mercedes e sair da zona de carga sem dar seta.

Pegou o cartão, rasgou-o ao meio e jogou na lixeira, com os pacotes vazios de sementes.

Depois foi procurar Hank.

Hank Dorsey estava sentado na cadeira do escritório, com um envelope nos joelhos. Não ergueu os olhos quando ela encheu a soleira da porta.

Tinha setenta e nove anos. Era dono da Feed & Seed fazia cinquenta e dois deles, e construíra quase todas as prateleiras com as próprias mãos. Hoje as mãos eram grandes, manchadas, tortas nas juntas, e ele andava com uma bengala que odiava. A esposa, Lorraine, falecera havia seis anos. Em alguns dias Val achava que a loja era a única coisa que ainda mantinha Hank de pé.

— O que ele queria? — perguntou Val.

— O que ele sempre quer.

— E você disse não.

Hank virou o envelope nas mãos. Era de papel creme, pesado, igual ao do cartão.

— Eu disse que ia pensar.

Val sentiu o chão inclinar um pouco sob as botas.

— Você nunca disse isso a ele.

— Meu quadril nunca esteve tão ruim. — Hank enfim a olhou. Os olhos azuis e aguados, atrás dos óculos, estavam cansados de um jeito que a assustava. — O Dwight ligou de novo ontem à noite. De Phoenix. Quer que eu vá para lá antes do inverno. Diz que não aguento mais um janeiro naquela escada.

Dwight era o filho de Hank. Val o encontrara duas vezes. Também usava camisa de golfe.

— Você aguenta janeiro — disse Val. — Eu jogo sal nos degraus. Eu te carrego escada acima se for preciso.

— Menina. — Hank disse com delicadeza. Chamava-a de menina desde os quinze anos, quando ela entrou pedindo emprego porque a mãe acabara de dizer que não havia dinheiro para roupa de escola. — É muito dinheiro o que ele está oferecendo.

— Quanto?

Ele disse.

Val ficou um momento sem falar. Era mais dinheiro do que ela jamais vira num só lugar. Era mais do que o prédio valia, e os dois sabiam, e sabiam por quê. Prentiss não estava comprando uma loja de rações. Estava comprando a Main Street, uma porta de cada vez.

— Ele me deu até o fim de agosto — disse Hank. — Meio-dia do dia vinte e oito. Depois a oferta some.

— Então deixe sumir.

— Eu disse que ia pensar. — Hank pôs o envelope na mesa e cobriu-o com a mão, como se pudesse sair voando. — Foi só isso que eu disse. Vá, feche a loja. Está quente demais para brigar.

Val abriu a boca para discutir.

Lá fora, algo explodiu.

Era um pneu. Ela soube antes de chegar à porta. Um estouro tem som próprio, um estalo seco e duro, como um tiro de rifle, seguido do tapa da borracha na estrada. E depois veio outro som, pior. Um cavalo gritando dentro de uma caixa de metal.

Val empurrou a porta com tanta força que a sineta emperrou no suporte.

Uma velha picape Dodge verde estava torta no meio da Main Street, puxando um reboque para dois cavalos que um dia fora branco. O reboque pendia forte para a esquerda. O pneu de trás sumira, restavam só tiras pretas de borracha penduradas no aro. E o reboque inteiro balançava. Algo pesado batia nas paredes por dentro, de novo e de novo, um som de punho num tambor.

Um homem já estava na traseira do reboque. Alto, empoeirado, chapéu de palha com uma mancha de suor em volta da copa. O braço esquerdo estava preso contra o peito numa tipoia azul. Com a mão direita, ele alcançava o trinco da porta traseira.

— Não — disse Val.

Ele não ouviu. O cavalo gritou outra vez.

— Não abra essa porta.

Dessa vez ele ouviu. Virou a cabeça. Tinha o rosto comprido, queimado de sol no nariz, e olhos do cinza-esverdeado da sálvia depois da chuva.

— Ele vai se machucar — disse o homem.

— Ele vai sair de costas por cima de você e descer a Main Street correndo com três pernas boas — disse Val. — E depois vai dar de cara com o caminhão de propano que passa por aqui às seis e quinze. Saia da frente.

Ele saiu.

Havia uma portinha de escape na frente do reboque, dessas feitas para uma pessoa, não para um cavalo. Val a abriu e subiu para dentro do calor e do barulho.

O interior do reboque cheirava a metal quente, suor e medo. Um castrado baio-claro ocupava a baia da esquerda, corpo dourado, patas pretas, crina preta. A cabeça estava erguida e os olhos, brancos em volta. Estava amarrado, e puxara a corda com tanta força que o nó travara. Toda vez que o reboque inclinava embaixo dele, entrava em pânico e jogava o peso contra a parede.

Val não estendeu a mão para ele. Estender a mão para um cavalo assustado é um bom jeito de perder um dedo.

Ficou parada no espaço estreito junto à cabeça dele. Deixou os ombros caírem. Soltou o ar, devagar e comprido, e começou a falar.

Era a voz que usava nos bretes do leilão de gado, quando um touro de novecentos quilos decidia que não gostava do mundo. Baixa. Chata. Monótona. Sem nada nela de que ter medo.

— Calma, calma — disse. — Ei. Foi alto, né? Foi um barulho alto e bobo. Já passou. Nada está te perseguindo. Nada mesmo.

O baio bufou. Bateu mais uma vez. Depois ficou parado, tremendo, o suor escorrendo pelo pescoço em riscos escuros.

— É isso — disse Val. — Você está bem. Só cansou dessa caixa. Eu também, amigão. Eu também.

Falou com ele sobre nada. O calor. A fumaça do incêndio. O café ruim do Rusty Spur. Aos poucos, a cabeça dele desceu alguns centímetros. As orelhas viraram na direção dela. Ela ergueu a mão, muito devagar, e pousou a palma aberta no pescoço dele. A pele pulou sob a mão dela, depois sossegou.

Tirou a faca do bolso de trás e cortou a corda travada, e o castrado soltou um longo suspiro rouco pelas narinas. Então baixou a cabeça e apoiou a testa no peito dela, pesada e úmida.

— É — murmurou Val. — Eu sei.

Quando saiu de volta pela portinha, o homem da tipoia estava parado bem ali. Tirara o chapéu. O cabelo era da cor de trigo seco e espetava na nuca.

Ele a encarava como se ela tivesse andado sobre a água.

— Case comigo — disse ele.

— Não — respondeu Val.

O nome dele era Wyatt Cordell. Ele o disse enquanto ela levantava o reboque no macaco, porque não conseguia fazer aquilo com uma mão só, e ela não ia ficar parada na Main Street vendo-o tentar.

— Saddle bronc — disse ele, quando ela perguntou do braço. — Um cavalo chamado Midnight Gravel me jogou na cerca em Sheridan. Ombro deslocado. O médico diz seis semanas sem montar.

— E você veio para Bitter Creek? — Val pôs o peso na chave de roda. A primeira porca guinchou e cedeu. — Ninguém vem a Bitter Creek de propósito.

— Meu tio mora aqui. O Red. É capataz no Rancho Walker.

Val parou e ergueu os olhos para ele.

— Você é sobrinho do Red?

— O bonito.

— O Red tem outros sobrinhos?

— Não, senhora.

— Não me chame de senhora. — Ela voltou às porcas. — O Red arrumou trabalho para você?

— Amansar potros para o senhor Walker. Seis semanas. Serviço leve.

Val bufou. Pensou em Nash Walker, que não sorria em público desde o enterro da mãe, que consertava sozinho a cerca da divisa com as terras dos Calloway ao amanhecer porque não confiava em ninguém para fazer direito. Nash Walker não contratava homens de um braço só.

— O Nash sabe da tipoia? — perguntou.

Wyatt olhou para o céu.

— Vai saber na segunda.

Ela quase riu. Segurou antes que saísse.

Ele segurou as porcas para ela na concha da mão boa e as entregou uma de cada vez, sem que ela pedisse, na ordem certa. Não tentou ajudar no esforço pesado e não tentou ensinar a ela como se troca um pneu. Ela notou as duas coisas e não gostou de quanto notou.

— Jasper — disse ele, quando ela perguntou o nome do cavalo. — Tem catorze anos. Já foi comigo a todo rodeio em que estive. Odeia reboque, odeia trovão e me ama mais do que qualquer pessoa viva.

— É uma meta baixa — disse Val.

Ele sorriu. Um dos dentes da frente tinha uma lasca pequena no canto. Deixava o sorriso com cara de quem brigara e vencera.

Quando o estepe estava no lugar, ela baixou o macaco, levantou-se e limpou as mãos nos jeans.

— Esse era o seu único estepe — disse. — Compre outro. Hoje.

— Sim, chefe.

Ela lhe lançou um olhar, e ele ergueu a mão boa, rendido.

O sol descera atrás das fachadas falsas da Main Street. A luz ficara dourada e suave, e a névoa deixava tudo com cara de fotografia antiga.

— Onde o Red vai te hospedar? — perguntou ela. — A equipe do feno está no alojamento até agosto.

Wyatt não respondeu. Olhava além dela, para a vitrine da Feed & Seed.

Val se virou.

Havia um cartaz colado por dentro do vidro. Papelão branco, caneta preta, as maiúsculas trêmulas de Hank.

QUARTO PARA ALUGAR. FALAR COM HANK.

Val tirara aquele cartaz em maio. E de novo em junho. Achava que estava no lixo.

— Não — disse ela.

— Eu não falei nada.

— Você estava pensando alto.

A porta se abriu atrás dela, a sineta enfim livre do suporte. Hank estava ali, apoiado na bengala, olhando para o reboque, o cavalo e o desconhecido de tipoia. Parecia mais desperto do que no escritório.

— Está precisando de um quarto, filho? — perguntou Hank.

— Hank — disse Val.

— Cinquenta por semana — disse Hank. — Quarto dos fundos, no alto da escada. Cozinha compartilhada. O banheiro fica no fim do corredor, e a água quente acaba depois de dez minutos, então não seja folgado. Tem um cercado atrás do prédio para o seu cavalo.

— Hank. Esse é o meu corredor.

— O prédio é meu, menina. — Hank olhou Wyatt por cima dos óculos. — E você carrega ração para a Val quando ela pedir. Toda manhã, antes de ir para o Walker. Com esse braço que você tem.

Wyatt olhou para Val. Val olhou para Hank. Hank olhou para ninguém, porque já se virara e voltava para dentro.

— Dá para carregar muita coisa com um braço só — disse Wyatt.

Ele carregou as próprias coisas pela escada estreita naquela noite. Uma bolsa de lona. Uma sela, em que não a deixou tocar. Uma lata de café que chacoalhava. Um travesseiro sem fronha.

Val estava na porta do próprio apartamento, na frente do prédio, e o observava de braços cruzados.

O andar de cima fora um só apartamento grande. Lorraine Dorsey o dividira em dois quando Dwight se mudou. Val ficava com a frente, com as janelas sobre a Main Street. O quarto dos fundos dava para o cercado e para as colinas escuras além. Entre eles havia um corredor curto, uma cozinha pequena com uma mesa amarela e o banheiro com o aquecedor ruim. Val morava ali sozinha havia nove anos.

Sozinha era o objetivo.

— Regras — disse ela.

Wyatt pôs a sela no chão do quarto novo e se virou.

— Eu adoro regras.

— Não encoste no meu café. Não encoste no meu cachorro. Não cante no chuveiro.

— Como você sabe que eu canto no chuveiro?

— Você tem cara de quem canta no chuveiro.

Ele se apoiou no batente. Era uma cabeça mais alto do que ela, e o corredor era muito estreito. Na luz amarela da cozinha, ela via a queimadura de sol no nariz e uma linha pálida na testa, onde o chapéu costumava ficar.

— Mais alguma? — perguntou.

— Tem — disse Val. — Seis semanas. Depois você vai embora.

Algo se mexeu atrás dos olhos dele. Esteve ali e sumiu tão depressa que ela quase não viu.

— É o plano — disse ele, baixinho. — Esse é sempre o plano.

Ela fechou a porta.

Deitou na cama no escuro, com a janela aberta e o som dos grilos subindo do cercado. Pistol roncava no tapete. Pela parede fina, ouvia o desconhecido se mexendo. Uma gaveta abrindo. Botas caindo, uma, depois uma longa pausa, depois a outra, como se tirá-las com uma mão só fosse um quebra-cabeça. Uma voz baixa. Ele falava com alguém ao telefone, ou talvez sozinho.

Então, bem de leve, desafinado, ele começou a assobiar.

Val encarou o teto.

Seis semanas. Já sobrevivera a coisas piores por mais tempo.

O Quarto do Outro Lado

Nash Walker descobriu a tipoia às seis e quarenta da manhã de segunda-feira.

Wyatt estava no curral redondo com uma potra alazã de três anos, tentando erguer uma sela até o dorso dela com uma mão só. A potra não gostava da sela. Não gostava de Wyatt. Não gostava da manhã, nem das moscas, nem do fato de ter nascido. Ficava girando a garupa para longe justo quando a sela chegava ao alto do arco, e a sela caía de novo na terra.

Na quarta tentativa, uma voz atrás dele disse:

— O Red me contou que você sabia montar.

Wyatt se virou.

O homem encostado na tábua de cima do curral usava um Stetson preto puxado para baixo, uma camisa de trabalho desbotada e o tipo de rosto que parecia ter sido entalhado, não nascido. Cabelo escuro. Barba escura por fazer. Uma cicatriz fina e branca atravessando o lábio superior. Não parecia zangado. Parecia um homem que decidira havia muito tempo que a raiva gastava energia demais e a trocara por algo mais frio.

— Sei montar — disse Wyatt. — Só não este mês.

Nash Walker olhou a tipoia. Olhou a sela na terra. Olhou a potra, que parara de tentar matar alguém agora que a sela estava no chão.

Então os olhos dele desceram até a fivela do cinto de Wyatt. Era grande, de prata, com um cavalo bravo entalhado na frente e palavras ao redor da borda. Cheyenne Frontier Days. Saddle Bronc. Vice-Campeão. Segundo lugar, no maior rodeio ao ar livre do mundo. Wyatt a usava todos os dias havia três anos.

Nash estudou aquela fivela. Estudou-a por mais tempo do que um homem estuda algo que não lhe importa.

— Não sele ela hoje — disse Nash por fim. — Dessensibilize. Manta pondo, manta tirando. Corda em volta das pernas. Deixe ela aprender que nada que a toca vai comê-la. Dá para fazer isso com um braço só.

— Sim, senhor.

— Não me chame de senhor. — Nash se afastou da tábua. — E fique longe do lado dos Calloway na cerca do norte. O touro deles às vezes escapa. Tem chifres de cabide e nenhuma educação.

Foi embora em direção à caminhonete, uma Ford preta mais limpa do que qualquer veículo de trabalho que Wyatt já vira. Andava como se as costas doessem e ele preferisse morrer a deixar alguém notar.

Red veio do celeiro um minuto depois, limpando as mãos num trapo. O tio Red tinha sessenta e três anos, baixo e largo, com um rosto tão marrom e vincado quanto uma sela velha. Tinha o mesmo nariz da mãe de Wyatt, sua irmã caçula, e nada da inquietação dela. Trabalhava no Rancho Walker havia trinta anos.

— E então? — perguntou Red.

— Ele me disse para não chamá-lo de senhor.

— Isso quer dizer que gostou de você. — Red apertou os olhos atrás da caminhonete preta. — Não leve para o lado pessoal, esse jeito dele. Aquele rapaz montava qualquer coisa que tivesse pelo, antigamente. O melhor do estado. Já tinha a passagem de saída daqui na mão. — Balançou a cabeça. — Daí a vida aconteceu. A vida acontece muito neste rancho.

Wyatt quis perguntar que tipo de vida. Mas Red já se virara, do jeito que os homens deste vale pareciam se virar diante de tudo que doía.

Então Wyatt dessensibilizou a potra alazã. Manta pondo, manta tirando. Uma corda macia em volta das patas da frente, depois das de trás. Era um trabalho lento, quieto, paciente, e ele se surpreendeu ao descobrir que gostava. Uma montaria em bronco durava oito segundos. Aquilo era uma manhã inteira, gasta ensinando a um animal assustado que o mundo não queria pegá-lo.

Pensou em Val Halloway subindo naquele reboque enquanto Jasper tentava chutá-lo em pedaços. Falando com ele naquela voz baixa e chata. Sem medo de nada.

Pensou nela muito naquela semana, para um homem a quem tinham dito que ele tinha seis semanas e depois podia ir embora.

Na quinta-feira ele já aprendera três coisas sobre Val Halloway.

A primeira era que ela acordava às quatro e meia. Ele sabia porque as tábuas velhas do corredor o avisavam, toda manhã, no escuro. Ela fazia um café forte o bastante para tirar tinta. Tomava em pé na janela da cozinha, olhando para o nada, com o cachorro encostado na perna.

A segunda era que ela não era tão má quanto queria que as pessoas pensassem. Na terça, uma menininha entrara na loja chorando porque o coelho parara de comer. Val se ajoelhara no chão, de coturno, e fizera perguntas à menina numa voz tão suave que Wyatt mal a reconheceu. Depois mandara a menina para casa com um saco de feno e um frasquinho de alguma coisa, e não cobrara um centavo da mãe.

A terceira era que ela não gostava de ser olhada. Pegou-o fazendo isso duas vezes, e nas duas disse “O que foi?” de um jeito que queria dizer pare.

Ele não parou. Só ficou melhor nisso.

Ela não era bonita do jeito que as garotas das arquibancadas de rodeio eram bonitas. Era outra coisa. O cabelo preto era raspado rente de um lado e caía numa cortina irregular do outro. Usava um piercing de prata no nariz, e havia tatuagens de heras subindo pelo lado do pescoço, verdes e escuras, sumindo na gola. Wyatt queria muito, muito mesmo, saber onde aquelas heras terminavam.

Não perguntou. Não era um homem burro, na maioria dos dias.

Na quinta à noite, voltava do Rancho Walker para a cidade pela estrada do condado. O sol estava baixo. A névoa havia afinado um pouco, e a luz atravessava o vale em longas barras douradas. Os campos cheiravam a feno cortado e poeira.

Viu o velho um quarto de milha adiante, andando na faixa branca.

Usava uma camisa de flanela abotoada até o queixo, naquele calor. O cabelo branco, comprido demais, saía por cima das orelhas. Levava um cesto de vime vazio no braço, e andava bem no meio da estrada como se fosse o caminho de um jardim.

Wyatt parou no acostamento e desceu. Fez isso devagar, sem movimentos bruscos.

— Boa noite — disse. — Está indo a algum lugar, senhor?

O velho parou. Olhou para Wyatt com olhos castanho-esverdeados, enevoados, como uma janela em que alguém tivesse soprado.

— Tomates — disse o velho. — A Martha quer tomates. Para o molho. Mas eu não acho a horta. — Franziu a testa para o cesto. — Era bem aqui.

— Bom — disse Wyatt —, vamos achar. É uma noite quente para caminhar. Que tal uma carona?

O velho considerou a ideia. Então assentiu, com enorme cortesia, e subiu na caminhonete como quem entra no carro de um velho amigo.

Wyatt não sabia quem ele era nem onde morava. Só tinha um número nesta cidade além do de Red, e Red estaria no campo de feno até escurecer.

Val lhe dera o número dela na segunda, parada na cozinha de braços cruzados. Para emergências. Se você ligar para conversar, eu mudo.

Ele ligou.

Ela chegou na Silverado preta tão rápido que o cascalho voou pelo acostamento.

Não correu até a caminhonete. Caminhou, devagar, e deu a volta até o lado do passageiro, onde o velho podia vê-la, e apoiou-se na janela aberta.

— Oi, Doutor — disse. — Passeando?

O velho se virou e olhou para ela. Por um momento, nada. Então o rosto dele se abriu como o sol saindo das nuvens.

— A menina Halloway — disse. — Como vai aquele seu cachorro? O que comeu veneno de rato?

— Está bem, Doutor. Tem quinze anos agora. Rabugento como sempre.

— Bom. Bom. — O velho assentiu. — Foi por pouco, aquele.

A boca de Val fez algo complicado.

— É — disse ela. — Foi por pouco. Alguém cuidou muito bem dele.

O nome dele era Arthur Calloway. Era o veterinário da cidade, ou fora, por quarenta anos. Val contou isso a Wyatt enquanto o levavam para casa. Wyatt seguiu a Silverado por uma longa entrada de cascalho até uma clínica baixa de varanda caída e placa desbotada. Clínica Veterinária Calloway. O C de Calloway pendia por um único parafuso. Além da clínica havia uma casa com um arbusto de lilás descuidado e um quintal cheio de mato.

E além da casa, depois de uma linha de arame farpado, os campos limpos e verdes do Rancho Walker se estendiam rumo às montanhas.

Então era esse o lado dos Calloway. O lugar de que Nash Walker mandara ficar longe.

Wyatt ajudou Val a levar Arthur para dentro. A cozinha era uma bagunça. Louça na pia. Correspondência empilhada no balcão em montes. Um relógio na parede parara às quatro e dez. Val não disse nada sobre isso. Sentou Arthur a uma mesinha de carvalho, serviu-lhe um copo d’água e o fez beber tudo. Depois achou uma lata de sopa na despensa e a esquentou no fogão.

Wyatt lavou a louça, com uma mão só, sem que lhe pedissem. Levou muito tempo. Val olhou para ele uma vez por cima do ombro e não disse o que foi.

Quando Arthur comeu e cochilava na poltrona, Val ficou na porta da cozinha com os braços em volta de si mesma.

— Ele não me deixa ajudar — disse baixinho. — Não quando está lúcido. Quando a cabeça está clara, diz que Arthur Calloway não aceita caridade de moça de loja de ração. Me expulsou da varanda em junho.

— Ele tem família?

— Uma filha. — Val olhou para a janela escura, na direção da cerca e dos campos limpos além dela. Algo se fechou no rosto dela. — Em Seattle.

— Ela sabe que ele está assim?

— Não — disse Val. Sem raiva. Só cansada. — Tem muita história neste vale, cowboy. Você não quer pisar nela.

Naquela noite ela pôs gelo no ombro dele.

Ele não pedira. Estava sentado à mesa amarela da cozinha, sem a tipoia, tentando enrolar uma toalha cheia de gelo em volta da articulação com uma mão só, quando ela saiu do quarto e o observou por dez segundos.

— Ah, pelo amor de Deus — disse Val. — Tire a camisa.

Ele tirou, devagar, porque o ombro doía e porque gostou do jeito como ela disse aquilo.

Ela ficou de pé atrás da cadeira e apertou a toalha fria contra a articulação. A outra mão repousava aberta nas costas dele, entre as omoplatas, para mantê-lo quieto. A palma era quente e áspera. Ele sentia cada um dos dedos dela.

— Quantos cowboys você já pôs no gelo? — perguntou.

— Vacas, na maioria. Alguns cowboys. As vacas reclamam menos.

Ele riu, e doeu, e ele não ligou.

A cozinha era pequena e quente, e a janela estava aberta para a escuridão. Uma mariposa batia na tela. Ele sentia o cheiro dela. Não perfume. Feno e café e algum sabonete simples, e por baixo disso algo quente que era só dela.

— Você foi bom com ele — disse Val, depois de um tempo. — Com o Arthur. Muita gente teria buzinado e dado a volta.

— Ele me lembrou alguém.

— Quem?

Wyatt olhou para a mariposa na tela.

— Eu, provavelmente. Daqui a quarenta anos. Andando numa estrada qualquer atrás de uma horta que nunca plantei.

A mão dela parou de se mexer nas costas dele.

— É uma coisa triste de dizer — disse ela.

— É uma coisa triste de pensar. Eu tento não pensar muito.

Ela tirou a toalha. Ele virou na cadeira para olhá-la. Ela estava perto o bastante para tocar. Os olhos eram castanho-escuros, quase pretos na luz amarela, e olhavam para a boca dele.

— Eu não beijo homens que vão embora — disse Val. A voz estava rouca.

— Quem foi embora? — perguntou ele.

Ela não respondeu. Pôs a toalha na pia e foi até a porta do quarto.

Ele a seguiu. Não decidiu isso. O corpo simplesmente foi, antes que a mente alcançasse. Ela se virou na soleira, e ali estavam eles de novo, naquele corredor estreito, sem para onde ir.

— Vá dormir, Wyatt — disse ela.

— Tá.

Nenhum dos dois se mexeu.

A luz do corredor estava apagada. A única luz vinha da cozinha, atrás dele, e caía sobre o rosto dela numa faixa dourada. Ele via o pulso dela batendo na garganta, bem onde as heras começavam.

— Mande eu ir — disse, baixinho — e eu vou.

Val ergueu a mão e fechou o punho na frente da camiseta dele.

Não o puxou. Só se agarrou, como se estivesse à beira de algo alto e precisasse de um corrimão. Ele apoiou a mão boa no batente, acima da cabeça dela. Inclinou-se devagar, dando a ela cada segundo do mundo para dizer não.

Ela não disse.

A boca dela era quente e tinha gosto de café. Por uma batida do coração o beijo foi cuidadoso, uma pergunta. Então ela soltou um som pequeno na garganta, e o punho se apertou na camiseta dele, e a pergunta foi respondida. Ela o beijou como se estivesse com raiva disso. Ele a beijou de volta como se esperasse havia uma semana para fazer isso, porque esperava.

Ele esqueceu o ombro. Esqueceu Pendleton e as finais e as seis semanas. As costas dela bateram no batente, e ela o puxou para mais perto, e a mão livre subiu pela nuca dele até o cabelo, e…

No andar de baixo, o vidro explodiu.

Foi um som enorme na noite quieta, um estrondo e depois uma longa chuva tilintante, caindo. Pistol saltou do tapete latindo. Val arrancou a boca da dele.

Lá embaixo, na loja escura, algo pesado bateu no chão e rolou.

Espere — Wyatt Cordell finalmente a beijou. Então o vidro se estilhaçou no andar de baixo.

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