Arame Sob a Neve
O telefone tocou às 2h14 da manhã, e a doutora Josie Leland atendeu antes de estar acordada. Fazia doze anos que atendia assim.
— Leland.
— Doutora. É o Jonah Rusk. — Uma voz de homem, baixa e apressada, com o vento rugindo atrás. — Aqui na velha propriedade dos Tillman. A Agnes caiu na grota e está presa no arame. Não consigo chegar perto dela. O Goliath está parado bem em cima dela.
Josie já estava sentada na cama. O apartamento em cima da clínica estava escuro e frio, e o jeans dela pendia na cadeira onde ela sempre o deixava, pronto.
— Há quanto tempo ela está caída?
— Uma hora, talvez mais. Ela está lutando. Cada vez que luta, o arame entra mais fundo.
— Está sangrando?
— Vejo sangue na neve. — Uma pausa. — Doutora, eu sei que é bisão. Eu sei que a senhora não nos deve nada…
— Acenda todas as luzes que tiver — disse Josie. — Mantenha o touro ocupado. Trinta minutos.
Ela desligou, calçou dois pares de meias e, quatro minutos depois, já estava na caminhonete, com a trança pela metade e o café de ontem esfriando no porta-copos.
A neve corria pela estrada do condado em cordas brancas e compridas. Os faróis pegavam postes de cerca, uma caixa de correio congelada, os olhos de um cervo que pensou em atravessar e achou melhor não. Josie dirigia com as duas mãos no volante e repassava de cabeça os remédios do baú atrás dela. O rifle de dardos. O antídoto. O alicate de cerca. O antisséptico em spray. Uma fêmea de bisão não era uma vaca de pasto. Você não chegava perto de uma e pedia com educação que ficasse de pé.
A maioria dos veterinários do condado não chegava nem perto de bisão. Josie não os culpava. Um bisão saltava uma cerca de um metro e oitenta sem tomar impulso e virava mais rápido que um cavalo. Um deles a derrubara no primeiro ano, e ela mancou por um mês.
Ela ia assim mesmo. Alguém tinha que ir.
Doze anos antes, ela chegara a Red Alder para ficar um ano. Um ano para pagar os empréstimos, e depois de volta a uma cidade com hospital de verdade e vida social de verdade. Continuava ali. A cidade tinha um único semáforo, uma lanchonete, uma loja de ração e uma clínica com o nome dela na porta. Na maioria das noites, tinha também o telefone dela tocando.
A placa de Halfmoon Creek pendia torta entre os montes de neve, ainda pintada com o ferrete do velho Ferris Tillman. Ferris morrera na primavera passada. O resto Josie ficara sabendo pela Mabel, na lanchonete, junto com os ovos: o banco vendera a propriedade com o rebanho ainda dentro, e os compradores eram dois forasteiros de outro estado e Jonah Rusk.
Jonah. O garoto dos Tillman. Só que ele já não podia ser garoto. Ninguém continua garoto por doze anos.
Todas as luzes de quintal da fazenda estavam acesas. Um trator esperava na beira do pasto com o motor ligado e os faróis apontados para o fundo da grota. Josie estacionou, pegou o kit e desceu para a neve até o joelho.
Um homem já estava parado na frente dela antes que as duas botas tocassem o chão.
Era grande. Não alto do jeito que alguns homens são altos, mas construído como uma parede que alguém levantou de propósito. Casaco de lona, barba escura salpicada de cinza e olhos que a percorreram uma vez, rápidos, como se contassem o que ela trazia.
— Você é a veterinária.
— Sou a veterinária.
— Reid — disse ele. Só isso.
Um segundo homem deu a volta na caminhonete, com uma lanterna de cabeça na testa e uma garrafa térmica de aço numa das mãos. Cachos escuros escapavam por baixo do gorro de lã. Atrás dos óculos de armação fina, os olhos eram gentis e muito despertos.
— Você deve ser a doutora Leland. Eu sou o Felix. — Ele estendeu a garrafa. — Café. Quente. Aquele é o Reid. Ele é mais simpático do que parece.
— Não sou, não — disse Reid.
Josie aceitou o café porque fora criada por uma mulher que nunca recusava comida de estranhos no inverno. Era forte, doce e queimou o caminho todo até o estômago.
— Onde ela está?
Levaram-na até a borda da grota. Lá embaixo, sob as luzes do trator, a neve estava revirada, marrom e vermelha. Uma fêmea enorme de bisão jazia de lado no fundo, meio afundada num monte de neve, com uma pata traseira enrolada em arame farpado enferrujado que sumia sob a neve. Cerca velha. Ferris devia tê-la deixado ali quando mudou a divisa, vinte anos antes, e a neve a escondera.
Do outro lado da grota, um cavaleiro num cavalo isabelo segurava o resto do rebanho. Vultos escuros se mexiam atrás dele, com a respiração fumegando e os chifres pegando a luz.
No alto da encosta, a três metros da vaca, estava o touro.
Era enorme. Novecentos quilos de ombros marrons e felpudos e chifres curtos e negros. Ele virou a cabeça para Josie e soprou pelas narinas uma longa baforada branca.
— Goliath — disse Felix. — Ele é muito apegado a ela.
— Estou vendo.
Josie se ajoelhou na neve e abriu a maleta dos dardos. Calculou o peso da vaca a olho, preparou a dose e carregou o dardo. As mãos estavam firmes. As mãos dela estavam sempre firmes. Era o resto dela que às vezes tremia depois, na caminhonete, sozinha.
— Você não vai descer lá a pé — disse Reid. — Não com ele aqui em cima.
— Então mantenha ele aqui em cima.
Reid a encarou por um longo segundo. Depois se virou e foi até o trator sem dizer mais nada. Subiu na cabine, girou a máquina e avançou devagar até parar entre o touro e o caminho da encosta. O motor rosnou. Goliath raspou a neve com o casco e sacudiu a cabeça enorme, mas não chegou mais perto.
O cavaleiro levou o cavalo ao longo da borda oposta, assobiando baixo, duas notas, de novo e de novo. O rebanho se afastou do som. Até as orelhas do touro se viraram para ele.
Josie ergueu o rifle de dardos, esperou que a vaca ficasse imóvel entre uma luta e outra e atirou. O dardo acertou alto, na anca. Agnes se sacudiu, berrou e brigou com o arame por mais um minuto enquanto o remédio entrava. Então a cabeça enorme afundou na neve.
— Felix, preciso daquela luz — disse Josie. — Fique acima de mim, na encosta. Se eu mandar sair, você sai.
— Sim, senhora.
Ela desceu de lado, cravando os calcanhares. A neve era mais funda do que parecia. No meio do caminho ouviu botas atrás de si e se virou para encontrar Reid vindo atrás, com o alicate de cerca na mão enluvada.
— Eu disse para manter o touro ocupado.
— O Jonah está cuidando dele. — Ele nem a olhou. — Você não consegue cortar arame e segurar a perna ao mesmo tempo.
Ele tinha razão. Ela odiava que ele tivesse razão.
Trabalharam depressa. Reid segurou a perna enquanto Josie achava a ponta do arame e começava a cortar. As farpas haviam entrado fundo, atravessando o pelo grosso de inverno e chegando à pele acima do jarrete. Cada pedaço saía com um pequeno veio escuro de sangue. Agnes respirava em gemidos longos e pesados. Lá em cima, na borda, o motor do trator rugia toda vez que Goliath dava um passo.
— Me fale do touro — disse Josie sem levantar os olhos.
— Ele está pensando no assunto — disse Reid. — Ainda não está fazendo.
— Avise quando começar a fazer.
— Você vai saber.
A última espiral se soltou. Josie lavou os cortes, borrifou-os de roxo com antisséptico e aplicou uma injeção de longa ação na anca. Examinou as outras patas pelo tato. Nada quebrado. Nada que ela pudesse encontrar.
— Certo — disse. — Encosta acima. Quando eu der o antídoto, ela vai estar de pé em dois minutos e não vai ficar agradecida.
Reid foi na frente. Josie deu o antídoto, jogou a seringa vazia no kit e subiu aos tropeços atrás dele.
A bota escorregou numa pedra enterrada. Por um segundo enjoado, ela estava caindo de costas na direção da vaca.
Uma mão se fechou na gola do casaco. Reid a puxou barranco acima do jeito que ela já vira homens tirarem bezerros de uma vala, de uma vez só, sem esforço. Os pés dela encontraram a borda. A mão dele ficou na gola um instante a mais do que precisava.
Então a soltou.
Lá embaixo, Agnes ergueu a cabeça. Rolou para cima do peito, oscilou e ficou de pé. Sacudiu-se como um cachorro molhado, lançou aos humanos na borda um olhar longo que Josie sentiu nos dentes e se afastou pela grota rumo ao rebanho. Do outro lado, o cavaleiro assobiou as duas notas. Goliath bufou para o trator uma última vez e seguiu a sua vaca para dentro da escuridão.
Alguém na borda oposta soltou um grito de alegria.
A casa dos Tillman fora construída de toras cem anos antes e ampliada por cada geração desde então. Dentro da porta dos fundos, quatro ganchos de ferro pendiam em fila. Três casacos foram parar neles: o de lona de Reid, a parca azul de Felix e uma jaqueta de pele de carneiro que pertencia ao cavaleiro, que entrou por último, batendo a neve das botas e tirando o chapéu.
Era magro e curtido pelo vento, com cabelo cor de trigo que precisava de corte e olhos muito azuis. Quando sorria, um dos dentes da frente mostrava uma lasquinha. Uma cicatriz fina e branca atravessava a sobrancelha esquerda.
Josie conhecia aquela cicatriz.
— Doutora — disse Jonah Rusk. — A senhora veio.
— Você chamou.
— Quase não chamei. O Reid disse que a senhora ia dizer não.
— Eu disse que talvez — falou Reid, junto ao fogão. — Não que diria.
Felix puxou uma cadeira na longa mesa da cozinha e ficou apontando para ela até Josie se sentar. Então pegou a mão direita dela e a virou com a palma para cima sob o lampião. Ela não tinha reparado no sangue. Uma farpa abrira um corte curto na base da mão.
— Isso não é nada — disse ela.
— Isso é arame enferrujado. — Felix já abria um kit de primeiros socorros sobre a mesa. Era um bom kit. Um kit muito bom. — Quando foi sua última antitetânica?
— Eu sou médica.
— Você é médica de vaca. Eu fui enfermeiro de trauma em Seattle por onze anos. — Ele limpou o corte com mãos rápidas e gentis. — Já costurei coisa pior num corredor com as luzes apagadas. Antitetânica?
— Dois anos atrás.
— Ótimo. Fique quieta. — Disse isso do jeito que um enfermeiro diria a qualquer pessoa, leve e tranquilo. Josie sentiu no estômago mesmo assim.
Do outro lado da mesa, Jonah tocou a cicatriz na sobrancelha.
— A senhora colou isto — disse. — Na cozinha do Ferris. Eu tinha vinte e um anos. Um touro de um ano me jogou contra a porta do brete, e o hospital ficava a cento e quarenta quilômetros, no meio de uma nevasca.
Josie o encarou. Sim. Um garoto magricela com sangue escorrendo num dos olhos, tentando com todas as forças não chorar na frente do patrão. Ela limpara o corte, fechara com a cola de tecido que usava em cachorros e mandara que ele parasse de sangrar nas botas dela.
— Era você — disse.
— Era eu.
— Você era uma criança.
— Eu tinha vinte e um anos. — O sorriso dele se alargou. — A senhora disse que eu ia ficar com uma cicatriz e que as garotas iam gostar.
— E gostaram?
— Nunca perguntei a nenhuma. — Ele sustentou o olhar dela por um instante a mais. — Estava esperando a opinião de outra pessoa.
A cozinha ficou muito quieta. Felix prendeu uma gaze na palma dela com esparadrapo. Reid pôs uma tigela na frente dela: sopa grossa, feijão, massa e legumes, o vapor subindo.
— Minestrone — disse Felix. — Da minha avó. Quando foi a última vez que você comeu?
Josie abriu a boca. Fechou. Precisou pensar.
— Comi uma barrinha de cereal — disse. — Num parto. Ontem.
Felix olhou para Reid. Reid olhou para Josie. Ninguém disse nada, o que de algum jeito era pior do que se tivessem dito.
Ela comeu. Foi a melhor coisa que provou em um mês.
Quando a tigela esvaziou, Reid sentou-se à frente dela, juntou as mãos enormes sobre a mesa e falou como se cada palavra custasse dinheiro. As costas da mão esquerda dele eram marcadas por uma cicatriz, uma mancha lisa e brilhante que subia por baixo do punho da manga.
— Precisamos de um veterinário para o rebanho. O banco quer a papelada de cada animal até primeiro de março. Exames de sangue. Diagnóstico de gestação. Atestados de saúde. O Ferris parou de manter registros três anos atrás. Sem papel, sem empréstimo. Sem empréstimo, sem fazenda.
— Doug Malley — disse Josie. Conhecia o gerente do banco. Todo mundo conhecia o Doug.
— Doug Malley — concordou Felix. — Ele usou a palavra sinergia duas vezes.
— Setenta e uma cabeças — disse Jonah. — E mais ninguém no condado vai entrar num brete com elas.
Josie olhou para a tigela vazia.
— Eu trabalho sete dias por semana.
— Então o que é mais um dia? — disse Felix.
— Isso — disse Josie — é exatamente o que eu digo a mim mesma sobre tudo.
Ela pretendia dizer não. Tinha a palavra pronta. Mas o fogão estava quente, a mão parara de arder e a cafeína passara de uma vez. Ela recostou-se na cadeira. Fecharia os olhos por um segundo. Só um.
Acordou com uma luz cinzenta e cheiro de café fresco.
Um edredom pesado cobria seus ombros. As botas estavam junto ao fogão, recheadas de jornal para secar. Alguém lhe tirara as meias molhadas e pusera meias quentes nos seus pés. Alguém aproximara a cadeira da lareira.
Três homens estavam no fundo da cozinha, discutindo em voz muito baixa.
— Ela dirige sozinha — disse Reid.
— Ela está dormindo, Reid — disse Jonah.
— Então um de nós dirige a caminhonete dela e outro vai atrás.
— Ela já acordou — disse Felix, sem se virar.
Josie sentou-se. O rosto dela esquentou. Tinha dormido na cadeira de um estranho, na cozinha de um estranho, com três estranhos zelando por ela como por um bezerro doente.
— Que horas são?
— Seis e quarenta — disse Felix. — Ninguém ligou. Conferi que o seu telefone estava ligado.
Quatro horas. Ela dormira quatro horas seguidas. Não conseguia lembrar a última vez.
Reid pegou o casaco dela do encosto de uma cadeira e o segurou aberto. Não pendurado num gancho. Segurou. Ela reparou que o quarto gancho junto à porta continuava vazio. Ninguém o usara a noite inteira.
Ela enfiou os braços no casaco. Os nós dos dedos dele roçaram os ombros dela, e então ele recuou.
— Domingos — ouviu-se dizer Josie. — Posso dar a vocês os domingos.
Reid franziu a testa.
— Você não tira domingos.
— Como você sabe?
— Mabel — disseram os três ao mesmo tempo.
Jonah abriu o sorriso de dente lascado.
— É isso que faz disso um presente, Doutora.
Ela voltou para casa com o sol nascendo cor-de-rosa sobre Halfmoon Creek. Seis quilômetros adiante, na estrada do condado, percebeu que estava sorrindo e que não fazia ideia de qual dos três lhe pusera as meias quentes nos pés.
Uma Saída Onde Ela Estiver
Reid Kittredge contava cabeças. Era um hábito de dezenove anos em brigadas de incêndio, e Montana não o curara disso.
Três na cozinha, no café da manhã. Setenta e uma no pasto, ao raiar do dia. Uma caminhonete branca subindo a alameda às sete em ponto na manhã de domingo, o terceiro domingo seguido, com o baú de veterinária sacolejando nos sulcos congelados.
Quatro, então. Um dia por semana, ele contava quatro.
Não tinha pedido por isso. Não tinha certeza de que queria. Querer coisas já lhe custara caro.
Josie Leland desceu da caminhonete de macacão térmico, com a trança enfiada para dentro, nas costas. Um par de óculos de leitura pendia de um cordão no pescoço dela. Ela fingia que não eram dela. Felix já se oferecera para apertar as hastes, e ela dissera que os óculos pertenciam a um cliente.
— Bom dia — gritou ela. — O café está pronto, ou preciso fazer alguma coisa heroica primeiro?
— O café está no brete — disse Reid.
— Você é um bom homem, Kittredge.
Não era. Mas tinha construído o brete e não se importava de ouvi-la dizer isso enquanto olhava para ele.
Os velhos currais de manejo de Ferris Tillman eram feitos de tábuas podres e esperança vã. Reid os arrancara em novembro. Concretara as fundações no frio, soldara aço e erguera paredes sólidas para que os bisões não enxergassem a luz do dia pelas frestas e tentassem escalar na direção dela. O corredor era curvo, porque um corredor curvo mantinha o animal em movimento. O tronco de contenção, no fim, era novo e pesado e custara mais do que a caminhonete dele.
Era um bom trabalho. Ele sabia que era um bom trabalho.
Mesmo assim, não a detinha.
No primeiro domingo, ela subira pela lateral do curral circular para destravar uma porteira de apartação emperrada enquanto uma vaca ficava dois metros e meio abaixo dela, bufando. No segundo domingo, entrara no corredor atrás de um bisão de um ano para fazê-lo andar. Nas duas vezes Reid dissera o nome dela, seco, e nas duas vezes ela olhara para ele como se ele fosse uma mosca num piquenique.
— Faço isso há doze anos — dissera ela.
— Setenta e uma cabeças — respondera ele. — Você só precisa errar uma vez.
Ela não respondera. Mas o encarara por um longo momento depois, como se ele tivesse dito algo numa língua de que ela lembrava pela metade.
Naquela manhã passaram os bisões de um ano. Jonah os trouxe do pasto norte em cima do Pilot, o isabelo avançando fácil pela neve, e Jonah assobiando as duas notas baixas. Os bisões vieram num rio escuro e felpudo, a respiração fumegando. Felix ficou numa mesa dobrável junto ao brete, com o caderno do rebanho aberto, um lápis atrás da orelha e uma garrafa térmica ao alcance da mão. Anotava cada número de brinco que Josie cantava, cada tubo de sangue, cada peso, na caligrafia caprichada de enfermeiro.
Josie trabalhava na cabeceira do tronco. Tirava sangue da veia sob a cauda com mãos rápidas e seguras. Examinava olhos, dentes e cascos. Quando uma novilha jogava a cabeça contra as barras, Josie recuava, esperava e voltava a entrar sem uma palavra.
Reid cuidava das porteiras. Abrir, fechar, empurrar. Observava os animais. Observava mais a ela.
Ela falava enquanto trabalhava. Falava com os bisões, com Felix, consigo mesma. “Oi, linda. Mil novecentos e quatro, Felix. Saudável. Olha só pra você, está furiosa, tudo bem. Eu também estaria.” Riu quando um bisão jovem espirrou nos óculos dela. Não riu quando Felix perguntou se ela tinha tomado café da manhã.
— Tomei café — disse ela.
— Isso é um líquido.
— É um grupo alimentar.
Às onze, a porteira de correr do corredor emperrou. O gelo se acumulara no trilho. Reid estendeu a mão para a barra para soltá-la, mas Josie estava mais perto, e Josie não esperava. Ela passou por cima do painel e saltou para dentro do corredor.
— Josie.
— Trinta segundos.
Ela chutou o gelo do trilho. A porteira correu. E, atrás dela, o bisão jovem que tinham acabado de apartar para o curral ao lado se virou.
Reid viu acontecer do jeito que uma vez vira o fogo saltar uma crista de morro, devagar e rápido ao mesmo tempo. O bisão baixou a cabeça. As patas traseiras se contraíram. Ele foi na direção da brecha na porteira de apartação que ninguém tinha trancado ainda.
Reid não se lembrava de ter atravessado a distância. Lembrava do aço frio da trave de cima sob uma das mãos e do tecido grosso do macacão dela na outra. Ergueu-a para cima e por cima do painel. Caíram juntos na neve do outro lado, com força, Reid embaixo, Josie por cima.
O bisão bateu na porteira onde ela estivera. O corredor inteiro ressoou como um sino.
Por um instante, nenhum dos dois se mexeu.
O rosto dela estava a centímetros do dele. Neve no cabelo. Os óculos perdidos em algum lugar. O fôlego dela vinha curto e rápido contra a boca dele, e ele sentia o coração dela através de quatro camadas de roupa, ou talvez fosse o dele mesmo.
— Você não entra no corredor — disse ele. A voz não soou como a dele.
— É o meu trabalho.
— Seu trabalho é voltar para casa.
Ela ficou muito imóvel. Os olhos dela, tão de perto, eram cinzentos com um aro dourado em volta do centro, como água de riacho sobre pedras. Desceram para a boca dele. As mãos dele estavam na cintura dela. Ele não se lembrava de tê-las posto ali.
— Todo mundo vivo? — gritou Jonah da porteira.
Josie rolou para o lado. Levantou-se, tirou a neve do macacão e achou os óculos num monte de neve. As mãos dela, Reid reparou, não estavam muito firmes. Era a primeira vez que ele as via tremer.
— Todo mundo vivo — gritou ela de volta. Então caminhou até a cabeceira do brete e voltou ao trabalho.
Felix preparou o almoço na cozinha: sanduíches grossos de porco assado e queijo forte, uma panela de sopa, um bolo de maçã ainda quente do forno. Josie comeu dois sanduíches sem que mandassem e riu de uma história de Jonah sobre uma fêmea de bisão que aprendera a abrir o celeiro de feno com os chifres. Zombou dos óculos de leitura de Felix, que eram melhores que os dela. Não olhou para Reid.
Ele também não olhou para ela. Não muito. Só o bastante para ver que ela segurava o ombro esquerdo meio duro, onde tinha caído.
Depois do almoço, ela voltou aos currais. Reid foi para o galpão de máquinas.
Tinha um maçarico de corte, uma esmerilhadeira e um plano. Carregava o plano desde o primeiro domingo. Agora não conseguia mais carregá-lo.
Às quatro da tarde, a luz fora do galpão ficara dourada e fina. Os bisões estavam de volta ao pasto, e os tubos de sangue estavam guardados na caixa térmica de Josie. Reid tinha uma armação nova de aço presa à bancada e faíscas nas mangas quando a porta lateral se abriu e ela entrou, tirando as luvas.
— O Felix diz que você está emburrado.
— Estou trabalhando.
— Ele diz que é assim que você fica emburrado.
Reid desligou a esmerilhadeira. O galpão ficou quieto, exceto pelo estalo do fogão a lenha no canto. Ele largou a ferramenta e se obrigou a se virar.
— Eu não devia ter posto as mãos em você — disse. — Esta manhã. Desculpe.
Josie encostou-se no batente.
— Você me tirou da frente de um bisão.
— Eu não perguntei.
— Não deu tempo de perguntar. — Ela inclinou a cabeça. — Você pode pôr as mãos em mim, Reid. Essa parte eu não achei ruim.
As palavras ficaram suspensas no ar quente entre eles. Reid sentiu-as cair em algum lugar baixo do peito e ficar lá.
Pigarreou e apontou para a armação na bancada, porque era mais fácil do que olhar para o rosto dela.
— Isto é uma passagem de gente. Uma abertura no painel. Larga o bastante para uma pessoa, estreita demais para um bisão. Vou abrir uma no curral circular. Uma no corredor. Uma ao lado do tronco, e uma no curral de apartação. — Ouviu a si mesmo falando demais e não conseguiu parar. — Em cada lugar onde você pisar, vai ter uma saída. Você não vai precisar escalar. Não vai precisar esperar por mim.
Josie não disse nada.
Ele se obrigou a olhar para ela. Ela encarava a armação na bancada como se fosse algo raro. Então olhou para ele, e os olhos dela estavam úmidos.
— Ninguém nunca construiu nada para mim — disse.
— É um buraco numa cerca.
— Não é. — Ela atravessou o galpão e parou na frente dele. Perto. Olhou para a mão esquerda dele, para a velha queimadura que ia dos nós dos dedos até por baixo da manga. — Posso?
Ele assentiu.
Ela tocou a cicatriz com dois dedos, de leve, do jeito que tocava um animal que ainda não conhecia.
— Idaho — disse ele. Não pretendia dizer. — Onze anos atrás. O vento virou. Tínhamos vinte minutos para tirar a equipe da crista, e tivemos dezenove. Tirei todo mundo, menos um. Lou Abeyta. Ele era meu melhor amigo. — Respirou. — O Felix foi meu enfermeiro na unidade de queimados, em Seattle. Foi assim que nos conhecemos. Ele conversou comigo todas as noites durante seis semanas, eu respondendo ou não.
— Então você conta cabeças.
— Então eu conto cabeças.
Os dedos de Josie foram da mão dele ao pulso. Ele sentiu cada centímetro.
— Reid — disse ela baixinho. — Posso te beijar?
Havia muito que ele poderia ter dito. Que tinha quarenta e três anos e não beijava ninguém havia três. Que ela era a pessoa mais corajosa e mais imprudente que ele já conhecera, e ele tinha medo dela. Que a desejava desde que ela ficara na neve com um rifle de dardos e mandara ele manter o touro lá em cima.
— Pode — disse.
Ela se ergueu na ponta dos pés. Ele baixou a cabeça. A boca dela estava fria de fora e depois quente, muito quente, e macia, e certa. Ela o beijou devagar no começo, como se fizesse uma pergunta a cada segundo. Reid respondeu. Pôs uma das mãos nas costas dela e a outra na nuca, sob a trança, e ela fez um som pequeno contra os lábios dele que o atravessou por inteiro.
O beijo mudou. Ficou mais fundo e mais faminto. Ela o empurrou contra a bancada, e ele deixou. As mãos dela entraram no casaco aberto dele e se espalharam pelo peito. As dele desceram até a cintura dela e a puxaram até não restar espaço nenhum entre os dois. Ela tinha gosto do café do Felix e de bolo de maçã. Ele pensou, com toda a clareza, estou encrencado, e então parou de pensar.
Atrás deles, a porta grande do galpão correu no trilho com um longo gemido de ferro.
Josie se afastou de um salto. Reid se virou.
Felix estava na porta com duas canecas de café nas mãos. Jonah se apoiava no batente atrás dele, o chapéu empurrado para trás, a luz dourada do fim da tarde caindo sobre o rosto. Não estava sorrindo.
Ninguém disse nada por um longo momento.
Josie se afastou de Reid. Ele viu os ombros dela se erguerem, como faziam antes de um esforço pesado. Ela olhou de Felix para Jonah, e ele a viu se preparar para a raiva. Para uma briga. Para o olhar que um homem lança a outro quando este tomou algo que não era seu.
— Bem — disse Felix por fim, com muita delicadeza. — Isso responde à pergunta.
— Já era hora de um de nós contar a ela — disse Jonah.
Josie o encarou.
— Contar o quê?
Felix pousou as duas canecas com cuidado no barril mais próximo. Olhou para Reid. Reid olhou de volta e assentiu uma vez. Tinham conversado sobre isso. Os três, à mesa da cozinha, tarde da noite, mais de uma vez. Ele não imaginara que viria assim, com o coração ainda disparado e o gosto dela ainda na boca.
— Venha até a casa, Doutora — disse Felix. — Precisamos conversar. Nós quatro.






































