Torta Antes do Amanhecer
Lottie
O sino sobre a porta tocou às 4h51 da manhã, e eu soube que era um jogador de futebol americano antes mesmo de me virar.
Ninguém mais nesta cidade está acordado às 4h51 de propósito. Os bêbados já estão dormindo. As enfermeiras usam o drive-thru da Rota 9. Os professores não existem antes das oito. Mas jogador de futebol americano no verão é um tipo especial de bicho. Eles acordam no escuro, correm até vomitar e depois vêm atrás de comida como guaxinins.
— Estamos fechados — falei, sem tirar os olhos da massa.
— A porta tava aberta — disse uma voz. Grave. Quente. Com um quê de Sul nas beiradas.
— A porta está sempre aberta. O Otis consertou a fechadura em 2009 e ela odeia ele desde então. Abrimos às seis.
Continuei com as mãos em movimento. Manteiga, farinha, água gelada, dedos rápidos. Massa fria é massa boa. Minha avó Birdie dizia que massa de torta sente cheiro de medo, e que se você hesita ela fica dura de propósito.
Atrás de mim, um banco rangeu. O da mesa dos fundos. O de vinil vermelho com a rachadura que morde a parte de trás da coxa quando você usa short.
Eu me virei.
Ele era enorme. Não gordo. Só construído num projeto maior que o do resto de nós. Estava dobrado na mesa dos fundos como uma cadeira de praia que alguém tivesse enfiado num armário, os joelhos contra o tampo, os ombros mais largos que o assento. Camiseta cinza da universidade, escura de suor na gola. Um número sete azul-marinho estampado no peito. Uma mão enorme espalmada sobre a mesa, como se precisasse dela para se manter de pé.
Ele sorriu para mim. Era muito sorriso para as 4h52 da manhã.
— Sim, senhora — disse. — Seis. Eu ouvi. Vou ficar aqui bem quietinho até lá. A senhora nem vai saber que eu tô aqui.
— Você tem o tamanho de uma geladeira. Eu vou saber.
— Geladeira silenciosa — disse ele. — Da boa. Economiza energia.
Eu não ri. Faço questão de deixar isso registrado. Minha boca se mexeu um pouquinho, mas foi o frio da câmara fria.
— O café não está pronto — falei.
— Não preciso de café.
— Todo mundo precisa de café.
— Eu preciso — disse ele devagar, e os olhos dele foram até a vitrine de tortas em cima do balcão, vazia, limpa e esperando — do que quer que seja esse cheiro.
O cheiro era de mirtilo. Quatro tortas no forno, faltavam onze minutos. A lanchonete inteira estava cheia dele, fruta quente, manteiga e aquela borda de açúcar queimado onde o suco tinha transbordado no chão do forno.
— Essas são para a vitrine — falei. — Têm que esfriar. Se você corta uma torta quente, ela escorre toda no prato. É um crime.
— Eu cometeria um crime.
— Na minha lanchonete, não.
— É sua lanchonete?
Isso me deteve por meio segundo. Não era minha lanchonete. Era a lanchonete do Otis Brummel. A placa lá fora dizia SYCAMORE DINER em letras verdes, com o Y queimado, então de noite dizia S CAMORE, e os estudantes achavam aquilo a coisa mais engraçada do mundo. O Otis tinha setenta e um anos e era o dono, e eu fazia as tortas, e em certos dias isso parecia a mesma coisa.
— As tortas são minhas — falei.
— Então eu espero pelas tortas.
Ele deitou a cabeça nos braços dobrados. Ali mesmo, em cima da mesa, como um menino em sala de aula.
Fiquei encarando. — Você não vai dormir na minha mesa.
— Não tô dormindo — disse ele para os próprios braços. — Tô descansando os olhos. É diferente. Minha mãe faz isso na igreja todo domingo. Diz que o Senhor enxerga ela melhor assim.
— Não é assim que funciona.
Ele não respondeu.
Esperei. Dez segundos. Vinte. A fritadeira chiava nos fundos, onde o Otis a estava esquentando. O rádio na prateleira tocava o boletim agrícola bem baixinho, preço do milho e chuva. Pela janela da frente, a Sycamore Street estava azul-escura e vazia, e meio quarteirão adiante os semáforos da University Avenue piscavam amarelo para ninguém.
Os ombros dele subiam e desciam. Devagar. Pesados.
Ele tinha dormido.
Eu deveria tê-lo acordado. Essa era a regra. O Otis tinha três: nada de dormir nas mesas, nada de fiado e nada de cantar junto com o rádio antes das sete. A terceira eu quebrava todo dia. A primeira, nunca.
Mas olhei para ele, e olhei para a mão dele. Tinha escorregado da mesa e pendia ao lado do joelho, e os nós dos dedos estavam esfolados e vermelhos, com fita branca em volta de dois dedos. E pensei em como minha avó deixava os homens do turno da noite da fábrica de conservas dormirem exatamente naquela mesa, quando ainda havia uma fábrica de conservas. Cobria os homens com um cobertor e mandava o Otis cuidar da vida dele.
Voltei para a minha massa.
O timer tocou às 5h03. Tirei as tortas uma a uma, e estavam perfeitas. Roxo-escuro borbulhando pela treliça, a crosta de cima dourada e rachada de açúcar. Pus todas na grade perto da janela dos fundos para esfriar e não olhei para a mesa.
Às 5h20, fiz o café.
Às 5h31, o Otis saiu da cozinha enxugando as mãos num pano. Era pequeno, curvado e careca, com sobrancelhas como duas lagartas brancas, e olhou para a mesa e depois olhou para mim.
— Charlotte — disse.
— Eu sei.
— Regra número um.
— Eu sei, Otis.
Ele olhou de novo para a mesa. Depois suspirou, aquele suspiro longo que guarda para a câmara municipal e para o preço dos ovos, e voltou para a cozinha sem dizer mais nada.
Às 5h40 servi uma caneca de café, preto, e levei até a mesa dos fundos. Pus em cima do tampo com força suficiente para fazer barulho.
Ele acordou do jeito que cachorro grande acorda. De uma vez só. Cabeça erguida, olhos abertos, já sorrindo, como se o mundo tivesse que ser bom porque ele estava pronto.
— Ai, não — disse. — Não, não. Que horas são?
— Cinco e quarenta.
— Droga. — Ele se endireitou, o joelho bateu na mesa e o café pulou. Pegou a caneca antes de ela tombar. Mãos rápidas. Muito rápidas. — O treino é às seis. Eu tenho que… Desculpa. Eu não queria de verdade… A culpa é minha. Me desculpa mesmo, senhora.
— Pare de me chamar de senhora. Não sou sua professora.
— Então como eu chamo?
— Não chama. Vai embora.
Ele riu. Era uma boa risada, tenho que admitir. Grande, fácil e surpresa, como se eu tivesse tirado uma moeda de trás da orelha dele.
— Tá bom — disse. — Tá bom. Mas posso comprar uma fatia antes? Para viagem. Eu como na caminhonete.
— Elas ainda estão quentes.
— Eu gosto dela escorrendo.
— É um crime — repeti.
— Então me prende — disse ele, e se levantou, e continuou se levantando. Era mais alto que o quadro de cardápio. — Falando sério. Faz quarenta e cinco minutos que eu sinto esse cheiro dormindo. Sonhei com ele. Hoje vou correr tiros pensando nele e vou vomitar pensando nele. O mínimo que a senhora pode fazer é me deixar comer antes.
Aquilo era nojento. Também era meio justo.
Cortei uma fatia. Escorreu pelo prato todo, roxa e brilhante. Deslizei-a para uma caixa de isopor, fechei a tampa e entreguei a ele.
— Por conta da casa — falei. — Por ter sido uma geladeira silenciosa.
Ele não pegou. Ficou imóvel, e o sorriso continuou no rosto, mas alguma coisa por trás dele mudou.
— Eu não posso aceitar nada de graça — disse.
— É torta.
— Não importa o que seja. Não posso. Tem um escritório inteiro no campus com gente que fiscaliza isso. Se eu aceito uma fatia grátis e alguém filma, eu acabo numa sala com uma senhora chamada dona Thibodeaux, me explicando por três horas. — Ele tirou uma nota de vinte dobrada do bolso de trás do short. — Quanto é a fatia?
— Quatro e cinquenta.
— Então aqui estão vinte.
— Ainda não tenho troco. O caixa não abriu.
— Então fica com ele.
— Não é assim que se paga também.
— Senhora — disse ele, e se corrigiu, e abriu um sorriso. — Desculpa. Dona Torta. Eu volto amanhã. Anota na conta.
— Aqui não tem conta. Não tem fiado. Essa é a regra dois.
— E qual é a regra um?
Olhei para a mesa dos fundos. Ele olhou também. Depois olhou para mim, e os olhos dele estavam muito quentes, e ele não disse nada sobre os quarenta e cinco minutos que eu tinha deixado ele dormir. Nem uma palavra. Só assentiu uma vez, devagar, como quem agradece numa língua que achava que eu entendia.
Pôs a nota de vinte em cima do balcão, bem debaixo do açucareiro, para o vento não levar. Pegou a torta.
— Cinco horas amanhã? — perguntou.
— Abrimos às seis.
— Eu sei — disse ele. — Ouvi da primeira vez.
O sino tocou quando ele saiu. Pela janela, vi ele trotar até uma caminhonete preta empoeirada junto ao meio-fio, a caixa de torta na palma da mão, reta, como a bandeja de um garçom. Colocou-a no banco do passageiro. Depois passou o cinto de segurança por cima.
Ele pôs um cinto de segurança na minha torta.
Voltei para o balcão e encontrei o Otis na porta da cozinha, de braços cruzados, sobrancelhas erguidas.
— Nem comece — falei.
— Sabe quem é esse?
— Um homem que dorme nas mesas.
— Esse é o Deon Marsh. — Otis disse o nome do jeito que o pessoal desta cidade diz o nome de um santo ou de um tornado. — Quarterback titular. Está no outdoor perto da Walgreens.
— Eu não olho outdoors.
— Está na lateral do ônibus, Charlotte.
— Eu não olho ônibus.
O Otis balançou a cabeça e voltou para a fritadeira, resmungando. Eu peguei a nota de vinte. Estava macia e quente do bolso dele. Abri o caixa às seis, como sempre, registrei uma fatia de mirtilo e pus o troco num envelope. Escrevi na frente, com marcador preto: Nº 7. Troco. Não é fiado.
Não pensei nele pelo resto do dia.
Pensei nele onze vezes. Doze, se contar o momento em que me peguei cortando a primeira fatia da torta de mirtilo seguinte um pouco mais larga, e cortei de volta ao normal, e fiquei ali parada segurando a faca como uma boba.
Na manhã seguinte, o sino tocou às 4h50.
— Ainda fechado — falei para a minha massa.
— Ainda uma geladeira silenciosa — disse ele, e o banco dos fundos rangeu.
Não me virei. Não precisava. Eu o sentia lá atrás, grande, quente e acomodado, como o tempo.
— Trouxe uma coisa pra você — disse.
— Não quero.
— Não é pra você. É pra mesa. — Ouvi algo pousar sobre o tampo. — A fita naquela rachadura acabou. Ela me mordeu duas vezes ontem. Tenho fita atlética na caminhonete. A fita mais forte do mundo. Segura meus tornozelos no lugar.
Eu me virei, apesar de mim. Ele estava ajoelhado no chão ao lado da mesa, rasgando fita branca com os dentes e apertando-a sobre o vinil partido com o polegar. Com cuidado. Caprichado. Tiras longas e parelhas.
— Você não precisa fazer isso — falei.
— Eu sei que não preciso. — Ele alisou o último pedaço. — Pronto. Agora não morde mais.
Ele voltou a se sentar no banco e cruzou os braços sobre a mesa. Não deitou a cabeça. Só ficou olhando para mim.
Fui até lá e pus o envelope ao lado do cotovelo dele. Nº 7. Troco. Não é fiado.
Ele leu. A boca dele tremeu. Enfiou o envelope no bolso sem discutir, o que me surpreendeu, e depois colocou uma nota de vinte nova debaixo do açucareiro, o que não me surpreendeu nem um pouco.
— Qual é o seu nome? — perguntou. — O de verdade. Não Dona Torta.
Limpei as mãos no avental. Farinha, manteiga e uma mancha de mirtilo de ontem que nunca ia sair.
— Lottie — falei.
— Lottie. — Disse devagar, como quem experimenta. — Que nome bom. É nome de torta.
— É nome de avó.
— Dá no mesmo — disse Deon Marsh, quarterback titular, o homem da lateral do ônibus. Depois deitou a cabeça na minha mesa recém-fitada e adormeceu em uns quatro segundos, e eu fiquei ali com as mãos cheias de farinha e meu coração idiota, ouvindo ele respirar.
A Mesa dos Fundos
Deon
Eis o que ninguém te conta sobre ser o quarterback titular em julho. Todo mundo precisa de alguma coisa de você, o dia inteiro, e nenhum deles está errado.
Os calouros precisam de você às seis da manhã, porque estão assustados e com saudade de casa e alguns nunca levantaram um peso de verdade na vida, e vomitam atrás das arquibancadas e olham pra você como se você pudesse consertar aquilo. Os técnicos precisam de você na sala de vídeo, afiado, falando, liderando. Os recebedores precisam que você fique depois e lance até o braço dormir. O repórter do jornal local precisa de uma declaração sobre liderança. Minha mãe, em Macon, precisa ouvir minha voz no domingo, firme e feliz, porque ela trabalha em turno dobrado na lavanderia do hospital e tem duas filhas pequenas pra criar, e construiu um plano inteirinho, cuidadoso, em cima da ideia de que o filho dela vai pra liga.
Então eu sou firme. Sou feliz. Sou o cara do ônibus que diz pros bebês respirarem. Esse é o meu trabalho, e eu sou bom nele, e falo sério todas as vezes.
Mas lá por junho do meu último verão, eu não estava dormindo. Ficava no meu apartamento perto da Fairmont com o ventilador ligado e os olhos abertos, rodando jogadas no escuro, e às quatro da manhã desistia e saía dirigindo. Na primeira vez eu não sabia aonde ia. Só vi uma luz acesa numa lanchonete com meia placa e senti pela porta aberta um cheiro que me lembrou a cozinha da minha avó.
E aí teve a Lottie.
Na segunda semana, eu já sabia algumas coisas.
Sabia que ela descia a escada dos fundos às quatro, porque morava no apartamento em cima da lanchonete, e que a escada tinha um degrau que rangia alto, o quinto, que ela pulava. Sabia que usava uma bandana azul sobre cachos escuros que tentavam fugir dela a manhã inteira. Sabia que tinha uma cicatriz de queimadura no antebraço esquerdo, brilhante e clara, com um formato meio de Flórida, e que ela a esfregava com o polegar quando estava pensando. Sabia que tinha vinte e quatro anos, porque o Otis me contou, e que assava naquela cozinha desde os seis, porque o Otis também me contou. O Otis falava mais comigo do que ela.
Sabia que ela cantava junto com o rádio antes das sete, apesar de haver uma regra contra isso, e que cantava baixo e um pouco desafinado, e que parava no segundo em que lembrava que eu estava ali.
— Não para — falei na primeira vez.
— Você está dormindo.
— Tô descansando os olhos.
— Você estava roncando.
— Eu estava fazendo harmonia.
Ela jogou um pano de prato em mim. Caiu na minha cabeça e eu deixei lá, e então ouvi, bem baixinho, de trás do balcão. Uma risada. Um sopro curto de risada. Ela a matou rápido, como se tivesse vergonha de ela ter escapado, mas eu ouvi, e guardei.
Sabia que ela tinha um espaço entre os dois dentes da frente que só aparecia quando ela esquecia de ficar irritada comigo. Eu tinha visto três vezes. Estava contando.
E sabia que a torta dela era a melhor coisa que eu já tinha posto na boca, e eu já comi o cobbler de pêssego da minha mãe na Páscoa, então não digo isso de leve.
Ela fazia uma diferente a cada manhã. Mirtilo na segunda. Cereja na terça. Quarta era de leitelho, que eu nunca tinha ouvido falar e agora brigaria por ela. Quinta, pêssego. Sexta era uma de chocolate com massa de bolachas salgadas amassadas, que fez os jogadores de linha chorarem lágrimas de verdade quando levei uma caixa pra eles. Sábado ela não fazia torta nenhuma, porque aos sábados fazia rolinhos de canela do tamanho de uma luva de apanhador, e a fila saía pela porta e dobrava a esquina.
Na segunda semana, ela começou a deixar uma fatia na minha mesa às 5h40, ao lado do café, sem perguntar.
No primeiro dia em que ela fez isso, eu estiquei a mão pra carteira.
— Não — disse ela. — Você consertou a minha mesa. Seu dinheiro não vale mais aqui. A torta é por conta da casa. Cala a boca e come.
— Lottie…
— Cala a boca — disse ela — e come.
Então eu disse “Obrigado, senhora” e comi. E na saída, enquanto ela estava nos fundos tirando a fornada seguinte, parei no caixa, onde o Otis contava moedas de vinte e cinco centavos, e pus uma nota de dez.
O Otis olhou pra nota de dez. Olhou pra mim. As sobrancelhas brancas dele subiram pela testa.
— Ela disse que é por conta da casa — disse ele.
— Sim, senhor. E eu não posso aceitar. O senhor sabe disso. Eu sei disso. Ela não precisa saber disso.
O Otis me estudou por um longo momento. Depois bateu na caixa registradora velha, escreveu alguma coisa numa comanda verde e a cravou no espeto de metal comprido junto à janela, com força, como se a estivesse matando.
— Ela vai ficar brava — disse.
— Ela está sempre brava.
— Não — disse o Otis. — Aquela é só a cara dela.
Então esse foi o nosso acordo, eu e o Otis. Dois homens que não precisavam falar sobre aquilo.
Os treinos daquela semana foram uma fornalha. Corri com o grupo lento, porque alguém tinha que correr, e falei o caminho inteiro. Respira, bebê. Mais uma corrida. Suas pernas estão mentindo.
Depois, na sala de vídeo, o ar-condicionado zumbia e todo mundo se largava nas cadeiras como roupa molhada. Menos o Hale.
Beck Hale era júnior, nosso reserva, número catorze, e se sentava na mesma cadeira todo dia, a de costas pra janela. Tinha uma cicatriz atravessando a sobrancelha esquerda e um cordão azul-marinho amarrado no pulso esquerdo, e não falava muito. Enquanto o resto de nós encarava a tela, ele desenhava. Cada jogada que os técnicos mostravam, ele desenhava no bloco em linhas limpinhas, como um mapa, mais rápido do que o vídeo andava.
Caí na cadeira ao lado dele. — O que você tem aí, Picasso?
Ele não levantou os olhos. — Cover two. O safety trapaceia pra esquerda em todo terceiro down. Está cansado. Quer ir pra casa.
— Quem não quer.
— Não — disse Beck. — Você não quer. Você quer ir pra uma lanchonete.
Virei a cabeça devagar. — Como é?
— Você cheira a canela toda manhã. Sua caminhonete fica estacionada na Sycamore às cinco. Eu passo por lá a caminho da piscina. — Disse isso seco, sem provocação nenhuma, como quem lê uma jogada pra mim. — Você fica mais feliz depois. Sorri menos com o rosto inteiro e mais com os olhos.
A sala ficou bem quieta ao nosso redor. Dois jogadores de linha se viraram.
— Novato — falei —, a gente vai conversar sobre privacidade.
— Tá bom — disse Beck, e voltou a desenhar.
Os jogadores de linha não voltaram a coisa nenhuma. Um deles, o Ty, se inclinou sobre o encosto da cadeira. — É uma garota? O Deon Marsh está apaixonado por uma garota que faz torta?
— Vira pra frente.
— É uma garota — disse Ty pra sala inteira. — Ah, é uma garota. Olha as orelhas dele.
Minhas orelhas estavam bem. Minhas orelhas estavam completamente bem.
Joguei uma garrafa d’água no Ty, de leve, e as luzes baixaram. No escuro, com o vídeo tremeluzindo, olhei pro bloco do Beck. Ele tinha desenhado um quadradinho no canto, longe das jogadas. Uma mesa. Um banco. Uma coisa redonda num prato com linhas cruzadas por cima. Uma treliça.
Não falei nada. Ele também não. Mas tirei uma foto daquilo com o celular quando ninguém estava olhando, e ainda tenho.
Na sexta-feira da segunda semana, eu a convidei pra sair.
Fiz errado. Soube enquanto fazia. Eram 5h40 e ela tinha acabado de pôr a torta de chocolate com massa de bolacha, e estava se virando pra ir embora, e eu disse “Vem jantar comigo” com a minha voz normal, rápido demais, como uma chamada de jogada.
Ela parou. Não se virou.
— Eu trabalho no jantar — disse.
— Não toda noite.
— Toda noite que importa.
— Então vem tomar café da manhã comigo. Em outro lugar. Num lugar onde você não precise fazer a comida.
Ela se virou então. Estava de braços cruzados sobre o avental, o queixo erguido, e me olhou do jeito que um cornerback olha um recebedor que já leu.
— Deon — disse. Foi a primeira vez que disse meu nome. Atravessou direto por mim como uma pancada que eu nunca vi chegar. — Quantos anos você tem?
— Vinte e dois.
— Quanto tempo você fica aqui?
Eu sabia o que ela queria dizer. Não queria dizer. — Mais uma temporada.
— E depois?
— E depois pra onde o draft me mandar. Ou pra onde eu conseguir um emprego. Ou pra casa, se tudo der errado.
— Certo — disse ela. — Então. Estudante vai embora. É o que estudante faz. Entra aqui por quatro anos, come a minha torta, chora naquela mesa por causa de um término ou de uma nota, e depois ganha um diploma e um caminhão de mudança, e eu nunca mais vejo. Jogador de futebol americano vai mais rápido ainda. — Levantou um ombro. — Não estou brava com isso. É só como a cidade funciona. Eu sou a cidade. Você é a temporada.
— Isso é uma maneira muito triste de ver.
— É uma maneira real de ver.
Fiquei com aquilo. O rádio tocava alguma coisa antiga e suave. O Otis bateu uma panela nos fundos.
— Tá bom — falei.
Ela piscou. — Tá bom?
— Tá bom. Você disse não. Eu ouvi. — Peguei o garfo. — Mas vou continuar comendo torta.
— Tudo bem.
— Toda manhã.
— É pra isso que serve a torta.
— E vou continuar convidando. Não todo dia. Não quero ser chato. Só de vez em quando. Como o tempo. — Dei uma garfada na torta de chocolate, e era tão boa que fechei os olhos. — Você pode continuar dizendo não. Eu vou continuar ouvindo. Mas eu estou aqui até a temporada acabar, sou teimoso, e você faz uma massa com gosto de alguém que me ama.
Ela ficou ali parada por muito tempo.
— Não é assim que massa funciona — disse por fim. A voz dela não estava firme.
— Parece que é — falei.
Ela voltou pra trás do balcão. Não cantou o resto da manhã. Mas quando me levantei pra ir embora, e parei no caixa, e o Otis pegou meus dez e cravou a comanda no espeto, ouvi ela cantarolando na cozinha, baixo e desafinado e doce.
Foi na sexta seguinte que as costas do Otis travaram.
Ouvi antes de ver. Um estrondo da cozinha, uma palavra feia que eu nunca tinha ouvido um homem de setenta e um anos dizer, e a voz da Lottie subindo, aguda e assustada. “Otis? Otis, não se mexa. Não… Eu disse não se mexa!”
Saí do banco e atravessei a porta vaivém antes de pensar. O Otis estava debruçado sobre a bancada, agarrado com as duas mãos, o rosto cinza. A Lottie o abraçava pela cintura como se pudesse sustentá-lo só com amor.
— Não é nada — disse o Otis entre os dentes. — É a coisa de sempre.
— Não é nada, não — disse a Lottie. — Você não consegue ficar de pé.
Fui pro outro lado do Otis. — Seu Brummel, vou ajudar o senhor a sentar. Se apoie em mim. Todo o peso. Eu levanto coisa mais pesada que o senhor antes do café da manhã.
Foi preciso nós dois pra levá-lo até a cadeira junto à porta dos fundos. A Lottie ligou pra filha dele, que morava a vinte minutos dali, e ela veio e o levou ao médico, e eu fiquei na cozinha com a Lottie enquanto o café queimava na chapa quente porque ninguém tinha lembrado dele.
Ela desligou o café. As mãos dela tremiam.
— Ele vai ficar bem — falei.
— Vai ficar bem — concordou. — Vai ficar de cama por duas semanas. Fez isso três anos atrás. — Ela apertou as palmas contra os olhos. — E amanhã é Quatro de Julho.
— O que acontece no Quatro de Julho?
Ela riu, e não foi uma risada feliz. — O desfile desce a University às dez. Toda família do condado estaciona na Sycamore. Abrimos às seis e não paramos até os fogos. Trezentas pessoas. A Birdie chamava de o Grande Dia. O Otis cuida da chapa. Eu faço todo o resto. E agora estou sem chapa, sem Otis e com uma garota chamada Kayleigh que opera o caixa e chora se algum cliente levanta a voz.
— Então fecha por um dia.
— A gente não fecha no Quatro de Julho. — Disse como se eu tivesse sugerido incendiar o lugar. — Nunca fechamos no Quatro de Julho. Nem quando a Birdie teve gripe. Nem no ano em que o telhado vazou. Nunca.
Olhei ao redor da cozinha. A chapa grande e plana. As fritadeiras fundas. A prateleira de formas de torta e a câmara fria e o fichário de três argolas com as receitas do Otis, manchado e gordo e mais velho que eu.
— A que horas você precisa de mim? — perguntei.
Ela baixou as mãos. — Não preciso.
— Cinco?
— Deon. Você tem treino.
— É Quatro de Julho. O técnico deu o dia. Até a sala de musculação está trancada. — Sorri pra ela. — E eu faço uma panqueca muito boa. Minha mãe me ensinou. Não estou dizendo que sou o Otis. Estou dizendo que sou grande, sou rápido, e recebo ordens de gente assustadora o tempo todo.
— Eu não sou assustadora.
— Lottie — falei com delicadeza —, você é a pessoa mais assustadora que eu já conheci.
Ela me olhou por muito tempo. Os olhos dela estavam molhados e furiosos e mais alguma coisa, uma coisa que eu esperava ver havia duas semanas.
— Quatro e meia — disse. — Não cinco. Quatro e meia. E se você queimar uma única panqueca, Marsh, eu te coloco na fritadeira.
— Sim, senhora — falei, e dessa vez ela não mandou eu parar.
Farinha no Quatro de Julho
Lottie
Ele estava na calçada às 4h22, segurando dois cafés do posto de gasolina e usando um avental que dizia BEIJE O COZINHEIRO em letras vermelhas.
— Não — falei, destrancando a porta que não trancava.
— Era o único que tinha na Dollar General.
— Você foi na Dollar General às quatro da manhã comprar um avental.
— Eu levo isso a sério, Lottie. — Ele estendeu um café. — Além disso, não confio no seu café antes das cinco. Tem gosto de castigo.
Peguei o café. Era horrível. Bebi tudo.
Às seis, ele tinha feito duzentas panquecas.
Não estou exagerando. Eu contei a massa. Ele ficou parado na chapa do Otis com uma espátula em cada mão e o avental BEIJE O COZINHEIRO esticado sobre o peito, virando panquecas em fileiras como quem lê uma defesa. Da esquerda pra direita. Despeja, espera, bolhas, vira. Despeja, espera, bolhas, vira. Cantarolava enquanto fazia. Conversava com elas.
— Vem, bebê. Você consegue. Não tenha pressa. Isso, assim.
— Você está treinando as panquecas?
— Panqueca também precisa de amor — disse ele, e deslizou seis círculos dourados perfeitos num prato sem olhar.
Às dez, o desfile descia a University, e todas as mesas estavam cheias, e as pessoas se amontoavam em três fileiras no balcão, e o barulho era uma parede. A Kayleigh chorou uma vez, na câmara fria, por noventa segundos, e depois saiu e anotou pedidos como um soldado. O Deon cuidava da chapa e da fritadeira e carregava caixas de louça suja sobre a cabeça pela multidão como um garçom de filme. As crianças o encaravam. Os pais encaravam mais ainda.
— Você é o Deon Marsh? — perguntou um homem de camisa da bandeira, segurando os ovos.
— Não, senhor — disse Deon. — Sou o lavador de pratos. Mas ouvi dizer que esse cara é muito bonito.
O homem riu tanto que precisou se sentar.
Eu fiz torta. Fiz mais torta do que já fiz na vida. Cereja, porque é vermelha. Mirtilo, porque é azul. Uma de leitelho com chantilly por cima, pro branco. A Birdie chamava de o conjunto da bandeira, e eu fazia todo Quatro de Julho porque ela fazia, e porque, se eu parasse, ela teria ido embora de verdade.
Em certo momento levantei os olhos da massa e ele me observava da chapa. Não do jeito que os homens me olham quando querem alguma coisa. Ele olhava as minhas mãos. O jeito como eu dobrava as bordas. O jeito como eu apertava o polegar na massa pra fazer as ondinhas.
— Que foi? — falei.
— Você faz sem olhar — disse ele. — Como se estivesse nos dedos.
— Está nos dedos. A Birdie me ensinou aos seis anos. Ficava atrás de mim num caixote de leite e punha as mãos dela sobre as minhas, e a gente fazia junto até eu conseguir sozinha.
— Me ensina.
— Você tem panquecas.
— Depois — disse ele. — Me ensina depois.
Fechamos às nove, como sempre fazemos no Quatro de Julho, quinze minutos antes de os fogos começarem sobre o estádio. O Deon disse “Vocês têm que ver”, pra Kayleigh e pra mim, como se a lanchonete fosse dele, e a mãe da Kayleigh veio buscá-la com uma estrelinha já acesa, e então ficamos só nós dois.
A cozinha era um desastre. Farinha em toda superfície. Calda no teto, de algum jeito. Seiscentas panquecas e novecentos pratos.
— Deixa — disse ele.
— Não posso deixar.
— Pode deixar por vinte minutos. Vem. — Empurrou a porta dos fundos com o quadril. — Fogos.
A porta dos fundos dá em três degraus de cimento e num beco onde mora a caçamba, e depois da caçamba, por cima do telhado da lavanderia, dá pra ver o topo dos refletores do estádio. A Birdie sentava naqueles degraus com um cigarro que não podia ter e me dizia que o estádio era uma nave espacial. Quando eu era pequena, acreditava nela.
Sentei no degrau de cima. Ele sentou no de baixo, porque, se sentasse ao meu lado, não caberíamos os dois. Mesmo um degrau abaixo, a cabeça dele chegava ao meu ombro.
O primeiro fogo subiu dourado e se abriu sobre o estádio com um som de porta batendo muito longe. Depois vermelho. Depois um branco que ficou parado ali e caiu devagar, como glitter na água.
— Ah — falei, antes de conseguir me impedir.
Ele não olhava pro céu. Eu podia sentir que ele não olhava.
— Você está com farinha — disse baixinho. — No rosto.
— Estou com farinha em todo lugar.
— Aqui. — Ele se virou no degrau e levantou a mão, devagar, tão devagar que eu poderia ter me afastado uma dúzia de vezes. O polegar dele tocou meu osso da bochecha. Passou uma vez. Foi a coisa mais gentil que uma mão daquele tamanho já fez. — Pronto.
Eu não respirei. Um fogo verde se abriu sobre nós e iluminou o rosto dele por cima, e ele não estava sorrindo. Foi isso que me desfez. Deon Marsh, que sorria pra todo mundo, que sorria pra calouros e velhos e panquecas, não estava sorrindo pra mim. Estava me olhando como se eu fosse uma pergunta que ele tentava responder havia duas semanas.
— Lottie — disse. — Vou te perguntar uma coisa, e você pode dizer não. Você já disse não antes. Eu sempre ouço.
Meu coração batia tão forte que eu o sentia nos dentes.
— Quero te beijar — disse. — Agora. Nesses degraus. E se você disser não, eu vou pra casa e volto às quatro e cinquenta amanhã e me sento na minha mesa e nunca falo uma palavra sobre isso. — O polegar dele ainda estava na minha bochecha. Não se mexia. Esperava. — Então me diz. Sim ou não.
Sobre nós o céu se rompeu em vermelho e dourado, e a cidade inteira vibrou de algum lugar distante, e eu abri a boca pra dizer que não.


































