Facas nos Pés
Tierney
Às quatro e cinquenta e dois da manhã, Tierney Burke ainda cheirava a fórmula quente, e estava prestes a entrar numa pista de hóquei.
Ela ficou sentada no Corolla, no estacionamento do Gutterson Fieldhouse, com o motor estalando e o aquecedor soprando um ar que nunca passava do morno. O suéter tinha uma mancha úmida no ombro esquerdo, onde uma bebê de cinco semanas decidira, às três da manhã, que a mamadeira tinha acabado e o jantar também. Tierney limpara a mancha com um lenço umedecido, no escuro da cozinha do chalé, e achara que serviria.
Não servia. Era o que ela tinha.
Conferiu o celular. Uma mensagem da Maisie, enviada às quatro e quarenta: Ela dormiu. Obrigada. Não sei dizer isso melhor do que assim.
Tierney respondeu: Então não diga. Durma. Vejo vocês duas ao meio-dia.
Enfiou o telefone no bolso do casaco de lã vermelho, pegou o caderno de esboços e o estojo de lápis enrolável e saiu do carro. O ar de outubro, vindo do lago, atravessou o macacão jeans como se ele não existisse. Acima das árvores, o grande telhado curvo do ginásio era uma forma escura contra um céu mais escuro ainda.
Havia um crachá plastificado preso ao casaco. Dizia VISITANTE – PROGRAMA DE MURAIS – ARTISTA ESTUDANTE, e lhe custara três semanas de propostas, duas cartas de professores e uma entrevista com um sujeito do departamento de esportes que lhe perguntara duas vezes se ela já tinha mesmo assistido a um jogo de hóquei.
Tinha. Uma vez. No primeiro ano da faculdade, com a Maisie, nas arquibancadas baratas, enquanto a Maisie fingia não estar olhando para um jogador, e só um.
Tierney afastou o pensamento e mostrou o crachá ao segurança sonolento da porta lateral. Ele a deixou passar sem tirar os olhos das palavras cruzadas.
Lá dentro, o Gutterson cheirava a ar frio, tapete de borracha e pipoca velha. Os tênis dela rangeram por um corredor de concreto forrado de fotos emolduradas dos times. Ela não olhou para as fotos. Sabia qual delas tinha um calouro alto e loiro na fileira de trás, e sabia que olhos ele tinha, porque quatro horas antes estivera olhando para um par menor dos mesmos olhos.
Azul-claro. Azul de céu de inverno. Os olhos da Rosemary. Os olhos de Callahan Briggs.
O pai da bebê estava numa clínica particular em Boston, reaprendendo a confiar no próprio cérebro depois de uma pancada, em fevereiro, que quase o matara. Ele não se lembrava da Maisie. Não se lembrava dos sete meses em que a amara. Não sabia que a filha existia, porque a mãe dele ficara num corredor de hospital e garantira que ele nunca soubesse.
E Tierney, que segurara a mão da Maisie durante dezoito horas de trabalho de parto, estava entrando na pista dele antes do nascer do sol para desenhar os colegas de time dele em troca de dinheiro.
É uma parede, disse a si mesma. É tinta numa parede. Paga o aluguel.
Saiu do túnel para a arena e parou.
As luzes estavam só pela metade. A grande lâmina branca de gelo brilhava sob elas como o interior de uma concha. As arquibancadas subiam vazias de todos os lados, fileira após fileira de assentos verdes esperando uma multidão que só chegaria dali a horas.
E havia um homem no gelo.
Patinava de costas, rápido, agachado, o taco baixo, os olhos fixos em nada. Não, não em nada. Ele observava um atacante que não estava ali. Arrastava os patins, girava, fechava um espaço contra um fantasma e jogava o ombro no ar vazio junto à mureta. Depois voltava de patins até a linha azul e fazia tudo de novo.
Tierney subiu seis fileiras, sentou e abriu o caderno. A mão se mexeu antes que ela decidisse qualquer coisa.
Desenhou primeiro o agachamento. A longa linha das costas dele. O ângulo dos patins mordendo o gelo. Depois desenhou a linha azul e o espaço ao lado dele, nela, e parou.
Ele deixava espaço. Toda vez. Fazia o treino um pouco fora do centro, como se um segundo jogador estivesse ao seu lado, e nem uma vez invadia esse espaço. Guardava-o do jeito que as pessoas guardam uma cadeira vazia à mesa de um feriado.
Tierney sabia exatamente a quem aquele espaço pertencia.
Sabia também quem ele era. Soubera desde o primeiro segundo, pelo cabelo castanho cortado curto, pelo tamanho dele, pelo jeito de se mover. Fletcher Hayes. Defensor do segundo ano. Parceiro de Callahan na linha azul desde o primeiro treino do time principal. A Maisie falava dele nos meses bons, quando falar ainda era seguro. O Fletcher é o tipo que levaria um tiro pelo Cal, dissera uma vez, rindo. Reclamaria o tempo todo, mas levaria.
Tierney desenhou o espaço vazio como uma forma. Não um homem. Só o branco do papel, deixado intocado, no contorno de um corpo patinando ao lado dele. Um buraco do tamanho de um melhor amigo.
A regra dela era simples, e ela a fizera na noite em que a Maisie voltou de Boston com a ameaça ainda zunindo nos ouvidos. Nada de jogadores de hóquei. Nem para namorar, nem para confiar, nem para conversar por mais tempo do que levava para dizer com licença. O hóquei pertencia à família Briggs. A pista, os doadores, os olheiros, os advogados de casacos compridos. Todo mundo naquele prédio estava a um telefonema de Isadora Fenn.
E este era o mais próximo de todos.
Desenhe-o, disse a si mesma. Desenhe os patins. Vá embora.
Precisava do respingo. O departamento de esportes queria movimento heroico, e nada dizia movimento como o leque branco de gelo que voava quando um patinador freava de repente. Dali das arquibancadas ela não conseguia ver direito. Então desceu os degraus, seguiu pela primeira fileira e passou pelo portãozinho até o piso de borracha do banco do time. Debruçou-se sobre a mureta, com o caderno aberto e o lápis pronto.
Ele saiu do canto do fundo a toda velocidade.
Ela o viu vê-la. Viu os olhos dele se arregalarem. Então ele fez o que ela viera desenhar, uma freada dura, de lado, a um metro da mureta, e uma onda de gelo raspado passou por cima e a atingiu em cheio no rosto.
Tierney ficou ali parada, pingando.
O caderno estava branco daquilo. O lápis estava branco daquilo. Havia gelo nos cílios e gelo na frente do casaco e um pedacinho frio, derretendo, que escorria para dentro da gola.
— Ai, não — disse Fletcher Hayes. — Ai, não. Desculpa. Eu não sabia que tinha alguém… você está bem?
Ela enxugou o rosto com a manga, que também estava molhada.
— Você fez de propósito.
— Juro que não.
— Você freou assim em cima de mim.
— Freei assim porque você estava ali, e a outra opção era a mureta. — Ele tirou uma luva e estendeu a mão por cima da mureta. — Toma. Me dá o caderno. Eu sacudo.
— Não toque no meu caderno.
Ele recolheu a mão. De perto, era mais novo do que parecia lá das arquibancadas. Vinte anos, talvez. Suor no cabelo. Uma pequena cicatriz branca atravessando uma sobrancelha. Os olhos eram firmes e um pouco cansados, de quem não dormia bem havia muito tempo e resolvera parar de reclamar disso.
— Eu sou o Fletcher — disse ele.
— Eu sei.
Isso o surpreendeu.
— Sabe?
— A pista é sua, e você é o único nela às cinco da manhã. Foi um palpite bem fundamentado. — Ela sacudiu o caderno. Gelo escorregou pelo piso de borracha. — Seu esporte, aliás, é um passatempo de rico com facas nos pés.
A boca dele se contraiu.
— Meu pai tira leite de sessenta vacas lá perto de Enosburg Falls. Paguei meus primeiros patins de verdade limpando estábulo para um vizinho durante dois invernos. Então não tenho certeza quanto à parte do rico. — Olhou para as lâminas. — As facas, justo.
Não era a resposta que ela esperava, e ela não gostou de quanto gostou dela.
— Nada de jogadores de hóquei — murmurou entre os dentes, para se lembrar.
— Você é o mural — disse ele.
— Eu sou o mural.
— O técnico disse que uma estudante de arte ia aparecer. Disse, e cito: Seja prestativo, Hayes, e não deixe que ela leve um disco na cara. — Ele fez uma careta. — Um de dois.
— Zero de dois. Ser prestativo teria sido não jogar uma geleira em cima de mim.
Ele riu então. Foi um som curto e rouco, arrancado dele de surpresa, como se fizesse tempo que não ria. Ecoou na arena vazia e voltou para eles lá das vigas altas.
Ela olhou para o caderno, para parar de olhar para ele. A página de cima sobrevivera. A água formara gotas sobre o grafite, mas o desenho estava lá. O agachamento. A linha azul. A forma branca ao lado dele.
Ele também viu. Ela soube no segundo em que ele viu, porque ele ficou completamente imóvel.
— Posso ver? — perguntou baixinho. — Não vou encostar. Só segura no alto.
Ela deveria ter dito não. Segurou no alto.
Ele olhou o desenho por muito tempo. O gelo em volta zumbia sob as luzes. Quando falou, a voz dele tinha mudado.
— Você desenhou o buraco.
— Desenhei aquilo que você estava contornando.
— A maioria das pessoas não vê. — Ele engoliu em seco. — A maioria acha que eu sou ruim em me manter no centro.
— Você não é ruim nisso. Você está fazendo de propósito. — Ela fechou o caderno, porque o rosto dele estava fazendo uma coisa que ela não suportava ver. — Para quem é?
Ela sabia. Perguntou assim mesmo, e se odiou por isso.
— Meu parceiro — disse Fletcher. — Ele se machucou no inverno passado. Está em Boston. Ele vai voltar. — Disse essa última parte do jeito que as pessoas dizem uma prece repetida vezes demais para contar. — Quando voltar, quero que encontre o lado dele do gelo como deixou.
A garganta de Tierney se fechou.
Cinco semanas antes, ela estivera numa sala de parto e vira aquela bebê chegar. Dera mamadeira àquela recém-nascida às três da manhã de hoje. Aquela bebê tinha os olhos do parceiro dele, o queixo do parceiro dele e uma minúscula marca de nascença em forma de lua crescente no pulso esquerdo, igual à do pulso de Callahan. E ali estava o homem que guardava o lugar de Callahan no gelo, olhando para ela como se ela tivesse visto algo que ninguém mais se dera ao trabalho de ver.
Se ele algum dia visse a bebê, saberia. Bastaria um olhar.
— Preciso de referência para as freadas — disse ela, depressa demais. — Para o projeto. O departamento de esportes quer movimento.
— Então volte. — Ele calçou a luva de novo. — Não no banco. Eu te ponho nas escadas junto ao vidro, onde o respingo não alcança. Patino todo dia às cinco. Trago um café que não tenha gosto de Zamboni.
— Eu não venho todo dia.
— Que dias você vem?
— Quatro de sete. Três manhãs por semana, eu fico inalcançável.
As sobrancelhas dele subiram.
— Inalcançável como?
— Inalcançável de um jeito sobre o qual você não tem o direito de perguntar.
Ele a olhou por mais um segundo. Ela esperou que ele insistisse. Garotos que jogavam hóquei sempre insistiam. Era o esporte inteiro.
— Tá bom — disse ele. — Quatro de sete. Você me diz quais quatro.
O celular vibrou no bolso do casaco. Ela o tirou com a mão molhada.
Maisie: Ela acordou gritando. Não quer a mamadeira. Desculpa. Desculpa mesmo. Sei que você acabou de sair.
O coração de Tierney despencou até os sapatos.
— Eu preciso ir — disse ela.
— Está tudo bem?
— É uma das três. — Ela já estava se mexendo, enfiando o estojo de lápis no bolso, empurrando o portão do banco. — Quinta. Cinco horas. Escadas junto ao vidro.
— Quinta — gritou ele atrás dela. — Ei. Qual é o seu nome?
Ela já estava na metade do corredor quando percebeu que deixara uma folha solta para trás. Escorregara do caderno para o banco quando ela sacudiu o gelo. Dava para vê-la do alto das escadas, branca sobre o piso preto de borracha.
Ele patinara até o portão. Estava se abaixando para pegá-la.
Ela não voltou para buscar.
— Tierney — disse, alto o bastante para ser ouvida. Depois se virou e correu pelo corredor de concreto, passando pelas fotos emolduradas de um calouro que nunca se permitiria olhar.
No estacionamento, os freios do Corolla rangeram e guincharam quando ela deu a ré depressa demais. Dirigiu para o sul, rumo a Charlotte, com o aquecedor no máximo e o céu clareando em cinza sobre o lago, e a cada quilômetro se chamou de idiota.
Nada de jogadores de hóquei. Essa era a regra.
E ela acabara de marcar um encontro com o único homem em Vermont capaz de olhar para aquela bebê e saber de quem era.
O Buraco na Linha Azul
Fletcher
Fletcher prendeu o desenho na parede acima da escrivaninha com uma tachinha vermelha, e durante três dias foi a primeira coisa que viu ao acordar.
O quarto dele era o menor da velha casa alugada que dividia com o Duggan e dois alunos do terceiro ano do time. A janela dava para a garagem de um vizinho. O radiador batia às duas da manhã como se tivesse alguém preso lá dentro. Ele tinha uma cama, uma escrivaninha, uma cômoda com uma gaveta quebrada e agora uma folha de papel de esboço manchada de água, mostrando um homem patinando ao lado de nada.
Ele não sabia que aquilo aparecia. Era isso que o mantinha olhando.
Oito meses. Oito meses patinando o lado do Cal no gelo vazio, e nenhum técnico, nenhum colega, nenhum repórter dissera uma palavra a respeito. Aí uma estudante de arte pequena e furiosa, com gelo nos cílios, olhara para ele por dez minutos e desenhara aquilo como se fosse a coisa mais óbvia do prédio.
Você está fazendo de propósito.
Sim. Estava.
Sentou na beirada da cama, com os cotovelos nos joelhos, e se permitiu lembrar da noite em que tudo começou, porque algumas manhãs era mais fácil deixar vir do que lutar contra.
Fevereiro. O estalo do capacete do Cal no gelo. O silêncio na arena, que foi o pior som que Fletcher já ouvira. As portas da ambulância. Depois a mão do técnico no ombro dele, no túnel: Vá buscar o celular dele, Hayes. Precisamos ligar para a família.
Então Fletcher correra até o alojamento dos calouros, ainda com metade do equipamento, e encontrara a porta do Cal já destrancada.
Dois homens de terno cinza estavam lá dentro. Tinham caixas. Tinham uma prancheta. Tinham no corredor uma máquina que comia papel e o transformava em pó, e a alimentavam com os cadernos do Cal, um por um. A agenda dele. As anotações de aula. Um maço de cartas. Fletcher agarrara o braço de um dos homens, e o homem nem o olhara. Apenas apontara para o monitor do alojamento, parado no corredor com um papel assinado nas mãos e uma cara de enjoado.
Em agosto, limpando para o técnico as velhas caixas de arquivo do time, Fletcher encontrara um recibo. Cinco mil dólares. Uma doação discricionária da fundação esportiva da família Briggs, paga àquele mesmo monitor três dias depois da pancada.
A mãe do Cal não tinha arrumado o quarto do filho. Tinha apagado o filho.
Desde então, Fletcher fora três vezes a Boston. Nas três, um segurança de jaqueta escura o recebera no portão da clínica com um sorriso educado e uma lista. A sra. Fenn pediu que o filho não receba visitas fora do agendado. Sinto muito, sr. Hayes. As ligações dele caíam numa assistente que agradecia a preocupação e prometia transmitir os votos de melhoras.
E em algum lugar no pó daquela trituradora estava o que quer que Isadora Fenn tivesse temido tanto.
Fletcher tinha um palpite. Durante todo o inverno passado, o Cal sumira nos fins de semana e voltara calado e feliz de um jeito que nada tinha a ver com hóquei. Sorria para o celular. Cantarolava no chuveiro, o que era um crime. Uma vez voltara com uma mancha de tinta azul na manga da jaqueta e se recusara a explicar, sorrindo feito um idiota quando Fletcher perguntou.
Houvera alguém. O Cal nunca dissera um nome.
Agora o Cal também não se lembrava do nome. Os médicos diziam que sete meses tinham sumido, de outubro a maio. Os melhores sete meses da vida do melhor amigo dele, alimentados a uma máquina num corredor.
Fletcher se levantou, vestiu um moletom e olhou o desenho mais uma vez antes de sair para a pista.
Quando ele voltar, pensou, vou descobrir quem ela era. Era a única promessa que lhe restava que ninguém podia triturar.
Na quinta, às quatro e cinquenta e cinco, ela já estava sentada nas escadas junto ao vidro.
Ele viu o casaco vermelho do túnel e sentiu alguma coisa virar do avesso no peito, o que era ridículo, porque ele não a conhecia. Sabia o primeiro nome dela, que ela odiava o esporte dele e que três manhãs por semana ela pertencia a algo que não queria explicar. Só isso.
Patinou até lá com dois cafés equilibrados em cima da mureta e subiu as escadas de patins, o que o técnico o mataria por fazer.
— Da cafeteria da Church Street — disse, entregando um. — Não é o da Zamboni.
Ela pegou o copo com as duas mãos e cheirou antes de beber, como alguém que não confia em presentes. Então os ombros dela desceram meio centímetro.
— Tá — disse. — Isso é café de verdade.
— Eu cumpro a minha palavra.
— Veremos.
Ela usava de novo o macacão jeans respingado de tinta debaixo do casaco, um brinco de latão numa orelha só, e o cabelo escuro cortado curto de um lado e comprido do outro, como se tivesse começado um corte e enjoado no meio. Havia olheiras sob os olhos dela, feito marcas de polegar. Parecia alguém que estava acordada desde muito antes dele.
— Vai — disse ela, apontando o lápis para o gelo. — Patina. Faz movimento. Eu não estou te pagando para ficar parado aí.
— Você não está me pagando nada.
— Exato. Então fique muito à vontade para me deixar em paz.
Ele foi. Fez o treino, e na metade percebeu que patinava mais forte do que em semanas, mais afiado nas freadas, mais limpo nas curvas, e que era porque alguém estava olhando. Não um técnico. Não um olheiro. Alguém que via o buraco e não precisava que ele explicasse.
Quando voltou ao vidro, quarenta minutos depois, ela tinha enchido seis páginas.
Mostrou algumas. Não todas. Os patins dele de um ângulo bem baixo, como se o gelo fosse um penhasco. As mãos dele no taco. O rosto dele de perfil, tenso com algo que ele não reconheceu como seu. Em todas as páginas, ao lado dele, a mesma forma branca intocada.
— Este é o projeto — disse ela. Virou o caderno para que ele visse uma página maior, riscada numa grade cuidadosa. Dois defensores numa linha azul, lado a lado, com a mesma altura, o mesmo agachamento. Um estava desenhado em cores cheias. O outro era só um contorno, preenchido com nada além da parede branca atrás. — O departamento de esportes pediu movimento heroico. Estou dando a eles o espaço que você guarda. O parceiro que não está lá. Todo mundo que entrar neste prédio vai ver que um time é mais do que os jogadores que estão no gelo esta noite.
Fletcher não conseguiu falar por um segundo.
— Eles vão odiar — acrescentou ela. — Doadores gostam de rostos. Mas vou entregar mesmo assim.
— Não mude — disse ele. A voz saiu áspera. — Seja o que for que disserem. Não mude.
Ela o olhou por um longo momento. Depois fechou o caderno com delicadeza, como se ele tivesse virado algo frágil.
— Segunda — disse. — E sábado e domingo. Essas são as minhas próximas três manhãs aqui.
Ele entendeu que ela estava lhe dizendo quais eram os outros dias sem lhe dizer nada.
— Segunda — concordou.
Novembro chegou frio. O lago ficou da cor de ardósia, e a primeira neve caiu no pátio e derreteu antes do meio-dia.
Toda noite, por volta das dez, o celular dele vibrava com o mesmo tipo de mensagem. Ter, qui, sáb. Ou Seg, qua, dom. Nunca mais de quatro. Nunca uma explicação. Nas outras três manhãs, ela não respondia mensagens até depois do meio-dia, e quando respondia soava tão cansada que ele parou de mandar.
Ele não perguntou. Foi a coisa mais difícil que fez naquele ano, e ele passara o ano sendo barrado num portão em Boston.
Nas manhãs dela, ela vinha. Sentava nas escadas junto ao vidro, de casaco vermelho, e ele trazia café, e ela desenhava enquanto ele patinava. Depois conversavam. No começo só sobre o mural. Depois sobre outras coisas. A bolsa de estudos dela, que ela guardava como um cão guarda um osso. As paisagens urbanas vivas e barulhentas que pintava para si mesma, todas neon e tijolo e lanchonetes antigas, porque, dizia, o mundo já era cinza demais. A tia dela, num condado a dois de distância, que perdera o próprio garotinho para a família rica do pai quinze anos antes e ainda punha um lugar para ele no Natal.
— É por isso que eu não confio em dinheiro — disse Tierney, olhando o gelo vazio. — O dinheiro não precisa ganhar. Só precisa esperar até você ficar sem fôlego.
Ele contou da fazenda. As sessenta vacas. A cozinha da mãe, onde sempre havia pão e sempre alguém discutindo. O primeiro Dia de Ação de Graças do primeiro ano, quando o Cal não quis voltar para Charlotte e Fletcher o levou para o norte, e o Cal tirou leite de uma vaca muito mal e riu até chorar.
Ele observava o rosto dela quando dizia o nome do Cal. Ficava imóvel toda vez. Não frio. Cuidadoso. Como se o nome fosse uma panela quente que ela aprendera a pegar só com um pano.
Ele achava que era por causa do que era a família do Cal. Todo mundo em Burlington sabia do dinheiro dos Briggs.
Disso também ele não perguntou.
Na semana antes do Dia de Ação de Graças, ela pediu a noite.
— A luz da manhã está errada — disse. — Metade está apagada. Preciso de você debaixo de todas elas, com o equipamento completo, parado. Uma hora. Duas, no máximo.
Então, às dez da noite de uma terça, Fletcher convenceu o segurança noturno a acender todas as luzes do Gutterson e ficou no centro do gelo com as proteções completas e a camisa de jogo, o suor já frio nas costas, enquanto Tierney andava em volta dele de tênis sobre uma faixa de tapete de borracha que ele estendera para ela não cair.
— Mais baixo — disse ela. — Não. Mais baixo. Como se estivesse esperando alguém vir pra cima de você.
Ele se agachou mais.
— O seu taco está errado. — Ela pisou no tapete diante dele, franzindo a testa, e pôs a mão sobre a dele. Moveu o taco cinco centímetros para a esquerda. Os dedos dela estavam frios. Ele os sentiu através da luva mesmo assim, o que não fazia sentido nenhum.
— Ombros — murmurou ela.
Pôs as duas mãos espalmadas nos ombros dele e o girou alguns graus, do jeito que se gira uma estátua. Era tão menor que ele que precisava esticar o braço. Ele sentia o cheiro do cabelo dela. Tíner e algo doce e leitoso que ele não conseguia identificar. O rosto dela estava ali, a trinta centímetros do dele, sério e concentrado, o lábio inferior preso entre os dentes.
Ele parou de respirar.
Ela notou. As mãos dela pararam nos ombros dele.
Nenhum dos dois se mexeu. A grande arena zumbia em volta deles sob todas as luzes, cada assento verde vazio, e o único som era o gelo estalando baixinho ao se acomodar.
— Por que nada de jogadores de hóquei? — perguntou ele. A voz saiu baixa. — Você disse no primeiro dia. Entre os dentes. Achou que eu não tinha ouvido.
Ela não tirou as mãos.
— Porque todo mundo neste prédio responde a alguém com dinheiro — disse baixinho. — E eu aprendi o que o dinheiro faz com quem não tem.
— Eu respondo a sessenta vacas e à minha mãe.
A boca dela se curvou. Só um pouco. Foi o primeiro sorriso de verdade que ela lhe deu, e o atingiu com mais força do que qualquer trombada que ele já levara.
— Fui barrado num portão três vezes — disse ele, antes que pudesse se conter. — Em Boston. Não me deixam vê-lo. A mãe dele tem uma lista, e eu não estou nela. Eu ligo, e uma assistente agradece a preocupação. Nove meses, Tierney. Nem sei se ele reconheceria meu rosto.
Algo se moveu nos olhos dela que ele não soube ler. Dor, talvez. Ou raiva. Estava lá e sumiu.
— Ele reconheceria o seu rosto — disse ela. O polegar dela se moveu uma vez no ombro dele, sobre o plástico duro da proteção. — E quando voltar, vai ter a sorte de ter alguém que guardou o lugar dele. A maioria das pessoas não guarda nada.
— E você?
— Eu guardo tudo — disse ela, e a voz falhou nisso.
Ele largou o taco no gelo. Devagar, para que ela visse o que fazia. Tirou as luvas e as deixou cair ao lado.
— Posso te beijar? — perguntou.
Ela o encarou. Por um longo segundo, ele achou que ela ia sair do tapete, dizer algo cortante e sumir da vida dele com o caderno debaixo do braço.
Então ela tomou o rosto dele nas duas mãos frias e o beijou primeiro.
Não foi cuidadoso. Foi faminto e um pouco raivoso, como se ela lutasse contra aquilo havia semanas e estivesse furiosa por perder. Ele fez um som dentro da boca dela de que sentiria vergonha depois. Passou os braços em volta dela, proteções e tudo, e a ergueu do tapete de borracha, e ela riu junto aos lábios dele e depois o beijou com mais força, os dedos deslizando para o cabelo dele.
Quando se separaram, ela respirava depressa. Os olhos estavam muito escuros.
— Isso é uma péssima ideia — sussurrou.
— Eu sei.
— Não sabe. Você não faz ideia de quão péssima.
— Então me manda parar.
Ela o olhou por um longo momento. Ele a viu decidir. Viu acontecer ali mesmo no rosto dela, como ver um atacante se comprometer com o lado errado do gelo e ir assim mesmo.
— Rua Pearl — disse. — Terceiro andar. A porta com tinta verde na maçaneta. — Desceu do tapete e foi recuando em direção ao banco, sem soltar os olhos dele. — Vinte minutos. Se você não estiver lá em dezenove, eu mudo de ideia.
Ele nunca tirou um conjunto de proteções tão depressa na vida.
































