O Antigo Costume
Na noite em que a Coroa traz de volta o antigo costume, eu deixo o pão cair.
Só a bandeja grande, seis pães escuros ainda quentes do forno, carregada bem no alto porque eu tinha orgulho deles. Ouço as palavras, e as minhas mãos esquecem para que servem. A bandeja tomba. Seis pães rolam pelo chão do grande salão, por baixo das mesas compridas, entre as botas de todos os lobos de Emberhold.
É a primeira bandeja que derrubo na vida. Tenho vinte e quatro anos e carrego pão para dentro deste salão desde que fiquei alta o bastante para enxergar por cima de uma mesa.
Ninguém ri. Essa é a pior parte. Numa alcateia tão pequena e tão cansada, uma bandeja caindo devia ser a melhor piada da semana. Em vez disso, o salão fica em silêncio, e todos os rostos se voltam do assento alto para mim, e entendo que a alcateia inteira ouviu o que eu ouvi, e que todos estão pensando no mesmo nome.
O meu.
— Diga de novo, Mara — fala uma voz junto à parede. A voz de Hale, seca como uma porta fechada. — Para os jovens não fingirem que perderam.
Mara está ao lado do assento alto, com as mãos enfiadas nas mangas. É grisalha como ferro, vincada, e guarda a memória desta alcateia há mais tempo do que estou viva. Foi ela quem me criou. Ensinou-me as letras, o velho verso e como sovar sem rasgar a massa. Agora ela não olha para mim. É assim que sei que é grave.
— Os anciãos pediram — diz ela —, e a Coroa permitiu. O antigo costume da promessa volta a Emberhold. Todo lobo adulto que não tenha promessa será prometido até a lua nova. Um sinal deixado numa porta, de noite. Se o sinal for usado, a promessa está feita, e é selada na Lareira, diante da alcateia.
Catorze dias. A lua está gorda e branca esta noite, uma noite depois da cheia, e em catorze dias terá sumido.
Olho para a Pedra da Lareira porque não consigo olhar para ninguém. Ela fica no coração do salão, larga como uma carroça, negra de trezentos anos de fuligem, e está morta há vinte e cinco deles. Há cinza pálida nela, que nenhum sopro acorda. Quando eu era pequena, sentava na beirada fria e contava histórias a ela, caso um fogo só precisasse de um motivo.
— Filhotes de menos — continua Hale, porque Hale nunca deixou coisa difícil pela metade. — Camas vazias demais. O alojamento já abrigou quarenta guerreiros. Hoje abriga nove. Se queremos uma alcateia daqui a vinte anos, paramos de esperar um milagre e começamos a fazer famílias.
Um murmúrio percorre as mesas. Velhos assentem. As duas viúvas junto à janela encaram os pratos. Tavin, que tem dezesseis anos e é novo demais para qualquer disso, olha fixo para a sopa.
E então a Coroa se levanta.
Soren não fala muito no jantar. Fica no assento alto e conta. Eu o vejo fazer isso a vida inteira: as portas, as janelas, os lobos de cada mesa, os lugares vazios. A cicatriz pálida na garganta capta a luz do lampião. O anel negro de ferro da Coroa pesa na mão dele. Quando ele se levanta, o salão para de respirar.
— O costume continua — diz ele. A voz é grave e chapada e chega a todos os cantos. — Ninguém será forçado. O vínculo só pega onde é escolhido. É só isso.
Ele sai. Não olha para trás.
Todos sabem por quê. Quando Soren tinha doze anos, foi prometido pelo antigo costume a uma menina clara e ágil que o provocava nas fogueiras da primavera. Na Noite das Cinzas, ela queimou junto com as casas compridas, com a mãe dele, com outros quarenta. Eu ainda não tinha nascido. Nasci na primavera seguinte, a primeira filhote a chegar a Emberhold depois do incêndio, e desde então a alcateia me chama de filhote da primavera, como se eu fosse uma promessa que alguém lhes fez. Passei a vida inteira sendo a coisa brilhante numa casa triste.
Coisas brilhantes não derrubam bandejas.
Ajoelho-me debaixo da mesa mais próxima para juntar o pão, com o rosto quente e as mãos tremendo. Um pão rolou até um par de botas enormes. Uma mão desce e o pega antes que eu alcance.
Uma mão grande, riscada nos nós dos dedos por cortes velhos e pálidos de formões e serras. Ela vira o pão, tira a poeira do chão da casca com o polegar, com delicadeza, do jeito que um homem tira a neve do cabelo de uma criança.
— Não quebrou — diz Ruan.
Ele está de joelhos ao meu lado, debaixo da mesa, o que é ridículo, porque Ruan é o maior lobo da alcateia depois de Hale. Cachos negros. Barba negra e curta. Olhos cinzentos da cor de ardósia molhada. Cheira a abeto recém-cortado e óleo de linhaça, o cheiro da oficina embaixo da galeria, onde ele passa os dias impedindo este velho abrigo de desabar sobre nós. Reencaixou todas as portas de Emberhold. Nunca me disse mais de nove palavras seguidas.
— Obrigada — sussurro.
Ele estende o pão. Eu pego. Nossos dedos se tocam na casca morna, e ele fica imóvel, e eu também.
— Tome. — Outro pão cai no meu colo, vindo de cima. — O chão está limpo, Liss. Eu mesmo varri. Primavera passada, acho.
Jago se agacha na ponta da mesa, sorrindo para mim pela fresta. Cabelo ruivo-escuro preso com uma tira de couro, olhos escuros quase negros, uma cicatriz branca no antebraço esquerdo, onde uma armadilha o mordeu quando ele tinha nove anos. Cheira a zimbro e vento frio. Faz as rondas distantes até os marcos do norte e fica mais fora do que em casa. Quando está em casa, canta diante da Lareira fria, alto e desafinado, porque ninguém mais nesta alcateia o fará.
Tem mais três pães enfiados debaixo de um braço, como filhotes.
— Não faça essa cara de tragédia — diz ele. — É só pão. Você faz mais. Você sempre faz mais.
Quero rastejar o resto do caminho para debaixo da mesa e ficar lá até a lua sumir.
Porque este é o meu segredo, o que guardo há tanto tempo que abriu um sulco em mim como uma trilha no mato. Eu amo os dois. Os dois. Amei Ruan quando tinha seis anos e ele me esculpiu um lobinho de madeira com a cauda torta e me deu sem uma palavra. Amei Jago quando tinha dez e ele me ensinou a subir no telhado do alojamento, e quando caí e abri a sobrancelha esquerda no beiral, ele me carregou até a despensa de ervas e cantou o caminho todo para eu não chorar. Ainda tenho a cicatriz. Ainda tenho o lobo.
Amei os dois de dois jeitos diferentes, e então cresci, e descobri que era o mesmo jeito.
E o costume diz um.
Sovo quando não consigo dormir. Todo mundo em Emberhold sabe. Depois do jantar, depois que o salão esvazia e os lampiões se apagam em duas de cada três janelas, desço à cozinha e faço a massa de amanhã. Centeio e cevada e um pouco de mel, a receita antiga de Mara. O pão escuro é a única coisa em que sou de fato boa. Meu ensopado é ralo. Minhas tortas vazam. Mas o meu pão é o melhor desta montanha, e não sou humilde quanto a isso.
Esta noite soco a massa com mais força do que ela merece.
A porta da cozinha range. Conheço esse rangido. Conheço o lobo que virá consertá-lo.
— Emperra — diz Ruan da soleira. Traz debaixo do braço um pequeno rolo de couro com ferramentas. — A dobradiça de baixo. Eu devia ter feito semana passada.
— Está tarde.
— Eu sei.
Ele se ajoelha junto à porta e desenrola as ferramentas, e por um tempo só há o som das minhas mãos na massa e os pequenos sons de ferro dele na dobradiça. Sinto que ele não me olha do jeito que se sente o sol na nuca.
— Liss — diz ele por fim, para a dobradiça.
— Sim?
Ele fica calado por tanto tempo que paro de sovar. Então se levanta, atravessa a cozinha e para do outro lado da mesa, com a farinha entre nós. Olha para as minhas mãos na massa. Olha para o meu rosto. Os olhos cinzentos dele estão muito sérios, como ficam quando ele mede uma viga que vai sustentar um telhado.
— Nada — diz. — Boa noite.
Ele sai. A porta já não range. Fico parada com as mãos na massa e o coração batendo tão forte que dói.
Acabo de modelar os pães quando a janela sobre a bacia de lavar desliza para cima, e uma perna comprida passa por ela, e depois o resto de Jago, frio e despenteado de vento, cheirando a neve.
— Tem uma porta — digo a ele. — O Ruan acabou de consertar.
— Porta é para lobo que não tem nada a esconder. — Ele salta para o chão, rouba da tábua o cantinho do pão de ontem e dá uma mordida. — Deuses. É a única razão de eu voltar para casa. Sabia?
— Sei.
Ele se apoia na mesa ao meu lado, perto o bastante para o ombro dele tocar o meu. Cantarola algo baixo, uma melodia de antes do incêndio que Mara lhe ensinou e ele me ensinou. Está quente por baixo do frio do casaco. Por um momento nenhum dos dois diz nada.
— Grande noite — diz ele. — O costume.
— É.
— Você está com cara de quem ouviu que o forno morreu.
— Talvez alguém tenha dito.
O sorriso continua na boca dele, mas os olhos não sorriem. Então ele se inclina, devagar, e pressiona os lábios na minha testa, logo acima da cicatriz que ele me deu. Segura ali um respiro. Dois.
— Durma, Liss — diz contra a minha pele.
E sai pela porta dessa vez, como se não lhe restasse nada a esconder.
Não durmo. Fico deitada na minha cama estreita sob o beiral, vendo a lua branca cruzar as frestas da veneziana, à espera de passos. Não ouço nenhum. Lobos são silenciosos quando querem.
Ao amanhecer cinzento abro a porta para descer e acender o forno, e paro com um pé no ar.
Há duas coisas na minha soleira.
A primeira é um carimbo de pão. Um disco de bétula clara, do tamanho da minha palma, com um cabo feito para caber na mão, e no rosto dele um trevo está entalhado tão fundo e limpo que cada folha tem a sua veiazinha. Antes do incêndio a alcateia marcava o pão, cada família com seu sinal. Faz vinte e cinco anos que ninguém faz um carimbo. Cheira à oficina de Ruan.
A segunda é um pente. Chifre cinza e liso, polido até brilhar, com um cordão de lã vermelha atado numa ponta para prender no cabelo que nunca fica no laço. O meu. Cheira a zimbro e vento de neve.
Sento no meu próprio chão, de camisola, com um em cada mão.
Dois sinais. Dois lobos. Um costume.
A lua nova está a catorze dias, e amo os dois desde que conheço a palavra, e agora preciso decidir qual metade do meu coração arrancar.
Um Pente ao Lado do Carimbo
Sou um desgraçado egoísta, e sabia disso à meia-noite, e fiz mesmo assim.
É esse o pensamento com que corro pela linha do norte ao amanhecer, quatro patas no chão congelado, o frio afiado no nariz e o vulto negro e grande do meu irmão trotando ao meu lado entre os abetos. Mantenho o ritmo duro. Se eu correr rápido o bastante, talvez pare de ver a cena.
Ontem à noite subi a escada até a porta da Liss com o meu pente no punho. Eu tinha polido aquele chifre por três semanas, junto ao fogo dos marcos distantes, onde ninguém me visse fazendo isso. Tinha trocado uma boa faca na estrada do sal pela lã vermelha. Tinha um discurso inteiro pronto, caso ela abrisse a porta. Algo esperto. Algo que a fizesse rir primeiro, para ela não ver o quanto eu estava com medo.
E ali na soleira dela, ao luar branco, estava um carimbo de pão entalhado com um trevo.
Reconheci o trabalho. Mais ninguém nesta montanha corta uma linha tão limpa. Mais ninguém pensaria em dar a ela justamente aquilo de que ela mais se orgulha, feito de novo.
Ele chegou primeiro. Claro que chegou. O Ruan sempre chega primeiro. Ele é o que fica.
E fiquei naquela escada por muito tempo, com o coração disparado como o de uma lebre caçada. Depois pousei o meu pente ao lado do carimbo dele, e me afastei, e não dormi.
A trilha sobe em direção ao ombro de granito da montanha. O hálito de Ruan fumega ao meu lado. A mancha branca no peito é a única coisa clara nele.
Ele não olhou para mim nenhuma vez desde que saímos do portão.
Mudamos de forma nos marcos do norte. As pedras antigas formam um círculo no terreno alto onde a alcateia um dia marcou sua fronteira, e há uma cabana ali, metade pedra, metade turfa, onde as rondas distantes guardam roupas de reserva e lenha seca. Visto a camisa e as calças com dedos gelados. Ruan se veste de costas para mim. É tão grande que a cabana parece encolher quando ele se endireita.
— Fala — digo a ele.
Ele amarra a bota.
— Ruan. Fala. Eu vi o seu carimbo.
Ele amarra a outra bota. Depois se ergue e me olha com aqueles olhos de ardósia, e não há raiva neles. É isso que não aguento. Nunca há raiva no Ruan. Só há uma tristeza funda e paciente, como a de uma árvore que decidiu ficar de pé na tempestade.
— Eu vi o seu pente — diz ele.
— Eu sei que viu.
— Bom pente.
— Bom carimbo. — A voz sai áspera. — Deuses, Ruan. Um carimbo. Ela vai chorar toda vez que assar pão.
Ele quase sorri. Passa.
Vinte e cinco anos estão naquela cabana fria com a gente. Tínhamos dois e três anos na Noite das Cinzas. Não lembramos do fogo. Lembramos do depois. O alojamento com camas vazias demais e o Hale fazendo o possível para criar uma dúzia de filhotes órfãos com mãos feitas para lanças. O Ruan, aos sete anos, erguendo uma muralha de caixotes em volta da minha cama porque eu chorava no escuro. Eu, aos seis, roubando mel da cozinha para ele, porque ele nunca pedia nada para si. Ele não é meu irmão de sangue. É meu irmão em tudo o mais.
E amamos a mesma mulher. Os dois sabemos disso há anos. Os dois tomamos muito cuidado para nunca dizer.
— Eu a amo — diz Ruan.
Pronto. Seis anos de silêncio, e ele simplesmente coloca aquilo na mesa como uma tábua.
— Eu sei — digo. — Sei desde que você tinha vinte e dois anos e consertou a veneziana dela quatro vezes num mês. Não havia nada de errado com aquela veneziana.
— Tinha um pouco de errado.
— Não tinha nada de errado.
Dessa vez ele sorri, uma coisa pequena e triste na barba negra. Então diz, muito baixo:
— Você também.
Olho para fora da porta da cabana, para o círculo de pedras. Eu poderia mentir. Sou bom nisso. Sou o que ri, o que canta diante de um fogo morto. Ninguém nunca olha por baixo. Fiz questão de que fosse assim.
— Eu também — digo.
O vento uiva sobre os marcos. Nenhum de nós se mexe.
— Ela vai escolher — diz Ruan. — Até a lua nova. E quem ela não escolher…
— Vai ficar de pé diante da Lareira e sorrir — digo. — E sorrir de verdade. Porque é ela.
Ele assente devagar. E sei exatamente o que ele está pensando, porque estou pensando o mesmo. Uma alcateia moribunda. Nove guerreiros. Se dois deles se separarem por causa de uma mulher, quem segura o muro?
Então algo se move lá fora, além das pedras, e nós dois ficamos imóveis.
É um homem, parado em campo aberto onde, um respiro atrás, não havia homem algum. Alto e magro, cabelo azul-negro, pele tão pálida que parece geada. Na abertura do colarinho vejo a borda escura de uma marca antiga a ferro sobre o coração. Rook. A Lâmina dos Nascidos das Cinzas. Ele está a um bom arremesso de pedra e não se aproxima mais. Nunca se aproxima. Em vinte anos nunca vi o Rook sentar junto ao fogo com o resto de nós.
— Rastro de Garras de Ferro nos marcos distantes — diz ele. A voz chega chapada e clara no ar frio. — De dois dias. Um batedor veio até a beira do nosso território e voltou.
O sangue me gela. Garras de Ferro. Os lobos de Varic, do planalto de ferro no norte. Os que queimaram Emberhold.
— Estão se aproximando? — pergunta Ruan.
— Ainda não. — Os olhos âmbar e pálidos de Rook passam por nós, para o norte, rumo às terras altas devastadas. — Estão inquietos. Algo os agita. Avisem a Coroa. Mantenham as linhas fechadas. — O olhar dele me toca uma vez. — Você faz a linha distante sozinho com frequência demais.
— Alguém tem que fazer.
— Sozinho, não. — E então ele se vira e volta para as árvores, e a escuridão sob os abetos o leva como se estivesse à espera.
Ruan solta o ar.
— Nove palavras — diz. — Do Rook. Isso é um discurso.
— Foram mais de nove.
— Ainda assim, um discurso.
Corremos de volta rápido, e não falamos mais da Liss. Mas em algum ponto da longa descida, tomo uma decisão.
O Ruan é o que fica. Conserta as portas. Sustenta o telhado. Nunca na vida saiu de uma sala em que era necessário. Minha mãe desceu pela estrada dos humanos quando eu tinha quatro anos e nunca voltou, e desde então eu corro, para cima e para baixo desta montanha, até os marcos distantes e de volta, porque nunca tive certeza de que alguém notaria se eu não voltasse para casa.
A Liss merece um lobo que volta para casa.
Vou até ela esta noite, e vou pegar o meu pente de volta, e vou fazer uma piada para ela não precisar se sentir mal. E depois vou ficar de pé diante da Lareira e sorrir.
Encontro-a na despensa subterrânea.
Fica cavada fundo na colina atrás da casa comprida, fresca e escura e adocicada pelo cheiro de maçãs guardadas. Um lampião pende de um gancho. Liss está em cima de um caixote virado, esticada para a prateleira alta, o cabelo castanho escapando do laço, como sempre, e a luz do lampião dourando o pescoço dela. Cheira a trevo e maçã e casca de pão quente, e esse cheiro me segue pela linha do norte há seis anos.
O meu pente está no cabelo dela.
Não preso. Só enfiado no coque atrás da cabeça, como se ela o tivesse colocado ali sem pensar, como se as mãos o tivessem encontrado antes de a cabeça decidir. O cordão vermelho pende junto ao pescoço.
Paro no pé da escada e esqueço o discurso inteiro.
— Voltou — diz ela sem se virar. — Sinto o cheiro dos marcos em você. Vocês dois brigaram?
— Não.
— Mentiroso. — Ela desce do caixote com uma maçã em cada mão. Então vê o meu rosto e para. — Jago. O que foi?
— Vim buscar o pente.
O rosto dela muda. O brilho se apaga como um lampião abaixado.
— Veio buscar o quê?
— O pente. — Obrigo-me a sorrir. Sou bom em sorrir. — Foi má ideia. Eu estava bêbado de luar. Você devia ficar com o carimbo. O Ruan é melhor…
— Não se atreva.
Ela larga as maçãs. Elas rolam pelo chão de terra e ela nem olha. Vem direto para cima de mim, pequena e furiosa, até eu ficar encostado nas prateleiras de maçã e ela tão perto que vejo a cicatriz pálida na sobrancelha esquerda. A cicatriz que fui eu que fiz.
— Você não pode retirar um presente porque está com medo — diz ela.
— Não estou com medo.
— Você está com cheiro de medo. Sinto daqui. Está assim desde que desceu aquela escada. — Os olhos verdes dela estão molhados e em chamas. — Você sempre faz isso. Algo importa, e você ri, e sobe correndo a montanha. Dessa vez não.
— Liss…
— É verdade? — A voz dela falha. — Você falou sério? Ontem à noite? Ou foi só brincadeira, como tudo?
Eu deveria mentir. Seria a coisa gentil. Seria a coisa de irmão.
Em vez disso, ponho a mão no rosto dela.
A pele dela é quente. Meus dedos estão frios dos marcos, e ela estremece, e não se afasta. Eu queria fazer isso desde a primavera em que ela fez dezoito anos. Esperei. Disse a mim mesmo que esperava até ser a hora certa. E então foi a hora certa, e eu tive medo demais de dizer.
— Falei sério — digo. — Todos os dias da minha vida, falei sério.
Ela faz um som pequeno. As mãos dela sobem e agarram a minha camisa.
— Então me beije — sussurra. — Se vai me entregar, beije-me primeiro.
Então eu beijo.
A boca dela é macia e tem gosto de maçã. Por um respiro é cuidadosa, uma pergunta. Depois ela me puxa para baixo pela camisa, e não é cuidadosa coisa nenhuma. Os dedos dela entram no meu cabelo e soltam o laço de couro, e eu seguro o rosto dela com as duas mãos, e a beijo como um homem faminto, como se tivesse corrido por vinte anos e finalmente parado. Ela se encaixa em mim. Deuses, como se encaixa. O coração dela martela contra o meu peito, rápido como o meu.
Sou eu quem se afasta primeiro, porque se não me afastar, não paro.
Ficamos ali, ofegantes, de testa colada, no escuro doce e frio.
— Isso — diz Liss, trêmula — não foi uma brincadeira.
— Não.
— Então não retire.
A porta da despensa se abre lá em cima.
O ar frio despenca pelos degraus. Luz de lampião vinda do pátio. E o cheiro de serragem e abeto.
Ruan está na soleira. Não segura nada. As mãos enormes pendem vazias ao lado do corpo. Ele olha para a Liss com o meu pente no cabelo, e a boca vermelha da minha, e os punhos ainda fechados na minha camisa. Olha para mim.
Não grita. O Ruan nunca gritou na vida.
— Vim pegar o meu de volta — diz baixinho. — Para ela não ter que escolher.
Liss solta a minha camisa. Vira-se. Olha para ele na soleira e depois para mim, e vejo o rosto dela se abrir ao meio, a filhote brilhante da primavera de quem a alcateia inteira depende, a que nunca pede nada, partindo-se bem no meio entre nós.
— Nenhum dos dois vai retirar nada — diz ela.
— Liss — diz Ruan, gentil. — O costume…
— Eu sei o que o costume diz! — Ressoa nas paredes de pedra. As mãos dela tremem. Lágrimas correm pelo rosto e ela não as enxuga. — Sei que diz um. Sei isso a vida inteira. Sei desde os dezoito anos que amo vocês dois, e que era ganância, e que eu teria que escolher, e tomei tanto cuidado, fui tão boazinha…
Ela para. O fôlego treme. E então diz, a coisa que ninguém numa alcateia moribunda diz em voz alta.
— E se eu não quiser escolher?





































