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Espere por Mim, Beta — Romance de lobisomem grátisGrátis · Exclusiva

Romance de lobisomem grátis

Espere por Mim, Beta

Há nove anos, o Beta a deixou ir embora. Esta noite ela está em casa com um desconhecido sangrando e um laço que nenhum dos dois consegue ignorar.

  • Segunda Chance
  • Companheiros Predestinados
  • De Amigos a Amantes
  • Proximidade Forçada
  • Heroína Curandeira

🌶️🌶️🌶️🌶️ Cerca de 65 min de leitura · 15.053 palavras

Serina deixou Blackmoon aos dezenove anos para virar enfermeira e para parar de esperar por um garoto que nunca lhe pediu que ficasse. Nove anos depois, ela volta de carro para casa e encontra um caminhante dilacerado na Raven Road. Então Gael, agora o Beta da alcateia, sai de dentro das árvores.

Sangue no Marco da Milha

Serina

Serina sentiu o cheiro do sangue antes que os faróis o encontrassem.

Ela deixara o vidro aberto uns dois dedos, porque o aquecedor do velho Volvo só conhecia duas posições, fornalha e nada, e a noite de abril na Raven Road estava fria o bastante para morder. Neve derretida corria pelas valetas. Abeto molhado, lama e o verde agudo da seiva nova entravam pela fresta. Nove anos de ar de cidade não tinham tirado aquele cheiro dela. Fazia cinco horas que dirigia, e nos últimos vinte minutos vinha respirando aquilo como quem emerge de águas fundas.

Então o vento virou, e por baixo do pinheiro veio o cobre.

Fresco. Muito.

Ela freou antes de decidir freiar. Os pneus escorregaram no cascalho depois do marco da milha, e os faróis varreram uma valeta, uma encosta de samambaias, uma placa verde de metal da trilha com um buraco de bala num canto. E uma bota.

Uma bota de caminhada de homem, com a ponta para cima, no limite da luz.

Serina saltou do carro com o motor ainda ligado. O corpo dela se moveu como seis anos num pronto-socorro de trauma em Portland o tinham ensinado a se mover. Primeiro a cena. Depois o paciente. Depois o medo, mais tarde, se houvesse tempo.

O homem estava metade na valeta, metade no acostamento, com um braço jogado sobre o rosto. A mochila fora rasgada e largada alguns metros acima na encosta. A panturrilha esquerda era uma ruína. O jeans estava preto e encharcado do joelho ao tornozelo, e a carne por baixo fora aberta em linhas longas e irregulares. O antebraço direito estava perfurado por uma mordida perto do pulso.

Mordida. Não arranhão. Não corte. Ela conhecia o formato de dentes.

— Senhor. Consegue me ouvir? Meu nome é Serina. Sou enfermeira.

Os olhos dele se abriram, vidrados, e encontraram o céu em vez dela. Os lábios estavam cinzentos. A pele, fria e úmida sob os dedos dela, e o pulso corria rápido e fino, um passarinho preso atrás da mandíbula.

— Certo — disse ela. — Certo. Fique comigo.

Ela caiu de joelhos na lama e puxou o cinto. A panturrilha sangrava de modo contínuo, mas sem jorrar, o que significava que o pior vaso fora poupado. O braço era pior. Ela enrolou o cinto no alto do antebraço, apertou e jogou o peso do corpo para trás até ele gritar.

— Eu sei. Desculpe. Isso quer dizer que você ainda está aqui. Fique aqui.

— Cães — sussurrou ele. — Cães… enormes.

— Não fale. Respire.

Ela puxou o lenço do pescoço e o enfiou com força na pior parte do ferimento da panturrilha. As mãos estavam firmes. A cabeça, não. Por baixo do suor humano e do sangue, a mordida carregava um cheiro que ela não sentia havia nove anos e nunca esquecera.

Lobo.

Não Blackmoon. Os lobos de Blackmoon cheiravam à montanha: cedro, pedra de rio, fumaça da grande lareira. Aquele era azedo. Carne velha, pelo molhado e algo químico por baixo, como um pano embebido em óleo de motor e esquecido ao sol.

O lobo de um estranho. Em terra de Blackmoon.

Serina ergueu os olhos.

As árvores do outro lado da estrada se erguiam negras contra um céu cheio de nuvens. Os faróis não chegavam até lá. O motor ronronava. A água corria na valeta. E todo pequeno som de bicho naquela floresta tinha cessado.

Ela conhecia aquele silêncio. Todo filhote daquela montanha o aprendia antes de aprender a caçar. Era o silêncio de algo grande decidindo.

O seu próprio lobo se levantou sob a pele, uma pressão atrás do esterno. Ela mantivera aquela parte de si dobrada, pequena, por anos. Sala de descanso de hospital não tinha espaço para isso. O apartamento em cima da lavanderia não tinha espaço para isso. Duas vezes por mês ela dirigia até o desfiladeiro do Columbia antes do amanhecer, corria uma hora na neblina e voltava a tempo do plantão. Era todo o espaço que ele recebia.

Agora ele se erguia dentro dela e mostrava os dentes para a escuridão.

— Quem quer que você seja — disse ela às árvores, sem erguer a voz —, tenho um homem morrendo aqui. Se o quer, vai ter que passar por mim.

Palavras corajosas para uma mulher ajoelhada na lama com as mãos cheias do sangue de um desconhecido.

Uma forma se moveu entre os troncos.

Saiu devagar. Enorme. Maior do que qualquer lobo natural tinha o direito de ser, com os ombros na altura do capô do Volvo. A pelagem tinha a cor de ardósia molhada, mais escura ao longo do dorso, e a garganta era clara, quase prateada onde os faróis a pegaram. Ele não se agachou. Não rosnou. Pisou no cascalho e ficou ali, de cabeça baixa, os olhos cinzentos fixos no rosto dela.

Olhos cinzentos.

O vento mudou. Trouxe cedro, e pedra de rio, e fumaça de lenha.

E por baixo de tudo isso, um cheiro que entrou em Serina como um anzol.

Ela o sentira pela última vez aos dezenove anos, na cerca do campo de treino, na noite em que partiu. Passara nove anos dizendo a si mesma que tinha imaginado o resto. Que uma garota que vai embora de casa faz uma história selvagem de qualquer coisa. Que o cheiro de um garoto não podia, de fato, lhe tirar o ar dos pulmões.

Tirou o ar dos pulmões.

Algo se abriu atrás das costelas dela, uma porta batendo escancarada num vento forte. O calor desceu pelos braços e se acumulou nas palmas. O lobo dela parou de eriçar. Ficou imóvel, e então fez algo muito pior.

Inclinou-se na direção dele.

O lobo de ardósia estacou como se tivesse batido numa parede. Um tremor percorreu o corpo inteiro dele, do focinho à cauda. Os lábios recuaram dos dentes, não para ela, para nada, para o próprio ar. O som que saiu dele não era bem um rosnado nem bem dor.

Então o lobo se dobrou em homem.

Ela já vira cem transformações. Nunca vira uma tão rápida. Osso, pelo e músculo se reescreveram num único fôlego áspero, e então Gael estava agachado no cascalho, sob os faróis, nu, uma das mãos apoiada no chão, respirando como se tivesse corrido a montanha inteira.

Estava mais alto do que ela lembrava, e mais magro, e mais duro em tudo. O cabelo escuro estava cortado mais curto. Uma cicatriz nova corria pelas costelas dele, fina e branca. O garoto que lia mapas à luz de lanterna no telhado do alojamento se tornara um homem que parecia capaz de desmontar o telhado.

Mas os olhos eram os mesmos. Cinza calmo. Sem perder nada.

Não estavam calmos agora.

— Serina — disse ele.

Nove anos, e ele disse o nome dela como se o tivesse carregado na boca o tempo todo.

— Gael. — A voz dela saiu rouca. — Você vai ficar me olhando ou vai ajudar?

Algo cruzou o rosto dele. Então ele estava ao lado dela, na valeta.

— Diga.

— Mordida no antebraço direito, funda, talvez tendão. Panturrilha esquerda, quatro lacerações, perda grande de sangue. Está em choque. Frio. Preciso dele deitado, de pernas para cima, e em algum lugar quente em vinte minutos, ou eu o perco.

— O alojamento fica a doze minutos pela estrada corta-fogo.

— Então vamos.

Ele já olhava para a mochila rasgada, para a encosta, para as árvores. Ela o viu ler a cena como ela lia um ferimento. Rápido. Exato.

— Não foi um dos nossos — disse ele.

— Eu sei. O cheiro está errado.

— Cheira aos renegados de Viktor. — A mandíbula dele se retesou. — Largaram ele aqui. Bem no marco da milha, bem na nossa divisa, onde o primeiro caminhão da manhã o encontraria.

— Por quê?

— Para o primeiro caminhão encontrar um homem mordido por lobos em terra de Blackmoon.

Serina entendeu, e o frio foi mais fundo que a noite. Um humano atacado perto da divisa de Blackmoon significava guardas florestais. Repórteres. Homens com rifles percorrendo as cristas atrás de algo para atirar.

— Então ele não morre aqui — disse ela. — Ele não morre de jeito nenhum.

— Não. — Gael passou um braço sob os ombros do homem e outro sob os joelhos e o ergueu com cuidado, mantendo a perna ferida no alto. O homem gemeu. — No banco de trás?

— No banco de trás. Eu vou com ele. Você dirige.

— Estou nu.

— Já vi isso antes.

Tinha visto. Eles tinham crescido juntos naquela montanha, nadando no riacho do norte todo agosto, se transformando nas mesmas clareiras desde os doze anos. Nunca significara nada.

Ela mentia, sabia disso, e o jeito como os olhos dele se voltaram para ela dizia que ele também sabia.

Ele deitou o homem no banco de trás. Serina entrou depois, ajoelhou-se no vão dos pés e estendeu o casaco sobre o peito dele. Gael achou o velho cobertor de lã que ela guardava no porta-malas e o enrolou nos quadris com uma volta rápida. Depois se dobrou atrás do volante. O banco estava ajustado para ela. Os joelhos dele quase batiam no painel.

— A alavanca do banco fica à esquerda — disse ela.

— Eu lembro.

Ele lhe ensinara a dirigir naquele carro. Naquele tempo, o carro da avó dela. Gael aos dezesseis, no banco do passageiro, muito sério, dizendo: Embreagem. Embreagem, Serina. Esse é o freio. Esse é definitivamente o freio.

Ele empurrou o banco para trás, engatou o Volvo e subiu a estrada corta-fogo, de volta para casa.

O carro subia. Galhos chicoteavam as janelas. Serina mantinha dois dedos no pulso do homem e a outra mão pressionada na panturrilha tamponada, e cantava baixinho porque era o que fazia. Sempre cantara mal e alto para pacientes que se esvaíam. Velhas canções da alcateia. Canções de rádio. Qualquer coisa. Irritava o bastante para eles ficarem.

— Você ainda faz isso — disse Gael, sem olhar para trás.

— Faço o quê?

— Cantar feito cabra em tempestade.

— Mantém eles acordados.

— Manteria os mortos acordados.

O homem sob as mãos dela soltou um som pequeno que podia ser uma risada. Serina olhou para baixo. Os olhos dele tinham encontrado os dela.

— Aí está você — disse ela, baixinho. — Qual é o seu nome?

— Owen. — Os lábios dele mal se mexiam. — Owen Talbot.

— Certo, Owen Talbot. Eu sou a Serina. O rabugento que está dirigindo é o Gael. Vamos aquecer você.

— Os cães…

— Foram embora.

Ele se foi de novo. Ela cantou mais alto.

Na frente, as mãos de Gael apertavam o volante. Ela via o perfil dele à luz do painel. Um músculo saltava na mandíbula. Ele não olhara para ela uma só vez desde que começara a dirigir, e ela entendia por quê, porque sentia o mesmo. Aquilo enchia o carro como o calor de um forno aberto. Pousava entre as omoplatas dela e zumbia.

O laço.

Ela não tinha imaginado. Nem nove anos atrás. Nem esta noite.

E nove anos atrás ele a olhara nos olhos naquela cerca e a deixara ir embora.

— A Tamsin me escreveu — disse ela, porque o silêncio era pior. — Disse que precisava de outro par de mãos. Que a montanha estava ficando perigosa.

— Ela tinha razão.

— Vou ficar um mês. Para ajudá-la. Só isso.

— Um mês — disse Gael.

A estrada fez uma curva. Entre as árvores, o alojamento surgiu: o telhado longo e escuro, a chaminé de pedra, as janelas acesas em dourado contra a crista negra. Lar. A palavra doeu mais do que ela esperava.

— Só isso — repetiu ela.

Gael parou no pátio e desligou o motor. Por um fôlego, nenhum dos dois se mexeu. Então ele se virou no banco e olhou para ela pela primeira vez desde a valeta.

— Você sentiu também — disse ele, baixinho. Não era uma pergunta.

As mãos de Serina continuaram firmes na perna de Owen Talbot. O coração, não.

— Senti muita coisa esta noite — disse ela. — Abra a porta, Beta. Meu paciente está com frio.

O Beta Mantém a Conta

Gael

Gael contava coisas. Era o trabalho.

Lobos na muralha. Cartuchos no arsenal. Sacos de farinha na despensa, galões de diesel no galpão, dias até o desfiladeiro congelar no outono. Quando Kael se tornara Alfa, precisara de alguém capaz de guardar a alcateia inteira na cabeça de uma vez, cada número, cada costura fraca, para que Kael pudesse segurar o resto. Gael era bom nisso desde menino. Números ficavam onde a gente os deixava.

Então ele contava agora, parado na porta da enfermaria com uma lamparina na mão, porque era a única coisa que o mantinha de pé.

Quatro lacerações na panturrilha. Dezenove pontos até agora. Dois sacos de soro, um vazio. Um humano na mesa de aço sob a lâmpada forte. Uma curandeira da alcateia, Tamsin, com as mangas arregaçadas até os cotovelos e o cabelo escuro preso no alto com um lápis. Uma enfermeira que voltara para casa.

Um laço, escancarado, rugindo.

Ele vestira o jeans e a camisa do gancho junto à porta dos fundos. Não conseguira calçar sapatos. Não confiava em si para subir a escada e buscá-los. O lobo dele não o deixava pôr um piso entre os dois, ainda não. Andava de um lado para o outro por dentro da pele dele, para lá e para cá, e toda vez que Serina se mexia, erguia a cabeça.

Minha.

Ele cerrou os dentes contra a palavra.

— Luz — disse Serina, sem levantar os olhos. — Mais baixo. Esquerda. Aí.

Ele moveu a lamparina. As mãos dela continuavam trabalhando. Ela sempre tivera boas mãos. Aos treze anos, imobilizara o dedo quebrado dele com dois palitos de picolé e uma tira da própria blusa, depois lhe dera um sermão de vinte minutos sobre subir no telhado do galpão de lenha. Aos dezessete, fora a primeira a pular a cerca quando ele desmaiou no meio dos treinos de primavera, diante da alcateia inteira, e dissera a todos que foi o mingau.

Tinha sido o mingau. Em grande parte.

Agora ela fechava um ferimento num desconhecido com pontos pequenos e rápidos, falando com Tamsin numa língua de remédios e doses que ele só entendia pela metade, e a trança cor de cobre enrolada atrás da cabeça se soltara de um lado. Uma mecha jazia contra o pescoço dela. Ele a via mexer a cada respiração.

Nove anos.

Ele também os contara.

— A pressão está subindo — disse Tamsin. — Noventa por sessenta.

— Melhor. — Serina deu o último nó e recuou. — O braço precisa de um cirurgião, mais cedo ou mais tarde. O tendão está lascado, não cortado. Ele fica com a mão se a infecção não levar antes.

Tamsin a olhou por cima da mesa. Algo passou pelo rosto afiado da curandeira. Orgulho, talvez. Fora ela quem mandara Serina montanha abaixo aos dezenove anos, com uma carta de bolsa e uma mochila de lona. Fora ela quem escrevera, três semanas atrás, sem contar a ninguém.

— Você ficou rápida — disse Tamsin.

— Portland é uma cidade agitada.

Owen Talbot se mexeu na mesa. Os olhos dele se abriram, encontraram as vigas, os maços de mil-folhas e cedro secos pendurados nelas, e piscaram, confusos. Serina se inclinou sobre ele de imediato.

— Ei. Owen. Você está seguro. Está aquecido.

— Onde…

— Na casa de um amigo. Montanha acima. Lembra o que aconteceu?

O rosto dele se contraiu.

— Cães. Três. Não, quatro. Enormes. — Os olhos dele marejaram. — Não me mataram. Podiam ter matado. Só me… arrastaram. Até a estrada. Como se estivessem me levando para algum lugar.

A mão de Gael apertou a lamparina.

— Acabou — disse Serina com suavidade. — Você não precisa pensar nisso.

— Meu kit. — Owen tentou erguer o braço enfaixado e sibilou. — Minha insulina. Está no acampamento. Na barraca. Sou diabético. Tipo um. Tomei a última dose hoje de manhã.

O rosto de Serina não mudou. Gael viu os ombros dela mudarem em seu lugar.

— Tamsin — disse ela, baixinho. — Você tem um glicosímetro?

Tamsin já abria uma gaveta. A maquininha apitou. Serina picou o dedo de Owen, leu o número, e Gael viu os lábios dela se comprimirem numa linha.

— Alta — disse ela. — E subindo. O choque piora. Onde fica seu acampamento, Owen?

— A clareira acima do riacho. Depois da entrada da trilha, talvez uma milha. Tem um tronco queimado, um grande. Barraca azul. — Os olhos dele se fecharam. — O kit está no barril antiursos. Tampa laranja.

— Certo. Descanse.

Ele já escorregava para o sono. Serina se endireitou e se virou, e pela primeira vez desde o carro encontrou os olhos de Gael do outro lado da sala.

Atingiu-o de novo. Não tão forte quanto na estrada, mas forte. Olhos verdes à luz da lamparina. O cheiro dela, chuva e pão e algo quente por baixo, agora entremeado de sangue e antisséptico. Ele queria atravessar a sala. Queria encostar o rosto no pescoço dela e respirar até os nove anos sumirem.

Ficou na porta.

— Quanto tempo? — perguntou.

— Sem insulina? Doze horas, talvez. Talvez menos. Ele já está desidratado, já está estressado. De manhã pode estar mal de verdade.

— O hospital de Bend fica a três horas.

— Ele não sobrevive a três horas numa estrada de montanha. Não esta noite. Não em choque. — Ela limpou as mãos numa toalha. — A insulina dele está uma milha depois da entrada da trilha.

— Onde os renegados o largaram.

— Sim.

Eles se olharam. Tamsin olhou para os dois, depois tirou o lápis do cabelo e o enfiou de volta num ângulo diferente, o que fazia quando tentava não dizer algo.

— Vá avisar seu Alfa — disse Tamsin. — Eu fico com o rapaz.

Kael estava na sala dos mapas com Farlan, e já tinha ouvido.

Claro que tinha. O alojamento inteiro ouvira. Um carro estranho no pátio depois da meia-noite, um humano carregado sangrando, o Beta atravessando o grande salão descalço, de jeans emprestado, com o lobo tão perto da superfície que duas jovens sentinelas se achataram contra a parede. Fofoca corria por Blackmoon mais rápido que fumaça.

Kael estava de pé à mesa com as duas mãos apoiadas na borda, o cabelo escuro caindo sobre a testa. Não era Alfa havia muito tempo. Ainda não aprendera a parecer à vontade nisso. Gael não tinha certeza de que algum dia aprenderia. Kael vestia o poder como vestia aquela jaqueta de couro surrada, como se tivesse sido posta nas mãos dele numa tempestade e ele a tivesse vestido porque estava chovendo.

— Conte — disse Kael.

Gael contou. A estrada. O marco da milha. O cheiro azedo de lobo. As palavras de Owen: Como se estivessem me levando para algum lugar. A insulina. O acampamento.

Farlan praguejou e cuspiu na lareira fria. Era troncudo como uma pilha de lenha e tinha a paciência de uma em chamas.

— Viktor. Aquele bastardo comedor de rato. Uma dúzia de renegados e um rancor, e agora largando turistas mastigados na nossa porta.

— Ele quer guardas florestais na montanha — disse Kael. Os olhos âmbar tinham se estreitado. — Quer humanos caçando lobos nas nossas cristas. Se o homem morrer, Viktor ganha. Se o homem viver e falar de cães gigantes, Viktor ganha do mesmo jeito.

— Ele está delirando — disse Gael. — Acha que eram cães. Cães grandes. Foi uma onça, se alguém perguntar. Onças arrastam a presa.

— E o acampamento dele? O celular? Se ele tirou fotos…

— Esse é o outro motivo para ir. Agora. Antes que os renegados voltem e armem a cena, ou que um guarda ache tudo ao nascer do sol.

Kael o estudou. Não foi um olhar longo, mas os olhares de Kael nunca precisavam ser longos.

— Você vai.

— Vou.

— Com quem?

Gael abriu a boca.

— Comigo — disse Serina da porta.

Todas as cabeças se viraram. Ela estava ali numa camisa de flanela emprestada, com as mangas arregaçadas e o sangue ainda secando nas linhas dos nós dos dedos. Não parecia a garota que partira. Parecia uma mulher que mantivera pessoas inteiras no chão de um hospital enquanto o mundo gritava ao redor e decidira, muito tempo atrás, não ter medo de salas cheias de homens.

As sobrancelhas de Farlan subiram até a linha do cabelo. As de Kael não foram a lugar nenhum.

— Serina — disse Kael. Havia calor na voz dele, enterrado fundo. Tinham sido todos crianças juntos, um dia. — Bem-vinda de volta.

— Obrigada, Alfa. Eu vou com o Gael.

— Não — disse Gael.

Ela nem o olhou.

— Sei como é insulina. Sei do que mais ele vai precisar daquele kit, e o que dá para deixar. Sei como é uma cena armada, porque já tratei gente que armou a própria. E tenho nariz. — Agora olhou para ele. — Ou você acha que eu esqueci como usá-lo na cidade?

— Os renegados ainda podem estar lá fora.

— Então você vai precisar de alguém para cuidar das suas costas.

— Você não corre por estas matas há nove anos.

— E de quem é a culpa… — Ela parou. A boca se fechou. A cor subiu às bochechas dela, e ela se virou para Kael como se a última metade de frase nunca tivesse existido. — É meu paciente, Alfa. Eu vou.

Kael olhou de um para o outro. Então fez algo que Gael não via nele havia meses.

Quase sorriu.

— Gael — disse. — Uma palavra.

O queixo de Serina se ergueu, mas ela recuou para o corredor. Farlan, resmungando, a seguiu para fora. A porta se fechou.

Kael deu a volta na mesa. Parou à distância de um braço e inspirou, uma vez, devagar, como um lobo que lê uma trilha.

— Você cheira a um homem que acabou de entrar num raio — disse baixinho.

— Agora não.

— É ela?

Gael não disse nada. Não precisava. O lobo respondeu por ele, um som baixo no peito que ele não dera permissão para fazer.

O rosto de Kael mudou. Algo nele se suavizou e algo mais ficou triste.

— Senti um eco uma vez — disse. — Aos quinze anos. Desapareceu. Nunca senti a coisa de verdade. — Ele fez uma pausa. — Gael. Você sabia? Antes de ela partir?

Ali estava.

A pergunta que Gael fizera a si mesmo toda noite por nove anos, e respondera sempre do mesmo jeito.

Sim.

Tinha dezenove anos, sentado na cerca do campo de treino ao lado dela no escuro, a mochila dela já no carro. Ela cheirava a chuva, a pão e a partida. E algo se movera nele, pequeno e certo, como uma semente se abrindo debaixo da terra. Não o rugido desta noite. Um sussurro. Um eco.

Minha.

E Serina se virara para ele com a carta de bolsa dobrada no bolso e a vida inteira esperando no pé da montanha e perguntara: Quer que eu volte?

Se ele tivesse dito sim, ela teria ficado. Ele soubera disso como sabia o número de cartuchos no arsenal. Ela teria rasgado a carta e ficado naquela montanha por ele, por um sussurro, por destino, e jamais saberia o que poderia ter sido sem isso.

Então ele dissera: Quero que você queira voltar.

E ela o olhara por um longo momento, e então descera da cerca e partira de carro.

— Era um eco — disse ele agora. — Eu era um garoto. Ela tinha para onde ir.

Kael o observou.

— E agora?

— Agora ela tem um paciente. — Gael deu um passo atrás. — E eu tenho um trabalho.

— O seu trabalho — disse Kael — é mantê-la viva enquanto estiver na minha montanha. Tudo. Cada hora. Onde quer que ela durma, você dorme perto o bastante para ouvi-la. — A voz dele ganhou um fio. — Isso não é um favor, Beta. É uma ordem. Os renegados de Viktor largaram um corpo aos pés dela esta noite. Se a viram, sabem que ela importa. Para alguém.

O lobo de Gael ficou muito quieto.

— Entendido — disse ele.

— Então vá buscar o remédio do homem.

Serina esperava na entrada de serviço com uma lanterna de cabeça na testa e a bolsa de campo de Tamsin no ombro. Achara as botas velhas em algum lugar. Provavelmente exatamente onde as deixara. Ninguém naquela montanha jogava nada fora.

Não perguntou o que Kael dissera. Estendeu uma segunda lanterna de cabeça.

— Você ainda enxerga melhor no escuro como lobo? — perguntou.

— Sim.

— Então vai de lobo. Eu fico em duas pernas, com a luz e a bolsa. Se algo vier, você resolve. Eu pego a insulina.

Era um bom plano. Era o plano dele. Ele estava prestes a dizê-lo palavra por palavra.

— Certo — disse.

— Certo.

Ficaram parados. A entrada de serviço cheirava a lã molhada e couro velho e a ela. O laço zumbia entre os dois como fio ao vento. Gael olhou para a mecha de cobre solta contra o pescoço dela e manteve as mãos junto ao corpo.

— Para constar — disse Serina, muito baixo, olhando para a porta e não para ele —, eu não voltei por você.

— Eu sei.

— Ótimo.

Ela empurrou a porta. A noite fria entrou, molhada e negra e cheia do cheiro de neve derretida.

Gael saiu atrás dela, já alcançando o lobo. E quando a mudança o tomou, quando o mundo se desdobrou em mil fios de cheiro e som, um fio se ergueu acima dos demais, brilhante como um fósforo riscado no escuro.

Ela.

Ela não voltara por ele.

Ele a manteria viva do mesmo jeito.

O Tronco Queimado

Serina

A floresta a acolheu de volta como se ela nunca tivesse partido.

Essa era a parte cruel. Os pés dela lembravam a trilha de veados que descia do alojamento até o riacho. Os ombros lembravam onde se abaixar sob o galho baixo do cedro. O nariz organizava a noite sem ser pedido: musgo molhado, esterco de alce de dois dias, um porco-espinho em algum lugar entre os amieiros, geada ainda escondida na sombra sob as pedras. Nove anos numa cidade de vidro e chuva, e o corpo dela percorria aquela trilha como se a tivesse percorrido ontem.

À frente dela, uma forma mais escura se movia no escuro.

Gael corria em silêncio. Ele se afastava do feixe da lanterna e voltava para dentro dele, uma sombra de ardósia com garganta prateada, parando de vez em quando para erguer o focinho ao vento. Toda vez que parava, olhava para trás, para ela. Toda vez, o laço se retesava entre os dois como uma corda puxada pelo peito dela.

Ela odiava aquilo. Odiava o quanto era bom.

Quer que eu volte?

Ela perguntara aquilo na cerca do campo de treino com o coração na boca. Dezenove anos e aterrorizada. A mochila já no carro, o Volvo da avó carregado até o teto. O verão inteiro sentira algo crescer dentro de si quando ele estava perto. Uma atração, tênue como um fio. Não contara a ninguém. Pensara: Se ele sente também, vai me dizer. Vai me pedir para ficar. E eu fico.

Ele a olhara com aqueles olhos cinzentos e calmos e dissera: Quero que você queira voltar.

Como se fosse um problema de matemática. Como se ela fosse uma linha de suprimento a ser pesada.

Ela chorara do marco da milha até a interestadual. Depois secara o rosto e fora para a faculdade de enfermagem, e depois para o trabalho, e construíra uma vida. Uma boa. Plantões noturnos e café de máquina e um apartamento minúsculo que cheirava à roupa suja dos outros. Alguns homens que foram gentis e não cheiravam a nada. Parara de esperar uma carta lá pelo segundo ano. Parara de checar o celular atrás do nome dele lá pelo terceiro.

E agora ali estava ele, correndo à frente dela no escuro, olhando para trás a cada vinte passos para ter certeza de que ela ainda estava lá.

Onde isso estivera nove anos atrás?

As árvores se abriram na estrada. O estacionamento da trilha estava vazio, exceto por um hatchback cinza com placa da Califórnia e um adesivo de clube de observação de pássaros no vidro de trás. Gael o contornou uma vez, o focinho baixo, e então parou, imóvel, com as orelhas coladas na cabeça.

Serina sentiu o cheiro um instante depois. O fedor azedo dos renegados, por toda parte. Em volta do carro. Sobre a placa da trilha. Trilha acima, entre as árvores.

— Eles voltaram aqui — sussurrou. — Depois de largá-lo.

O lobo a olhou. Depois subiu a trilha, mais devagar agora, e ela o seguiu.

O caminho subia por abetos de segundo crescimento e se abria, depois de uma milha, num patamar de terra plana acima do riacho. A água estava barulhenta de neve derretida. No centro da clareira, um tronco queimado se erguia negro contra as nuvens, uma árvore morta tão alta quanto o alojamento, com o topo quebrado apontando para o céu como um dedo acusador.

Embaixo dele estava o que restara do acampamento de Owen Talbot.

A barraca azul fora rasgada de ponta a ponta. O saco de dormir jazia a uns seis metros dali, em tiras, com penas espalhadas pelo chão molhado como neve. Um fogareiro de lado. Uma panela. Um livro de bolso inchado de orvalho. O chão estava revolvido de pegadas.

Pegadas grandes. Quatro conjuntos. Ela via onde ele correra. Onde o alcançaram. Onde o arrastaram.

Não em direção à estrada. Em direção ao riacho, e à divisa, e a terra de Blackmoon. E só depois, mais tarde, descendo rumo à entrada da trilha.

— Eles o levaram primeiro além da nossa divisa — disse ela. A voz tremeu, e ela deixou. — Para a trilha cruzar o nosso território. Para quem o rastreasse acabar na nossa porta.

O rosnado de Gael foi tão baixo que ela o sentiu nas botas.

Ela se obrigou a se mexer. O barril antiursos estava sob o tronco onde Owen o deixara, um barril de plástico preto com tampa laranja, arranhado por inteiro por dentes que não tinham conseguido entrar. Ela se ajoelhou, girou a tampa e encontrou o kit bem em cima. Canetas de insulina. Agulhas. Um glicosímetro reserva. Um rolo de balas. Soltou um fôlego que era quase um soluço e enfiou tudo no bolso interno da jaqueta, com zíper.

Uma longa lente de câmera jazia meio enterrada na lama perto da barraca. A câmera tinha sumido.

Ela mostrou a lente a Gael. As orelhas dele se colaram de novo. Em algum lugar lá fora, os renegados de Viktor tinham a câmera de um estranho e o que quer que houvesse nela.

— Certo — disse ela. — Temos a insulina. Vamos para casa.

O lobo não se mexeu.

Estava perfeitamente imóvel, de frente para a escuridão além do tronco queimado. Os pelos do dorso estavam eriçados, uma crista de ardósia com pontas prateadas do pescoço à cauda.

Serina ficou imóvel com ele.

O riacho rugia. O vento se movia nos abetos. E, por baixo do barulho, o outro barulho cessou. Os sons pequenos. As rãs na beira da água. O farfalhar de camundongos entre as agulhas de pinheiro.

O silêncio de algo grande decidindo.

O feixe da lanterna varreu as árvores, e a escuridão o devolveu a ela em verde.

Olhos.

Dois. Depois quatro. Depois seis, oito, rente ao chão, num anel frouxo ao redor da clareira, ao redor do tronco, ao redor dela. O cheiro rolou para dentro com eles. Óleo de motor. Carne velha. Pelo molhado estragado.

Gael se moveu. Um passo atrás e de lado, até o ombro dele pressionar o quadril dela e o corpo ficar entre ela e o par de olhos maior. Ela sentiu o calor dele através do jeans. Sentiu o coração dele, ou talvez o próprio, batendo em compasso.

Um lobo entrou na luz.

Preto e fulvo, magro, com uma orelha entalhada como se alguém lhe tivesse dado uma mordida muito tempo atrás. Olhou para Gael. Depois olhou além de Gael, para ela, e os lábios recuaram de dentes amarelos num quase sorriso.

Espere — Gael se transformou, e os lobos que rondam o acampamento destruído não são de Blackmoon.

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Dúvidas

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Sim. Os primeiros capítulos podem ser lidos nesta página, e o restante é liberado com o seu e-mail. Sem pagamento, sem cartão, sem aplicativo.

Está na Amazon ou no Kindle Unlimited?

Não. Espere por Mim, Beta é exclusivo do alissonbento.com e do Cofre da Leitora. Se depois quiser mais romance de lobisomem, há três livros parecidos na Amazon logo abaixo.

Preciso conhecer alguma mitologia antes?

Nada. É uma história independente, e tudo é explicado dentro dela: duas alcateias, um rio entre elas e um laço que ignora as duas. Quente, de porta aberta, com final feliz garantido. Para maiores de 18 anos.