A Noite da Interestadual em Chamas
Juno
O rádio do posto de enfermagem estalou às 2h14 da madrugada, e Juno Castellane soube pela voz do paramédico que a noite tinha acabado.
— General, aqui Resgate Dezessete. Estamos a seis minutos com um homem, trinta e poucos anos, moto contra o guard-rail da interestadual. A moto pegou fogo. Perna esquerda esmagada e queimada, do joelho até a metade da panturrilha. Está acordado. Está lutando contra a gente. A pressão está se segurando.
A voz era rápida, calorosa e um pouco ofegante. Juno a conhecia. Todo mundo no quarto andar a conhecia. Sami Khoury falava com o hospital do jeito que outros homens falam com a própria mãe.
— Entendido, Dezessete — disse Juno no fone. — Sala de trauma dois. A equipe de queimados vai encontrar vocês.
Ela desligou e se virou. A unidade de queimados estava silenciosa sob a luz azulada do corredor comprido. Dois pacientes dormindo, um acordado, assistindo a programas de auditório sem som. O crachá de enfermeira-chefe pendia torto na blusa do uniforme. A trança acobreada tinha se soltado pela metade uma hora antes, e ela não tivera tempo de refazê-la.
— Quem é? — perguntou Anjali, a enfermeira mais nova do plantão da noite.
— Moto. Fogo. — Juno já estava pegando aventais. — Chame o cirurgião de plantão. Diga que é uma perna que ele vai querer ver antes de alguém pronunciar a palavra amputar.
Os olhos de Anjali se arregalaram. Juno não suavizou nada. Suavidade não salvava membros. Rapidez salvava.
Ela desceu pela escada até o andar da emergência, porque o elevador era lento e ela não era.
As portas da ambulância se abriram com um estrondo às 2h21.
A maca veio primeiro, depois o cheiro. Juno trabalhava com queimados havia nove anos, e ainda sentia aquele cheiro no fundo da garganta todas as vezes. Gasolina. Borracha quente. Couro cozido. E, por baixo, algo pior.
O homem na maca era magro e tatuado até os punhos, o cabelo escuro molhado de suor e de chuva. Uma corrente de prata repousava junto à clavícula. Alguém tinha cortado a calça jeans e a jaqueta de couro, e a perna esquerda estava enrolada em curativo estéril úmido do joelho para baixo. O curativo já estava rosado. Um corte comprido ia pela bochecha, onde o asfalto a tinha aberto.
Ele xingava num fluxo constante e criativo.
Ao lado da maca, com uma das mãos espalmada no peito do homem, vinha Sami Khoury. Tinha trinta e três anos, cabelo cacheado, pele morena e um corpo de quem sobe escadas por diversão. A camisa do uniforme estava ensopada. O sorriso tinha sumido.
— Jaxson Carter — disse Sami enquanto rolavam a maca. — Chamam de Jax. Trinta e um anos. A moto passou por baixo do guard-rail e voltou por cima dele. O fogo já estava aceso quando chegamos. A equipe da autobomba o tirou dali cortando as ferragens. Morfina, dez miligramas, vinte minutos atrás. Não fez efeito nenhum.
— Certo, Jax — disse Juno, entrando no ritmo do outro lado. — Eu sou a Juno. Sou a enfermeira de queimados. Vamos dar uma olhada na sua perna.
— Não — disse Jax por entre os dentes. — Não olha pra ela. Todo mundo fica olhando pra ela.
— É esse o nosso trabalho inteiro hoje.
Ele riu, e a risada se partiu no meio.
Passaram-no para a cama da três. Jax gritou quando a perna se mexeu. Sami não largou o peito dele. Inclinou-se e disse algo baixo ao ouvido do homem, e a mão de Jax subiu e se fechou em volta do pulso de Sami com tanta força que os dedos do paramédico ficaram brancos.
A equipe de trauma se espalhou ao redor. Acessos, monitores, soro. Juno afastou a ponta do curativo e examinou a perna.
A queimadura começava no meio da panturrilha e subia por cima do joelho. Parte era vermelha e úmida. Parte era branca e coriácea, e não ia sentir nada por muito tempo. Sob a queimadura, o joelho estava inchado e errado. A rótula estava deslocada demais para fora. A tíbia tinha uma curva que osso nenhum deveria ter.
Era grave. Não era desesperador.
— Pulso no pé — disse Juno, apertando dois dedos no peito do pé. Fraco, mas presente. — Bom. Isso é bom, Jax. O seu pé ainda tem sangue.
— Isso é bom?
— É a melhor coisa que alguém te disse esta noite.
O médico do trauma pediu exames de imagem. Juno se virou para liberar o espaço e encontrou Sami ainda parado à cabeceira, com o punho de Jax travado no pulso dele.
— Paramédico, nós assumimos — disse ela.
— Ele pediu que eu ficasse.
— Agora ele está num hospital. Precisamos do espaço.
— Eu disse a ele que não sairia até chegar alguém em quem ele confie. — Os olhos escuros de Sami encontraram os dela. Eram cansados, teimosos e muito gentis, o que tornava tudo pior. — O pessoal dele está a caminho. Dez minutos.
— Em dez minutos ele estará no tomógrafo. — Juno se aproximou e baixou a voz. — Você está no caminho do meu médico. Está pingando chuva no meu campo estéril. E cheira ao fogo dele. A cada respiração, ele sente esse cheiro em você.
Aquilo acertou. Sami olhou para si mesmo, para a fuligem nas mangas.
Juno pôs a mão sobre as dos dois, sobre os nós brancos dos dedos de Jax e o pulso preso de Sami.
— Jax — disse. — Olhe para mim.
Os olhos dele encontraram os dela. Estavam dilatados de dor.
— Este homem tirou você da estrada. Agora ele precisa ir lavar a estrada do corpo para poder tirar o próximo. Eu fico. Eu. Combinado? Você pode segurar o meu pulso no lugar.
Por um longo segundo, Jax não fez nada. Então os dedos dele se abriram, a mão de Sami se soltou, e Jax agarrou o pulso de Juno com tanta força que ela sentiu os ossos rangerem.
— Não deixa eles levarem a minha perna — sussurrou.
Juno não mentia para pacientes. Era a sua única vaidade.
— Vou lutar por ela — disse. — Essa é uma promessa que eu posso cumprir.
Ele continuou segurando. Atrás dela, Sami se afastou da cama. Na cortina, parou e olhou para ela do jeito como as pessoas olham para um fogo que não conseguem apagar.
— Você é aquela que chamam de Rainha do Gelo do Quatro Leste — disse ele.
— Já me chamaram de coisa pior, e homens melhores.
— Eles estão errados — disse Sami, e foi embora.
Levaram Jax para o tomógrafo e depois para a cirurgia. O cirurgião deu uma olhada nas imagens e não disse amputar. Disse fixador externo, e enxertos, e semanas. Juno respirou pelo que pareceu a primeira vez em uma hora.
Às 3h40 ela saiu para procurar café e encontrou um gigante no corredor do almoxarifado.
Ele estava sentado num balde virado entre os carrinhos de roupa de cama, o que o fazia parecer ainda maior. Um metro e noventa e seis no mínimo, largo como uma porta, com uma barba loura curta e ainda de calça de combate, os suspensórios pendurados na cintura. Tinha a mão esquerda envolta em uma toalha de papel molhada e apertada contra a coxa, e encarava a parede como se a parede lhe tivesse feito uma pergunta difícil.
Juno parou.
— Você não deveria estar aqui atrás.
Ele se levantou tão depressa que o balde rolou.
— Desculpe. Senhora.
— Não me chame de senhora. Sente de novo. — Ela olhou para a mão. — O que tem debaixo da toalha?
— Nada.
— Então você não vai se importar de me mostrar esse nada.
Ele hesitou. Tinha o tipo de rosto que mostrava cada pensamento um segundo inteiro antes de ele decidir se ia dizê-lo, e agora mostrava constrangimento.
— Zeke — disse por fim, como se isso explicasse alguma coisa. — Ostrowski. Estou na autobomba. Com o Sami. E o capitão.
— Olá, Zeke Ostrowski. A mão.
Ele a estendeu. Ela retirou a toalha.
A queimadura cobria o dorso da mão e dava a volta no osso do pulso. Vermelho vivo, com bolhas, irritada. Uma linha reta na altura do punho, onde a luva tinha escorregado.
— O quadro da moto — disse Zeke baixinho. — Quando a gente levantou. Ainda estava quente. A luva escorregou.
— E você não contou a ninguém.
— Ele estava gritando. — Zeke ergueu um ombro enorme. — A minha mão não estava gritando.
Juno olhou para cima. Era um longo caminho.
— Venha comigo — disse.
Levou-o à sala limpa no fim do corredor e o sentou num banquinho. Deixou água fria correr sobre a queimadura por vinte minutos inteiros, contando pelo relógio da parede, porque com queimaduras não havia atalhos. Ele não reclamou uma vez sequer. Observou as mãos dela o tempo todo. Quando ela olhava para o rosto dele, as orelhas ficavam rosadas.
— É de segundo grau — disse ela, secando a mão com leves toques. — Espessura parcial. Você teve sorte. Um pouco mais funda e estaríamos falando de enxertos.
— Sorte — repetiu Zeke, como quem testa a palavra.
Ela espalhou creme de prata sobre as bolhas e enfaixou a mão com gaze macia, dedo por dedo. A mão dele era enorme e marcada por dúzias de pequenas cicatrizes. Uma mão de trabalho. Uma mão gentil, pensou ela, pelo jeito como repousava tão quieta na palma dela.
— Você volta daqui a dois dias para eu ver como está — disse ela. — Não ao pronto atendimento. Aqui em cima. Quarto andar. Pergunte por mim.
— Juno — disse ele.
Ela ergueu os olhos de repente.
— Como você sabe o meu nome?
O rosa se espalhou das orelhas ao pescoço dele.
— Todo mundo sabe o seu nome. Você é a que não deixa ninguém morrer lá em cima.
Algo quente e indesejado se mexeu no peito de Juno. Ela deu o nó na gaze e deu um passo para trás.
— Fique longe da autobomba até as bolhas fecharem.
— O capitão vai dizer a mesma coisa. — Zeke se levantou. De perto, cheirava a fumaça, sabão e lona molhada. Mantinha as mãos junto ao corpo, como um homem tentando ocupar menos espaço. — Obrigado. Pelo Jax. E pela mão.
Abriu a porta e parou, porque o vão estava cheio.
O homem na porta não era tão alto quanto Zeke, mas não precisava ser. Segurava um capacete branco de capitão debaixo do braço e tinha a paciência de quem ficou parado, imóvel, por muito tempo. Grisalho nas têmporas. Olhos azul-acinzentados. Uma cicatriz fina e pálida ao longo da mandíbula, que Juno não via havia quinze anos e reconheceu mesmo assim.
O corpo inteiro dela gelou.
— Juno — disse Teodor Halvorsen.
— Capitão — disse ela.
Zeke olhou de um para o outro e, em silêncio, saiu da linha de tiro.
O olhar de Teo foi até a mão enfaixada de Zeke e ficou ali. Alguma coisa se contraiu na mandíbula dele.
— Você escondeu — disse a Zeke.
— Sim, Cap.
— Vamos conversar. — Teo voltou a olhar para Juno. A voz dele se suavizou de um jeito que ela odiou, porque se lembrava dela. Era a voz que ele tinha usado na cozinha da mãe dela quinze anos antes, quando tinha vinte e três e ainda era novato, com fuligem no cabelo e o capacete do pai dela nas mãos.
— Obrigado por cuidar dele — disse Teo.
— É o meu trabalho.
— Eu sei que é. — Uma pausa. — Você fica igualzinha ao seu pai quando diz isso.
— Não — disse Juno.
Ele não disse. Apenas assentiu uma vez, como se ela tivesse respondido a uma pergunta que ele temia fazer.
Do fim do corredor veio o som pesado de botas. Muitas botas.
Juno se virou. Através das portas de vidro da sala de espera da família, ela os viu: uma dúzia de homens de colete de couro, com um santo cromado bordado nas costas. Molhados, sombrios, calados. À frente deles estava um homem alto, de ombros largos e antebraços tatuados, com um remendo gasto no peito onde se lia PRESIDENTE. Os olhos escuros dele eram os olhos mais cansados que Juno já vira num homem ainda de pé.
Ao lado dele havia outro homem, mais largo, mais quieto, de camiseta henley preta. Uma cicatriz estreita cortava a sobrancelha esquerda. Ele não olhava para as enfermeiras nem para as portas. Olhava para as saídas.
O presidente viu o crachá dela e atravessou a sala.
— Jaxson Carter — disse. — Onde ele está?
— Em cirurgia. O senhor é da família?
— Sou. — Ele não explicou. A palavra bastava. — Ele vai ficar com a perna?
Juno pensou na pele branca e coriácea, na rótula fora do lugar, no pulso fraco sob os seus dedos.
— Esta noite, sim — disse. — Depois desta noite, depende dos próximos seis meses. Ele vai precisar de enxertos. Depois vai precisar de alguém que faça aquele joelho dobrar de novo, e isso vai doer mais do que o fogo. A maioria desiste.
— Ele não vai desistir.
— Todos dizem isso.
O presidente a olhou por um longo momento. Atrás dos olhos dele, algo pesado se revirou, uma culpa tão funda que tinha peso. Ela conhecia aquele olhar. Via em pais e maridos. Já tinha visto no rosto de um novato, muito tempo atrás.
— Então encontre alguém que não deixe — disse o presidente baixinho, e voltou para os seus homens.
Juno ficou parada no corredor entre um clube de motoqueiros e uma equipe de bombeiros e sentiu a noite inclinar.
Sami voltou do chuveiro de descontaminação com os cachos molhados e uma camisa hospitalar emprestada esticada nos ombros. Parou ao lado de Teo e de Zeke. Os três ficaram ombro a ombro, e Juno entendeu algo que só tinha percebido pela metade, em cem noites em que o Quartel Dezessete lhe trouxera seus feridos. Eles não ficavam em pé como colegas de trabalho. Ficavam como uma muralha.
— Sábado — disse Teo. — O quartel tem um jantar. As famílias vão. Você deveria ir.
— Eu não faço quartéis.
— Antes fazia.
— Antes eu tinha dezesseis anos.
Sami apoiou o ombro na parede e olhou para ela com aquele rosto caloroso e destemido.
— Então venha na nossa. Não no quartel. Na casa. Cooper Street. O Zeke faz uma lasanha que já fez homem feito chorar.
— Uma vez — disse Zeke. — Foi um homem só.
— Fui eu — disse Sami. — Não tenho vergonha.
Juno quase sorriu. Conteve-se bem a tempo.
— Boa noite, cavalheiros — disse. — Mantenham as mãos longe de metal quente.
Foi embora. Não olhou para trás. Sentiu os três a observando se afastar, e pela primeira vez em quinze anos a sensação não lhe deu vontade de correr.
Deu-lhe vontade de se virar.
Isso era muito pior.
O que o Novato Prometeu
Teo
A casa da Cooper Street já tinha sido uma padaria de esquina. Os fornos tinham sumido havia muito, mas nas manhãs úmidas o tijolo antigo ainda soltava um leve cheiro de pão, como se o prédio se lembrasse.
Teo Halvorsen estava de pé junto à bancada da cozinha, às 8h15 da quinta-feira de manhã, dois dias depois da interestadual, observando Zeke tentar abrir um pote de pasta de amendoim com uma mão só.
— Me dá — disse Teo.
— Eu consigo.
— Você tem meia mão e uma teimosia. Me dá.
Zeke entregou. Teo abriu o pote e o empurrou de volta pela mesa comprida e arranhada, a que tinham arrastado de um bazar de igreja seis anos antes e nunca tinham conseguido lixar até ficar lisa. O quadro branco na parede ainda trazia a escala de plantões na letra arredondada do Sami e, logo abaixo, o desenho de um gato de capacete de bombeiro que ninguém admitia ter feito.
Sami desceu a escada de calça de moletom, com os cachos achatados de um lado. Serviu café, sentou e anunciou para a cozinha:
— Vou convidar a Juno para sair.
Ninguém perguntou quem.
A colher de Zeke parou no meio do caminho até a boca. Teo manteve os olhos na própria caneca.
— Ela me expulsou de uma sala de trauma — continuou Sami. — Olhou bem nos meus olhos e disse que eu cheirava a fogo. Ninguém nunca foi tão honesto comigo na vida. Acho que estou apaixonado.
— Você estava apaixonado pela moça da borracharia — disse Teo.
— Aquilo era respeito. Isto é diferente.
Zeke pousou a colher. Olhou para o curativo na mão esquerda, a gaze bem enrolada dedo por dedo. Depois olhou para Sami.
— Eu volto hoje — disse Zeke. — Para a revisão. Ela disse para eu perguntar por ela.
— Isso é médico — disse Sami. — Não vale.
— Para mim vale.
A cozinha ficou muito quieta. Lá fora, um ônibus passou sibilando na chuva.
Teo conhecia Sami havia oito anos e Zeke, nove. Tinha ensinado Zeke a dirigir a autobomba e ensinado Sami a calar a boca num local de incêndio, o que levara mais tempo. Tinham tirado uns aos outros de porões. Tinham se sentado nessa cozinha depois das chamadas ruins, as crianças e os velhos e aqueles que ninguém conseguia alcançar, e ninguém dissera uma palavra, e isso bastara. Dividiam o aluguel por três e o mercado por três e as piores noites por três.
Nunca tinham querido a mesma coisa e brigado por ela. Teo sempre tivera um certo orgulho disso.
Olhou para os dois homens que mais amava no mundo e entendeu que o orgulho só durara porque a prova nunca tinha chegado.
— Eu observo ela há um ano — disse Zeke baixinho. Não olhava para ninguém. — Toda vez que a gente leva alguém para o Quatro Leste. Ela fala com eles como se ainda fossem pessoas. Mesmo os que não vão sobreviver. Principalmente esses.
O rosto de Sami mudou. A brincadeira saiu dele.
— É — disse. — Eu também. Um ano. Talvez mais. — Girou a caneca num círculo lento. — Eu achava que um de vocês chegaria lá primeiro. Achava que eu ficaria feliz por vocês.
Os dois olharam para Teo.
Ele podia mentir. Era bom nisso, no jeito estreito dos homens que protegem pessoas. Podia dizer que era velho demais, ou que ela era filha de Ansel Castellane e isso a tornava família, e família era proibido.
— Quinze anos — disse Teo. — Não um. Quinze.
Sami soltou um longo suspiro.
— Bem. Isso é pior.
— Ela tinha dezesseis anos quando começou. Não era isso. Nunca foi isso. — Teo esfregou a cicatriz da mandíbula. — Foi ela, parada na janela da frente da casa da mãe, quando eu subi o caminho com o capacete do pai dela. Ela olhou para mim como se eu fosse o fogo. E tinha razão. E depois, anos mais tarde, eu carreguei um homem até a unidade de queimados, e lá estava ela, de uniforme, dizendo a um cirurgião que ele estava errado. Foi aí.
Ninguém falou.
— Então — disse Sami por fim. — Três idiotas e uma enfermeira que odeia quartéis.
— Ela não vai escolher nenhum de nós — disse Teo. — O pai dela morreu no desabamento de um teto. Ela passou a vida inteira garantindo que nunca mais esperaria numa janela. Nunca vai escolher um bombeiro.
Zeke pegou a colher. Mexeu a aveia e disse, sem levantar os olhos, a coisa que nenhum deles tivera coragem de pensar.
— Então não faz ela escolher.
Sami olhou para ele. Teo olhou para ele.
— A gente divide todo o resto — disse Zeke. — A casa. A autobomba. As noites ruins. — Ergueu um pouco a mão enfaixada. — Ela disse que eu tive sorte. Não quero ter sorte sozinho.
A chuva continuava. O gato do quadro branco os observava da parede.
— Isso não é uma coisa que as pessoas fazem — disse Teo devagar.
— As pessoas correm para dentro de prédios em chamas — disse Sami. — Isso também não é uma coisa que as pessoas fazem.
Teo abriu a boca para discutir e descobriu que não tinha com o que discutir.
Os alarmes tocaram às 18h52 daquela tarde.
Autobomba Dezessete, Resgate Dezessete, Escada Quatro. Incêndio em estrutura comercial, Ridley Machine Works, Foundry Road. Relatos de trabalhadores presos.
A Ridley ficava na ponta do corredor industrial, um quarteirão de tijolo e chapa metálica onde homens transformavam aço em peças para as docas. Quando chegaram, uma fumaça preta rolava para fora do portão de carga, e dois homens cambaleavam pelo pátio com os braços afastados do corpo.
Teo percebeu antes que alguém dissesse. Queimadura de flash. Um cilindro de gás de corte tinha estourado.
Comandou o local do incêndio do jeito que Ansel Castellane lhe ensinara: voz calma, palavras curtas, o nome de cada um. Zeke, que deveria ter ficado longe da autobomba e se recusara, operava o painel da bomba com a mão boa. Sami tinha o primeiro operário no chão em segundos, água fria, lençóis estéreis e aquela voz firme e calorosa. Estou com você. Olhe para mim. Você vai para o General. Lá têm a melhor enfermeira de queimados do estado.
Controlaram o fogo em vinte minutos. Teo foi na ambulância com o segundo paciente.
O Quatro Leste à noite era um mundo diferente do andar do trauma. Mais quieto, mais frio, cada superfície limpa o bastante para refletir o rosto. Juno recebeu as macas nas portas com a trança bem presa dessa vez e os olhos já percorrendo as queimaduras.
Não olhou para Teo. Olhou para o paciente.
— Qual é o nome dele?
— Marcus — disse Teo. — Quarenta e quatro anos. Flash de gás. Mãos, rosto, frente do pescoço.
— Marcus — disse Juno, inclinando-se perto. — Sou a Juno. Suas mãos vão doer muito esta noite e menos a cada dia depois. Vou contar tudo antes de fazer. Está bem?
O homem assentiu, chorando.
Teo ficou de pé contra a parede e a observou trabalhar.
Já tinha visto bons paramédicos. Já tinha visto bons médicos. Nunca tinha visto ninguém comandar uma sala como Juno Castellane. Ela jamais levantava a voz. Dois pacientes, quatro enfermeiras, um residente que parecia ter uns dezenove anos, e ela movia todos como peças num tabuleiro. Soro. Controle da dor. Curativos frescos e limpos. Uma mão no ombro de Marcus quando a dor disparava, e o homem se agarrava àquela mão como a uma corda.
Em certo momento ela ergueu os olhos e viu Zeke na porta, com a mão enfaixada. Os olhos dela se estreitaram.
— Você estava na autobomba — disse.
— No painel da bomba — disse Zeke. — Com uma mão. Não toquei em nada quente.
— Levantou alguma coisa?
Uma longa pausa.
— Um pouco.
— Sente — disse ela, apontando uma cadeira. — Eu confiro quando o Marcus estiver estável. Se você abriu essas bolhas, eu conto para o seu capitão.
— Ele está bem ali — disse Zeke.
Juno finalmente olhou para Teo. Algo atravessou o rosto dela, rápido demais para ter nome.
— Então eu conto mais alto — disse, e voltou ao trabalho.
Às 7h20 da manhã seguinte, o plantão encerrado, Teo foi de carro até o General em vez de ir para casa. Disse a si mesmo que era para saber de Marcus. Entrou na garagem do hospital com um sanduíche gelado de máquina na mão e encontrou-a parada ao lado de um velho hatch azul com o capô aberto, fulminando o motor com o olhar.
A chuva tinha voltado. Tamborilava no teto de concreto acima deles.
— Não pega — disse Juno sem se virar. — Ele faz isso. Espera eu terminar um plantão de doze horas e morre de pirraça.
— O Zeke consertaria em uma hora.
— O Zeke tem uma mão.
— O Zeke consertaria sem mão nenhuma. Ele conversa com motores. — Teo ergueu as chaves. — Posso levar você para casa.
Ela se virou. Sob as luzes amarelas da garagem, parecia exausta e pálida e bonita, daquele jeito simples e sério das mulheres que nunca pensam nisso.
— Posso chamar um carro.
— Pode.
Ela o estudou, mordendo o lábio. Depois fechou o capô com mais força do que o necessário.
— Tudo bem — disse.
A caminhonete dele cheirava a café e equipamento molhado. Ela se sentou com as mãos no colo e a bolsa sobre os joelhos e ficou olhando a cidade cinzenta passar. Ele dirigiu devagar. Não sabia bem por quê.
Estavam a três quarteirões da rua dela quando ela disse, sem olhar para ele:
— Você parou de vir.
As mãos de Teo apertaram o volante.
— Depois do funeral — disse ela. — Você veio todo domingo durante um ano. Consertou a calha. Comeu o horrível assado da minha mãe. Me levou ao exame de direção. E aí, um dia, simplesmente parou.
— Você tinha dezessete anos — disse Teo. — E não conseguia olhar para mim.
— Eu tinha dezessete anos. Não conseguia olhar para ninguém.
— Você olhava para a janela — disse ele baixinho. — Todo domingo, antes de eu ir embora, você ia ficar parada na janela da frente. Como se ainda estivesse esperando por ele. Eu não suportava ser o motivo.
Os limpadores iam e vinham. Iam e vinham.
— Me conte — disse Juno.
— Contar o quê?
— Você foi o último com ele. Todo mundo me disse que foi rápido. Todo mundo me disse que ele não sofreu. Você nunca me disse nada. Me conte agora.
Teo encostou a caminhonete no meio-fio diante de uma casa de tijolos estreita, com uma grande janela na frente e sem cortinas. Desligou o motor. A chuva ficou mais alta.
— O teto da fábrica estava cedendo — disse. — Tínhamos um operário preso debaixo de uma viga caída. Seu pai e eu o libertamos. O Ansel pôs o homem nas minhas costas e disse: Vai, garoto. Direto pra fora. Não para. Eu disse que voltaria para buscá-lo. Ele disse… — Teo parou. Não pronunciava aquelas palavras em voz alta havia quinze anos. — Ele disse: Não. Fala pra Juno parar de esperar na janela. Fala pra ela ir viver. Depois me empurrou em direção à porta. Eu estava a três metros do lado de fora quando tudo veio abaixo.
Juno ficou muito quieta.
— Nunca contei — disse Teo. — Eu pretendia. Todo domingo. Ficava no corredor da sua mãe com isso na boca, e você ia até a janela, e eu não conseguia. Porque, se eu dissesse, você saberia que ele sabia. Saberia que ele escolheu me mandar para fora em vez de si mesmo. E você teria que me odiar por isso.
Ela se virou para olhá-lo. Os olhos dela estavam úmidos, e furiosos, e mais alguma coisa.
— Seu homem estúpido — sussurrou. — Seu homem estúpido, estúpido. Eu nunca odiei você. Eu odiava o fogo.
Ela se inclinou por cima da caminhonete, segurou o rosto dele com as duas mãos e o beijou.
Não foi gentil. Durou quinze anos. A boca dela era macia e salgada, os dedos frios contra a mandíbula dele, e Teo esqueceu a chuva e o motor e cada motivo que já tinha dado a si mesmo. Beijou-a de volta com o corpo inteiro, com cuidado, como seguraria algo que pudesse quebrar, até que ela soltou um som baixo contra a boca dele e o puxou para mais perto.
Quando enfim se afastou, os dois respiravam com dificuldade.
— Isso não pode acontecer de novo — disse ela.
— Tudo bem — disse Teo, embora nada nele concordasse.
— Não. Escute. — Ela encostou a testa na dele por um segundo e depois recostou-se. Olhou para a janela escura da própria casa. — Não é só você. Esse é o problema. Penso no sorriso bobo do Sami quando ele tenta não chorar por um paciente. Penso na mão do Zeke na minha, em como ele ficou quieto. Penso nos três há um ano, Teo. Um ano inteiro. Toda vez que o Quartel Dezessete passava pelas minhas portas, eu rezava para que não fosse um de vocês na maca. E eu nem posso escolher um, porque não consigo, e não vou, porque vocês todos correm para dentro de fogo como profissão, e eu prometi a mim mesma…
— Juno.
Ela parou.
Teo pensou na cozinha. No Zeke mexendo a aveia, dizendo o que ninguém mais ousava dizer. No rosto do Sami quando a brincadeira saiu dele.
Pegou a mão fria dela na sua mão quente.
— E se você não precisasse escolher? — disse. — A gente conversou.
































