Me Ligue Quando For uma Crise
Rowena
Na manhã em que Erasmus Savage lhe pediu que encontrasse uma esposa para ele, Rowena Robson já tinha matado duas histórias antes das nove.
A primeira era uma notinha de fofoca sobre um vice-presidente e um iate. A segunda era pior: um blogueiro financeiro com uma planilha e um rancor. As duas tinham morrido. Um telefonema para cada. Rowena não gritava nem ameaçava. Simplesmente explicava, com a voz rápida e fria, o que cada um perderia se a matéria saísse e o que ganharia se não saísse. As pessoas se tornavam muito razoáveis quando enxergavam a conta.
Ela ainda estava com o celular na mão quando entrou na sala dele, no quinquagésimo quinto andar.
O ar estava frio, do jeito que ele gostava. A parede de vidro atrás da mesa enquadrava toda a extensão cinzenta do lago Michigan. Erasmus estava de costas para ela, cabelo preto, terno azul-marinho, um isqueiro Zippo de prata girando devagar entre os dedos.
Clac. A tampa abriu. Tec. Fechou.
Ele nunca acendia nada. Em todos os anos em que trabalhara para ele, Rowena jamais vira uma chama.
— O conselho vai pedir um casamento antes do fim do mês — disse ele, sem cumprimentá-la. — Quando pedir, quero a resposta pronta.
Rowena baixou o celular.
— Um casamento.
— Uma esposa. Alguém que possam fotografar ao meu lado. Alguém que me faça parecer humano. — Os olhos azuis e glaciais dele subiram até o rosto dela. — Passado impecável. Nenhum perfil público. Uma profissão respeitável. Uma história em que as pessoas queiram acreditar.
— O senhor quer que eu saia às compras de uma esposa — disse ela.
— Quero que você saia às compras de uma história. Você faz isso todos os dias. — Clac. — Com discrição, Rowena. Nem o jurídico sabe.
Ela passara anos vendo aquele homem enxergar além das esquinas. Se ele dizia que o conselho exigiria uma noiva, o conselho exigiria uma noiva. Ela já começara a montar a lista de cabeça. Professoras fotografavam bem. Enfermeiras, melhor ainda. Qualquer uma com um pai morto e uma causa era a melhor de todas.
— De quanto tempo eu disponho?
— Três semanas. Talvez menos.
— E quando eu trouxer as candidatas?
Ele voltou a olhar para o lago.
— Então eu direi qual é a certa.
Foi toda a reunião. Rowena voltou à própria sala, sentou-se e escreveu num bloco amarelo limpo: Projeto Lareira. Embaixo, escreveu os critérios, um por um, em letras de forma bem arrumadas. Depois se recostou e ficou um longo momento olhando para as palavras.
O amor, na experiência dela, era um comunicado à imprensa com iluminação melhor. Ela construíra uma dúzia de romances de celebridades e enterrara discretamente o dobro disso. Sabia exatamente como fazer dois desconhecidos parecerem feitos um para o outro. Mãos se tocando na janela de um carro. Uma risada captada por uma teleobjetiva. Um anel, nunca grande demais.
Isso nunca a incomodara.
Ela arrancou a folha, dobrou-a dentro da bolsa e voltou a matar histórias.
Toda quinta-feira, às nove, Rowena Robson bebia exatamente um gim.
Bebia no Aldine, um bar de hotel escuro perto da Michigan Avenue, com reservados de couro e um pianista que só tocava músicas que ninguém conhecia. O barman, um homem calado chamado Hugo, já tinha o copo dela pronto antes de ela chegar ao balcão: um Botanist, duas pedras grandes de gelo, sem enfeite. Ela o levava até o reservado do canto, sentava-se de costas para a parede e dava a si mesma quarenta minutos em que ninguém precisava de nada dela.
Naquela noite, o reservado do canto estava ocupado.
O homem sentado ali era grande demais para ele. Foi o primeiro pensamento dela. Tinha os ombros de quem já carregara coisas pesadas para ganhar a vida e os joelhos de quem desistira de tentar caber debaixo de mesas pequenas. Um casaco de cashmere cor de carvão estava dobrado no assento ao lado. Por baixo, ele usava uma camisa de flanela verde-escura, com as mangas arregaçadas sobre antebraços grossos. O cabelo era louro-escuro e curto. A barba também era curta, bem aparada, um tom mais escura que o cabelo. O nariz fora quebrado pelo menos uma vez.
Ele se levantou no instante em que a viu.
— Estou no seu lugar — disse. — Desculpe. Vou sair.
Rowena parou na beira da mesa. Conhecia aquele rosto. Levou meio segundo para situá-lo, porque o rosto quase nunca era fotografado.
Matthias Lindgren. Fundador da Bridgeline, a empresa de software de frete que dizia a metade dos caminhões da América por onde dirigir. Bilionário. Neto do homem que construíra a Vanguard Logistics a partir de um único caminhão azul em Joliet.
A Vanguard Logistics, que a Savage Industries engolira inteira em junho. A Vanguard, cujo fundo de pensão o chefe dela cortara até o osso em setembro. A Vanguard, que derrubara as ações da Savage por um mês e custara a Rowena três semanas de sono.
— Senhor Lindgren — disse ela. — Se veio aqui para gritar comigo, devo avisar que não ouço gritos depois das nove.
— Não vim gritar. — A voz dele era baixa e sem pressa, com as vogais abertas das cidadezinhas ao sul da capital. — Vim contratar você.
Rowena quase riu. Sentou-se em vez disso, do lado oposto do reservado, e pousou o gim na mesa entre os dois. Ele esperou que ela se ajeitasse para só então sentar-se de novo. Ela notou isso. Homens do tamanho dele e com o dinheiro dele não costumavam esperar por nada.
— Eu já tenho emprego — disse ela.
— Eu sei. Estou pedindo as suas noites.
— As minhas noites são caras.
— Isso eu também sei.
Ele enfiou a mão no casaco dobrado e tirou uma única folha de papel, vincada em quatro, macia nas dobras como se tivesse sido aberta muitas vezes. Alisou-a e a virou para que ela pudesse ler.
Era um e-mail. Com seis anos, a julgar pela data. Impresso, não encaminhado.
Sr. Lindgren, não trabalho com vaidade. Me ligue quando tiver uma crise. R.R.
Rowena olhou as palavras. Não se lembrava de tê-las escrito. Escrevia uma centena de mensagens assim por mês. Lembrava-se, vagamente, de um pedido para cuidar do lançamento de uma empresa de software qualquer, e da própria impaciência com aquilo.
— Você guardou isso — disse ela.
— Você tinha razão. Era vaidade. — Ele dobrou a folha e a guardou. — Agora eu tenho uma crise.
Ele contou tudo de maneira simples. Era assim que fazia tudo, ela descobriria.
Quando a Savage cortou as pensões da Vanguard, mil e quatrocentos aposentados perderam entre um terço e dois terços dos cheques mensais. Motoristas. Mecânicos. Despachantes. Gente que trabalhara quarenta anos para o avô dele e depois para o pai. Matthias não conseguira impedir a aquisição. O pai vendera ações demais, havia tempo demais. Mas podia fazer outra coisa.
— Desde o primeiro de outubro, cada um deles recebe o valor integral — disse ele. — A diferença sai de mim. E vai continuar saindo de mim enquanto qualquer um deles estiver vivo.
Rowena fez a conta sem querer.
— Isso dá mais de sessenta milhões de dólares.
— Sessenta e um, ao longo da vida deles. Mais ou menos.
— E você quer que eu garanta que todo mundo saiba.
— Não. — Ele a encarou. Os olhos dele eram castanho-escuros, firmes, um pouco cansados. — Quero que você garanta que ninguém saiba.
Aquilo a deteve.
Ele explicou. Os cheques saíam por um pequeno fundo privado que ele chamava de Fundo Número Nove, em homenagem ao primeiro caminhão do avô. Nada de imprensa. Nenhum anúncio. Mas mil e quatrocentas pessoas conversavam com os filhos, e os filhos conversavam com os vizinhos, e agora uma repórter chamada Esme Galloway, do LaSalle Street Wire, ligava para os aposentados um a um.
— Se isso virar notícia — disse Matthias —, vira guerra. O meu nome contra o da Savage. Todas as vans de reportagem de Illinois estacionadas na frente da casa de algum velho em Joliet, perguntando como é ser um símbolo. Eles não pediram para ser símbolos. Pediram para receber o que lhes era devido.
Rowena girou o copo devagar sobre a mesa. Ele tinha razão, e ela não gostava de como tinha razão, porque isso significava que ele pensara em tudo. Uma matéria sobre um bilionário neto consertando em silêncio a crueldade da Savage seria a pior manchete que o chefe dela poderia receber naquele mês. Seria um presente para cada inimigo que ele tinha no conselho.
— Você veio ao inimigo — disse ela.
— Vim à melhor. — Disse isso com simplicidade, sem bajulação. — E queremos a mesma coisa, senhora Robson. Você quer a Vanguard fora das notícias. Eu também.
Ela tomou um gole lento de gim. Depois citou um número tão alto que se destinava a encerrar a conversa.
— Dois milhões de dólares. Três semanas. Só noites e fins de semana.
— Sim — disse ele.
Nenhuma pausa. Rowena pousou o copo. Pela primeira vez em muito tempo, não sabia o que dizer em seguida.
— Minhas regras — disse por fim. — Um. Você faz exatamente o que eu mandar. Dois. Ninguém jamais pode saber que trabalhei para você. Nem a sua equipe, nem os seus advogados, nem a sua mãe.
— Minha mãe mora no Arizona. Ela não sabe de nada.
— Três. — Rowena se recostou. — Você não se apaixona pela sua consultora de crise. Os clientes sempre acham que vão. É muito chato.
Algo se mexeu no canto da boca dele. Não chegava a ser um sorriso.
— Duas de três — disse ele.
— Qual delas você pretende quebrar?
— Você vai saber.
Ele se levantou quando ela se levantou. Pegou o trench coat cor de carvão dela no gancho, na ponta do reservado, e o segurou sem se mexer.
— Posso?
Homens seguravam o casaco dela havia anos. Nenhum deles jamais perguntara antes. Rowena se virou e o deixou assentar a peça sobre os seus ombros. As mãos dele não se demoraram. Não precisavam.
O carro dela esperava no meio-fio. Quando ela se encaminhou até ele, um clarão branco estourou em algum ponto do outro lado da rua. Rowena olhou e não viu nada além de uma fileira de carros estacionados e o brilho verde da placa de uma farmácia. Algum ator devia estar hospedado no hotel. Ela entrou no banco de trás e esqueceu o assunto.
O carro se misturou ao rio de lanternas vermelhas da Michigan Avenue. Rowena recostou a cabeça no couro e fechou os olhos, e descobriu que ainda sentia o peso do casaco assentando sobre os ombros.
Posso?
Não era nada. Era educação. Homens como Matthias Lindgren aprendiam boas maneiras como aprendiam a jogar golfe, porque faziam bem aos negócios. E um homem que guardava dobrado no casaco um e-mail de seis anos era muito sentimental ou muito estratégico, e na experiência dela o sentimento costumava ser só estratégia vestindo um suéter mais bonito.
Ela abriu os olhos, pegou o celular e escreveu uma anotação para si mesma, como fazia depois de cada cliente novo. M.L. Paciente. Direto. Não bajula. Perigoso.
Ficou um tempo olhando para a última palavra. Depois não a apagou.
Em casa, no apartamento estreito do terceiro andar de um prédio de pedra cinzenta na Gold Coast, chutou os saltos para longe e abriu a pasta que ele lhe dera.
Havia uma lista de nomes. Mil e quatrocentos. Havia uma fotografia em preto e branco de uma dúzia de homens em jaquetas de trabalho diante de um caminhão de nariz quadrado, com um número nove pintado de branco na porta. O homem do meio tinha o mesmo nariz quebrado do neto.
Um nome perto do topo da lista estava circulado a lápis. Prue Kowalczyk, despachante, 41 anos.
No fundo da pasta havia um cartão coberto por uma letra grossa e cuidadosa.
Dombrowski’s Diner, Joliet. Amanhã, 6h. Eles querem conhecer você. Use sapato baixo.
Rowena Robson não tinha um único par de sapatos baixos.
Ela se sentou na cozinha silenciosa com o cartão na mão e, por razões que se recusava a examinar, sorriu.
Número Nove
Matthias
Ela desceu os degraus do prédio às cinco e quarenta da manhã, de salto agulha preto.
Matthias a observou da cabine da picape e sentiu algo ceder no peito, em silêncio, como gelo soltando um rio. Claro que sim. Ele pedira que usasse sapato baixo, então Rowena Robson calçara os saltos mais altos que tinha. Trench coat cor de carvão. Meia-calça preta. Cabelo platinado cortado tão rente no queixo que parecia capaz de tirar sangue. Batom do vermelho de uma placa de pare, numa hora em que a maior parte de Chicago ainda dormia.
Ele desceu e abriu a porta do passageiro.
Ela parou na calçada e olhou para a picape. Tinha onze anos e a cor de cimento molhado.
— Você é bilionário — disse ela.
— Ela ainda anda.
— Um cavalo também. — Mas subiu, e ele fechou a porta atrás dela.
Nos primeiros vinte minutos, ela quase não lhe dirigiu a palavra. Trabalhou. O celular iluminava o rosto dela de azul na cabine escura. Mandava mensagens com os dois polegares, rápida como uma estenógrafa de tribunal, e duas vezes fez ligações com uma voz tão fria e agradável que ele quase sentiu pena de quem estava do outro lado. Matthias dirigiu rumo ao sul pela Stevenson, com o aquecedor ligado, sem interromper.
Esperara seis anos. Vinte minutos não eram nada.
Não planejara esperar. Seis anos antes, era apenas um homem com uma empresa nova e orgulho demais, e escrevera para a assessora de imprensa mais temida de Chicago porque alguém lhe dissera que ela era a melhor. A resposta voltou em menos de um minuto. Uma linha. Ele riu alto na mesa de trabalho e depois a imprimiu.
Depois disso, começou a reparar nela.
Não era difícil. Rowena Robson estava em todas as galas, todos os jantares beneficentes, todas as inaugurações que importavam. Nunca comia. Nunca se sentava. Ficava na beira dos salões, de preto ou de branco ou de cinza, segurando uma taça de que nunca bebia, e movia as pessoas por aqueles salões como peças num tabuleiro. Ele a vira salvar um senador de um microfone com um toque no cotovelo. Vira-a fazer um executivo bêbado deixar uma festa acreditando que a ideia fora dele.
E a lera. Cada comunicado. Cada desmentido. Cada frase cuidadosa que saía da Savage Industries com as digitais dela. Reconheceria a escrita dela numa pilha de cem. Ela usava frases curtas quando estava com raiva e longas quando mentia por outra pessoa. Nunca pedia desculpas com advérbio. Em seis anos, ele não a vira usar uma única vez a palavra infelizmente.
Nunca a abordara de novo. Um homem não se aproxima de uma mulher assim sem ter nada a oferecer além da própria atenção. Então guardara o e-mail, mantivera distância e esperara por uma crise digna dela.
Não imaginara que seria a ruína da própria família.
— Você olha para a estrada como se ela lhe devesse dinheiro — disse ela, sem tirar os olhos do celular.
— Hábito. Meu avô me ensinou a dirigir nesta estrada.
— No famoso caminhão?
— No famoso caminhão. — Ele a olhou de relance. — Está na minha garagem. Mostro a você um dia.
— Eu não trabalho com “um dia”, senhor Lindgren. — Por fim ela baixou o celular. Os olhos cinzentos estavam afiados na luz do painel. — Diga por que precisa ser segredo. O motivo de verdade. Não o discurso sobre símbolos. Aliás, estava bom. Só não era tudo.
Matthias dirigiu um tempo antes de responder.
— Meu avô pagava toda conta que devia no dia em que vencia — disse. — Até nos anos em que não podia. Ele tinha uma regra. Você paga o que deve. Não manda a conta pelo pagamento. — Manteve os olhos na estrada. — Meu pai quebrou aquela empresa. A Savage só recolheu os cacos. Se eu puser o meu nome nos jornais ao lado daqueles cheques, deixa de ser uma dívida. Vira espetáculo. O neto do velho Anders Lindgren, comprando de volta o nome da família.
— Isso seria tão terrível?
— Para ele, seria.
Depois disso, ela ficou calada. Quando ele a olhou de novo, ela observava os campos escuros passando pela janela, e o celular repousava de cabeça para baixo no joelho.
O Dombrowski’s Diner ficava entre uma borracharia e um banco fechado, numa rua larga e cansada de Joliet. Tinha reservados de vinil vermelho, uma vitrine de tortas e um café com gosto de ter sido passado durante o governo Clinton. Às seis da manhã, já estava meio cheio.
A mesa dos fundos era a mesa da Vanguard. Era a mesa da Vanguard havia trinta anos. Oito aposentados se sentavam em volta dela, de jaquetas de lona e óculos de leitura, e na cabeceira, com os cotovelos fincados no Fórmica, estava Prue Kowalczyk.
Tinha setenta e quatro anos e cerca de um metro e meio de altura. Despachara caminhões da Vanguard por quarenta e um anos, de uma cabine no pátio de Joliet, e todo motorista que já trabalhara ali ainda se encolhia um pouco ao som da voz dela. O cabelo era curto e branco. Os olhos não perdiam nada.
Pousaram primeiro nos saltos de Rowena. Depois subiram devagar até o rosto.
— Você é a mulher da Savage — disse Prue. — Vi você na TV. “Uma reestruturação difícil, porém necessária.” Foi você.
Matthias sentiu Rowena ficar imóvel ao seu lado. Foi uma coisa mínima. A maioria das pessoas jamais teria visto. Os ombros dela não se mexeram e o rosto não mudou, mas algo por trás dos olhos foi muito longe por um segundo e depois voltou.
— Fui eu — disse Rowena.
— Hum. — Prue apontou para a cadeira vazia à sua frente. — Então senta aí. Difícil, porém necessária. Pode tomar o café ruim.
Matthias esperara que Rowena os conduzisse. Já a vira conduzir senadores. Em vez disso, viu Prue Kowalczyk conduzi-la, e viu Rowena permitir.
Ela não fez discurso. Sentou-se na cadeira de plástico, de casaco de oitocentos dólares, e bebeu o café terrível sem pestanejar, e quando vieram as perguntas, respondeu direto. Sim, uma repórter estava ligando. Sim, provavelmente conseguiria impedir a matéria. Não, não podia prometer. Quando um mecânico aposentado chamado Irv perguntou por que não contavam logo tudo à repórter e envergonhavam a Savage diante do país inteiro, Rowena pousou a xícara.
— Podem — disse. — A história é de vocês. Mas vou dizer o que acontece depois, porque já fiz isso com outras pessoas. A repórter escreve. É uma boa matéria. Vocês se sentem maravilhosos por um dia. Aí chegam as vans. Estacionam na frente da casa de vocês. Filmam seus netos subindo no ônibus da escola. Ligam na hora do jantar. Fazem de vocês um símbolo. — Ela olhou em volta da mesa. — E o negócio com símbolos é este: ninguém nunca mais deixa eles em paz.
A mesa ficou em silêncio.
Irv esfregou o queixo.
— Então a gente só fecha a boca e desconta os cheques.
— Vocês fecham a boca — disse Rowena — e vão ao jogo de basquete do neto, e reclamam dos Bears, e ninguém nunca aponta uma câmera para a porta da frente. É para isso que servem os cheques. É isso que ele quer comprar de vocês. — Inclinou a cabeça na direção de Matthias, sem olhar para ele. — Não a gratidão de vocês. O sossego.
Matthias não dissera aquilo a ela. Não com essas palavras. Não sabia que podia ser dito de modo tão simples.
— O meu Stan ia detestar isso — disse Prue por fim. — Dirigiu quarenta anos para o Anders e nunca deixou que pusessem a foto dele no boletim da empresa. — Olhou para Rowena por um longo momento. — Suas mãos estão frias. Toma. — Empurrou a própria caneca pela mesa, a nova, que a garçonete acabara de servir. — Bebe essa. Fala de você.
— Não há nada a contar.
— Todo mundo diz isso. Nunca é verdade.
Matthias viu Prue estender a mão e cobrir a de Rowena com a sua, pequena e salpicada de manchas. Viu Rowena olhar para ela como se não soubesse o que era. Ela não se afastou.
Passara seis anos aprendendo cada frase que ela escrevera. Percebeu, sentado naquele diner, que não a conhecia de forma alguma. E queria conhecer, com um desejo tão simples que o envergonhava.
Na picape, depois, Rowena tirou um caderno da bolsa e estendeu a mão.
— O seu comunicado reserva — disse. — O que os seus advogados escreveram. Para o caso de isso vazar antes que eu consiga matar.
Ele lhe deu a folha dobrada. Ela a leu em cinco segundos, tirou uma caneta vermelha do bolso do casaco e riscou metade do texto.
— “Infelizmente, as recentes decisões da Savage Industries” — leu em voz alta, com uma voz de porta se fechando. — Não. Nunca escreva “infelizmente”. É a palavra que os covardes usam para recuar da própria frase. Ela diz: essa coisa ruim aconteceu, mas não por minha causa. — Escreveu rápido na margem. — Você não ataca a Savage. Não menciona a Savage. Não explica. Diz três coisas verdadeiras e para.
Ela arrancou a folha e a entregou a ele.
Os motoristas do meu avô cumpriram as promessas deles à Vanguard. Eu estou cumprindo as promessas da Vanguard a eles. Essa é toda a história.
Matthias leu duas vezes. Era exatamente o que ele queria dizer havia um mês e não conseguia.
— Está bom — disse baixinho.
— Eu sei. — Ela tampou a caneta. — Não use a não ser que eu diga.
Ele dobrou a folha e a guardou na carteira, atrás da carteira de motorista, onde a carregaria por muito, muito tempo.
Passava das oito da noite quando ele a levou para casa. Tinham passado o dia separados, ela na Savage e ele na Bridgeline, e a noite juntos na sala dos fundos de uma churrascaria, repassando a lista de todos os aposentados que haviam falado com Esme Galloway. Rowena tinha um plano para cada um. Tinha um plano também para Esme. Ele suspeitava que tinha um plano para ele e simplesmente ainda não o compartilhara.
Parou diante do prédio de pedra cinzenta dela e desligou o motor.
— Posso acompanhar você até lá em cima?
— Não.
— Posso levar você para jantar? Um jantar de verdade. Não de trabalho.
— Você me paga dois milhões de dólares, senhor Lindgren. — Ela abriu a porta. — Pode me pedir o que quiser. Vou continuar dizendo não.
Ele riu. Não pôde evitar. Ela olhou para trás, surpresa, como se não estivesse acostumada a ser o motivo de alguém rir, e por um segundo a ponta da boca dela se suavizou.
Depois ela se foi, os saltos batendo nos degraus de pedra, a porta se fechando.
Ele ficou na cabine escura e esperou até que uma luz se acendesse numa janela do terceiro andar. Só então estendeu a mão para a chave.
Foi aí que viu o carro.
Estava estacionado do outro lado da rua, quatro vagas adiante. Sedã cinza. Motor ligado, faróis apagados. Ele não teria olhado duas vezes, mas o vidro do motorista estava meio abaixado numa noite fria de outubro, e na fresta algo refletia a luz do poste. Redondo. De vidro. Comprido.
Uma lente de câmera. Apontada para a janela de Rowena.
Matthias saiu da picape.
Não correu. Atravessou a rua do jeito que o avô atravessara o pátio de Joliet em direção a um motorista que chegara bêbado, firme e sem pressa. Estava na metade do caminho quando o vidro subiu. O sedã arrancou depressa, os pneus sibilando no asfalto molhado, e dobrou a esquina antes que ele alcançasse o meio-fio.
Ficou sob o poste, o hálito embaçando o ar, repetindo a placa entre os dentes até gravá-la na memória.
Depois pegou o celular e ligou para o chefe de segurança da Bridgeline, que atendeu no primeiro toque.
— Preciso de um nome até de manhã — disse Matthias. — Não me importa o custo.
Acima dele, na janela do terceiro andar, a luz de Rowena se apagou.
A Foto na Mesa Dela
Rowena
Na segunda de manhã, Erasmus Savage rejeitou seis mulheres em menos de quatro minutos.
Rowena espalhara as pastas sobre o vidro preto da mesa dele, num leque bem-arrumado. Passara o fim de semana nelas. Uma enfermeira pediátrica de Evanston que fazia voluntariado numa unidade de queimados. Uma educadora de museu que crescera em lar adotivo. Uma violinista da Lyric Opera cuja mãe morrera de câncer quando ela tinha doze anos. Mais três, cada uma mais limpa que a anterior. Cada uma, uma história pela qual os programas matinais brigariam.
Erasmus abriu cada pasta. Olhou cada fotografia exatamente pelo tempo que a tampa do isqueiro levava para abrir e fechar.
— Não — disse ele. Clac. — Não. Tec. — Não.
Não leu além da primeira página de nenhuma delas.
— O senhor não olhou os antecedentes — disse Rowena.
— Não preciso.
— A enfermeira é perfeita. Só a unidade de queimados vale dez pontos de confiança pública. — Ouviu a própria voz se afiar. — Se o senhor me disser o que realmente procura, eu encontro. Eu sempre encontro.
Ele fechou a última pasta e empurrou a pilha inteira de volta pelo vidro, na direção dela.
— Procuro a variável ideal — disse.
Rowena esperou mais. Não havia mais. Ele já virara a cadeira para o lago, e a conversa estava encerrada.
Ela recolheu as pastas e saiu, os saltos batendo no piso com mais força do que pretendia. Em todos os anos ao lado dele, jamais deixara de entregar. Não ia começar agora. Encontraria uma esposa para ele nem que precisasse entrevistar todas as mulheres de Chicago com cartão de biblioteca e uma história triste.
Estava quase chegando à sala quando viu que a porta estava aberta.
Ela sempre a fechava. Sempre.
Neil Preston estava sentado na cadeira dela.
Tinha os mocassins apoiados na quina da mesa e as mãos entrelaçadas atrás da cabeça. Cabelo louro-areia, penteado numa onda que nunca se mexia. Um bronzeado que não existia na natureza em Chicago em outubro. Dentes tão brancos que pareciam anúncio de dentista. Um Rolex dourado e pesado pendia do pulso como uma medalha que ele mesmo se concedera. Ocupava uma cadeira no conselho da Savage Industries e passara os dois últimos anos tentando transformar essa cadeira na de Erasmus.
— Rowena — disse, sorrindo. — Você parece cansada. Fim de semana longo?
— Tire os pés da minha mesa, Neil.
Ele levou o seu tempo. Depois enfiou a mão no paletó e pousou três fotografias no mata-borrão dela, uma após a outra, como quem distribui cartas.
A primeira a mostrava no reservado do canto do Aldine, inclinada na direção de Matthias Lindgren por cima de um copo de gim. A segunda a mostrava subindo numa picape cinza no escuro, diante do próprio prédio. A terceira fora tirada pela vitrine do Dombrowski’s Diner. Ela estava sentada à mesa da Vanguard. Matthias, ao lado dela. A mão de Prue Kowalczyk repousava sobre a sua.
A câmera captara no rosto dela algo que ela não reconheceu. Levou um momento para entender que era ternura.
— O herdeiro da Vanguard Logistics — disse Neil, com simpatia. — O homem cuja empresa de família acabamos de comprar e estripar. Fazendo reuniões secretas com a Diretora Sênior de Relações Públicas da Savage Industries. E uma mesa cheia de aposentados furiosos. — Estalou a língua. — Arthur Sterling chamaria isso de traição. O conselho chamaria de motivo para demissão. Eu chamo de oportunidade.
Rowena não tocou nas fotografias. Não se sentou. Ficou de pé diante da própria mesa, de casaco ainda vestido, e o olhou do jeito que olhava para repórteres que estava prestes a destruir.
— O que você quer?
— Quase nada. Só os seus olhos. — Ele se recostou na cadeira dela. — O Erasmus está planejando alguma coisa. Está sempre. O conselho se reúne no dia vinte e nove, e eu gostaria de saber o que ele pretende fazer antes que faça. Com quem fala. O que pede que você escreva. Coisinhas. — Sorriu mais largo. — Você me traz alguma coisa útil antes de o conselho se reunir, e essas fotos ficam na minha gaveta. Se não trouxer, cada membro do conselho recebe uma cópia na manhã da votação.








































