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A Última Janela Acesa — Romance com bilionário grátisGrátis · Exclusiva

Romance com bilionário grátis

A Última Janela Acesa

A loja dela é a última janela acesa de um quarteirão escuro de Manhattan. Três bilionários acabaram de entrar para comprar a luz.

  • Harém Reverso
  • Pacto Bilionário
  • Proximidade Forçada
  • Protetores Possessivos
  • De Inimigos a Amantes

🌶️🌶️🌶️🌶️ Cerca de 66 min de leitura · 15.109 palavras

A relojoeira Leda Farrow mantém a última janela acesa de um quarteirão escuro de Manhattan, e três bilionários precisam que ela se apague. Então ela propõe um trato: consertar o relógio morto da torre deles até a véspera de Ano-Novo. Aí os capangas de um agiota aparecem com gasolina. O relógio perdeu o coração. E, ao que parece, eles também.

A Última Janela Acesa

Leda

Às seis e cinquenta e oito da noite, quarenta e um relógios da Farrow & Filha batiam como um só, e Leda Farrow era a única pessoa que restava na rua Dellmore para ouvi-los.

Ela mesma os acertara, toda manhã, desde abril. Relógios de lareira e relógios de parede, um alto relógio de caixa em nogueira junto à escada, uma fileira de relógios de viagem franceses sobre o balcão de vidro, um cuco que só cantava quando estava com vontade. Todos os pêndulos balançavam no mesmo compasso. Todos os ponteiros de segundos saltavam juntos. O avô costumava dizer que uma loja precisava ter batimento cardíaco, e que um batimento cardíaco nunca devia discutir consigo mesmo.

Lá fora, a neve caía em flocos grossos e lentos. Caía desde o meio-dia. Pousava macia sobre as tábuas de compensado que cobriam todas as outras vitrines do quarteirão, sobre os andaimes, sobre as longas faixas brancas que estalavam ao vento acima dos prédios vazios.

PENROSE PARTNERS. UMA TORRE NOVA PARA UMA CIDADE NOVA. EM BREVE.

Leda tinha parado de ler aquelas faixas semanas atrás. Um a um, os vizinhos haviam vendido. A padaria da esquina. A sapataria. O casal de velhinhos da loja de molduras, com o gato amarelo. Todos tinham assinado os papéis, chorado um pouco, abraçado Leda e ido embora. Agora a rua era uma fileira de buracos escuros, e a vitrine dela era a única ainda acesa.

Brilhava dourada sobre a neve. Ela gostava disso. Parecia uma bandeirinha pequena e teimosa.

No balcão, ao lado do seu cotovelo, estava uma carta que ela já lera onze vezes. O papel era grosso e caro, o que parecia crueldade. A Vickery Private Lending lamentava informar que a nota promissória garantida pelo número 14 da rua Dellmore fora vencida antecipadamente, na íntegra. Saldo devedor em dois de janeiro: seiscentos e quarenta mil dólares.

O avô tinha pedido emprestados trezentos e oitenta mil doze anos antes, quando a avó adoeceu. Um banco ficara com o empréstimo, e o banco fora paciente. Então o banco vendera a dívida, e Lorne Vickery a comprara, e a paciência saíra pela porta. Taxas. Multas. Juros que cresciam como mofo no escuro.

Leda tinha feito a conta no verso de um envelope. Fizera de novo no celular. O resultado não mudava. Ela tinha trinta dias e cerca de quatro mil dólares.

Virou a carta para baixo e pegou a lupa.

A sineta sobre a porta tocou.

Entrou o ar frio, e a neve, e três homens.

Leda soube de imediato que não queriam consertar nenhum relógio. Quem queria um relógio consertado entrava carregando o próprio, embrulhado em toalhas ou suéteres velhos, segurando-o como a um bicho doente. Aqueles homens não traziam nada. Não precisavam. Encheram a loja do jeito que o tempo ruim enche um vale.

O primeiro era alto e esguio, num sobretudo preto com a neve derretendo nos ombros. Cabelo preto, cortado rente. Um rosto que podia ter sido esculpido para uma moeda. Os olhos eram os mais pálidos que ela já vira, cinza como gelo sobre água funda, e percorreram a loja uma vez, devagar, como se ele contasse tudo que havia ali.

O segundo já estava sorrindo antes de a porta fechar. Pele morena e quente, cabelo preto caindo sobre a testa, uma covinha de um lado só. O casaco era da cor de vinho tinto. Ele olhou para os relógios como alguns homens olham para uma mulher bonita, abertamente e com prazer, e depois olhou para ela do mesmo jeito.

O terceiro era a maior pessoa que Leda já tinha visto dentro de um recinto. Precisou abaixar a cabeça sob a sineta. A barba era castanho-avermelhada e bem aparada, o nariz fora quebrado pelo menos duas vezes, e os ombros forçavam um casaco escuro simples. Ele não olhou para os relógios. Não olhou para ela. Virou-se, esticou o braço por trás da porta e girou a placa dela de ABERTO para FECHADO.

Depois ficou com as costas contra o vidro, de braços cruzados, e virou uma parede.

— Com licença — disse Leda. — Essa placa é minha.

O homenzarrão não disse nada.

— A gente fecha às sete — disse ela ao de preto, porque era evidente que era ele quem decidia as coisas.

— São seis e cinquenta e oito — disse ele. A voz era baixa. Do tipo de baixa que fazia as pessoas se inclinarem para ouvir. — A senhorita abre às oito. Fecha às sete. Toma sopa de lentilha de uma garrafa térmica vermelha, na bancada, à uma da tarde. Não tirou um dia de folga desde o funeral do seu avô, em abril.

A pele da nuca de Leda gelou.

— Quem é você?

— Caspian Whitcombe. — Ele não estendeu a mão. — Penrose Partners.

Claro. As faixas. Ela devia ter percebido só pelos casacos.

— Este é Nikhil Rao — continuou Caspian, com uma pequena inclinação de cabeça na direção do homem sorridente —, e aquele é Magnus Greaves.

A parede junto à porta não reagiu ao nome.

— Senhorita Farrow — disse Nikhil Rao, numa voz de mel morno. Tinha se aproximado do balcão e examinava a fileira de relógios de viagem com as mãos cruzadas nas costas, como um homem num museu. — Este aqui é francês. Década de 1890? A caixa é linda. Mas alguém trocou a alça. O latão está amarelo demais.

Leda ficou olhando para ele.

Era verdade. Um cliente o trouxera com a alça original quebrada, e ela encontrara uma substituta numa feira de pulgas no Brooklyn. Nunca ficara satisfeita com ela. Ninguém jamais reparara.

— Como você sabe disso?

— Meu pai consertava relógios de pulso — disse Nikhil. — Em Jackson Heights. Uma banca do tamanho de um armário, entre uma loja de celulares e outra que vendia correntes de ouro. Eu fazia o dever de casa no banquinho dele. — Ele sorriu para ela, e o sorriso amoleceu nas bordas. — A sua loja cheira exatamente como a dele. A óleo e latão e poeira.

Por um segundo, Leda esqueceu de sentir medo.

Então Caspian Whitcombe pousou um papel dobrado no balcão, bem em cima da carta da Vickery, e ela se lembrou.

— Onze milhões de dólares — disse ele.

Os relógios batiam. A neve caía. Leda não tocou no papel.

— Pelo prédio — disse Caspian. — Rua Dellmore, 14: a loja, o apartamento de cima e o porão. A senhorita paga a Lorne Vickery o que deve e nunca mais ouve o nome dele. Abre uma loja nova onde quiser. Poderia comprar um prédio na Bleecker Street com o que sobrar e nunca mais trabalhar um dia na vida.

— Eu gosto de trabalhar — disse Leda.

— Então trabalhe. Em qualquer lugar, menos aqui.

— Não está à venda.

— Tudo está à venda, senhorita Farrow. — Os olhos pálidos descansaram nos dela sem piscar. — Algumas coisas é que ainda não encontraram o seu preço.

— Vocês já encontraram o meu. — Ela empurrou o papel dobrado de volta pelo vidro com um dedo. — É não.

Nikhil fez um som pequeno, quase uma risada. Caspian não olhou para ele.

— A senhorita tem trinta dias — disse Caspian. — Em dois de janeiro, Vickery vai tomar este prédio. Ele não vai lhe dar onze milhões de dólares. Vai lhe dar uma data no tribunal e um caminhão de mudança. Depois vai vendê-lo para mim, por muito mais do que pagou, e a senhorita ficará sem nada. — Ele fez uma pausa. — Prefiro pagar à senhorita a pagar a ele.

— Que generoso.

— Não — disse Caspian. — Eficiente.

Leda contornou o balcão. Isso significava chegar mais perto deles, coisa de que o corpo dela não gostou. Mas a loja era dela. O avô ficara atrás daquele balcão por cinquenta e um anos, e ninguém jamais o obrigara a sair de lá com medo.

— Meu avô consertava relógios nesta rua antes de os seus pais se conhecerem — disse ela. — Ele me ensinou naquela bancada. Minha mãe aprendeu naquela bancada, e é por isso que a placa diz e Filha, e é por isso que ela vai continuar dizendo. Querem construir a torre? Construam em volta de mim.

— O projeto não permite isso.

— Então mudem o projeto.

Caspian a encarou por um longo momento. Algo se moveu por trás do gelo nos olhos dele. Ela não soube dizer se era raiva ou interesse. Num rosto como aquele, talvez fossem a mesma coisa.

Atrás dele, o homenzarrão junto à porta mudou o peso de perna. Foi a primeira vez que se mexeu.

Caspian enfiou a mão no casaco e pôs um cartão sobre o balcão. Era preto, pesado e quase em branco. Não tinha nome, nem telefone. Só um pequeno desenho em tinta prateada: um prédio alto e antigo com um relógio na coroa.

Leda conhecia aquele prédio. Todo mundo no centro conhecia. O Edifício Penrose se erguia trinta andares acima dos telhados, oito quarteirões ao norte, e o seu grande relógio tinha quatro mostradores brancos, um para cada direção do vento. Os quatro mostradores marcavam oito para o meio-dia desde que ela nascera.

O avô gostava de ficar na porta nas noites de verão e olhar para ele. “Aquele relógio tem o coração partido”, dizia, e nunca explicava.

— Se mudar de ideia — disse Caspian.

— Não vou mudar.

— Então guarde de lembrança.

Ele se virou e foi até a porta. Nikhil o seguiu, mas parou ao lado do relógio de viagem com a alça errada e tocou o vidro dele muito de leve, com um dedo, do jeito que se toca uma criança dormindo.

— Se algum dia a senhorita encontrar a alça certa — disse ele —, eu gostaria de vê-lo.

Então ele também se foi.

Restava só o homenzarrão. Magnus Greaves abriu a porta para os outros, e o frio passou por ele, e a neve rodopiou para dentro em volta das suas botas. Ele olhou para ela pela primeira vez. Os olhos eram azul-escuros, quase pretos sob a luz da loja, e não havia crueldade neles. Também não havia ternura. Eram os olhos de um homem que vigiava portas para ganhar a vida.

— Tranque a porta dos fundos — disse ele.

A voz era grave e áspera, como um barco raspando num cais.

— Eu sempre tranco a porta dos fundos.

Ele sustentou o olhar dela um segundo a mais. Depois assentiu, uma vez, e saiu para a neve.

A porta se fechou. A sineta tocou. E, naquele exato instante, os quarenta e um relógios da Farrow & Filha bateram sete horas juntos, e o som encheu a loja como um bando de pássaros assustados.

Leda ficou parada no meio dele, o coração aos pulos e as mãos tremendo.

Virou a placa de volta para ABERTO, só para provar que podia.

Depois virou para FECHADO, porque eram sete horas.

Ela tomou a sopa lá em cima, na mesinha da cozinha, fria, direto da garrafa térmica vermelha. Os óculos de leitura do avô ainda estavam no parapeito da janela. Ela não conseguira tirá-los de lá.

Da janela da cozinha, via o relógio do Penrose sobre os telhados, iluminado por dentro, com os ponteiros congelados na neve. Oito para o meio-dia. Para sempre quase meia-noite.

Pensou nos onze milhões de dólares. Pensou em Caspian Whitcombe recitando o horário do almoço dela como quem lê a previsão do tempo. Pensou no jeito como Nikhil Rao tocara o vidro daquele relógio francês, e em como odiava que aquilo a tivesse comovido.

Não pensou no grandalhão de jeito nenhum. Era mentira, mas ela a contou para si mesma com firmeza.

Às nove e quarenta, estava na bancada, sob a lâmpada, limpando as engrenagens de um relógio de lareira com um pincel fino, quando ouviu vidro quebrar lá embaixo.

Não foi alto. Foi um som pequeno, agudo, errado, como um osso estalando.

Leda ficou imóvel.

Todos os relógios do prédio batiam. Sob as batidas, ela ouviu outra coisa. Um arranhão. Um grunhido. Uma pancada pesada contra a parede dos fundos da loja, forte o bastante para que ela a sentisse pelo chão.

Agarrou a primeira coisa pesada ao alcance. Era um peso de pêndulo de latão do tamanho de uma toranja, esperando o polimento na bancada. Segurou-o como uma pedra e desceu a escada na ponta dos pés, de meias.

A loja estava escura, exceto pela luz do poste através da vitrine. Os relógios cintilavam. O corredor dos fundos era um breu, e um vento frio soprava por ele.

A janelinha ao lado da porta dos fundos tinha sumido. Havia cacos de vidro brilhando no chão.

A porta em si continuava trancada. Ela a trancara. Conferira duas vezes.

Pela moldura vazia da janela, viu o beco, branco de neve e prateado pela luz da rua. E viu Magnus Greaves.

Ele prendia um homem contra a parede de tijolos do outro lado do beco. Uma mão enorme espalmada no peito do sujeito. Os pés do homem mal tocavam o chão. Um pé de cabra jazia na neve entre os dois, e uma touca de lã, e um punhado de cacos.

— O Vickery só queria assustar ela — dizia o homem, muito rápido. — Só isso. Só assustar. Ninguém ia se machucar…

— Você quebrou a janela dela — disse Magnus.

— É só uma janela, cara…

Magnus se inclinou. Não levantou a voz. Não precisava. O homem parou de falar.

Então Magnus virou a cabeça e olhou direto, pela janela quebrada, para Leda, parada no escuro de meias, com um peso de pêndulo de latão erguido por cima do ombro.

Alguma coisa mudou no rosto dele. Foi muito pequena. Podia ter sido surpresa. Podia ter sido respeito.

— Entre, senhorita Farrow — disse ele. — Tranque a porta.

— Eu tranquei a porta — ouviu-se dizer. A voz saiu aguda e furiosa. — Você me mandou trancar, e eu tranquei.

— Eu sei. — Os olhos dele foram até o vidro no chão, depois voltaram para ela. — Ele quebrou a janela ao lado.

Leda abaixou o peso de pêndulo. Os braços tremiam tanto que quase o deixou cair.

— Suba — disse Magnus, mais baixo. — Eu cuido disso. Vou cobrir a janela. Depois fico no carro até de manhã.

— Que carro?

Ele inclinou a cabeça na direção da boca do beco.

Ela olhou. Do outro lado da rua Dellmore, no escuro entre dois postes, um longo carro preto estava junto ao meio-fio com o motor ligado. A neve derretia no capô. Ela nem o tinha visto.

Ele nunca tinha ido embora.

Ela subiu porque as pernas mandaram. Sentou-se na cama do avô, no escuro, e escutou. Ouviu a porta de um carro. Ouviu vozes, depois sirenes, longe e depois perto, depois longe de novo. Ouviu marteladas nos fundos da loja, lentas e constantes, enquanto alguém pregava uma tábua sobre a janela quebrada.

Às três da manhã, ainda estava acordada. Foi até a janela da frente e olhou para baixo.

O carro preto continuava lá. O motor continuava ligado. E no balcão lá embaixo, ela sabia sem olhar, um cartão preto com um relógio de prata esperava que ela mudasse de ideia.

Parado à Meia-Noite Menos Oito

Caspian

A sala de reuniões da Penrose Partners não tinha janela. Tinha um relógio.

A parede norte inteira era o avesso do grande mostrador, seis metros de diâmetro, um círculo de vidro leitoso engastado em ferro preto. De dia, a cidade aparecia através dele como formas cinzentas e suaves. Os numerais se destacavam contra o céu, invertidos, e os dois ponteiros de ferro pendiam onde pendiam havia quarenta anos. Oito para o meio-dia. Vistos de dentro, pareciam um espelho. Caspian parara de reparar nisso anos atrás. Nunca parara de reparar nos ponteiros.

Ficou diante do vidro às sete da manhã, com um café preto que não bebia, e contou os numerais. Doze. Sempre contava até o doze. Era um hábito de infância, como conferir uma fechadura.

Quando tinha nove anos, o pai o levava para passar diante daquele prédio nas manhãs de domingo, a caminho de abrir a loja. Ferragens Whitcombe, rua Varick, chaves feitas na hora. O pai parava na esquina, jogava a cabeça para trás e olhava para o relógio morto com as mãos nos bolsos.

— Quando aquela coisa voltar a funcionar — dizia o pai —, vai ficar tudo bem.

No começo era brincadeira. Depois virou esperança. Quando Caspian fez catorze anos, era uma prece, e a loja pertencia a um homem de terno bom que comprara a dívida do pai ao banco e a cobrara num janeiro gelado. O pai nunca abriu outra loja. Também nunca mais olhou para o relógio.

Caspian comprou o Edifício Penrose aos trinta anos, com a primeira fortuna de verdade que fez. As pessoas achavam que era investimento. Era. Também era uma promessa feita numa esquina quando ele tinha nove anos e não entendia quanto as promessas custam.

Desde então, contratara nove relojoeiros. Suíços, alemães, um velho famoso de Londres que chorou ao ver o mecanismo. Os nove fracassaram. Os nove disseram variações da mesma coisa. O coração dele se foi. Alguém o levou. Podemos tentar construir outro, mas este relógio não quer um novo.

Caspian não acreditava em relógios que queriam coisas. Acreditava em consertar o que podia ser consertado e possuir o que não podia.

Atrás dele, a porta se abriu.

— Era um dos homens do Vickery — disse Magnus.

Caspian se virou. Magnus preenchia o vão da porta, com a roupa de ontem. Ainda havia neve secando na barba e um arranhão nos nós dos dedos da mão direita. Não dormira. Não parecia cansado. Nunca parecia. Nove anos como nadador de resgate da Guarda Costeira o tinham ensinado a ficar sem sono do jeito que outros homens ficam sem açúcar.

Nikhil entrou atrás dele com três cafés numa bandeja de papelão e entregou um a Magnus. Estendeu o terceiro a Caspian, viu o copo que já estava na mão dele e pousou-o na mesa comprida mesmo assim.

— Esse você não bebe — disse Nikhil. — Segura. Beba este.

Caspian o ignorou.

— Conte.

Magnus contou como contava tudo, em pedaços curtos, sem nada a mais. Um homem com um pé de cabra às nove e quarenta. Uma janela quebrada. Um celular no bolso do sujeito com três chamadas de um número que pertencia a um homem que fazia cobranças para Lorne Vickery. A polícia às dez. Uma tábua sobre a janela às onze. A senhorita Farrow acordada até depois das três.

— Como você sabe a que horas ela dormiu? — perguntou Nikhil.

— Pela luz dela.

Nikhil olhou para Caspian por cima da borda do copo. Caspian o encarou de volta. Nenhum dos dois disse nada. Fora Magnus quem ficara junto à porta daquela loja. Fora Magnus quem mandara ela trancar a porta. E fora Magnus quem passara nove horas num carro frio vigiando a luz dela, coisa que não fazia por prédios.

— Vickery quer que ela fique com medo — disse Caspian. — Quer que ela pare de resistir. Se ela entregar o prédio em janeiro, ele o toma pela dívida e o vende para nós por cinco vezes o que pagou.

— Então pagamos a ele primeiro — disse Nikhil. — Compramos o silêncio dele. Fazemos ele sumir.

— Não. — Caspian pousou o café intocado. — Compramos o papel dele.

A sala ficou em silêncio.

— A nota — disse Caspian. — O empréstimo inteiro. Compramos de Vickery hoje. Ele vende. Ele quer dinheiro, não um prédio. Quando a nota for nossa, os homens dele não terão motivo para chegar perto dela, e ninguém poderá cobrar aquela dívida além de nós.

— E depois você conta a ela — disse Nikhil, devagar.

Caspian não disse nada.

— Caspian.

— Depois — disse Caspian. — Quando estiver feito.

Magnus pousou o café com muito cuidado, do jeito que pousava qualquer coisa que estivesse tentando não arremessar. Não falou. Não precisava. Em catorze anos, os três tinham construído uma empresa a partir de um único quarto alugado sobre uma lavanderia no Queens até chegar a um horizonte inteiro de prédios. Tinham construído tudo sobre uma regra: nenhum segredo dentro do círculo. Tudo dividido. O risco, o dinheiro, a casa no norte do estado, a culpa.

Mas Leda Farrow não estava dentro do círculo. Ainda não.

O interfone sobre a mesa soou.

— O senhor Langstaff chegou — disse a voz da recepção, um pouco aguda demais.

Nikhil praguejou baixinho. Magnus se endireitou. Caspian conferiu o relógio de pulso por puro reflexo e sentiu, pela primeira vez naquela manhã, algo frio escorregar pela espinha.

Eram nove horas em ponto.

Peter Langstaff não ia a reuniões. As pessoas iam até ele, ao sexagésimo andar da torre da Apex, em Midtown, onde ele e os outros quatro homens do Conselho da Apex governavam uma holding capaz de comprar países pequenos. Ninguém que Caspian conhecia fora convidado a subir lá duas vezes. E o dinheiro da Apex era o aço dentro da torre Penrose da rua Dellmore. Sem ele, os projetos eram só papel.

Langstaff entrou na sala como se a tivesse projetado.

Tinha quarenta e poucos anos, cabelo prateado, um terno cinza-chumbo cortado com tanta precisão que parecia arquitetura. Os olhos eram do azul frio e límpido de um céu de inverno. Cheirava levemente a cedro e a bom bourbon. Não apertou mãos. Olhou uma vez para a mesa comprida, uma vez para Magnus, uma vez para Nikhil, e depois para o grande relógio morto na parede norte.

— Aquilo — disse ele — me ofende toda vez que venho aqui.

— A mim também — disse Caspian.

— Ótimo. Então o senhor me entende. — Langstaff não se sentou. — A Apex comprometeu capital com um quarteirão inteiro da rua Dellmore. Não um quarteirão menos uma loja. Um quarteirão inteiro. O dinheiro se move no dia dez de janeiro. Se o terreno não estiver inteiro até lá, o dinheiro não se move. Eu não prorrogo.

— Estará inteiro.

— A relojoeira. — Não era uma pergunta.

— Está sendo resolvida.

Langstaff levou a mão ao bolso interno do paletó. Tirou um relógio de bolso preso a uma curta corrente de platina. Era pesado e simples e perfeito, o tipo de objeto que custava mais que a maioria das casas e não exibia nada disso. Apertou o lado. A tampa se abriu com um estalo pequeno e limpo, e o tique-taque dele pareceu encher a sala.

— Este relógio atrasou quatro segundos desde abril — disse Langstaff. — Emil Farrow cuidou dele por dezenove anos. Nunca me fez esperar uma única vez. Aí morreu. — Ele ergueu os olhos do mostrador. — Disseram-me que a neta tem as mãos dele.

Caspian não soube o que responder. Não era uma frase que esperava de Peter Langstaff.

O interfone soou de novo.

— Senhor Whitcombe, desculpe, tem uma mulher aqui, ela não quer se sentar, diz que está com o casaco do senhor Greaves…

Magnus já se movia em direção à porta. Parou quando ela se abriu.

Leda Farrow entrou com um casaco escuro de homem dobrado no braço e neve no cabelo.

À luz do dia, Caspian viu mais dela do que vira na luz dourada da loja. Cabelo castanho-escuro, preso no alto com o que parecia um lápis. Uma lupa de latão pendurada num cordão no pescoço. Um suéter de lã cinza com as mangas arregaçadas. Pontas dos dedos manchadas de algo escuro, óleo ou polidor. Uma pequena cicatriz de queimadura, brilhante, na ponta do polegar esquerdo. Os olhos eram castanhos, furiosos e avermelhados de falta de sono, e foram direto para Magnus.

— Você enfiou isto na minha janela quebrada — disse ela, estendendo o casaco. — Para barrar a neve. Deixou pendurado no meu gancho, e depois passou a noite inteira diante do meu prédio só de camisa.

— Sim — disse Magnus.

— Fazia menos sete graus.

— Sim.

Ela empurrou o casaco contra o peito dele. Ele o pegou. Por um instante os dois ficaram ali, o homem enorme e a mulher pequena e furiosa, e Caspian viu no rosto de Magnus algo que vira talvez três vezes em catorze anos.

Então Leda se virou para Caspian.

— Eu não quero os seus onze milhões — disse ela. — Não quero o seu segurança. Não quero ninguém sentado na frente do meu…

Ela parou.

Tinha visto o relógio.

Caspian viu acontecer. Viu-a olhar por cima do ombro dele para o grande mostrador invertido, para os ponteiros de ferro preto e a cidade cinzenta atrás do vidro, e viu a raiva escorrer do rosto dela e outra coisa entrar. Não era assombro. Era algo mais agudo. O olhar de uma cirurgiã diante de uma ferida.

Ele conhecia aquele olhar. Tinha usado o mesmo numa esquina, aos nove anos.

— Senhorita Farrow — disse Peter Langstaff.

Ela piscou e pareceu vê-lo pela primeira vez.

— Sim?

— A senhorita é neta de Emil Farrow.

— Sou.

Langstaff estendeu o relógio aberto. Não o entregou a ela. Estendeu-o do modo como se mostra um documento.

Leda se aproximou e ergueu a lupa do pescoço sem pedir licença. Curvou-se sobre o relógio enquanto ele repousava na palma da mão de Langstaff. Escutou. Não tocou. A sala estava em silêncio, exceto pelo tique-taque.

— Não está sujo — disse ela por fim. — Meu avô limpou em março. Eu me lembro. Ele cantou enquanto fazia isso. — Inclinou a cabeça. — A mola do balanço está roçando em si mesma a cada oscilação. Só um pouquinho. Foi golpeada. Com força. Uma queda, uma gaveta batida, a porta de um carro. Em algum momento desta primavera.

O rosto de Langstaff não mudou. Alguma coisa na sala, sim.

— A senhorita consegue corrigir? — perguntou ele.

— Consigo. Duas semanas.

Ele fechou a tampa e pôs o relógio na mão dela. Os dedos dela se fecharam em torno dele automaticamente, como uma mãe que pega uma criança no ar.

— Seu avô nunca me fez esperar — disse Langstaff.

— Eu também não vou fazer.

Ele a olhou por um longo momento, avaliando. Depois se voltou para Caspian.

— Dia dez — disse, e saiu.

A porta se fechou atrás dele. Nikhil soltou o ar como um homem que volta à superfície.

Leda ficou olhando para o relógio na mão. Depois ergueu os olhos de novo para o grande mostrador, e Caspian tomou uma decisão tão depressa que não sentiu a si mesmo tomá-la.

— Conserte — disse ele.

Ela se virou.

— O quê?

— O relógio. Nove dos melhores relojoeiros do mundo fracassaram. Todos dizem que o coração dele sumiu. Conserte, e a senhorita ganha. — Caminhou na direção dela e parou à distância de um braço. — Se o meu relógio estiver funcionando à meia-noite da véspera de Ano-Novo, eu mudo o projeto. A torre sobe em volta da sua loja. A sua janela continua acesa. E Lorne Vickery nunca mais será problema seu.

— E se não estiver funcionando?

— Então a senhorita me vende o prédio por onze milhões e vai embora rica.

Nikhil tinha ficado muito quieto. Magnus observava Caspian com uma expressão que Caspian escolheu não ler.

Leda olhou de um para o outro.

— São vinte e oito dias.

— Sim.

— Para um relógio que ninguém consegue consertar.

— Sim.

— Por quê?

Porque quando ele voltar a funcionar, vai ficar tudo bem. Caspian não disse. Não dizia aquilo em voz alta fazia vinte e cinco anos.

— Porque não gosto de coisas que não funcionam — disse ele.

Ela estudou o rosto dele. Ele deixou. Pouquíssimas pessoas tinham permissão para olhá-lo por tanto tempo.

— Mais duas condições — disse ela. — Os homens de Vickery ficam longe da minha loja. A partir de hoje.

— Feito.

— E ele para de dormir na frente da minha porta. — Ela apontou para Magnus sem olhar para ele.

— Não — disse Magnus.

Leda se virou e o encarou. Caspian quase sorriu.

— Essa condição não é minha para conceder — disse ele.

E Leda Farrow riu. Aquilo a surpreendeu. Ele viu a surpresa, o modo como a risada explodiu dela e como ela levou a mão à boca tarde demais para impedi-la. Era a primeira vez que ele a ouvia rir, e a risada atravessou a sala de reuniões como luz através do vidro morto.

— Tudo bem — disse ela. — Vinte e oito dias.

Estendeu a mão.

Caspian a apertou. A palma dela era pequena, dura de calos, e quente, e ele sentiu sob o polegar a pequena crista lisa da cicatriz de queimadura. Segurou um segundo mais do que o necessário. Ela percebeu. Não recolheu a mão.

O celular de Magnus vibrou.

Foi o único som na sala. Magnus olhou para a tela, e o corpo enorme inteiro dele mudou, de uma só vez, como uma porta batendo.

— Tovey — disse. — Na loja dela. Dois homens no beco. — Já estava em movimento. — Com galões de gasolina.

A mão de Leda gelou na de Caspian.

Quando ele ergueu os olhos, Magnus já tinha sumido.

Espere — Magnus Greaves já está correndo. Dois homens com galões de gasolina estão na porta dos fundos dela.

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