O Muro no Saguão
Wren Ashby tinha um plano, e o plano era simples. Entrar na torre da K-Corp. Encontrar o homem que era dono dela. Pôr o tijolo em cima da mesa dele.
O tijolo estava na bolsa de lona, embrulhado num pano de prato, ao lado da chave de afinação, de um rolo de feltro e de uma barra de cereal mordida pela metade. Era um velho tijolo de Chicago, vermelho-escuro, com um pedaço faltando num canto. Duas noites antes, ele tinha atravessado a vitrine da Ashby Pianos às três da manhã e caído sobre o teclado de um piano vertical de 1926 que ela passara o verão inteiro restaurando. Rachara duas teclas de marfim. O dó central e o ré ao lado.
Amarrado ao tijolo com um elástico, havia um bilhete em papel branco. Cinco palavras digitadas.
A K-Corp quer você fora. Vá embora.
E ali estava ela, numa terça-feira cinzenta do fim de outubro, num saguão de pedra preta e vidro, pingando chuva num piso tão polido que ela via no chão o próprio rosto furioso.
O saguão era enorme. Fora feito para fazer as pessoas se sentirem pequenas, e funcionava. O teto tinha a altura de três andares. Uma parede de água descia por um dos lados, silenciosa e lisa. Gente de casaco escuro passava por ela com crachás presos ao cinto, e ninguém olhou duas vezes. Era uma mulher baixa, de capa de chuva amarela, com os cachos ruivo-acastanhados molhados colados nas bochechas. Não parecia alguém com assunto naquele lugar.
Ela não ligou.
Foi direto à mesa da segurança. Havia dois seguranças atrás dela, jovens e entediados. Atrás deles, ao lado de um elevador privativo de portas de latão, estava um terceiro homem.
Era o maior ser humano que ela já tinha visto de terno.
Não era alto como jogador de basquete. Era alto e largo, construído como um muro que alguém decidira vestir para um funeral. Os ombros forçavam a lã escura do paletó. O pescoço era grosso, o cabelo escuro, cortado rente, o maxilar sombreado por uma barba por fazer que parecia ter crescido de novo desde o café da manhã. Um fio fino subia do colarinho até a orelha. Ele comia uma maçã. Comia com um canivete dobrável, cortando uma fatia certinha de cada vez e levando à boca, e estava olhando para ela.
Não do jeito que os homens dos bares olhavam para ela. Olhava do jeito que um gato olha para uma porta.
Wren o ignorou. Apoiou as duas mãos na mesa da segurança.
— Vim falar com Soren Kincaid — disse.
O mais novo dos seguranças piscou. — A senhora tem hora marcada?
— Não.
— Então sinto muito, mas o senhor Kincaid não…
— A empresa do senhor Kincaid está tentando comprar o meu prédio — disse Wren. — E alguém jogou um tijolo na minha vitrine com o nome da empresa dele. Então acho que ele consegue arranjar cinco minutos.
O segurança olhou por cima do ombro para o gigante da maçã.
O gigante cortou outra fatia. Não teve pressa. Mastigou, engoliu, dobrou o canivete com o polegar e veio andando. Movia-se com mais silêncio do que qualquer homem daquele tamanho tinha o direito de se mover.
— Nome — disse ele. A voz era grave e áspera, como cascalho sob um pneu devagar.
— Wren Ashby. Ashby Pianos. Ravenswood, perto dos trilhos do trem.
— Pianos — repetiu ele, como se fosse uma palavra estrangeira.
— Pianos. Aquelas coisas grandes de madeira. Teclas pretas e brancas. Você aperta e sai música.
Alguma coisa se mexeu no canto da boca dele. Sumiu antes que ela pudesse chamar aquilo de sorriso.
— Eu sei o que é um piano, moça.
— Então sabe quanto custa consertar duas teclas de marfim de 1926. — Ela tirou o tijolo da bolsa, desembrulhou o pano e o pousou na mesa com um baque pesado. Os dois seguranças jovens se inclinaram para trás. O gigante, não. — Alguém jogou isto pela minha vitrine. Com um bilhete. Dizia que a K-Corp quer que eu vá embora. Tenho contrato de aluguel por mais quatorze meses, não vou sair, e quero ouvir o seu chefe dizer na minha cara que foi ele quem mandou.
O gigante olhou para o tijolo. Depois olhou para o bilhete, ainda preso sob o elástico. Não encostou em nenhum dos dois.
— O senhor Kincaid não joga tijolos — disse.
— Talvez pague alguém para jogar.
— Também não faz isso.
— Como você sabe?
— Porque eu sou o cara que ele pagaria. — Ele disse isso em tom seco, sem orgulho e sem ameaça. Só um fato. — E eu tenho andado ocupado.
Wren ficou olhando para ele. Precisou inclinar a cabeça para trás para isso. De perto, os olhos dele eram muito escuros, quase pretos, e havia pequenas linhas nos cantos. Não eram rugas de riso. Eram rugas de quem estreita os olhos. Linhas de quem passou muito tempo olhando para lugares claros e perigosos.
— Quem é você? — perguntou ela.
— Jax Priest. Cuido da segurança do senhor Kincaid. — Ele indicou com a cabeça as portas de vidro atrás dela, onde a chuva desabava sobre a rua. — E agora vou levar a senhorita até a rua, senhorita Ashby. Deixe o tijolo comigo. Vou dar uma olhada.
— Vai dar uma olhada — repetiu ela. — Foi o que a polícia disse. Eles anotaram meu nome num papel, e depois um deles perguntou se eu podia afinar o piano da mãe dele de graça.
— Eu não sou a polícia.
— Não. Você é o homem que mantém gente como eu longe de gente como ele.
Ele não negou. Apenas deu um passo para o lado e estendeu o braço na direção das portas, educado e imóvel.
Wren olhou para aquele braço. Depois olhou para além dele, para o elevador privativo de portas de latão. Estava aberto. Uma mulher com um tablet acabara de sair, e as portas se fechavam devagar.
Ela não pensou. Correu.
Deu três passos. Talvez quatro. Os tênis molhados chiaram na pedra. Ela estendia a mão para a fresta das portas de latão quando um muro se mexeu à sua frente e ela bateu direto nele.
O muro era quente. Cheirava a chuva, a maçã verde e a algo limpo, como sabonete. Uma mão enorme se fechou em torno do braço dela, sem força, mas por inteiro. Ela quicou meio passo para trás e ele a segurou para que não caísse.
As portas do elevador se fecharam com um sino suave atrás das costas dele.
— Boa tentativa — disse Jax Priest.
Wren respirava com dificuldade. Fez a única coisa em que conseguiu pensar. Enfiou a mão na bolsa, puxou a chave de afinação e apontou para o peito dele.
Era uma ferramenta de aço do comprimento do antebraço dela, com cabo de madeira e um soquete em forma de estrela na ponta. O avô dela a usara por quarenta anos. Não era uma arma. Parecia um pouco com uma, para quem não soubesse.
Jax olhou para baixo.
— O que é isso?
— Uma chave de afinação.
— Vai me afinar?
— Se for preciso.
Dessa vez o canto da boca dele se mexeu de verdade. Ele não soltou o braço dela. Não tomou a chave. Só ficou olhando para ela, e por um segundo estranho Wren sentiu o saguão se calar ao redor dos dois, como se o prédio inteiro tivesse parado para ver o que ela faria em seguida.
Então o saguão se calou de verdade.
As portas principais tinham se aberto. Um homem entrou, vindo da chuva, e todas as pessoas do saguão se endireitaram como uma corda esticada.
Era alto e magro, de casaco preto comprido com a gola levantada. O cabelo escuro estava molhado. Era mais jovem do que Wren esperava, no máximo uns trinta e poucos anos, com um rosto tão duro e imóvel que parecia esculpido. Os olhos eram de um azul pálido e frio, da cor do lago em janeiro. Uma cicatriz branca e fina descia do canto do maxilar em direção ao pescoço. Andava como se a chuva tivesse sido providenciada para ele.
Dois assistentes se apressavam ao lado dele. Ele não olhou para nenhum dos dois.
Olhou para o tijolo em cima da mesa da segurança. Depois olhou para Wren, para a chave de afinação na mão dela, e para o gigante que segurava o braço dela.
— Jax — disse. A voz era macia e baixa, e atravessou o saguão inteiro sem esforço.
— Chefe.
— Por que há um tijolo no meu saguão?
— É o tijolo dela — disse Jax. — Ela diz que alguém jogou pela janela dela, com um bilhete. Diz que a K-Corp quer que ela vá embora.
Os olhos frios de Soren Kincaid voltaram para Wren. Ela se obrigou a ficar ereta. Percebeu, de repente, a capa amarela, os tênis encharcados, a barra de cereal saindo da bolsa.
— A sua empresa está comprando o meu quarteirão — disse ela. A voz tremeu só um pouco. — Os velhos prédios de tijolo perto dos trilhos de Ravenswood. O meu é o da loja de pianos. O meu avô abriu em 1971. Eu não quero vender, e não sou obrigada a vender, porque tenho contrato. E agora alguém está quebrando as minhas janelas e usando o seu nome.
Soren pegou no casaco um isqueiro de prata. Abriu a tampa com o polegar. Clique. Não acendeu. Fechou de estalo. Claque.
— A K-Corp não quebra janelas, senhorita…
— Ashby.
— Senhorita Ashby. A K-Corp compra. — Ele virou o isqueiro uma vez entre os dedos longos. — Se alguém está usando o meu nome para assustar inquilinos, está roubando de mim. Não gosto de ladrões.
— Então o senhor vai impedir?
Ele a olhou por um longo momento. Wren teve a desconfortável sensação de que ele a somava como uma coluna de números, e de que o total não o interessava muito.
Então algo mudou no rosto dele. Foi muito pequeno. Ela não teria notado se não estivesse encarando com tanta força. Os olhos dele foram às mãos dela. Mãos ásperas, marcadas de cortes e calos, com um fiapo de feltro grudado num dos nós dos dedos. Mãos de quem trabalha.
— Jax — disse Soren. — Leve a senhorita Ashby para casa.
O aperto de Jax no braço dela se firmou um pouco. — Chefe, tenho a visita do conselho às quatro.
— Então vai se atrasar. Olhe a janela dela. Olhe a rua dela. Descubra se ela está dizendo a verdade. — Soren guardou o isqueiro. — E, se estiver, descubra quem está mentindo.
Ele passou por eles e entrou no elevador privativo. As portas de latão se fecharam sobre o rosto frio e esculpido.
Wren soltou um fôlego que não sabia estar prendendo.
Jax Priest soltou o braço dela. Olhou para ela, depois para a chave de afinação, que continuava apontada para o estômago dele.
— Já pode guardar isso — disse. — Acho que você ganhou.
O carro era um SUV preto que cheirava a couro e a mais nada. Jax dirigia como fazia tudo, sem pressa e sem movimento desperdiçado. A chuva fazia longas linhas prateadas nos vidros. Os limpadores batiam num ritmo constante.
A passageira não parava de falar havia nove minutos.
Falou do tijolo. Falou da polícia. Falou do dó central e do ré ao lado, e de como era impossível achar marfim de verdade hoje em dia, e de como ela teria de usar uma cobertura de plástico que nunca ia ser a mesma sob o dedo de quem toca. Falava com as mãos, e as mãos dela eram pequenas, rápidas e nunca ficavam quietas.
Jax deixou aquilo passar por ele. Estava acostumado com barulho. Passara quatro anos como médico do Exército e depois seis às costas de Soren Kincaid, e nos dois trabalhos as pessoas que mais falavam eram quase sempre as que mais tinham medo. Ele não se incomodava. Medo que fala era mais fácil do que medo que se cala.
— Você não está ouvindo — disse ela.
— Estou ouvindo.
— O que eu acabei de dizer?
— Que não dá mais para comprar marfim novo, então você guarda teclas antigas de pianos mortos numa caixa de charutos. Seu avô começou a caixa. Você chama de cemitério.
Ela fechou a boca. Ele sentiu o olhar dela.
— Tá — disse ela. — Você estava ouvindo.
— É o meu trabalho.
— Achei que o seu trabalho fosse manter as pessoas longe do seu chefe.
— Isso é parte dele. — Ele entrou numa rua mais estreita. Velhos prédios de tijolo, de três andares cada, encostados uns nos outros como amigos cansados. Os trilhos elevados do trem corriam atrás deles, ferro preto contra o céu cinzento. — A outra parte é notar as coisas antes que aconteçam.
— E o que você nota em mim?
Ele pensou.
— Você não almoçou — disse. — Tem feltro no nó do dedo e serragem na manga esquerda. Não dorme muito desde o tijolo. E está com medo, mas veio ao centro mesmo assim, sozinha, na chuva, para gritar com um dos homens mais perigosos de Chicago. — Olhou de relance para ela. — Ou é muita coragem, ou muita burrice.
— Qual das duas você acha?
— Ainda não decidi.
Ela riu. Isso o surpreendeu. Foi uma risada de verdade, curta e clara, e encheu o carro quieto de um jeito que fez alguma coisa no peito dele ficar imóvel.
Ele voltou a olhar para a estrada.
— Aquela — disse ela, apontando. — A da porta verde.
A Ashby Pianos ficava no meio do quarteirão. Três andares de tijolo vermelho-escuro, uma porta de madeira verde e uma grande vitrine que agora era uma chapa de compensado. Alguém um dia pintara o nome da loja em dourado no vidro. Só restava a curva de um H, num caco pontudo ainda preso à moldura.
Jax encostou no meio-fio. Não desceu logo. Ficou com o motor ligado, olhando a rua.
Olhou os prédios dos dois lados. Os dois escuros. Os dois vazios. Uma placa de VENDE-SE pendia torta numa das portas. Olhou o beco que corria atrás do quarteirão, sob os trilhos. Olhou o poste com a lâmpada queimada. Olhou os carros estacionados junto ao meio-fio, um por um.
Ali. Do outro lado da rua, três portas adiante.
Um sedã cinza. Motor desligado. Vidros embaçados. Alguém lá dentro.
— O que foi? — disse Wren. — O que é?
— Há quanto tempo os outros prédios estão vazios?
— Desde o verão. O proprietário comprou os contratos de todo mundo. O senhor Tolliver. Ofereceu dinheiro para mim também. Eu disse não. Duas vezes. — Ela seguiu o olhar dele pelo para-brisa. — Por quê?
Jax não respondeu. Observava o sedã cinza.
Como se pudesse sentir que era observado, o motor do sedã pegou. O embaçado do para-brisa começou a se abrir em duas meias-luas lentas. Pelo vidro, ele viu a silhueta de um homem de boné escuro. O homem olhou direto para o SUV preto por um longo segundo.
Então o sedã saiu da vaga, passou por eles sem pressa e dobrou a esquina sob os trilhos do trem.
Jax já tinha a placa decorada antes que ele sumisse.
Ele estendeu a mão, destravou a porta e se virou para a mulher pequena, molhada e furiosa no banco do passageiro.
— Senhorita Ashby — disse. — Eu decidi.
— Decidiu o quê?
— Você está dizendo a verdade. — Abriu a porta, e o som da chuva entrou. — E alguém está muito interessado na sua vitrine.
Regras para um Guarda-Costas
Por dentro, a Ashby Pianos cheirava a serragem de cedro, óleo de limão e feltro velho. Era uma sala comprida de teto alto de estanho. Havia pianos por toda parte, como grandes animais pacientes esperando comida. Verticais encostados nas paredes. Dois pianos de cauda curtos ao fundo. Uma pianola com o painel da frente tirado, mostrando um rolo de papel cheio de furinhos. Bancadas cobertas de ferramentas, arame, panelas de cola e frascos pequenos etiquetados.
No meio da sala, sob uma luminária pendente, havia um piano de cauda maior que todos os outros. A tampa preta estava fechada. Alguém a polira até brilhar como um lago parado.
Jax percorreu a sala uma vez, devagar. Verificou o compensado da vitrine. Verificou a porta dos fundos, que dava para o beco sob os trilhos. Tinha uma fechadura velha e uma corrente que uma criança arrebentaria. Verificou a escada estreita que subia para o apartamento dela, no segundo andar. Verificou a janela ao lado da bancada dos fundos, que não tinha grades.
Wren o seguiu o tempo todo, ainda de capa amarela, observando-o como ele a observara no saguão.
— E então? — disse ela.
— Sua porta dos fundos é uma piada.
— Tem cem anos.
— A piada também. — Ele parou ao lado do piano de cauda grande. De perto, dava para ver uma placa de latão acima das teclas. Mason & Hamlin, Boston. — Este é seu?
O rosto dela mudou. Suavizou, do jeito que o rosto das pessoas suaviza quando a gente pergunta de alguém que elas amam.
— Era do meu avô. Ele o encontrou no porão de uma igreja em 1980, cheio de ratos e água de chuva. Levou três anos para recuperá-lo. Chamava de Duquesa. — Ela pousou a palma da mão sobre a tampa brilhante, com muita delicadeza, como se o piano pudesse sentir. — Ele morreu em abril. Desde então, toco a oficina sozinha. A Duquesa não está à venda. Nada neste prédio está à venda.
Jax assentiu. Pegou o celular, foi para o fundo da sala e ligou para o chefe.
Soren atendeu no primeiro toque. Sempre atendia.
— Então?
— Ela está falando a verdade — disse Jax em voz baixa. — O resto do quarteirão está vazio. O proprietário comprou todo mundo neste verão. Um sujeito chamado Tolliver. Ela é a última. E havia um carro na rua vigiando a loja quando chegamos. Sedã cinza. Tenho a placa.
Houve uma pausa. Jax ouviu o clique e o claque fracos do isqueiro de prata do outro lado.
— A compra daquele quarteirão fecha em cinco semanas — disse Soren. — A doutora Vance redigiu o contrato. Vou pedir que ela o leia para mim hoje à noite, linha por linha. — Outra pausa. — Fique nisso.
— Chefe, eu cuido da sua segurança. Duzentas pessoas. Não sou babá.
— Então pense nisso como segurança — disse Soren. — Alguém está usando o meu nome para tirar uma mulher da própria casa na base do susto. Se escaparem impunes, o próximo usa o meu nome para algo pior. Descubra quem é. Até lá, nada acontece com ela.
— E se eu disser não?
— Você não vai dizer — respondeu Soren, e desligou.
Jax ficou olhando para o celular por um momento. Depois guardou e se virou.
Wren tinha tirado a capa de chuva. Por baixo, usava um suéter verde desbotado, de mangas arregaçadas, e uma calça jeans com um furo num joelho. Os cachos secavam rebeldes em volta do rosto. Ela tinha sardas. Muitas. Pelo nariz, pelas bochechas, descendo pelo lado do pescoço, onde sumiam sob a gola do suéter.
Ele se obrigou a parar de olhar para o pescoço dela.
— Certo, senhorita Ashby — disse. — Vai haver algumas regras.
As regras, Wren descobriu, não eram sugestões.
Regra um: ela não abria a porta depois de escurecer sem saber quem estava do outro lado.
Regra dois: ela não saía sozinha à noite. Nem para comprar leite. Nem para caminhar. Nem para ver um cliente.
Regra três: quando Jax Priest dissesse “mexa-se”, ela se mexia. Não perguntava por quê. Não discutia. Podia discutir depois, o quanto quisesse.
— É só isso? — perguntou ela, quando ele terminou. Estavam em pé junto à bancada. Um homem da K-Corp já estava lá fora, numa van, descarregando caixas com pequenas câmeras pretas.
— Por enquanto.
— Ótimo. Porque eu também tenho regras.
Ele cruzou os braços grandes sobre o peito e esperou.
— Regra um — disse Wren. — Você não encosta nos pianos sem pedir. Regra dois: nada de comida perto das teclas. Nem fatia de maçã. Principalmente fatia de maçã. Regra três: terças e quintas, às quatro, eu dou aula de piano para um menino de oito anos chamado Toby, e você não vai assustá-lo.
— Eu não assusto criança.
— Você assusta porta.
Ele olhou para ela por um longo momento, sem expressão. Depois descruzou os braços.
— Fechado — disse.
Naquela noite, sozinho no carro diante da porta verde, Jax pensou na quarta regra. A que não contara a ela, porque não era uma regra para ela. A que era só para ele. Ela o mantivera vivo e limpo desde o deserto, durante o último ano de farda e seis anos de pé atrás de Soren Kincaid enquanto homens tentavam comprá-lo, ameaçá-lo e, uma vez, dar-lhe um tiro.
Nunca tocar no trabalho.
Toby chegou na quinta, às quatro.
Era pequeno para oito anos, de óculos grandes e um gorro vermelho de inverno que se recusava a tirar. Entrou na loja, viu o gigante sentado numa cadeira de madeira junto à porta e parou tão depressa que os tênis chiaram.
Jax olhou para ele. Toby olhou para Jax.
— Você é um urso? — perguntou Toby.
— Não — disse Jax.
— Parece um urso.
— Me dizem isso muito.
Toby pensou nisso. Depois se aproximou, com todo o cuidado, e estendeu a mão. Jax apertou. A mão dele engoliu a mão inteira do menino e metade do pulso.
— Eu sou o Toby. Estou aprendendo uma música sobre um trem.
— Eu sou o Jax. Estou aprendendo a sentar numa cadeira muito pequena.
Toby riu tanto que roncou pelo nariz. Wren, que estava pronta para resgatá-lo, soltou o ar e foi buscar a partitura.
A aula durou quarenta e cinco minutos. Durante quarenta e cinco minutos Wren ficou sentada ao lado de Toby no banco do velho piano vertical perto da porta, contando o tempo, corrigindo os dedinhos rígidos dele, tocando com ele a música do trem e tentando com todas as forças não olhar para o homem junto à porta.
Foi difícil.
Ele tinha tirado o paletó. Por baixo, usava uma camisa branca simples e um coldre de couro preto atravessado nos ombros, que ela também tentava não olhar. Tinha arregaçado as mangas. Os antebraços eram grossos, morenos e salpicados de pelos escuros, e ele estava sentado completamente imóvel, com eles apoiados nos joelhos, e escutava.
Não só vigiava a porta. Escutava a música. Ela percebia. Quando Toby acertou a parte difícil pela primeira vez, a cabeça de Jax se ergueu só um pouco, como as orelhas de um cachorro quando ouve o próprio nome.
Depois que Toby foi embora, Wren pegou um diapasão na bancada e foi até ele.
— Estenda a mão.
Ele lhe lançou um olhar desconfiado, mas estendeu. Ela bateu o diapasão no joelho, e ele começou a cantar, uma nota clara e fina. Ela encostou de leve a base dele nas costas da mão de Jax.
Ele ficou muito quieto.
— Sente isso? — disse ela.
— Sinto.
— Isso é o lá. Quatrocentas e quarenta vibrações por segundo. Todo piano do mundo parte dessa nota. Você afina o lá primeiro, e depois todo o resto é medido a partir dele. Se o lá está errado, o piano inteiro está errado. — Ela tirou o diapasão. — O meu avô dizia que toda pessoa tem um lá. Uma coisa verdadeira pela qual todo o resto é medido.
Jax olhava para as costas da própria mão, onde o diapasão estivera.
— Qual é o seu? — perguntou.
Ela não esperava a pergunta. Pensou.
— Este lugar — disse por fim. — A Duquesa. Manter viva a oficina dele. — Inclinou a cabeça. — E o seu?
Ele ergueu os olhos para ela. Os olhos escuros eram indecifráveis.
— O trabalho — disse.
— Que triste.
— É simples — disse ele. — O simples mantém as pessoas vivas.
Ela reparou então nas mãos dele, de verdade. Eram enormes, com cicatrizes nos nós dos dedos, mas não havia nada de desajeitado nelas. Quando o homem da van cortara o polegar numa caixa naquela manhã, Jax limpara o corte e o fechara com três tirinhas de esparadrapo tão depressa e com tanta limpeza que Wren ficara olhando.
— Você era médico? — disse ela.
— Socorrista. Exército. Quatro anos.
— Então você mantinha as pessoas vivas.
— Eu tentava. — Ele se levantou. A cadeirinha rangeu aliviada. — Uns dias eu era melhor nisso do que outros.
Ele foi conferir a porta dos fundos. Ela o viu se afastar e não perguntou mais nada. Não por falta de curiosidade. Porque ouvira o som na voz dele, e conhecia aquele som. Era o som que ela mesma fazia quando perguntavam do avô.
Choveu de novo no sábado à noite.
Jax estava no SUV preto, do outro lado da rua, diante da porta verde. Eram onze e meia. As luzes do apartamento dela, no andar de cima, tinham se apagado havia uma hora. As pequenas câmeras pretas que ele instalara na quarta mostravam a frente do prédio, o beco dos fundos e a escada escura por dentro.
Nada se mexia. Estava quieto havia quatro noites.
Ele rastreara a placa do sedã cinza. Um carro alugado, pago em dinheiro, em nome de um homem que, no fim, tinha morrido em 2019. Alguém fora cuidadoso. Leland Tolliver, o proprietário, não atendia o telefone. O escritório dele dizia que ele estava na Flórida até o meio do mês.
Jax não acreditava em Flórida.
Alguém bateu no vidro da janela dele.
Ele já estava com a mão na arma antes que o cérebro alcançasse os olhos. Então alcançou. Uma figura pequena de capa amarela estava ao lado do carro, segurando dois copos de papel e apertando os olhos contra a chuva.
Ele soltou a arma e baixou o vidro.
— Regra dois — disse. — Você não sai sozinha à noite.
— Eu não saí. Atravessei a rua. Você me viu o tempo todo. — Ela estendeu um copo. — Café. Com creme, sem açúcar. Você tinha cara de quem toma com creme e sem açúcar.
Ele pegou. Estava quente e muito bom. Não disse a ela que tinha acertado.
— Volte para dentro, senhorita Ashby.
— Wren — disse ela. — Faz quatro noites que você dorme no carro em frente à minha casa. Acho que pode me chamar de Wren.
— Eu não durmo no carro.
— Você dorme, pelo menos?
Ele também não respondeu isso. Ela ficou na chuva, tomando o café e olhando para ele pela janela aberta, e ele olhou de volta, e por um tempo nenhum dos dois disse nada.
Então ela disse: — Obrigada.
— Pelo quê?
— Por acreditar em mim. Ninguém mais acreditou.
Jax olhou para dentro do copo. A coisa no peito dele que ficara imóvel no carro na terça estava fazendo aquilo de novo. Ele não gostava. Era a sensação de estar em cima do gelo e ouvir uma rachadura em algum lugar distante.
— Entre, Wren — disse. — Tranque a porta. Ponha a corrente.
Ela sorriu para ele. Foi um sorriso pequeno, cansado e doce, e atravessou-o como a nota do diapasão.
— Boa noite, Jax.
Ele a viu atravessar a rua. Viu-a destrancar a porta verde e entrar. Viu a luz se acender lá em cima e se apagar de novo poucos minutos depois.
Terminou o café. Conferiu as câmeras. Frente, quieta. Escada, quieta. Beco…
A câmera do beco estava preta.
Não escura. Preta. Morta.
Jax estava fora do carro antes que o copo vazio batesse no chão. Atravessou a rua correndo e entrou pela fresta estreita entre o prédio de Wren e o vizinho, rumo ao beco, de arma na mão. A chuva martelava a cabeça e os ombros dele. Sob os trilhos do trem, o beco era um túnel de sombra.
Havia uma figura parada nos fundos da Ashby Pianos.
Boné escuro. Casaco escuro. Alguma coisa na mão, com uma pequena chama alaranjada no alto.
— Ei! — rugiu Jax.
O homem se virou. Por meio segundo, no tremeluzir da chama, Jax viu um maxilar torto e um clarão de dentes.
Então o homem atirou a garrafa.
Ela atravessou a janela ao lado da bancada dos fundos com um estrondo de vidro. Houve um vuuum macio e faminto. Uma luz alaranjada floresceu dentro da loja, brilhante e súbita, como uma porta se abrindo para o sol.
O homem correu.
Jax deu dois passos atrás dele. Todo instinto que treinara no corpo dizia persiga. O homem estava ali. O homem era lento. O homem tinha um maxilar torto e um rosto que Jax jamais esqueceria.
Então ele olhou de volta para a janela.
O fogo se espalhava pela bancada, sobre as panelas de cola, os frascos e os panos embebidos em óleo de limão. Subia pela parede. Rastejava em direção ao pé da escada estreita de madeira.
A escada que levava ao apartamento onde Wren acabara de apagar a luz.









































