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Uma Luz Guardada para a Noite — romance de vampiros grátisGrátis · Exclusiva

romance de vampiros grátis

Uma Luz Guardada para a Noite

Uma oficina herdada. Uma luz falsa no porto. Um homem que não pode ficar até o amanhecer.

Romance M/F adulto com vampiro em cenário costeiro, identidade oculta, trabalho artesanal e confiança escolhida.

Tensão sensual e beijos; sem detalhes sexuais gráficos.

  • Vampiro oculto
  • Aliados relutantes
  • Proximidade Forçada
  • Confiança por escolha
  • Perigo no litoral

🌶️ Cerca de 85 min de leitura · 19.504 palavras

Mara Ellery voltou para vender as lanternas da tia falecida. Então um facho aponta barcos para as águas erradas, um incorporador usa a assinatura de uma morta e um colecionador de equipamentos sabe mais do que admite. Orin Vale pode ajudá-la a encontrar as provas. Confiar nele exigirá uma verdade que nenhum levantamento consegue medir.

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A chaveira do vampiro

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A luz errada

Mara

A lanterna na janela da minha tia tinha uma rachadura no vidro âmbar. Reconheci a emenda torta antes de reconhecer o resto da rua e, por um segundo tolo, esperei que June abrisse a porta e me acusasse de trazer o tempo errado.

A chuva escorria da minha manga para o aviso de venda. Dobrei o papel antes que a tinta borrasse. Tudo dentro da Ellery Lantern Repairs deveria estar listado, avaliado e retirado até o fim da semana. A mulher que me ensinara a soldar deixara trezentas libras de latão, um negócio em decadência e um bilhete que dizia, do começo ao fim: Não deixe jogarem a chaleira azul fora.

Eu viera obedecer a uma daquelas instruções.

A chave parou no meio da fechadura. Puxei, sequei na camisa e tentei com menos impaciência. Na segunda tentativa, o ferrolho se moveu. A sineta acima da porta deu um toque abafado e ofendido.

Cheirava a óleo de lamparina e madeira molhada. Uma caneca ao lado do livro-caixa guardava canetas em vez de café. Os óculos de June estavam abertos sobre um pano. Virei-os para não arranhar as lentes e depois me odiei por ter sido aquela a primeira coisa que consertei.

Uma voz chamou lá de fora. — Se trouxe gente do inventário, faça limparem os pés.

Ada Penn entrou carregando uma panela sob um jornal dobrado. Estava mais larga do que eu lembrava e o cabelo ficara inteiramente branco, mas ainda usava o avental do café como se ele lhe desse o direito de fiscalizar o jantar dos outros.

— Só eu — respondi.

— Então pode comer na panela.

Ela a pôs no balcão. Debaixo do jornal havia uma torta de peixe da qual faltava uma fatia. Trouxera dois garfos. Quase ri, o que era melhor do que aquilo que meu rosto se preparava para fazer.

— Almocei no trem.

— Isso foi muitas horas e uma companhia ferroviária atrás.

Ada pegou meu casaco. Deixei, porque não havia jeito elegante de disputar uma manga molhada com uma senhora. Por baixo eu usava o suéter cinza do qual passara a viagem tirando bolinhas e um jeans que me fazia parecer alguém chegando para esvaziar uma oficina, não para enterrar uma pessoa outra vez.

— Como foi o enterro? — perguntei.

Ela pendurou meu casaco no gancho junto ao fogão. — Curto. Flores ruins. As pessoas disseram a verdade sem querer.

— Havia amigos dela?

— Sim, Mara. Ela tinha amigos.

A resposta foi delicada o suficiente para ser difícil de engolir. Peguei um garfo e quebrei a massa onde Ada já cortara. Comemos de pé, com a chuva tamborilando no vidro da frente. Do outro lado da rua, um entregador lutava para subir um carrinho vazio na calçada.

— Não precisava me esperar — falei.

— Eu sei.

— Vou vender o estoque. É por isso que estou aqui.

— Também sei disso.

Ela não disse o que June teria desejado. No trem, eu preparara defesas contra aquele discurso. Sem ninguém para fazê-lo, ficaram dentro de mim como móveis numa casa pequena demais.

Ada olhou para o escritório dos fundos. — Rusk anda perguntando pelo carimbo de vistoria.

— Pelo quê?

— A antiga marca de inspeção de June. Um negócio de latão que cabe na mão. Ele diz que deve ficar com os papéis da estação.

— Por que um incorporador quereria o carimbo de uma consertadora de lanternas morta?

— É uma excelente pergunta para fazer a ele.

Pousei o garfo. June trabalhara com luzes de navegação e pequenos sistemas elétricos náuticos. Sua marca de inspeção significava que ela testara uma peça específica. Não certificava prédios nem terrenos. Ela me explicara a distinção aos treze anos, quando tentei usar o carimbo no dever de casa.

— Ele comprou este lugar?

— Não. O fundo do porto é o dono do imóvel que vocês alugam. Ele comprou a estação de bombeamento depois do North Pier. Agora quer cercar todo o acesso de baixo. Diz que o desembarcadouro público não é seguro.

— E é?

— Vendo chá para passageiros da balsa há trinta e dois anos. Nenhum caiu por ele ainda.

— Isso não faz dele um lugar seguro.

Ada estendeu o outro garfo como uma acusação. — Trouxe o emprego para casa.

Trouxera, embora já não tivesse emprego. O nome da antiga empresa ainda estivera impresso na minha maleta impermeável de ferramentas. Eu raspara a etiqueta até restar apenas o retângulo limpo.

— O que acontece se ele fechar o desembarcadouro?

— A balsa de Tom perde o atracadouro de inverno. Quem mora na ponta de areia a leste vai pela estrada comprida. Meu movimento de café da manhã vira lembrança. Ele põe um portão particular onde os degraus encontram a rua e chama o resto de melhoria.

Olhei pela janela para o porto. Telhados e mastros se misturavam na chuva. Acima deles, o velho farol formava um ombro negro contra o céu. Sua lanterna principal estava apagada desde minha infância. As luzes de aproximação ficavam mais baixas, uma fileira disciplinada de pontos verdes além do cais.

Um facho pálido atravessou a parede da oficina.

Virei. Ele passou outra vez, estreito e branco, depois desapareceu atrás do telhado do armazém.

— Quando reativaram a torre?

Ada seguiu meu olhar. — Não reativaram.

A luz veio uma terceira vez. Varreu a água além do desembarcadouro, lenta o suficiente para parecer deliberada. Não era a lanterna de um trabalhador. Nem um veículo. Em algum ponto da sala escura no alto, um grande refletor girava.

— Alguém está fazendo um teste?

— Não a esta hora. Ruth teria colocado um aviso.

Fui à porta da frente. A chuva fria atingiu meu rosto quando a abri. Dali eu via o facho pousar num trecho de água à esquerda da entrada do porto. Estava errado. Eu soube antes de conseguir descrever o ângulo. June desenhava aquela entrada em guardanapos enquanto esperava a comida e me fazia marcar o banco de areia.

— Mara.

— Vou olhar.

— Você acabou de chegar.

— Exatamente. Ainda não aprendi a ignorar.

Ada me entregou o casaco. Também me passou a lanterna pesada da oficina, já conferindo se as pilhas tinham vazado. Algumas pessoas apoiavam más decisões discutindo. Ada fornecia equipamento.

A torre ficava depois de uma viela estreita de serviço, numa elevação entre o pátio municipal e a velha estação de bombeamento. Passei por um portão de madeira trancado, com RUSK MARITIME numa placa branca nova. As letras estavam secas sob uma pequena cobertura de metal. Alguém protegera a placa com mais cuidado do que o corrimão descascado ao lado.

Na base da torre encontrei uma porta lateral entreaberta três polegadas.

— Olá?

Minha voz subiu pela escada circular e voltou em pedaços. Havia uma luz acesa no primeiro patamar. Entrei, escorei a porta com uma pedra solta e peguei o celular. Sem sinal. Guardei no bolso de dentro, para não descobrir no meio da subida que o deixara na mão.

Quarenta degraus depois, o ar cheirava a poeira quente.

Parei abaixo da sala da lanterna. Um casaco masculino pendia de um gancho. Debaixo dele, um estojo de couro bem arrumado estava aberto no chão, os compartimentos vazios moldados para ferramentas. Uma chave de fenda atravessava a parte de cima. Antiga, de cabo de chifre, cara o suficiente para consertar em vez de substituir.

— Pode deixar onde está — disse um homem.

Olhei para cima. Ele estava na porta acima de mim, uma mão no batente. Cabelo escuro, rosto pálido, um suéter preto com um risco branco de reboco no ombro. Sua imobilidade me fez perceber por um instante cada coisa barulhenta que eu trouxera: respiração, casaco pingando, solas sobre pedra.

— Eu estava olhando.

— Então a vista melhora lá em cima.

— É um convite?

Ele me avaliou antes de responder. — Pelo visto.

Subi os degraus restantes. Ele deu espaço suficiente para eu passar sem esbarrar. A cortesia pareceu deliberada. Percebi isso e depois desejei não ter percebido.

A sala da lanterna estava cheia de claridade chuvosa e máquinas. A antiga lente auxiliar de June estava numa armação perto do pedestal central, um conjunto de vidro estriado e latão que chegava quase ao meu ombro. O refletor apontava por um painel aberto na vidraça da torre. O motor na base zumbia.

Reconheci a lente por um entalhe raso na borda inferior. Eu o fizera ao derrubar uma chave de boca, aos quinze anos.

— Isso pertence ao espólio — falei.

O olhar do homem foi do meu rosto para a lente. — Você deve ser Mara.

— Não me lembro de ter dado meu nome.

— Pouca gente por aqui identificaria esse objeto como herança antes de perguntar se ele vai incendiar o telhado. June mencionou você.

— E você é?

— Orin Vale.

Ele não estendeu a mão. A palma esquerda estava envolta numa tira limpa de pano. Quando se moveu para parar o motor, a borda de uma cicatriz antiga apareceu acima dela.

O facho parou de se mover. Continuou voltado para a água, uma lâmina branca fixa.

— Apague a lâmpada também — pedi.

— Num instante.

— Agora. O ângulo coloca a luz sobre o banco de areia. Um barco pequeno entrando pelo sul pode confundir com um sinal.

Ele tocou um interruptor. A sala escureceu, exceto pela luminária de trabalho no chão. Eu não esperava que obedecesse de imediato. Aquilo me desarmou o suficiente para precisar olhar de novo para a lente.

— Está testando um circuito novo?

— Vim porque vi a luz. Pelo mesmo motivo que você.

— Com ferramentas.

— Alguns hábitos são inconvenientes de explicar.

— Tente.

Algo mudou no canto da boca dele. Tirou a chave de fenda do bolso e a pôs no peitoril. — Guardo equipamentos náuticos antigos. Pediram que eu examinasse esta armação no mês passado. June não gostava da vibração do motor. Quando vi funcionar hoje à noite, vim desligar.

— Quem pediu?

— June.

Minha garganta apertou de um jeito que me irritou. Olhei pelo vidro para não deixá-lo assistir. A cidade lá embaixo parecia menor, cada janela iluminada flutuando sozinha na escuridão molhada.

— Ela pagou?

— Consertou um mecanismo de obturador para mim. Trocamos serviços.

Parecia coisa de June. Como também parecia o impulso de examinar o conserto dele antes de confiar no relato.

Agachei junto ao motor. O isolamento tinha um cheiro errado: borracha quente, acre sob a poeira. Um cabo preto novo alimentava a lâmpada velha por um adaptador de tomada. Passava atrás do pedestal e descia por um conduíte na parede oposta.

— Este cabo não é dela.

— Não.

— Ela etiquetava as duas pontas de tudo. Uma vez etiquetou um bolo para meu tio não confundir com o bolo do dia seguinte.

— Havia diferença?

— O de amanhã tinha conhaque.

Dessa vez ele sorriu de verdade. A mudança no rosto foi tão inesperada que esqueci qual pergunta pretendia fazer.

Então o motor estalou.

Minha mão estava perto dele. Orin segurou minha manga e a puxou antes que a carcaça se deslocasse contra a montagem. O conjunto girou uma fração, embora o interruptor estivesse desligado.

— Não toque na armação — disse.

Afastei-me. Ele soltou minha manga imediatamente.

— Segunda alimentação — falei.

Ele observou o cabo. — Ou um relé.

— Isolamos na origem. Onde fica o quadro?

— Num armário trancado lá embaixo.

— E você tem a chave?

— Tenho a chave da torre. Não serviu no armário.

— Então não pomos as mãos e chamamos quem faz a manutenção.

Ele pareceu ligeiramente divertido. — Esperava que eu sugerisse arrombar.

— Você tem cara de quem costuma sair impune.

— Um substituto ruim para qualificação.

Descemos juntos. Mantive minha lanterna no cabo onde saía do conduíte. Ele não entrava no velho quadro de distribuição da torre. Continuava por um buraco aberto na parede dos fundos, baixo o suficiente para ter ficado oculto pelo casaco que ele pendurara.

Lá fora, a chuva enfraquecera para uma névoa fina. Seguimos o cabo pela parede até o portão trancado junto à estação de bombeamento. Ali ele sumia sob uma chapa provisória de metal.

Orin recuou enquanto eu fotografava o trajeto. O celular encontrou sinal no portão. Tirei três fotos, incluindo a placa e a torre no mesmo enquadramento.

— Esse cabo vem da propriedade de Rusk — falei.

— Parece que sim.

— Você parece alguém que já foi processado.

— Não gosto de dar vantagem a uma declaração errada.

A frase acertou perto o suficiente para doer. Guardei o celular com brusquidão. Ele percebeu, mas não perguntou.

No alto da torre, a lâmpada acendeu de novo.

Nenhum de nós tocara em nada. A luz branca deslizou pela névoa e parou no mesmo trecho de água. O som de um motor chegava fraco pela porta aberta.

Orin ergueu os olhos. Pela primeira vez sua compostura cuidadosa se rompeu. Foi só uma tensão ao redor dos olhos, mas me fez acreditar que ele não esperava aquilo.

— Alguém consegue controlar pela estação — falei.

Ele tirou um telefone do casaco. — Vou ligar para a administração do porto.

— E eu para Ada. Ela consegue avisar Tom antes da última viagem.

Fizemos as ligações a poucos passos um do outro, como se tivéssemos recebido tarefas separadas anos antes e só agora nos encontrássemos para terminá-las. A administração do porto respondeu com uma gravação indicando um número de emergência. Orin ligou de novo. Ouvi quando deu a localização da torre, a direção falsa, seu nome.

Ada atendeu no segundo toque. Não perdeu tempo perguntando se eu encontrara problemas. Descrevi o facho. Ela disse que iria pessoalmente à rampa da balsa.

Quando desliguei, Orin olhava minhas mãos.

— Frio? — perguntou.

— Raiva. Às vezes faz a mesma coisa.

Ele desenrolou do pescoço o cachecol seco e o ofereceu. Quase recusei por princípio, depois descobri que meu princípio não tinha muito interesse em manter meus dedos quentes.

— Empréstimo — falei.

— Claro.

Esperamos até o plantonista do porto retornar. Uma equipe de manutenção isolaria a alimentação. O pessoal de navegação emitiria um alerta. Deveríamos ficar longe do equipamento. Gostei daquelas instruções, porque incluíam em palavras claras a responsabilidade de outra pessoa.

— Vou buscar a lente de June amanhã — avisei a Orin.

— Pelo menos deixe que eu ajude a descer. A escada estreita não perdoa.

— Por que quer me ajudar?

Ele olhou para o porto, onde uma pequena balsa se afastara do facho enganoso. — Hoje? Porque você conferiu para qual água a luz apontava.

A resposta ficou comigo enquanto voltávamos pela viela. Na porta da oficina, encontrei um envelope branco enfiado sob a soleira. Meu nome estava escrito em maiúsculas. Dentro havia uma planta impressa do desembarcadouro público, riscada por uma linha diagonal vermelha.

Orin ficou sob a cobertura enquanto eu desdobrava a segunda folha. Um pedido de registros do espólio. Uma declaração de que June Ellery inspecionara e aprovara os limites de fechamento. Um prazo para entregar todo equipamento pertinente.

Embaixo havia uma fotografia do carimbo dela.

A marca de June estava invertida.

Aproximei a página da luz. Eu a observara usar aquele carimbo mil vezes. Quem copiara não sabia que a setinha ficava acima da âncora, não embaixo.

— O que foi? — Orin perguntou.

Abri a porta da oficina carregando o cachecol dele, a carta e a primeira porção útil de raiva que sentia em meses.

— Alguém anda assinando com a mão morta da minha tia.

Uma casa abaixo da maré

Mara

A equipe do porto chegou antes da meia-noite, usando jaquetas laranja com faixas refletivas que os transformavam em fantasmas na janela da oficina. O eletricista encontrou a segunda alimentação exatamente onde dissemos. Desconectou-a numa caixa subterrânea de junção trancada, do lado de fora da estação de bombeamento, e afixou uma etiqueta de alerta.

Ele não nos disse quem autorizara aquilo. Não sabia e teve honestidade suficiente para admitir em vez de adivinhar. Orin lhe deu nossas fotografias. Guardei cópias. À uma e meia, finalmente paramos de vigiar a torre.

Orin recusou a torta requentada de Ada com uma polidez tão treinada que ela pareceu ofendida por princípio. Aceitou café, depois deixou esfriar ao lado do cotovelo. Enquanto eu abria espaço no balcão, ele pegou o registro de inspeções de June numa prateleira e me mostrou as impressões do carimbo.

— Você tinha razão — disse. — A impressão na carta está invertida.

— Pode ser uma reprodução incompetente.

— Incompetência explica o cabo?

— Não necessariamente. Mas não posso provar que pertencem à mesma pessoa.

Ele assentiu, aceitando o limite. Aquilo me fez sentir menos sozinha do que uma concordância teria feito.

Até o amanhecer não encontramos o registro original de manutenção da estação, só um índice que indicava um armário de armazenamento sob o prédio. June fizera a manutenção das antigas luzes indicadoras das bombas até serem desativadas. O número do armário estava na letra estreita dela, ao lado de um peixinho desenhado.

— Isso significa maré baixa — falei. — Ela desenhava ao lado de trabalhos que só dava para alcançar quando a maré baixava.

Orin se levantou quando a janela começou a clarear. — Então devemos examinar hoje à noite.

— Há uma maré baixa esta manhã.

— Tenho outro compromisso.

A resposta veio depressa demais. Olhei para ele. Seu casaco desabotoado pendia da cadeira, ainda úmido na barra; por baixo, suas roupas eram caras do jeito discreto de quem não confere preços. Ele poderia ter pago alguém para buscar o registro. Em vez disso, passara a noite procurando nas prateleiras comigo.

— Você não precisa ajudar — falei.

— Eu disse que ajudaria. Na maré baixa da noite, posso.

Não havia desculpa naquilo. Só um limite, exposto com clareza. Fiquei constrangida com o impulso de levar para o lado pessoal.

— Tudo bem. Vou falar primeiro com a funcionária.

Ele pôs ao lado do registro a chave da oficina que eu lhe emprestara, em vez de guardar no bolso. Depois levou a xícara fria à pia. Observei porque estava cansada e porque ele se movia como se cada objeto num lugar desconhecido merecesse atenção.

Na porta, disse: — Tranque depois que eu sair.

— Sei como portas funcionam.

— Notei que você escorou a porta da torre antes de subir.

— Velho hábito.

— Um bom hábito.

Tranquei a oficina e subi para o pequeno apartamento de June. A cama estava sem roupa, então dormi no sofá, debaixo do casaco. Pouco antes de adormecer, lembrei que ainda usava o cachecol de Orin.

No fim da manhã, a fome me acordou. Lavei-me na pia da cozinha, encontrei a chaleira azul sob uma pilha de panos de prato e descobri que June escondera uma lata de biscoitos amanteigados dentro dela. Estavam velhos. Comi dois mesmo assim.

A repartição municipal ocupava o andar superior de um prédio que também abrigava um dentista e uma seguradora marítima. Ruth Kells estava atrás de uma mesa, com um prato de fatias de pera equilibrado numa caixa de arquivo. Pediu minha identificação, uma cópia da carta sobre o espólio e depois perguntou se eu queria solicitar registros ou fazer uma reclamação.

— As duas coisas, se couberem na mesma cadeira.

— Cabem. Formulários diferentes.

Ela me deu duas folhas. Tinha as unhas manchadas de tinta. Uma pilha de plantas ao lado era presa por uma batata comum num prato.

— Peso de papel? — perguntei.

— Almoço, se a manhã melhorar.

Gostei dela imediatamente, o que era inconveniente. Precisava examinar suas respostas, não criar afeição pela pessoa que as dava.

Ruth pegou a pasta da estação. Rusk solicitara o fechamento temporário do desembarcadouro com base num levantamento anexado ao pedido de reurbanização. O levantamento descrevia afundamento ao longo do acesso inferior. As medições de nível usavam uma referência na parede da estação voltada para o mar.

— Quem fez as leituras?

— A empresa de topografia contratada por ele. Os dados estão aqui.

— June nunca certificou movimentos do solo.

— A carta de apresentação a chama de especialista local em manutenção. O aval dela ao equipamento foi incluído como corroboração.

Ruth virou a página para mim. Lá estava o carimbo invertido, ao lado de uma assinatura com semelhança superficial à da minha tia. Para quem não a vira escrever, poderia convencer.

— Essa não é a assinatura dela.

— Pode fornecer exemplos do mesmo período?

— Sim.

Ruth pegou um lápis e fez uma anotação numa folha separada. — Vou marcar o documento de apoio como contestado. Isso, por si só, não invalida o levantamento.

— Eu entendo.

— As pessoas dizem isso muitas vezes sem entender.

— Eu elaborava relatórios técnicos. Sei a diferença entre um motivo para examinar e um motivo para concluir.

A atenção dela se aguçou. — Então sabe que preciso de uma divergência específica.

Pedi cópias da planta, da tabela do levantamento e do mapa mais antigo do porto. Ruth explicou a taxa das cópias e os limites da sua autoridade. Podia pedir uma pausa para revisão; um engenheiro precisaria avaliar a estrutura. Paguei, assinei e saí com uma pasta que parecia fina demais para o estrago que seu conteúdo podia causar.

No desembarcadouro, Tom Baines instalava uma mola nova num assento da balsa. Tinha a cabeça raspada, o nariz torto e dois tipos de chave de fenda presos no boné. Quando disse meu nome, ele se levantou rápido demais e bateu o ombro na cobertura.

— A Mara de June?

— O possessivo sobreviveu a ela.

Ele sorriu, esfregando o ombro. — Disse que você era inteligente. Não falou de engraçada.

— Achava uma distração.

Ele me levou pelo acesso. O piso de madeira precisava de atenção. Vários parafusos estavam enferrujados; uma tábua tinha a borda amolecida. Nada daquilo justificava inventar uma inclinação onde não fora medida. Fotografei cada defeito com o mesmo cuidado que as partes boas. Tom observou sem tentar dirigir minha câmera.

— Se não for seguro, fechamos — disse. — Não vou levar gente por uma ponte podre para salvar um atracadouro. Mas gostaria de saber a verdade primeiro.

Era um terreno útil e firme. Perguntei quando a referência de nível estivera visível pela última vez.

— Aquela pecinha de latão na parede? Pintaram em volta no mês passado. Os homens de Rusk estavam limpando os tijolos.

— Alguém mudou de lugar?

— Não vi. Estava no barco.

Ele se recusou a melhorar a memória por minha causa. Gostei dele também por isso.

Passei a tarde separando as antigas faturas de June. A maioria tratava de desastres banais: carcaças rachadas, contatos corroídos, uma lente quebrada por alguém que jurava ter quebrado sozinha. Encontrei três recibos assinados no mês da inspeção contestada. Nenhum tinha o traço final amplo da cópia de Rusk.

Quando Orin chegou depois do pôr do sol, eu espalhara as plantas sob potes de parafusos. Naquela noite ele usava um casaco verde-escuro, o capuz dobrado com cuidado dentro da gola. O pano na mão esquerda desaparecera. A cicatriz embaixo parecia antiga e prateada.

— O outro compromisso foi bem? — perguntei.

— Como esperado.

— Uma resposta com cerca própria.

— Você não perguntou o que a cerca rodeia.

— Você não ofereceu um portão.

Ele baixou o olhar para esconder um sorriso. Senti-me absurdamente recompensada.

Levamos botas impermeáveis, duas lanternas, uma trena e o pequeno metro dobrável da oficina. Orin trouxe um bote de fundo chato num carrinho. Apontei para ele.

— O caminho é tão ruim?

— A volta pode ser. Prefiro ter caminhos de sobra para casa.

O trajeto até a parede inferior da estação passava sob o desembarcadouro público. Na maré baixa, uma estreita saliência surgia acima da lama. Cracas recobriam as pedras como louça quebrada. Cada passo produzia um som molhado de sucção, ampliado pelo piso acima.

Orin esperou enquanto eu testava o primeiro corrimão. Resistiu. Não ofereceu carregar a bolsa de ferramentas até minhas duas mãos estarem ocupadas, depois pegou sem encenar o peso.

Foi fácil achar a referência de nível. Argamassa nova e clara rodeava um disco de latão um pouco menor que uma moeda. O número gravado coincidia com o do levantamento. Acima, um retângulo de tijolos mais limpos marcava onde uma placa fora retirada recentemente.

— Parece que mudou de lugar? — perguntou.

— Parece recém-fixado. Não é a mesma declaração.

Medi do disco à fiada de tijolos do canto, fotografei a trena e consultei o mapa antigo. O desenho de referência colocava a marca duas fiadas mais abaixo. Só isso poderia explicar uma falsa impressão de afundamento se alguém usara a altitude registrada anteriormente.

Mas desenhos podiam estar errados. Disse em voz alta antes que a esperança virasse certeza.

Orin manteve a luz firme. — O que comprovaria?

— Uma foto mais antiga. Uma testemunha. Um segundo ponto fixo para comparar. De preferência, os três.

Seguimos pela parede até o armário. O cadeado enferrujara até virar um torrão marrom. Esperei gastar metade da janela da maré tentando abri-lo, mas Orin apresentou uma chave que girou depois de duas tentativas cuidadosas.

— June me deu a reserva — disse antes que eu perguntasse.

Dentro havia luvas de borracha, uma garrafa de óleo vazia e um tubo metálico para documentos, vedado com fita. Cortei a fita com o canivete. Os papéis estavam secos.

O registro de manutenção continha datas, leituras elétricas e as observações irritadas de June sobre parafusos inacessíveis. Dobrada dentro da contracapa estava uma fotografia da parede. Na imagem, a referência de latão ficava abaixo da terceira junta de argamassa.

Olhei da foto para os tijolos. Acima de nós, o motor de uma balsa mudou de tom.

— Conseguimos — falei.

— Conseguimos parte.

A correção era a minha própria, devolvida com delicadeza suficiente para eu aceitar. Pus o registro no tubo, guardei a fotografia dentro do casaco e me virei para a saliência.

A água já cobria o primeiro trecho.

Por vários segundos fiquei olhando, incapaz de conciliar o que via com a tábua de marés no bolso. Eu previra a subida, mas não o vento empurrando água para o porto. Pequenas ondas batiam na parede em intervalos que escondiam o aumento constante da profundidade.

— Calculei mal — falei.

— Então usamos o bote.

Ele não me tranquilizou dizendo que não era nada. Aproximou o bote, segurando curto o cabo de proa, manteve a lateral junto a uma pedra e me ofereceu a corda em vez da mão.

— Entre e pegue a bolsa. Há espaço para um passageiro sem ficar de pé. Vou levar até o outro lado do píer.

— Você vai ficar na saliência.

— Por poucos passos. O bote não precisa do meu peso sobre as pedras.

Pus uma bota dentro, agachei e passei o tubo de documentos. O bote se moveu sob mim, mas ele o firmou com o joelho. A água chiava entre o casco e os tijolos.

— Quer a lanterna? — perguntei.

— Fique com ela.

— Você não enxerga onde pisa.

— Enxergo o suficiente.

Algo na voz dele me fez olhar para trás. A escuridão sob o piso era quase completa; o rosto só aparecia quando minha lanterna se movia. Mesmo assim, ele pisava exatamente onde a pedra era mais larga, sem testar as bordas duvidosas.

Na esquina ele parou. Uma viga caída atravessava a saliência, recém-arrastada de algum ponto acima. Balançava a cada onda. Havia espaço para uma pessoa passar por cima, mas não para fazê-lo segurando o cabo sem puxar o bote contra a ponta quebrada.

— Solte — falei. — Vou remar para longe.

Ele hesitou.

— Orin. Me dê a corda.

Ele passou. Encaixei os pequenos remos nos toletes. A primeira remada raspou a parede; a segunda pegou água. O bote deslizou de lado até eu achar o equilíbrio. Passei da viga e mantive a posição.

Ele passou por cima num único movimento fluido, rápido demais para pedra molhada. Eu talvez questionasse, se uma onda não atingisse o casco naquele instante, fazendo a bolsa deslizar contra meus joelhos.

— Aqui — chamei. — Pode entrar agora.

Ele olhou para mim. Entendi então que pretendia andar sozinho o resto do caminho, deixar o bote comigo porque decidira que eu estaria mais segura sem ele dentro.

— Estou convidando você a entrar no bote — falei. — Não é bem a mesma coisa que ser resgatada.

Ele inclinou a cabeça, aceitando a distinção. Quando embarcou, o casco afundou mais, mas seu peso permaneceu baixo e centralizado. Só pegou o segundo remo depois que ofereci.

Remamos juntos, desajeitados no começo. Minhas remadas eram longas demais. As dele, contidas demais. Depois de um minuto encontramos um acordo que nenhum dos dois precisou explicar.

No desembarcadouro, Tom ajudou a puxar o bote para uma parte livre do piso. Olhou a água, depois meus joelhos enlameados.

— O vento está trazendo a maré cedo.

— Percebi meio tarde.

— Não tarde demais. Essa é a parte útil.

A bondade prática dele era pior do que deboche teria sido. Eu passara meses aceitando acusações de queixo erguido. Ter permissão para errar e continuar trabalhando parecia perigosamente desconhecido.

De volta à oficina, pus a foto ao lado da planta. A divergência era clara o suficiente para mostrar a outra pessoa sem discurso. Orin estava do outro lado do balcão, a água do casaco pingando num balde que eu empurrara para baixo dele.

— Você não disse que eu devia saber fazer melhor — falei.

— Você já sabia. Precisava de um bote.

Olhei a mão esquerda. Um arranhão novo atravessava os nós dos dedos. Havia lama na velha cicatriz da palma.

— Devia lavar isso.

— Vou lavar.

Ele não se moveu. Nem eu. O relógio da oficina marcou mais um minuto e a chuva recomeçou na viela. Nossos casacos molhados faziam entre nós um pequeno cômodo úmido.

Eu queria tocar a mão dele. O desejo veio sem nenhuma justificativa útil. Poderia chamá-lo de preocupação, mas preocupação não explicava por que eu notava a cavidade na base de sua garganta acima do suéter.

Em vez disso, peguei uma toalha limpa.

Ele aceitou e nossos dedos se encontraram por um instante brevíssimo. A pele dele era fria o suficiente para me surpreender. Atribuí à água, porque a alternativa ainda não tinha forma.

Fizemos cópias da fotografia com meu celular, depois guardamos o registro original na gaveta do balcão. Girei a chave e a mantive no meu chaveiro. Orin observou sem comentar.

— Ruth vai precisar disso amanhã cedo — falei.

— Sim.

— E precisamos de uma explicação de Rusk.

— Ele terá uma.

— Gente assim sempre tem.

Orin dobrou a toalha. — Então vamos dar a ele algo difícil de explicar.

Olhei pela rachadura âmbar da lanterna de June, onde a rua lá fora se separava em duas vistas imperfeitas. Pela primeira vez desde a chegada, conseguia me imaginar ficando tempo suficiente para consertá-la.

Espere — O antigo registro de manutenção sobrevive à maré. Mas o homem que a ajudou a recuperá-lo guarda um limite próprio.

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Dúvidas

Antes de você se apaixonar.

Que relação esta história acompanha?

Romance M/F adulto com vampiro em cenário costeiro, identidade oculta, trabalho artesanal e confiança escolhida.

Como a intimidade é apresentada?

Tensão sensual e beijos; sem detalhes sexuais gráficos.

Esta história conclui seu próprio arco?

Um desfecho completo e esperançoso por enquanto para o casal original de Mara e Orin.

Passe adiante.

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