O mapa que faltava
IRIS
O ônibus foi embora levando o ruído do motor, e Íris ficou com um lápis quebrado entre os dentes e a impressão de que a cidade tinha encolhido durante sua ausência. O empório continuava espremido entre a oficina e a rua de cascalho. A placa, antes verde, mostrava agora uma cor difícil de chamar pelo nome. Só a floresta parecia maior. Os pinheiros avançavam além dos telhados, altos e espessos, sem nenhum respeito pelo espaço reservado às pessoas.
Ela tirou o lápis da boca antes que alguém a reconhecesse daquele jeito. Aos vinte e nove anos, podia ao menos chegar à terra natal sem mastigar instrumentos de trabalho.
Uma pancada soou no outro lado da rua. Um homem retirava de uma carroceria uma folha de compensado, sozinho, segurando-a sobre o ombro. A madeira escondeu seu rosto até ele girar. Íris reconheceu primeiro a inclinação da cabeça, aquela atenção ligeiramente impaciente de quem escutava problemas que ninguém mais tinha percebido.
Tomás Reis abaixou a folha no chão.
Por um instante, ela não conseguiu decidir onde colocar as mãos. Fazia cinco anos que não o via. Na última conversa, ele tinha uma lasca no dedo e uma pergunta que não fizera. Agora usava barba curta, uma jaqueta de lona gasta nos cotovelos e a mesma expressão reservada de quando ela acertava um arremesso que ele julgara impossível.
— O ponto de ônibus mudou — ele disse.
Íris olhou para a placa ao seu lado.
— Convém avisar ao motorista.
— Mudou para mais perto da chuva. Você chegou bem na hora.
Ela seguiu o olhar dele. Uma nuvem cobria a crista das montanhas. Durante toda a viagem, o céu oferecera aquela ameaça sem cumpri-la, mas ali o ar trazia um peso úmido, uma mudança que sua loba identificava antes que ela própria quisesse aceitar. Íris puxou a mochila pelo segundo ombro.
— Vim pelo contrato da ponte.
— Eu sei.
— Não vim visitar.
O homem olhou para o casaco dela, depois para a mala encostada no poste. Íris percebeu que ele tinha uma luva presa à cintura e a outra na mão. Interrompera o trabalho antes de terminar de se preparar para recebê-la. A descoberta fez sua frase parecer mais cruel do que a intenção.
— Tenho cinco dias — acrescentou. — Foi o que combinaram.
— Então é melhor não deixar você parada no ponto durante o primeiro.
Tomás disse aquilo sem ironia. A loba dela reconheceu o cheiro que o vento trazia, uma lembrança tão antiga que chegou primeiro como fome. Íris apertou a alça da mochila contra o peito. Podia sentir saudade sem transformar a sensação numa instrução. Era o que vinha dizendo a si mesma desde que vira o nome da cidade na proposta.
Do outro lado da rua, uma mulher saiu da oficina, olhou para os dois e ergueu a mão para Tomás. Ele respondeu com um aceno breve. Íris acompanhou o gesto, perguntando-se se aquela pessoa conhecia o espaço atrás da expressão reservada dele. Cinco anos eram tempo suficiente para que alguém construísse uma vida inteira.
— Sua mala está tombando — avisou ele.
Íris a segurou antes de cair. A rodinha defeituosa encontrou uma pedra e finalmente se moveu, tarde demais para preservar sua dignidade. Ela soltou uma risada curta. Tomás desviou os olhos com uma delicadeza que piorou a situação.
— Pode rir — disse.
Ele riu. Íris descobriu que lembrava do som com muito menos precisão do que imaginara.
Ele passou a língua por dentro da bochecha, contendo alguma resposta.
— Também sei. A Celina guardou um quarto. Posso levar sua mala?
Ela quase respondeu que conseguia. O impulso tinha a força automática de um espirro. Então percebeu a mochila pesada, a mala com uma roda presa e o homem esperando, sem estender a mão para tomar nada.
— A mala. A mochila fica comigo.
Tomás a pegou pela alça lateral, levantando em vez de arrastar. Quando atravessaram a rua, ela sentiu o cheiro dele debaixo do óleo de máquina: madeira recém-aberta e lã seca junto ao fogo. Era um cheiro que sua memória guardara sem pedir licença. A constatação a incomodou mais do que a mala defeituosa.
Dentro do empório, Celina levantou os dois braços atrás do balcão.
— Ainda bem. Já estava preparando uma cama em cima das conservas.
Íris aceitou o abraço, a lã do casaco de Celina roçando seu queixo. Havia prateleiras de alimentos à esquerda e, à direita, mesas pequenas com cadeiras desencontradas. O balcão do bar continuava marcado por círculos de copos. A cidade podia perder tinta; aquele cheiro de café, papel de embrulho e batata guardada não mudava.
— Você está bonita — disse Celina, afastando-a para olhar melhor. — Mas não vou dizer que cresceu. Sua mãe já me corrigiu por carta.
— Ela continua achando que todo mundo me vê com quinze anos.
— Certas pessoas tinham de parar de sair pelas janelas.
Tomás deixou a mala no primeiro degrau. Não sorriu, mas o movimento de seu rosto bastou para lembrar a Íris de uma noite, duas bicicletas e uma caixa de ferramentas emprestada sem autorização. Ela passou por ele depressa demais para parecer casual.
O quarto sobre o empório tinha uma cama estreita, uma mesa junto à janela e uma bacia de louça sobre a cômoda. Celina deixara um jarro com água, toalhas limpas e um prato coberto. Íris abriu a tampa: pão, queijo e uma fatia de bolo escuro. Uma recepção tão concreta desfez uma parte do preparo que fizera durante a viagem. Era mais fácil defender-se de perguntas do que de alguém que lembrava que ela esquecia de almoçar.
Comeu de pé, olhando o telhado da oficina. Tomás prendia uma lona sobre a madeira da carroceria. Os movimentos tinham precisão econômica, sem a pressa espalhafatosa dos rapazes que ela lembrava. Trinta e dois anos, calculou, embora não precisasse calcular. Conhecia seu aniversário. Apenas preferia não saber tantas coisas.
Na mesa, desdobrou o envelope do contrato. A avaliação inicial deveria confirmar se a ponte do Cedro suportaria mais um inverno com reparos limitados. Cinco dias de trabalho, pagamento pela vistoria e pelas recomendações. Sem compromisso de execução. Ela tinha sublinhado essa parte antes de aceitar.
O mapa anexo estava errado.
Não muito errado. Esse era o problema. Uma curva fora deslocada para abrir espaço à legenda, e a margem oeste aparecia mais alta do que nas curvas de nível. Para alguém interessado apenas no acesso, seria um desenho conveniente. Para calcular a rota de escoamento durante uma cheia, podia colocar uma máquina no lugar exato onde não deveria estar.
Íris procurou a assinatura do responsável. Álvaro Diniz. Um nome que não conhecia.
Desceu levando o mapa e encontrou Tomás com uma caneca no balcão. Ele olhou o papel antes de olhar para ela.
— Você viu a margem — disse.
— Você também viu?
— Vejo todos os dias. É onde a água bate.
Ela pousou o desenho entre as canecas.
— Então por que mandaram isso para mim?
Tomás girou o papel para que a luz viesse pela esquerda dela. O gesto foi tão pequeno que Íris demorou um segundo para compreendê-lo. Desde menina, a sombra da própria mão a irritava quando desenhava. Ele ainda se lembrava.
— Porque quem fez o pedido acha que a estrada precisa de um carimbo mais depressa do que precisa de uma vistoria.
— E quem fez o pedido?
— O encarregado do contrato. Álvaro. Não fui eu.
Ela ouviu a ressalva e ergueu os olhos. Ele não tinha a aparência de quem pretendia esconder-se atrás dela, mas ela já aprendera que aparência não pagava prejuízos.
— Podemos ir agora?
Tomás consultou o relógio pendurado atrás do balcão.
— Antes de escurecer, sim. Preciso guardar as ferramentas. Você trouxe bota que aguente lama?
Íris levantou um pé.
— Trouxe um diploma também, mas a sola dele é pior.
Dessa vez, ele riu. O som a acertou baixo no estômago. Ela recolheu o mapa para ter o que fazer com os dedos.
A estrada seguia ao norte até separar-se em dois caminhos. Tomás dirigia uma caminhonete com o aquecedor irregular e uma arruela presa à chave por um barbante. Explicou que o caminho alto servia ao antigo moinho; o baixo dava acesso à ponte e, depois dela, a algumas casas dispersas. Não eram territórios que Íris tivesse percorrido na infância. Ela conhecera Silverwood pelos fundos do empório e pelas trilhas próximas, não pela rede de manutenção que permitia a todo mundo viver ali.
— Quantas famílias usam a travessia?
— Nove no trajeto mais curto. Outras quatro passam quando precisam buscar lenha no depósito.
Ela anotou. O caminhão sacudiu num buraco, e o lápis fez um risco atravessado.
— Estão usando ainda?
— Só a pé. Pus barreira para os veículos ontem.
— Com autorização?
Tomás lançou-lhe uma olhada rápida.
— Com uma tábua, duas correntes e bastante discussão.
— Vou anotar isso como medida provisória.
Ele assentiu. Não pediu que suavizasse a palavra. Íris gostou desse detalhe e imediatamente desconfiou do quanto estava disposta a gostar.
Chegaram à ponte quando o céu clareava numa faixa estreita, abaixo das nuvens. A estrutura atravessava um curso d’água que parecia pequeno demais para causar problemas tão caros. Tábuas escuras, guarda-corpo torto, duas cabeceiras apoiadas em pedra. Na margem direita, uma bota de borracha vazia estava presa entre galhos, como se alguém a tivesse posto ali para medir a paciência do rio.
Íris não subiu de imediato. Seguiu pela margem, agachou-se e tocou a terra sob as raízes expostas. O solo estava úmido de um jeito diferente da superfície. A água trabalhava por baixo. Ela tirou o estojo de dentro da mochila e entregou a Tomás a ponta da trena.
— Segure aqui. Sem puxar para corrigir.
— Eu sei usar uma trena.
— Todo mundo diz isso antes de querer que o número fique mais bonito.
Ele segurou como ela pedira. Íris alinhou a marcação, fez duas leituras e mudou de posição para uma terceira. O vento levantou a ponta de seu caderno; Tomás colocou uma porca de metal sobre a folha, longe das linhas escritas.
Ela sentiu vontade de perguntar onde ele aprendera a ajudar sem interromper. A pergunta ficou guardada. Havia um problema real diante dela, e o corpo dele ao alcance da mão já era distração suficiente.
Debaixo da primeira viga, encontrou uma cunha nova. A madeira clara contrastava com o restante.
— Você colocou?
— Anteontem. O apoio tinha baixado.
— Quanto?
— Não medi antes. Marquei depois.
Ele apontou um risco feito a lápis na pedra. Íris registrou o que havia e o que faltava. Não podia reconstruir uma medida que ninguém tomara. Ele não fingiu poder ajudá-la nisso.
Um barulho de água vazando surgiu sob a estrutura. Íris desceu mais um passo e viu a corrente sair entre pedras que deveriam formar um bloco fechado. Não era um jorro. Era uma passagem fina, contínua, perfeitamente capaz de crescer durante uma noite.
— Precisa fechar também para pedestres — disse.
Tomás permaneceu ao lado dela por um momento. O cheiro de sua preocupação apareceu primeiro, uma nota amarga que não revelava a causa. Ela sabia farejar tensão, não ler pensamentos.
— A Marta tem mantimentos do outro lado — ele respondeu. — E Bento passa aqui para ir ao moinho.
— Então precisamos avisar os dois e achar outro trajeto. Não posso liberar porque faz falta.
— Não estou pedindo que libere.
O tom dela tinha sido mais duro do que a frase dele merecia. Íris se ergueu, batendo terra das luvas.
— Certo. Me mostre o caminho alto na volta.
Ele foi buscar uma segunda corrente. Enquanto Tomás prendia a barreira, ela fotografou os apoios, sempre incluindo a régua de escala. O celular não tinha sinal, mas isso não alterava a imagem. Fez depois um desenho no caderno. Gostava de ter uma informação que continuasse existindo quando a bateria acabasse.
Na pilastra da margem oposta, havia uma marca de tinta vermelha, a altura máxima registrada no último inverno. Íris conferiu a posição no mapa. A diferença não era pequena. Ficou imóvel, olhando o traço que outra pessoa fizera.
— Essa marca é do Bento? — perguntou.
— Ele mantém o registro da chuva. Por quê?
Ela colocou o papel sobre o capô, prendendo os cantos com as mãos. Tomás aproximou-se para enxergar. Seu ombro tocou de leve o dela. Íris não se afastou e percebeu a própria decisão com uma nitidez incômoda.
— O mapa diz que a cheia fica abaixo do piso. Aqui ela chegou quase ao guarda-corpo. Não posso fazer a avaliação com essa referência.
— Você vai embora?
Só então ela o encarou. Não havia desafio na pergunta. Havia uma espera que a obrigou a lembrar da última vez, quando anunciara sua partida como se estivesse informando a hora de fechar a loja.
— Vou pedir os dados originais.
Tomás soltou o ar devagar.
— Tenho a chave do depósito. Amanhã cedo podemos olhar o material.
— Antes disso, quero falar com quem pagou pelo levantamento.
— Com o Álvaro.
— E com quem conhece a água. Não necessariamente nessa ordem.
Ele guardou a corrente restante na carroceria. Íris recolheu seus instrumentos, conferindo as peças por hábito. Quando fechou o estojo, encontrou a porca que ele usara como peso. Estendeu-a.
— Isso é seu.
— Pode ficar até o fim do serviço. Os mapas daqui costumam tentar fugir.
Era uma brincadeira pequena, quase ruim. Ela sorriu mesmo assim.
O caminho alto corria por uma encosta firme, mas estreita. Tomás reduziu a velocidade junto a uma vala e mostrou o acesso ao moinho, um telhado inclinado por trás de árvores. Uma luz acesa na janela indicava que Bento estava lá. Pararam tempo suficiente para avisá-lo do fechamento. O homem apareceu na porta, com um pano de prato sobre o ombro, ouviu e não discutiu.
— A água ganhou uma voz grossa hoje — disse ele. — Amanhã mostro meu caderno.
Íris perguntou se ele precisava de carona. Bento apontou uma bicicleta protegida sob o beiral e explicou que dormiria no moinho para conferir o medidor antes da primeira chuva. Tinha comida, telefone fixo e a estrada alta aberta. Ela anotou o número que ele ditou.
Na volta, Tomás ligou o aquecedor com dois toques no painel.
— Ainda precisa bater em tudo para funcionar? — ela perguntou.
— Só em máquinas. Aprendi a diferença.
Íris virou o rosto para a janela para esconder o sorriso que demorava. A noite descia entre os troncos. Ela se lembrava de desejar partir dali para ter uma vida que coubesse inteira em suas escolhas. Não se arrependia de ter ido. Só não havia previsto que voltar pudesse criar uma pergunta diferente.
No empório, Álvaro esperava com o contrato aberto. Era um homem de botas limpas e casaco caro, acompanhado por um cheiro forte de loção. Apertou a mão dela e começou pela necessidade de concluir o laudo depressa. Os comerciantes perderiam dinheiro, as famílias ficariam isoladas, o inverno não esperaria decisões complicadas.
Íris deixou que terminasse. Depois abriu o caderno na página das medições.
— A ponte está fechada. Amanhã vou conferir o depósito e os dados da cheia. Seu mapa precisa de revisão.
Álvaro olhou para Tomás, como se a resposta verdadeira devesse vir dele. Tomás pegou a caneca vazia do balcão e se afastou, dando à frase dela o espaço inteiro.
— Não é preciso dramatizar — disse o empreiteiro.
Íris ajeitou o lápis atrás da orelha. A palavra lhe trouxe uma reunião distante e uma assinatura que ainda preferia esquecer.
— Também não é preciso atravessar.
Ele fechou o contrato com cuidado excessivo. Combinaram uma visita ao depósito na manhã seguinte. Quando Álvaro saiu, Celina trouxe sopa, e Íris percebeu que estava com fome desde a estrada.
Mais tarde, sozinha no quarto, espalhou os papéis sobre a mesa. Do outro lado da rua, a oficina apagou as luzes. Íris segurou a porca de metal na palma e a colocou sobre o canto do mapa. O desenho permaneceu quieto, preso por um peso que não exigia dela nenhuma promessa.
Desta vez, ela mediria antes de atravessar.
O peso das tábuas
IRIS
Celina serviu o café antes que Íris terminasse de descer a escada. A caneca já estava no lugar certo do balcão, afastada do açúcar, e a familiaridade daquele cuidado deu a ela uma saudade absurda de uma coisa que estava acontecendo. Sentou-se, abriu o caderno e descobriu uma mancha de barro na manga do casaco. A primeira peça de roupa sacrificada ao serviço tinha levado menos de um dia.
— Tomás saiu cedo? — perguntou, tentando não pôr interesse demais no nome.
— Está fazendo o que devia ter pedido para mais alguém fazer — respondeu Celina. — Levando recados às casas da estrada baixa.
Íris mexeu o café. O fechamento da ponte precisava de avisos. Não precisava necessariamente de Tomás em todas as portas. Ela anotou a observação na margem de uma página e imediatamente a riscou. Aquilo não pertencia ao laudo.
Álvaro chegou enquanto ela comia a segunda fatia de pão. Trazia uma pasta plástica e o sorriso de quem escolhera esquecer a conversa da véspera.
— Trouxe as notas de material. Gostaria que considerasse o quadro geral.
— Vou considerar também o material.
Ele deixou a pasta no balcão. Íris separou as folhas, verificando datas, itens e nomes. Havia três entregas de tábuas, uma de ferragens e uma de cimento. As quantidades pareciam bastar para trocar metade do piso, mas uma descrição a fez aproximar o papel do rosto: madeira de pinho, espessura reduzida, uso em fechamento interno. Nenhuma das características correspondia às vigas de cedro que ela examinara.
— Estas tábuas foram compradas para a ponte?
— Parte do conjunto de manutenção. O fornecedor simplifica as descrições.
— A espessura também?
Álvaro apertou o lábio e procurou algo no bolso. Tirou uma caneta que não parecia precisar.
— Podemos resolver isso no depósito. O Tomás está atrasado.
Como se tivesse ouvido a acusação de longe, Tomás abriu a porta carregando um rolo de papel preso por um cordão. A jaqueta tinha gotas de neblina, e uma folha de pinheiro estava agarrada à gola. Íris resistiu ao impulso de retirá-la.
— Ninguém vai tentar passar — informou ele. — Marta levou a última caixa de mantimentos ontem. O restante está na cozinha daqui.
Ela assentiu, aliviada por uma pendência concreta desaparecer. Álvaro estendeu a mão para o rolo, mas Tomás o colocou diante de Íris.
— Desenho antigo. Encontrei na oficina. Talvez dê para aproveitar alguma referência.
Era uma planta feita a tinta, com anotações em grafite e um vinco gasto no meio. Íris reconheceu o nome do pai de Tomás perto da legenda. Não conhecera bem o homem; lembrava das mãos enormes passando copos por cima do balcão, de uma paciência que o filho herdara apenas em partes.
— Posso fazer uma cópia?
— Trouxe para isso.
Tomás não explicou o gesto. Íris agradeceu e enrolou o papel com mais cuidado do que seria necessário para um documento qualquer.
O depósito ficava ao lado de uma antiga serraria, com uma porta de correr que precisava ser levantada no último palmo. Tomás soltou a trava e apoiou o ombro na madeira. Quando a abertura ficou larga o bastante, afastou-se para que Íris entrasse primeiro.
O chão guardava quadrados claros onde cargas tinham repousado. Pregos em caixas, sacos de cimento, uma pilha baixa de tábuas com as pontas pintadas de amarelo. O ar tinha cheiro de resina, poeira e água parada num balde. Íris acompanhou a marca de uma pilha retirada até uma parede vazia.
— Era aqui?
Tomás concordou.
— Havia uma carga alta, amarrada em dois volumes. Não contei peça por peça quando recebi.
Álvaro abriu os braços.
— Aí está. Recebeu sem contar. Precisamos ter cuidado antes de sugerir qualquer coisa.
— Ainda não sugeri — disse Íris. — Estou perguntando.
Ela mediu as tábuas restantes e anotou a espessura. Tomás segurou uma delas na vertical para que a luz mostrasse a fibra. O corte revelava veios muito abertos para o esforço previsto. Podiam servir a uma parede seca, a uma cobertura leve, a muitas coisas úteis. Não ao piso daquela ponte.
— Estas não entram no reparo — decidiu.
— Você nem fez os cálculos — Álvaro protestou.
— A carga de serviço exige uma seção maior. Posso mostrar a conta, mas ela não vai engrossar a madeira.
Tomás abaixou a tábua, escondendo mal um sorriso. O empreiteiro o percebeu e mudou de alvo.
— O responsável pela manutenção precisa esclarecer onde pôs o lote correto.
Íris fechou o estojo de medição.
— O inventário também precisa. Vamos separar responsabilidades depois de verificar os registros.
Encontraram um livro de entradas numa gaveta da bancada. A letra de Tomás aparecia em algumas páginas, firme e pouco inclinada. Ele assinara o recebimento de dois volumes três semanas antes. Na saída, uma ordem autorizava o transporte para uma área de secagem temporária. O número era o mesmo da fatura que Álvaro trouxera. A assinatura, porém, tinha sido feita por outra pessoa.
— Quem é D. Lemos? — perguntou ela.
— Motorista — respondeu Álvaro depressa. — Trabalha por entrega. Sequer mora aqui.
Tomás apoiou as mãos na borda da bancada.
— Não recebi essa ordem.
— Não precisava receber. Eu coordeno o contrato.
Íris leu o cabeçalho. A autorização trazia uma linha reservada à ciência do encarregado local, preenchida apenas com um risco. Era uma ausência documental, não prova de crime. Anotou exatamente isso. Depois pediu para fotografar o livro aberto, incluindo as duas páginas e a capa.
Álvaro moveu a pasta, cobrindo metade do papel.
— Esses dados são da empresa.
— O material é do reparo que fui contratada para avaliar. Preciso registrar a origem do que encontro.
Ele demorou a retirar a pasta. Tomás permaneceu imóvel, olhando a mão do homem, e Íris sentiu a alteração no próprio corpo: os dentes pressionando a língua, a atenção de sua loba concentrada num gesto pequeno. Não havia perigo de ataque. Havia uma disputa mais comum, feita de papel e constrangimento.
Ela fotografou sem pressa. A ordem ficou no livro; ninguém tinha autorização para arrancá-la. Copiou o endereço indicado para secagem e pediu uma chave.
— A área está fechada — disse Álvaro.
— Precisa estar seca também. Vamos olhar.
O homem prometeu levá-los depois do almoço. Tinha uma chamada urgente, um compromisso com fornecedor, a necessidade de buscar outro veículo. Íris aceitou a hora e escreveu no verso de seu cartão. Quando ele saiu, o cheiro de loção permaneceu perto da porta.
Tomás olhava o risco onde sua assinatura deveria estar.
— Eu devia ter conferido.
— Devia.
Ele ergueu os olhos, e ela sustentou o olhar. Não ia consolá-lo com uma mentira que tornasse o problema maior. Ao mesmo tempo, não precisava deixar a falha ocupar todo o homem.
— Isso não responde quem retirou as tábuas — acrescentou. — Uma coisa de cada vez.
Tomás fechou o livro e o guardou na mesma gaveta. Girou a chave e a prendeu ao barbante da caminhonete.
— Você continua fazendo isso.
— Trancando gavetas?
— Tirando um problema de cima do outro até a gente enxergar o chão.
Íris desviou o olhar para a poeira no piso.
— Nem sempre. Às vezes eu só faço uma pilha organizada.
Ele se aproximou para abrir a porta, mas parou antes de ocupar o espaço dela. Íris percebeu a distância exata, o calor de seu braço por baixo da manga, e desejou uma tarefa que exigisse menos consciência do próprio corpo.
Foram a pé até a cabeceira da ponte. Tomás carregava o nível e a trena; ela, o caderno e a planta antiga protegida numa capa. A manhã clareara o suficiente para mostrar água turva correndo sob as tábuas. Íris instalou o nível no terreno alto e pediu que ele mantivesse a régua sobre uma pedra estável.
Trabalharam por quase uma hora. As respostas vinham curtas, úteis, sem precisar explicar o que era uma linha de visada. Tomás corrigia o próprio posicionamento antes que ela pedisse. Quando chegou a vez de registrar a altura do apoio, ele ofereceu o braço para ajudá-la a descer. Íris segurou, sentindo a firmeza sob o tecido, e soltou apenas quando os pés encontraram terreno seguro.
— Você podia ter feito a vistoria sozinho — disse ela.
— Podia ter desenhado qualquer coisa e chamado de vistoria. Fazer direito é outro trabalho.
— Não estou acostumada a ouvir isso.
— Então seus contratantes têm pouca sorte.
O elogio veio sem o ar de elogio. Íris ocupou-se em prender o cabelo, que escapara da presilha. Tomás recolheu o lápis que caiu na terra e limpou a ponta antes de devolvê-lo.
Ela quis perguntar se ele tinha alguém. A pergunta chegou inteira, indiscreta, e ficou parada atrás dos dentes. Não tinham conversado sobre nenhum daqueles anos. Podia haver uma mulher esperando no fim do expediente, alguém com direito a sua chave e ao cheiro de sua camisa. Íris precisava lembrar que familiaridade não era licença.
Foi ele quem desfez parte da dúvida enquanto recolhiam os instrumentos. Íris deixara cair a capa da planta, e Tomás a alcançou antes que o vento a levasse para a água.
— Posso passar no empório depois de fechar? — perguntou. — Queria ouvir mais sobre os lugares onde você trabalhou.
Ela segurou a capa sem soltá-la da mão dele.
— Você não tem ninguém esperando?
A pergunta saiu menos discreta do que pretendia. Tomás olhou para ela e depois para os dedos que ainda seguravam o mesmo plástico.
— Não tenho companheira, Íris. Nem alguém que possa achar que estou escondendo esta conversa.
O calor no rosto dela pareceu indecente para uma manhã tão fria.
— Eu não estava pedindo uma declaração.
— Eu estava tentando responder direito.
Ela baixou os olhos, sorrindo apesar do constrangimento.
— Também não tenho ninguém. Caso tenha ficado alguma dúvida muito bem disfarçada.
Tomás soltou a capa devagar. Uma rajada atravessou o espaço entre ambos, mas Íris permaneceu aquecida por um motivo que não pertencia ao casaco. Ele pegou a caixa de instrumentos com as duas mãos, como se de repente precisasse de uma maneira segura de ocupá-las.
— Depois de fechar, então?
— Pode passar. Não prometo histórias interessantes. Tenho uma boa sobre uma estação de medição e três cabras.
— As cabras sobreviveram?
— Melhor que a estação.
Seguiram para a caminhonete rindo. O rio continuava com um problema, o depósito com outro. Nenhum deles anulava o prazer muito concreto de saber que não desejava um homem que já prometera sua presença a outra pessoa.
— Você mora na oficina? — perguntou, escolhendo uma versão mais covarde.
— Nos fundos. Fiz uma cozinha.
— Você cozinha?
— Depende do que a gente aceita chamar de comida.
Ela riu, e ele inclinou a cabeça, observando-a por um tempo que não era necessário para a conversa.
— A Celina perguntou se você queria jantar com a gente hoje — continuou. — Ela faz a comida de verdade.
— Com a gente quem?
— Quem aparecer no empório. Não era uma emboscada.
Íris desejou que a terra fosse menos transparente sob seus pés.
— Eu não achei que fosse.
Tomás sorriu com a boca fechada, poupando-a de uma resposta. A delicadeza dele podia ser irritante quando acertava o alvo.
Bento recebeu os dois no moinho ao meio-dia. A casa de máquinas estava desligada havia anos, mas ele mantinha uma sala no piso de cima para cuidar dos registros de chuva e fazer reparos em ferramentas pequenas. Havia panos cobrindo engrenagens, um fogão a lenha e uma gaiola vazia usada para guardar rolos de barbante.
— Meu pai criava canário — explicou ele quando viu o olhar de Íris. — Hoje, só prendo coisas que não sofrem com isso.
Entregou-lhe um caderno encapado com papel de farinha. As anotações indicavam dias de chuva, altura da água e pontos de referência. Não eram dados de laboratório; eram observações consistentes, feitas por alguém que visitara a margem muito mais vezes do que qualquer projetista. Íris perguntou como as medições eram tomadas, qual régua ele usava e se a marca vermelha tinha sido refeita.
Bento mostrou a régua presa ao paredão externo e um desenho da posição antiga. A referência tinha permanecido no mesmo lugar. Não havia justificativa para a diferença do mapa.
— O homem que veio medir ficou na estrada — comentou. — Estava com o sapato ruim para descer.
Íris registrou o testemunho como testemunho. Não tinha visto o homem, não sabia seu nome e não faria dele um culpado por conveniência.
No fundo da sala, uma escada estreita descia à galeria da comporta antiga. Bento explicou que verificava ali o acúmulo de galhos. Tomás testou a primeira tábua do degrau com o pé.
— Essa escada precisa de substituição.
— Assim que aparecer uma sobra que preste — respondeu Bento. — Você ia me trazer madeira.
Tomás ficou sério.
Íris encontrou no olhar dele uma conexão que ainda não possuía. Perguntou que madeira, e Bento apontou para uma estante onde havia um pedaço de tábua com a ponta azul.
— As que chegaram no depósito. Vieram pintadas para não misturar. Mas depois levaram, e fiquei esperando.
No depósito, as pontas eram amarelas.
Íris pediu para examinar a peça. A seção era maior, o veio mais fechado. Tomás passou o polegar pela superfície, acompanhando uma marca de serra.
— Foi deste lote que fiz a cunha do apoio — disse.
Ela mediu, anotou e devolveu a tábua ao lugar. O material correto existira. O que não sabiam era seu destino. Havia uma diferença importante entre suspeitar de desvio e demonstrá-lo, e Íris sentiu o esforço de manter essa distância enquanto todas as peças pareciam desejar encaixar-se sozinhas.
Álvaro não apareceu depois do almoço. Ligou quando os dois já esperavam no empório, alegando problema no veículo. A área de secagem ficava longe; seria melhor deixar para o dia seguinte. Íris perguntou o endereço completo. Ele repetiu uma referência de estrada e encerrou a chamada antes que ela terminasse de escrever.
Ela ficou com o telefone na mão por um instante. Depois procurou no mapa o lugar indicado. Havia um ramal antigo, uma clareira e nenhuma construção registrada. Não era impossível secar madeira ali. Era apenas uma escolha estranha para material que tinha um depósito coberto disponível.
Tomás colocou a cópia da fatura sobre a mesa. Celina autorizara a cópia do original arquivado junto aos pagamentos do empório.
O papel tinha uma pequena faixa cinza junto à borda, deixada pela copiadora. Íris conferiu os números com a fotografia que fizera de manhã. Nenhum item havia desaparecido entre uma reprodução e outra. Dobrou a cópia apenas uma vez, de modo que a data permanecesse visível, e pediu a Tomás que a mantivesse longe da chuva.
— Vou manter isso comigo até entregarmos a quem administra o contrato — disse ele. — Você já tem papel suficiente para perder no vento.
Íris olhou a porca sobre seu mapa e depois o rosto dele.
— Eu não perco documentos.
— Só lápis.
Ela teria retrucado, mas ele tirou um segundo lápis do bolso da jaqueta e o colocou ao lado do primeiro. Era um dos dela, encontrado na cabine da caminhonete. O gesto fez alguma coisa quente e pequena se instalar em seu peito.
À noite, jantaram no empório com Celina, Marta e dois homens da oficina. Conversaram sobre preços, uma telha solta, uma receita que ninguém conseguia repetir. Íris respondeu às perguntas sobre seu trabalho sem resumir a própria vida em justificativas. Tomás escutou. Não tentou preencher os intervalos que pertenciam a ela.
Quando subiu para o quarto, levou uma tigela com maçãs e a certeza de que havia um assunto esperando para acontecer entre os dois. Não seria naquela noite. Primeiro, precisava compreender uma ponte, uma ordem de transporte e um lugar no depósito onde faltava muito mais do que madeira.
O espaço vazio tinha medidas exatas.






































