O Último Par
Tessa
A bota ainda tinha dentro a agulha do pai.
Tessa havia embalado as xícaras, a tesoura boa e a tigela azul lascada que ele usava para guardar o troco. Fizera três listas e telefonara para um homem que avaliava imóveis comerciais. Nada daquilo a detivera. Uma agulha presa no meio de uma vira, sim.
Ela largou a faca de embalagem.
A janela da oficina distorcia a neve lá fora em longas corcovas pálidas. Mais além, o riacho passava diante do moinho abandonado com um som rápido e desagradável. Ela se lembrava de invernos mais quietos ali. Lembrava-se de ser pequena o bastante para dormir debaixo da bancada enquanto o pai trabalhava, a bochecha apoiada num casaco dobrado que cheirava a óleo de couro.
Aos trinta e quatro anos, sabia que não devia confundir uma lembrança com motivo para comprar óleo de aquecimento.
Pegou a bota. Pé esquerdo. Salto largo. O couro fora cortado para um homem cujo segundo dedo do pé era maior que o primeiro. O pai anotara a alteração a lápis no molde de papel enfiado lá dentro. Seis meses desde que a doença o levara, e ele ainda lhe dizia algo útil.
A agulha resistiu quando ela tentou puxá-la.
— Não — disse em voz alta, flagrando a outra mão a caminho da faca. Teria cortado a linha dele para soltá-la. — Não seja idiota.
Afrouxou a costura com a sovela, e a linha encerada acompanhou, escura contra os dedos.
Uma chave girou acima de sua cabeça.
Tessa olhou para a escada. O pai alugara o quarto de cima quando ela deixara de passar verões inteiros ali, mas a correspondência do espólio chamava o atual ocupante de sr. Hale. Ela imaginara alguém idoso, de chinelos e com uma opinião ressentida sobre visitas.
Dorian Hale desceu carregando uma pilha de cobertores dobrados.
Parou no terceiro degrau, contando de baixo. O casaco verde estava aberto sobre um suéter preto, a barba úmida como se ele já tivesse saído. A cicatriz que cortava a sobrancelha direita não mudara. O resto dele ganhara mais largura, o que parecia desnecessário.
— Achei que você chegaria esta tarde — disse ele.
— Cheguei ontem à noite.
— Onde dormiu?
— Na pousada. Antes que pergunte, tomei café da manhã.
A boca dele se mexeu. — Eu ia perguntar se você queria o fogão aceso.
— Ah. Sim. Seria menos irritante.
Ele pôs os cobertores num caixote limpo e terminou de descer. Tessa o conhecera como um jovem madeireiro, com serragem presa no cabelo e uma capacidade de ficar calado que a exasperara aos vinte e quatro anos. Uma década depois, pelo visto, ainda podia se irritar com a boca dele sem que essa boca tivesse dito muito.
Ele manteve uma distância cuidadosa da bota nas mãos dela.
— Seu pai me deu a chave do andar de cima quando o telhado da pousada estava sendo consertado. Eu fiquei. Devia ter escrito a você diretamente.
— Houve muitas cartas.
— Eu sei.
Tirou um envelope creme do casaco e o pousou ao lado da faca de embalagem. O nome dela estava escrito em letras de forma.
— Aluguel até o fim do mês que vem. Posso sair antes.
— Não estou despejando você. Estou aqui há doze minutos.
— Estou dizendo o que você pode fazer.
Ela pousou a bota, com a agulha equilibrada sobre o couro. — Você sempre fala como se viesse com instruções.
— Quase todo mundo precisa de instruções.
— E eu preciso?
O olhar dele pousou no rosto dela. Não vagou enquanto ele considerava a resposta.
— Você precisa de um fogão.
Ela riu, e o som a surpreendeu no cômodo apertado e familiar.
Dorian se agachou junto à portinhola de ferro e começou a arrumar gravetos. A manga subiu acima da luva, expondo um pouco da faixa escura no antebraço. Ela desviou o olhar antes que ele confundisse a espiada com uma pergunta. O pai lhe contara a verdade sobre o vale quando ela já tinha idade para decidir se voltaria. Os homens dali eram lobos. A força deles não tornava o mundo gentil com eles.
Uma vez, anos antes, ela perguntara a Dorian se doía mudar. Ele respondera com a mesma gravidade paciente que dava a tudo. Nunca perguntara sobre a marca.
Os gravetos pegaram com um estalo seco. Ele fechou o fogão e estendeu as mãos sobre ele.
— Pode deixar os cobertores — disse ela. — Não estou empacotando as suas coisas.
— São seus. Seu pai os mantinha sobre o balcão de consertos. Quem esperava por uma carona costumava passar frio.
Claro que mantinha. Claro que havia mais seis coisas de que ela não sabia que teria de sentir falta.
Tessa ergueu o cobertor mais próximo. Algo pequeno e duro caiu. Uma bala de hortelã rolou pelo balcão em seu papel torcido.
— Ele botava isso em tudo quanto era lugar.
— Os clientes roubavam.
— Era essa a ideia. Ele gostava de fingir que os pegava.
Dorian pegou a bala e a pôs na lata amassada junto ao cotovelo dela. — Eu me lembro.
Ela alisou o cobertor e depois o dobrou de outro jeito. Se continuasse dobrando coisas, talvez a dor abrupta virasse uma tarefa que ela pudesse concluir.
— O avaliador vem amanhã — disse. — Mandou uma autorização para o inventário. Cobre o conteúdo e também o prédio.
— Você assinou?
— Não. Não sei se ele quer dizer as cadeiras ou cada prego de cada gaveta.
— Então pergunte a ele.
— Eu deveria ser melhor nisso.
— Por quê?
Ela o encarou.
Ele se levantara, as mãos soltas ao lado do corpo. — Você faz botas. Isso significa que deveria saber o que cada contrato quer dizer?
— Significa que eu deveria ser capaz de esvaziar um cômodo.
Os olhos dele foram até a bota. Depois puxou um caixote vazio de baixo da bancada, abriu a tampa e recuou.
— Escolha uma coisa que deva ir para este caixote.
Ela quis dizer que não precisava que a conduzissem. Em vez disso, examinou as prateleiras. Um pote rachado de cola endurecida. Três fivelas quebradas. Um calendário de um ano de que o pai gostara tão pouco que se recusara a comprar o seguinte.
Pôs a cola no caixote.
— Pronto — disse ele.
— Não me dê parabéns.
— Eu não ia dar. Esse troço vai dar trabalho para descartar.
Dessa vez o riso veio com mais facilidade.
Estenderam a mão para a tampa ao mesmo tempo. Os dedos dela pousaram no pulso nu dele, onde tirara uma das luvas. Pele quente, uma crista de tendão, e então a imobilidade súbita das duas mãos. Ela se lembrou daquela antiga consciência da presença dele com tamanha clareza física que precisou engolir em seco.
Dorian ergueu os olhos. — Quer que eu solte?
— O caixote?
— Qualquer coisa.
Ela não sabia como responder sem admitir que pensara nas mãos dele durante a viagem até ali. Também pensara no sorriso de Emmett e em Silas inclinado ao seu lado sobre uma luminária quebrada, tão perto que o cabelo dele lhe roçava a têmpora. Os pensamentos tinham sido mais fáceis num carro em movimento, onde podia chamá-los de nostalgia e seguir em frente.
— A tampa — disse. — Solte a tampa. Preciso pôr o calendário.
Ele obedeceu na hora. Aquilo lhe deu vontade de puxá-lo de volta.
Emmett chegou com uma caixa equilibrada no ombro e neve derretendo no boné vermelho.
— Entrega para Calder — anunciou. Então o rosto dele mudou. Baixou a caixa devagar. — Tessa. Não sabia que você já estava aqui.
— A letra aí é dele, não é?
Emmett olhou a etiqueta. — O pedido ficou retido em Dunmore. O fornecedor o incluiu na remessa seguinte. Eu devia ter conferido antes de entrar gritando.
— Você não estava gritando.
— Até a minha voz de dentro de casa chega longe.
Ela foi até ele e pôs a mão no papelão. Os dedos dele se afastaram dos dela, cuidadosos de um modo que tornou o contato entre os dedos mínimos mais perceptível do que uma carícia deliberada.
— Podemos abrir? — perguntou ele.
Ela assentiu. Dorian lhe passou a faca de embalagem com o cabo na frente.
Dentro havia caixas de pregos para botas. Pequenos, grandes, brilhantes, que tinham deixado uma mancha amarela no papel de seda. Embaixo, outro formulário de pedido.
Tessa leu a quantidade duas vezes.
— Ele estava planejando calçar a montanha.
— Homem ambicioso — disse Emmett. — Começa pelo sopé e vai subindo.
Ela se curvou sobre a caixa, rindo e chorando em sucessão tão rápida que não havia como separar uma coisa da outra. Emmett não se apressou em transformar uma na outra. Tirou o boné molhado e esperou ao lado dela até que pudesse se endireitar.
— Tem um pano atrás de você — disse. — Limpo, antes que você me faça essa cara.
Ela fez a cara mesmo assim e pegou o pano.
— Você não mudou.
— Tenho trinta e cinco anos. Mudei em lugares caros. Os joelhos, principalmente.
— Seus joelhos nunca foram grande coisa.
— Sustentaram várias danças respeitáveis.
— Você contava os passos em voz alta.
— Você ficava mudando.
Dorian, que separava os formulários de pedido, fez um som baixo. Tessa se voltou para ele.
— Você se lembra disso?
— Houve muita contagem.
— Nenhum de vocês mencionou dança quando me convidaram para ajudar a consertar o piso da pousada.
— O convite foi do Emmett — disse Dorian.
Emmett fez cara de inocente. — Eu sabia que você levaria sapatos sensatos.
Ela olhou de um para o outro e sentiu o prazer perigoso de ser lembrada com exatidão. Eles conheciam a mulher que ficara até tarde para terminar um serviço e depois arrastara as mesas sozinha porque queria dançar. Tinham-na visto antes dos meses de quartos de hospital, antes de os telefonemas a treinarem para esperar más notícias.
A sineta sobre a porta sacudiu de novo.
Silas estava debaixo dela com uma luminária de trabalho agarrada ao peito. A jaqueta de chuva brilhava de molhada. A água pingava do cabelo liso e escuro sobre a parte de cima dos óculos.
— Posso voltar depois — disse ele, olhando o rosto úmido dela.
— Pode pôr isso no chão antes de eletrocutar alguém.
— Está desligada da tomada.
— Então você começou bem.
O sorriso de resposta dele foi pequeno e imediato, como se ela tivesse aberto exatamente a porta que ele queria.
Ele pôs a luminária ao lado da bota, enrolando o fio consertado para longe da agulha. A velha lâmpada de teto do pai dela zumbiu quando ele estendeu o braço por perto. Tessa vinha contando os furos da costura da bota sem perceber que o fazia. O zumbido parou quando Silas acionou o interruptor da parede.
— Esse soquete está frouxo — disse ele. — A luminária é segura. Posso?
Ela assentiu. Ele a ligou na tomada, e uma luz quente se espalhou sobre o couro.
— Vai chover esta noite — disse. — Mais quente do que deveria. A neve acima do moinho já está pesada.
O sorriso de Emmett sumiu. — Pesada quanto?
— Não subi para ver. Vou conferir o medidor depois disto.
— Eu vou percorrer a tomada d’água — disse Dorian.
Falavam sem tirá-la do círculo deles. Tessa percebeu a diferença em relação às conversas que as pessoas tinham mantido em volta da cama do pai, sempre baixo demais, como se pudessem poupá-la excluindo-a.
— Aqui alaga? — perguntou.
— A parte baixa alaga — disse Dorian. — A oficina se manteve seca desde que estou aqui. É só o que posso dizer.
Ela apreciou o limite mais do que teria apreciado um consolo.
Emmett foi olhar a estrada da porta. — Posso adiar a viagem até sabermos se a margem aguenta. De qualquer jeito, tenho espaço para comida na volta.
— Você tem uma entrega? — perguntou ela.
— Nada que não possa esperar uma tarde.
Silas olhou para ele. Emmett balançou a cabeça, quase imperceptivelmente. Tessa guardou a troca de olhares na memória.
Juntos ergueram o pacote para uma prateleira e começaram a abrir os sacos de conserto sob o balcão. Eram mais do que ela esperava. Um sapato de criança com a tira solta. Uma bota de lenhador cuja sola se soltara limpamente. Um par de sapatos de domingo engraxado com tanto cuidado que o salto quebrado parecia quase indecente.
Havia nomes presos com barbante. Ao lado, o pai escrevera anotações de pagamento.
— Três potes de ameixa — leu Tessa. — Meia carga de pinho rachado. Consertar trinco da cozinha.
— Fui eu que fiz o trinco — disse Silas.
— Era o seu sapato?
— Não. A sra. Armitage não conseguiu fazer o conserto sozinha, então fiz por ela.
Tessa olhou o bilhete. O pai riscara a dívida com um traço limpo.
— Ele tinha um sistema.
— A Nell controla tudo — disse Emmett. — Ele nunca saiu no prejuízo. Só com quem queria perdoar.
Tessa puxou o velho livro-caixa para si. As páginas cheiravam a poeira e ao leve óleo adocicado que ele usava nas mãos. Na primeira folha em branco ela fez uma nova lista: serviço inacabado, dono, materiais ainda necessários. Não copiou as dívidas de escambo como dinheiro devido.
— Não vou mandar cobrança por isso — disse. — Mas, se eu abrir este lugar, um par de ameixas não vai pagar a conta de luz.
— Provavelmente vão ser precisos quatro — disse Emmett.
Ela apontou o lápis para ele. — Você é uma péssima influência nos meus preços.
Ele pôs a mão sobre o coração, e Silas desviou o olhar com um sorriso que virou outra coisa quando encontrou os olhos de Dorian.
Lá estava de novo. Uma troca que a contornava.
Tessa largou o lápis.
— Vocês vão continuar fazendo isso?
Os homens pararam.
— Trocando olhares como se estivessem decidindo quem tem de me dizer que eu trouxe a chave errada.
— Não estávamos decidindo nada por você — disse Dorian.
— Então me digam o que é.
Emmett tirou o boné de novo, embora ele tivesse acabado de secar o bastante para ser recolocado. — Eu estava tentando não convidar você para jantar antes de você ter tido tempo de desfazer as malas.
— E isso exige consulta?
— Exige quando os outros dois também querem convidar.
A oficina pareceu esquentar de uma só vez. Tessa pôs a ponta do dedo no lápis para impedi-lo de rolar.
— Juntos?
— Se você quiser — disse Silas. — Nós quatro.
Ela deveria ter uma resposta fácil. Uma resposta comum, com uma piada dentro e distância suficiente para todos fingirem que aquilo não significava mais do que velhos amigos fazendo uma refeição. Em vez disso, olhou para cada homem, um de cada vez.
Nenhum deles a poupou de entender.
— Tenho um formulário de avaliação para ler — disse.
— Leia — respondeu Dorian.
— E um cômodo para esvaziar.
— O amanhã continua aí.
Sentiu a beira da bancada contra os quadris. Podia ir embora. Tinham-lhe dado o cômodo, o aluguel, as ferramentas, a decisão. O convite continuava sendo algo que ela podia aceitar porque queria.
— Jantar, então. Aqui. Sei onde ficam os pratos.
Emmett expirou, visivelmente. — Ótimo. Porque eu trouxe batatas.
— Você estava muito seguro de si.
— Eu estava seguro das batatas.
Do outro lado da janela, um pedaço de casca de salgueiro arrancada prendeu-se na grade do moinho. A água o dobrou, puxou para baixo e o deixou voltar até a metade. Dorian reparou um instante depois dela. Calçou as luvas e foi ver o riacho.
Tessa pôs o formulário de avaliação não assinado sob uma tigela limpa. Leria os termos depois do inventário. Ninguém viria levar a bancada do pai antes de ela saber quais partes da vida daquela bancada queria.
Um cômodo podia guardar o que ela perdera sem se tornar o lugar onde precisava ficar.
Tirou o cachecol cor de ferrugem do cabide para pendurá-lo mais longe do fogão, depois puxou quatro cadeiras desemparelhadas em volta da mesinha. A última prendeu numa tábua do assoalho. Por um instante ela ficou parada com a cadeira inclinada em direção ao lugar onde o pai costumava se sentar.
Silas esperava com um prato nas mãos. Emmett encontrara a panela das batatas. Havia calor saindo do fogão e o som das botas de Dorian nos degraus lá fora.
Ela deixou a quarta cadeira à mesa.
Terreno Mole
Dorian
A estaca saiu do chão quando Dorian se apoiou nela.
Ele a usara para marcar a beira da pilha de madeira antes da primeira nevasca. Agora a ponta enterrada estava preta e molhada, e a terra desabava no buraco com um leve som de sucção. Ele a fincou mais acima na encosta e empurrou até encontrar algo mais firme.
Do outro lado do riacho, galhos de salgueiro tinham se emaranhado na velha tomada d’água do moinho. A água batia no nó deles, subia e voltava sobre si mesma. Uma tira esfiapada de casca branca subia e descia no meio. Era a mesma que Tessa vira da janela.
Ele apoiou a bota numa pedra e a testou antes de se aproximar.
A tomada d’água conduzira a água até o moinho quando havia trabalho ali para mais homens do que o vale conseguia abrigar. Agora a grande roda ficava imóvel atrás de tábuas, e o canal lateral fazia crescer amieiros pelo leito. O riacho principal tinha espaço para um degelo comum. Dorian não via espaço para a chuva que começava a escurecer seu casaco.
Quebrou um galho seco até um comprimento que pudesse manejar e o baixou da margem. Media a profundidade, não a força. Nenhum pau nas mãos dele teria convencido aquela água a parar.
Quando o recolheu, a madeira clara estava molhada quase até o pulso dele.
Emmett gritou da estrada. — Diga que isso é uma vara de pescar.
— A margem está mole. Não traga o caminhão até aqui.
O outro homem só chegou até o cascalho. As botas dele já estavam pretas nas bordas. — Não estava planejando.
— Você já planejou coisa pior.
— Na minha juventude.
— Na primavera passada.
— Uma estação decepcionante, sim.
Dorian apontou a curva rio abaixo. — Está avançando para o pátio de madeira. Se a tomada d’água encher, vai se espalhar em direção à oficina. Pode avisar a pousada para tirar as coisas da trilha baixa deles?
Emmett tirou o rádio do casaco. — E o frete?
— Decisão sua.
— É um bom dinheiro.
— Eu sei.
Emmett olhou o riacho por um tempo. Depois chamou o despachante em Dunmore e disse que não podia garantir que a estrada de volta continuaria transitável. Dorian ouviu uma das metades de uma conversa que continha menos piadas do que de costume.
Quando terminou, Emmett enfiou o rádio de volta no casaco.
— Outra pessoa vai ficar com a viagem.
— Sinto muito.
— Não sinta. Vou trazer farinha e cobertores do armazém lá de cima antes que a estrada piore. Se todos vamos comer batata, quero pão para reclamar.
Dorian assentiu. Emmett ficou ao lado dele mais um momento, seguindo a água com os olhos.
— Acha que ela vai ficar?
Lá estava. A pergunta que Dorian conseguira não fazer a si mesmo desde que Tessa entrara trazendo no jeito dos ombros a exaustão do pai.
— Acho que ela está decidindo.
— Você pode querer uma resposta.
— Querer uma não a deixa pronta.
Emmett chutou uma pedra para fora da lama. — Eu sei. Também sei que você consegue transformar esperar numa profissão.
Teria sido mais fácil se Emmett fosse um homem de quem Dorian pudesse não gostar. Em vez disso, era um amigo que dirigira por cima do gelo para trazer uma corrente de motosserra de reposição, que parava o caminhão para idosos antes mesmo de eles terem levantado a mão. Tinha todo o direito de querer Tessa. Silas também. O problema nunca fora descobrir que gostavam da mesma mulher. Fora decidir como poderia ser uma oferta honesta a ela.
— Ela aceitou o jantar — disse Dorian.
— Aceitou. — Emmett finalmente sorriu. — Tente ficar contente com isso. Vai assustá-la menos do que essa cara.
Ele subiu a estrada, e Dorian se curvou sobre a primeira cinta de carga das toras.
Ele já rolara as toras mais próximas para um espaço livre quando Tessa apareceu carregando as botas sobressalentes dele.
O casaco azul-marinho dela estava abotoado errado embaixo. Ela enfiara o cachecol cor de ferrugem sob a gola, e uma mecha de cabelo ruivo-acastanhado escapara da trança e colara na bochecha.
— Estas têm o seu nome — disse ela.
— Eu ia buscá-las amanhã.
— O salto direito está quase furado.
Ele olhou as botas que calçava.
— Pelo jeito que você anda — acrescentou. — Não estava examinando seus pés através do piso.
— Não achei que estivesse.
— Você parecia estar considerando.
Ele pegou o par consertado. A costura do cabedal esquerdo era do pai dela, miúda e chata e um pouco mais apertada sobre a curva. Dorian passou o polegar sobre ela sem querer.
Tessa o observou.
— Quer calçá-las agora?
— Não com isto.
— Foram feitas para o trabalho.
— As velhas também. Aguentam mais uma tarde molhada.
Ela se agachou ao lado do caixote vazio que ele trouxera para o equipamento e pôs as botas dentro, com as solas juntas. Depois olhou a pilha que ele mal começara a mover.
— Onde quer aquelas?
— Acima da linha de pedras.
— E onde você me quer?
Ele se endireitou depressa demais. A pergunta aterrissara num lugar inconveniente.
A boca de Tessa se curvou. — Trabalhando, Dorian. O que posso levantar sem que você me olhe como se eu tivesse rompido um tratado?
Ele considerou as pranchas curtas, o ângulo da margem, as luvas de couro dela. — Pegue as pontas mais finas comigo. Avise antes de perder a pegada.
— Vale para você também.
— Sim.
Ela verificou o chão antes de se mover. Ele gostou disso. Não porque a tornasse obediente ou cuidadosa o bastante para agradá-lo, mas porque ela respeitava a parte de um serviço que não se importava se a pessoa se sentia corajosa.
Ergueram uma prancha juntos. A chuva tamborilou ao longo da face de cima. A ponta de Tessa baixou quando ela sentiu o peso, depois se nivelou enquanto ela se ajustava.
— Tudo bem? — perguntou ele.
— Sim. Ande.
Ele andou.
Na quarta carga a respiração dela estava mais alta. Ele pousou a sua ponta e tirou as luvas para torcer a água. Ela fez o mesmo sem fingir que a pausa não viera em boa hora.
— Você sempre precisa mover tanta madeira?
— Em geral, só uma vez.
Ela olhou a pilha morro acima. — Começo a entender o encanto dos escritórios.
— O seu escritório tem fogão de ferro.
— Meu escritório tinha um senhorio que consertava o telhado quando vazava. Este parece ter me transformado na senhoria.
Ele queria perguntar sobre a cidade, o trabalho que ela deixara para vir, se tinha um cômodo com luz suficiente. Recebera pedaços ao longo dos anos, nas cartas: uma oficina dividida, clientes que discutiam preços, o filho de um vizinho que achava que ela consertava ferraduras de cavalo. Escrevera de volta menos do que devia. Um homem podia chamar a contenção de cortesia até ela se tornar indistinguível do descaso.
— Quanto tempo você tem de folga? — perguntou.
— Uma semana. Posso trabalhar a distância nos pedidos por mais tempo, se precisar. Minha sócia está cobrindo as retiradas.
— Gentil da parte dela.
— Ela disse que preferia me ver longe a me ver na bancada errada fingindo que estava bem.
Tessa esfregou o polegar numa mancha de cola na luva. — Achei que organizar este lugar simplificaria as coisas. Um prédio, um preço, uma lista do que guardar. Aí encontro um pote com os botões velhos e inúteis dele, e não consigo jogar fora nem um botão porque ele pode ter precisado.
— Ele não precisa.
Ela ergueu os olhos de repente. Dorian se arrependeu das palavras antes que ela tivesse tempo de responder.
— Eu sei — disse. — É isso que torna tudo tão idiota.
— Não é idiota. Quis dizer que você não precisa terminar tudo o que ele deixou.
— Inclusive a vida dele?
O riacho fez um som duro e oco contra as tábuas da tomada d’água. Ele esperou até que um galho girasse e o ruído se assentasse.
— Inclusive a vida dele — disse.
Ela tirou as luvas molhadas de vez. Os dedos estavam vermelhos, a pele de um polegar rachada pelo trabalho no inverno. Ele notara aquela rachadura na oficina e se contivera para não tocá-la. Agora lhe deu o par seco de dentro do casaco.
— São grandes demais — disse ela.
— Dobre os punhos.
— Isso parece instruções.
— Úteis.
Ela os dobrou, e ele sentiu o prazer de ter algo aceito dele sem pedido de desculpas. Perigoso, quanto uma coisa pequena podia oferecer a um homem que aprendera a pedir pouco.
A cinta escorregou na carga seguinte. Ele baixou a madeira de imediato e Tessa se afastou, como combinado. A lama borrou a corda no ponto em que ela deslizara em direção à ponta estreita.
— Foi meu nó? — perguntou ela.
— Equilíbrio errado. Fui eu que posicionei mal.
Ele mudou a posição da cinta e mostrou a diferença. Ela ouviu e depois apontou o segundo apoio.
— Aquele está afundando.
Estava. Ele o trocou por uma pedra chata antes de erguerem de novo.
Terminaram os pedaços curtos enquanto a chuva se tornava um véu constante entre o moinho e a estrada. Dorian entalhou uma marca no poste medidor na beira do pátio, acima da linha d’água atual. Teria algo sólido com que compará-la depois. Tessa se agachou ao lado dele, vendo a madeira limpa aparecer sob a faca.
— Quão preocupada devo ficar?
— O bastante para manter as caixas longe do chão. Não o bastante para parar de comer.
— Existe uma escala para isso?
— Estou inventando.
Ela sorriu, mas continuou olhando o poste. Ele lhe contou exatamente o que vira: a margem mole, a tomada d’água bloqueada, a água passando ao redor, e não através, do nó de galhos. Não podia dizer se aquilo se soltaria em uma hora ou se acumularia a noite toda.
— O Silas vai saber mais sobre o canal lateral — disse. — Vamos verificar.
— Então vou mover os papéis primeiro.
Ele assentiu. Ela recebera a informação e tomara uma decisão. Gostava da sensação limpa de trabalhar ao lado dela. Isso tornava mais difícil manter guardado o que ele queria.
No caminho de volta, a bota dela derrapou onde a serragem se acumulara sobre a lama. Ela agarrou a manga dele antes que ele a oferecesse. O peso dela veio contra o braço dele por um único passo, quente através de camadas de lã molhada.
— Já são duas coisas úteis que você fez — disse ela.
— Estou contando.
— Não conte. Vou ficar competitiva.
Ele deixou que ela mantivesse a mão ali até o chão ficar firme.
Na oficina, penduraram as luvas molhadas junto ao fogão. Dorian pôs as botas consertadas ao lado da cadeira dele lá em cima e voltou para encontrar Tessa segurando o quarto jogo americano sobre a mesa.
— Era dele — disse ela antes que ele perguntasse.
— Eu sei.
— Todas as cadeiras eram dele, na verdade. Mas ali era onde ele se sentava.
Dorian olhou a mesinha. Ela dispusera facas e garfos com os cabos alinhados. Os pratos eram desemparelhados, os favoritos do pai e os dois feios que ele guardara por serem resistentes demais para quebrar. Não havia como sentar ali sem sentar em algo que pertencera a ele.
— Você pode mudar a mesa de lugar — disse ele.
Ela piscou.
— Se preferir. As cadeiras também. Não precisa ficar como era.
— Todo mundo fica me dizendo para não ter pressa.
— Isso não quer dizer que nada possa mudar de lugar.
Ele permanecera em lugares porque ir embora parecia admitir que falhara com eles. Empregos, cômodos, conversas em que já não havia nada a dizer. Sabia como a paciência podia parecer uma virtude vista de fora. Sabia quanta covardia podia viver confortavelmente dentro dela.
Ele queria ser desejado sem tornar a espera dele responsabilidade dela.
Tessa dobrou o jogo americano em quatro. — Você ficou lá em cima porque esperava que eu voltasse?
Poderia ter dado a resposta fácil. Os reparos no telhado tinham sido reais. O aluguel era justo. A equipe dele começara um trabalho por perto. Tudo verdade, e nada suficiente para o modo como ela o olhava.
— Fiquei porque gostava de morar aqui. Queria o lugar bem cuidado. Esperava que você voltasse porque queria ver você. Não são a mesma coisa, mesmo que tenham se embolado.
Ela pressionou o jogo americano dobrado contra a cintura. — O que acontece se eu vender?
— Procuro outro quarto.
— E nós?
Ele ficou imóvel.
As faces de Tessa esquentaram, mas ela não desviou o olhar. — O que quer que possa haver. Não quis dizer que já houvesse.
— Eu quero que haja.
O fogão estalou ao esquentar o metal. Ele esperou o som passar, resistindo ao velho hábito de lhe oferecer uma saída antes que ela tivesse chegado a uma porta.
— Emmett e Silas sabem? — perguntou ela.
— Sim.
— E você está bem com o que eles querem?
— Estou bem com eles desejarem você. O que fazemos a respeito depende de você e do que podemos dar uns aos outros com honestidade.
Ela respirou fundo, devagar e trêmula. — Não sei como fazer isso. Sei ser namorada de alguém. De uma pessoa. Em geral bem mal, no fim.
— Eu também nunca fiz isto.
— Você parece tão certo.
— Tenho certeza de que quero tentar. Essa é a parte pela qual posso responder.
Ela largou o jogo americano. — E se eu quiser beijar você antes de ter resolvido tudo?
As mãos dele esquentaram. Ele as manteve ao lado do corpo.
— Então eu perguntaria se poderia beijar você de volta.
Ela veio até ele pelo espaço estreito entre o balcão e a mesa. A palma dela pousou no peito dele, leve a princípio, depois espalmada o bastante para ele sentir o formato dela através do suéter.
— Pode — disse ela.
Ele baixou a cabeça. Ela se ergueu na ponta dos pés, impaciente com o último centímetro, e a boca dela encontrou a dele antes que ele terminasse de ser cuidadoso.
Por um momento não houve nada de quieto nele. Pôs uma mão na cintura dela e sentiu a resposta no modo como ela se aproximou. A outra mão dela deslizou para o cabelo úmido dele. Ela fez um som baixinho quando ele a beijou de novo, e ele teve de se lembrar de que querer mais não significava tomar o espaço que ela não oferecera.
Ele se afastou apenas o suficiente para vê-la.
Tessa sorria. Não por educação. O polegar dela roçou a barba dele, testando a textura como se pretendesse se lembrar.
— Isso foi uma coisa útil? — perguntou.
— Posso ter perdido a conta.
O riso dela aqueceu o rosto dele.
Ficaram juntos até ela apoiar a testa no peito dele. Ele deixou o momento assentar sem pedir que virasse uma promessa. Lá fora, a janela estremeceu sob uma rajada mais forte de chuva.
Emmett avisou da varanda que trazia comida e não estava disposto a se afogar com ela. Tessa recuou, ainda sorrindo, e abriu a porta.
Silas veio atrás dele com um caderno molhado. — A água subiu mais uma marca — disse. — A trilha baixa está ficando mole.
Dorian olhou além deles, para o pátio. A marca que entalhara era uma pinta clara acima da água cinzenta. Mais baixa do que antes. Sentia Tessa ao lado dele, o calor do ombro dela, a vida que ela ainda não decidira trazer para cá.
Havia coisas que ele podia fazer antes de lhe pedir qualquer outra coisa.
Dorian levou as luvas molhadas de volta para fora e começou a levar a madeira mais para o alto.















































