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Uma Lanterna Pede Três — romantasia grátisGrátis · Exclusiva

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Uma Lanterna Pede Três

Há seis anos ela cuida sozinha da última lanterna da muralha oeste de Morvath. Então a muralha lhe manda três homens que ninguém mais quis.

  • Harém Reverso
  • Proximidade Forçada
  • Protetor Rabugento
  • Família Escolhida
  • Romance de Fantasia Sombria

🌶️🌶️🌶️🌶️ Cerca de 64 min de leitura · 14.683 palavras

Sabine Lark cuida da última lanterna acesa na muralha oeste de Morvath, onde o Vazio pressiona com mais força e o velho Rei está morrendo. Quando o Comando da Muralha lhe manda um soldado caído em desgraça, um contrabandista e um erudito expulso, ela só quer vê-los longe. A escuridão tem outros planos.

A Última Lanterna da Muralha

Sabine

A pedra estava com fome de novo.

Sabine Lark sentiu antes de ver. Uma dor fina começou na palma da mão direita, subiu pela parte de dentro do pulso e se instalou atrás dos olhos como o começo de uma febre. Então a luz dentro da gaiola vacilou. A coluna alta de cristal violeta, no centro da sala da lanterna, foi de forte a fraca e a forte outra vez, como um coração que perde batidas.

— Eu sei — disse ela à pedra. — Eu sei. Estou aqui.

Ela apertou a mão espalmada contra o corrimão de bronze que circundava a gaiola. Havia quatro marcas de palma gastas naquele corrimão, uma em cada lado, polidas por trezentos anos de mãos. A dela ficava no lado leste, de frente para a cidade. As outras três olhavam para o norte, o oeste e o sul. Fazia trinta anos que ninguém tocava nessas três. O bronze guardava o frio do jeito que uma sepultura guarda, e nas noites longas Sabine o sentia mesmo de onde estava.

Ela fechou os olhos e deu à pedra o que tinha.

Não era um feitiço. Sabine nunca aprendera um feitiço na vida. Guardiões não lançavam encantamentos. Guardiões alimentavam. Ela deixou o calor escorrer do peito para o braço e do braço para o bronze, e o bronze o levou ao cristal, e o cristal bebeu. A luz se firmou. Pelas quatro janelas altas da sala da lanterna, o brilho violeta se estendeu para fora, por cima do parapeito, por cima das árvores negras do Bosque Sangrento, até o ponto onde a grande cúpula de Morvath encontrava a muralha oeste.

A cúpula tinha uma bainha. A maioria das pessoas da cidade nunca pensava nisso. Elas olhavam para cima e viam um céu de luz púrpura pálida, e supunham que ele descia até o chão em toda parte, como uma tigela virada sobre uma mesa. Não descia. Nas bordas, onde tocava a pedra, ele afinava. Esgarçava. No lado oeste, sobre o bosque onde o Vazio pressionava com mais força, sempre precisara de ajuda.

Essa ajuda eram as lanternas. Um dia houve nove delas ao longo da muralha oeste. Agora havia uma.

Lá embaixo, do outro lado da cidade, o Sino Agonizante soou na Fortaleza de Obsidiana. Uma badalada lenta, depois o silêncio. Ele tocava uma vez por hora havia onze dias, desde que o rei Alaric se deitara na cama de que não se levantava. Sabine parara de contar as badaladas no quarto dia. Não parara de ouvi-las.

— Ele segura isso há quarenta anos — disse à pedra. — Você aguenta mais uma noite.

A luz tremeu. Ela empurrou com mais força.

A avó teria rido dela por falar com a pedra. Depois Oda Lark teria falado com ela também, na voz rouca e macia que usava com cachorros assustados e crianças doentes. Uma lanterna pede três, pavio miúdo. Três mãos e uma guardiã. Dissera isso toda noite da infância de Sabine, sentada no banquinho baixo junto à gaiola, com o cachimbo apagado entre os dentes. Era um dito antigo da muralha. Toda família de guardiões tinha um. Ninguém acreditara nele durante a vida de Oda. Oda cuidara daquela lanterna por quarenta anos, os últimos trinta sozinha.

Depois Sabine cuidara dela sozinha por seis.

O som veio de baixo.

Era pequeno no começo, um tic-tic-tic seco contra a muralha externa, como uma unha batendo numa vidraça. O fôlego de Sabine parou na garganta. Ela conhecia aquele som. Todo mundo que morava no Pavio conhecia aquele som, mesmo fingindo que não.

Ela tirou a mão do corrimão e foi até a janela oeste.

A torre se erguia na muralha, logo ao sul do Portão Oeste, a duzentos e doze degraus da rua até a lanterna. Da janela, ela via a longa cortina de pedra cinzenta correndo de norte a sul, o caminho de ronda no alto, a fenda escura do portão e, além dele, o Bosque Sangrento. As árvores eram negras e retorcidas, e as folhas tinham a cor de sangue velho mesmo sob a luz violeta. A névoa pousava entre os troncos como leite numa tigela.

Alguma coisa se mexeu na névoa, ao pé da muralha.

Era do tamanho de um cavalo de carga e tinha seis patas. O corpo era coberto de placas negras que brilhavam como óleo sobre água. Não tinha olhos. Onde devia haver um rosto, havia um aglomerado de mandíbulas estalando, e as duas patas dianteiras eram longas lâminas curvas. Um Espreitador do Vazio. Estava escalando.

As foices encontravam rachaduras na pedra velha, e ele se içava, um comprimento de corpo de cada vez, devagar. Tic-tic-tic.

Sabine correu de volta para a gaiola.

Não pensou. Pensar era para depois. Bateu as duas mãos no corrimão, por cima da própria marca de palma e ao lado dela, e puxou cada migalha de calor que tinha do ventre e do peito e o empurrou para dentro do bronze.

A pedra-coração incendiou.

A sala da lanterna ficou branco-violeta. A luz jorrou da janela oeste num feixe sólido, desceu pela face da muralha e atingiu o Espreitador em cheio nas costas blindadas. Ele gritou. O som era agudo e rangente, como metal arrastado sobre vidro, e atravessou os dentes de Sabine. As placas das costas começaram a fumegar. Ele perdeu o apoio com uma foice, depois com a outra, e se soltou da muralha e desabou na névoa lá embaixo.

O grito se prolongou por um longo instante. Depois parou.

Sabine soltou o corrimão.

As pernas dobraram. Ela se sentou com força no chão de pedra, de costas para o velho banquinho de Oda, e esperou a sala parar de girar. Algo morno escorreu pelo lábio superior. Ela o limpou com a manga e olhou a mancha escura de sangue sem surpresa. As mãos tremiam. O coração batia nas costelas como um punho numa porta.

A luz na gaiola caiu de novo para um brilho fraco e irregular.

— Já são três esta semana — disse à pedra. A voz saiu fina. — No mês passado foi um. No ano antes disso, eu passava uma estação inteira sem nenhum.

A pedra não respondeu. Nunca respondia.

Ela ficou ali sentada o tempo suficiente para o Sino Agonizante soar de novo. Então alguém bateu na porta da torre.

Ninguém batia na porta da torre depois de escurecer. O menino do pão vinha ao amanhecer. A carroça do óleo vinha a cada dez dias, ao meio-dia. O Comando da Muralha mandava um mensageiro duas vezes por ano com uma carta lacrada que dizia, com palavras diferentes a cada vez, que a Lanterna do Oeste era cara demais e que a Guardiã Lark deveria considerar a aposentadoria. Sabine queimava essas cartas no fogão.

A batida veio de novo. Três pancadas pesadas, pacientes e certas.

Ela desceu a longa escada com uma lamparina numa das mãos e o atiçador de ferro da avó na outra. Não sabia o que pretendia fazer com o atiçador. Ele a fazia se sentir melhor.

Lá embaixo, puxou o ferrolho e abriu a porta na largura do próprio rosto.

Três homens estavam no degrau, na escuridão violeta.

O da frente preenchia o vão da porta. Era alto e largo de peito, com o cabelo castanho cortado rente de soldado, já grisalho nas têmporas, e uma barba curta que não escondia a velha queimadura ao longo do lado esquerdo do maxilar. A cicatriz era lisa e pálida, do tipo que a névoa do Vazio deixava ao tocar a pele. Usava um casaco de patrulha da muralha que um dia tivera divisas de sargento nas mangas. Alguém as arrancara. Os fios ainda apareciam. Nas costas, levava uma espada longa e simples numa bainha gasta.

À direita dele estava um homem mais jovem, de cachos escuros, com um punhado de sardas no nariz e um pequeno anel de prata numa orelha. Apoiava-se no batente como se tivesse sido convidado. Sorria para ela como se fossem velhos amigos que não se viam havia algum tempo.

À esquerda do grandalhão estava o terceiro, muito alto e muito magro, com uma longa trança de cabelo ruivo-escuro sobre um ombro e olhos cinzentos que nem estavam olhando para ela. Olhavam para cima, por cima da cabeça dela, para a escada. Tinha tinta no dedo médio da mão direita. Segurava um livro contra o peito, com os dois braços, como se alguém pudesse tomá-lo.

— Guardiã Lark — disse o grandalhão. A voz era grave e rouca. Ele ergueu um papel dobrado com um lacre de cera azul. — Garrick Stane. O Comando da Muralha manda cumprimentos.

— O Comando da Muralha nunca manda cumprimentos — disse Sabine. — O Comando da Muralha manda cartas me dizendo para me aposentar.

— Desta vez não.

Ela pegou o papel e o aproximou da lamparina. O lacre era do marechal Brannock. A letra era de escrivão, caprichada e entediada.

Por ordem do Marechal das Muralhas: os homens a seguir ficam designados à Lanterna do Oeste como vigias, até segunda ordem, em lugar de castigo pelas ofensas registradas. Garrick Stane, antes sargento da Vanguarda de Ferro. Lucan Merrow, contrabandista, condenado a um ano de serviço na muralha. Emrys Corwin, antes da Universidade, condenado a penitência prática. A Guardiã os alojará e alimentará com os mantimentos da lanterna.

Sabine leu duas vezes. Depois ergueu os olhos.

— Não — disse.

O de cabelo cacheado, Lucan Merrow, abriu um sorriso ainda maior.

— A gente nem pediu nada ainda.

— Eu pedi óleo e pão ao Comando da Muralha. Pedi uma corda nova para as persianas e uma carroça de carvão antes da estação fria. Não pedi três criminosos.

— Dois criminosos — disse Lucan. — O Garrick é só impopular.

— Eu sou um criminoso — disse o erudito alto, ainda olhando para a escada. — A Universidade foi muito clara quanto a isso.

Garrick Stane não sorriu. Também não se mexeu. Ficou parado no degrau dela como um pedaço da muralha que tivesse decidido ficar em pé.

— A ordem diz que a gente fica — disse.

— Então a ordem pode dormir no degrau.

— Guardiã. — Ele disse baixo. — Estou na muralha oeste há nove anos. Sei como soa um Espreitador quando sobe. Ouvi um nesta torre faz menos de um quarto de hora. E vi o que saiu da sua janela. — Os olhos dele percorreram o rosto dela, devagar, até o sangue ainda secando no lábio. — Pode mandar a gente embora. A gente dorme no degrau, se for o que a senhora quer. Mas não vai embora.

Sabine abriu a boca para dizer exatamente onde ele podia dormir.

O erudito passou por ela.

Não empurrou. Só virou de lado e deslizou pela fresta entre o ombro dela e o batente, e já estava na escada antes que ela conseguisse agarrar sua manga.

— Ei! — Ela se virou. — Você não pode subir aí!

Ele já subia, depressa, as pernas compridas vencendo os degraus de dois em dois. Sabine largou o atiçador e correu atrás, com a lamparina balançando na mão. Ouviu os outros dois entrarem atrás dela e ouviu o ferrolho da porta correr. Não tinha fôlego para reclamar.

Duzentos e doze degraus. As coxas queimavam. O erudito não diminuiu o passo nem uma vez.

Quando ela chegou à sala da lanterna, ofegante, ele estava junto à gaiola, com a mão manchada de tinta espalmada no bronze. Não na marca dela. Na do oeste. A que estava fria havia trinta anos.

— Tire a mão daí — disse Sabine. A voz tremeu, e ela odiou isso.

Ele pareceu não ouvir. Os olhos cinzentos estavam fixos no cristal. A luz lá dentro vacilava sob a palma dele, fraca e irregular.

— Está faminta — disse ele, baixinho. — A senhora vem alimentando a pedra com o próprio corpo. Há anos. Sozinha. — Virou a cabeça e a olhou pela primeira vez, e o olhar era tão direto que ela o sentiu como uma mão no peito. — Guardiã, esta pedra está morrendo. Faltam duas semanas para ela se apagar. Talvez menos.

— Eu sei — disse Sabine.

Atrás dela, ouviu os outros dois chegarem ao alto da escada. Lucan respirava com dificuldade. Garrick não.

— Então por que — perguntou o erudito — a senhora ainda faz isso sozinha?

Sabine olhou para a gaiola. Para as quatro marcas de palma no bronze. A sua, quente e gasta. As outras três, frias havia trinta anos.

Depois olhou para os três homens parados na sua sala da lanterna, e o Sino Agonizante soou sobre a cidade, e pela primeira vez em seis anos ela não tinha resposta.

Três Homens que Ninguém Quis

Garrick

No fim, ela deixou que dormissem no depósito. Garrick desconfiava de que fosse menos por bondade e mais por não querer passar por cima de três corpos toda vez que descesse para buscar água.

O depósito ficava no segundo nível da torre, redondo como todos os cômodos dali, com uma janela estreita e prateleiras de jarros de óleo, sacos de carvão e corda. Cheirava a óleo de lamparina e lã velha. Lucan escolheu os sacos de carvão porque eram os mais macios. Emrys não dormiu. Sentou-se junto à janela, com o livro aberto nos joelhos, e escreveu à luz violeta que descia pelo vão da escada, vinda da lanterna lá em cima. Garrick deitou no chão com a espada ao lado e ouviu a Guardiã se mover acima dele.

Ela também não dormiu muito. Ele a ouviu subir à lanterna quatro vezes antes do amanhecer. Cada vez, ouviu o zumbido da pedra mudar de tom quando ela a tocava. Cada vez, levava um pouco mais de tempo para se acalmar.

De manhã, ela fez mingau para quatro.

Reclamou o tempo todo. Disse à panela que era desperdício de aveia. Mandou Lucan tirar as botas de cima da mesa. Disse a Emrys que, se ele tocasse de novo no livro de registros da avó dela, ela o jogaria escada abaixo, todos os duzentos e doze degraus, e contaria. Mas encheu quatro tigelas, e pôs o pote de mel no meio da mesa, onde todos alcançavam.

Garrick a observava por cima da borda da tigela.

Ela era pequena, com o topo da cabeça mal chegando ao ombro dele. O cabelo preto era cortado reto na altura do queixo, do jeito que os guardiões usavam para não se prender nas persianas. Havia uma mecha prateada à esquerda, na têmpora, brilhante como um fio de arame. Os antebraços eram duros e musculosos de tantos anos puxando as cordas das persianas. Os olhos eram castanho-escuros e cansados, com sombras cinzentas embaixo que o sono não ia consertar.

Ele já vira olhos assim. Na muralha oeste, no inverno passado, nos homens que ficaram três dias e três noites atrás do General enquanto o Vazio atravessava.

— Está me encarando — disse ela, sem levantar os olhos.

— Estou — disse Garrick.

Ela olhou para ele, então. Pareceu surpresa por ele não negar. Um pouco de cor subiu às faces dela, e ela franziu a testa para disfarçar.

— Pois pare.

Ele não parou. Voltou a comer.

Lucan se inclinou sobre a mesa e roubou a colher de mel da mão de Emrys.

— O Garrick não mente — disse a ela, animado. — É por isso que ele está aqui. Pergunte por que ele perdeu as divisas.

— Não me importa por que ele perdeu as divisas.

— Quebrou o maxilar de um homem na Chaleira de Cobre.

— Lucan — disse Garrick.

— Um escrivão do Chanceler — continuou Lucan, brandindo a colher. — Um sujeitinho com tinta no colarinho. Subiu numa mesa e chamou o General Malachai de Açougueiro do Desfiladeiro de Ferro. O Garrick pediu pra ele descer. Ele não desceu. Então o Garrick fez ele sentar.

Sabine pôs a colher na tigela. Estudou Garrick do outro lado da mesa, com cuidado, como se estivesse relendo a ordem.

— Você serviu sob ele — disse. — Sob o General.

— Eu estava na muralha atrás dele — disse Garrick. — Nos três dias em que ele segurou a Brecha Oeste. Passei flechas e água e segurei tocha. Vi ele lutar contra coisas que ainda vejo quando fecho os olhos. — Pôs a tigela de lado. — Eu não estava no Desfiladeiro de Ferro quando o resto aconteceu. Não sei o que ele viu lá. Sei o que vi na muralha. Aquele escrivão não viu nada.

A cozinha ficou em silêncio. Até Lucan tinha parado de sorrir.

— E mandaram você pra cá por isso — disse Sabine, devagar. — Para o pior posto da muralha.

— Mandaram os três — disse Emrys, da ponta da mesa. Não tirara os olhos do livro. — O pior posto da muralha, para os três piores homens disponíveis. Era para ser um insulto. O seu Marechal Brannock tem senso de humor.

Sabine se levantou e recolheu as tigelas. Junto à bacia, de costas para eles, disse:

— Não é o pior posto.

— Não? — disse Lucan.

— É o último. — Esfregou uma tigela com mais força do que ela precisava. — Tem diferença.

A corda da persiana da janela norte estava puída em dois lugares. Garrick viu isso já na primeira manhã. Ao meio-dia, tinha cortado um pedaço novo do rolo do depósito, saído pela saliência estreita do lado de fora da sala da lanterna, com o vento puxando o casaco, e passado a corda de volta pelas roldanas.

Sabine subiu a escada quando ele estava entrando de volta pela janela.

— Eu não pedi para você fazer isso — disse ela.

— Eu sei.

— Eu ia fazer amanhã.

— Naquela saliência? Com este vento? — Ele deu o nó e testou. A persiana subiu macia e desceu macia. — Você teria feito. Não duvido. Mas estaria cansada, porque não dormiu. Gente cansada cai.

Ela cruzou os braços.

— E você não se cansa.

— Eu me canso. Só peso mais. O vento tem que trabalhar mais.

Por um segundo ele achou que ela fosse rir. A boca dela tremeu num canto. Então ela se virou para a gaiola e pôs a mão no bronze, e o zumbido da pedra mudou, e o momento passou.

Do outro lado da sala, Emrys estava agachado junto à base da gaiola, com um pequeno instrumento de latão na mão. Parecia uma bússola com agulhas demais. Estava ali havia uma hora. A cada poucos minutos, anotava algo no livro.

— Qual é a gravidade? — perguntou Garrick.

Emrys não ergueu os olhos.

— Pior que ontem. Melhor que amanhã.

— Isso não é resposta.

— É a única honesta. — Emrys bateu no latão com um dedo comprido. — A cúpula está perdendo força em toda parte. Dá para sentir na cidade, se você prestar atenção. As lamparinas de fungo das ruas estão enfraquecendo. O trovão vem sem nuvens. O Rei está morrendo, e o Selo morre com ele. As lanternas foram feitas para segurar as bordas quando o centro enfraquecesse. É exatamente o que está acontecendo agora. E esta é a única que sobrou.

Sabine não disse nada. A mão dela continuou espalmada no corrimão.

Garrick olhou as três marcas de palma frias no bronze. Reparara nelas na noite anterior. Reparava em tudo numa sala em que pudesse ter que lutar.

— Para que servem aquelas? — perguntou.

— Para nada — disse Sabine. — Não mais.

Ao entardecer, ela percorreu a muralha, e ele a percorreu com ela.

Ela não o convidou. Ele não perguntou. Ela desceu da lanterna com uma lamparina e um pé de cabra, e ele pegou a espada do chão do depósito e a seguiu para fora pela porta da torre e pela escada curta até o caminho de ronda. Ela lhe lançou um olhar cortante e depois o ignorou.

O caminho de ronda corria para o norte, rumo ao Portão Oeste, e para o sul, rumo à curva onde a muralha velha encontrava a pedra mais nova da estrada da Fortaleza. A cada poucas centenas de passos havia o cepo de uma torre, sem teto e escura, com bronze enferrujado aparecendo entre os escombros no alto.

— A Quarta Lanterna — disse Sabine, ao passarem por uma. — Fechou quando eu tinha sete anos. A Quinta fechou quando eu tinha doze. Minha avó foi a todos os fechamentos. Dizia que alguém devia estar lá quando a luz se apagasse, para ela não se apagar sozinha. — Enfiou o pé de cabra numa fresta do caminho, soltou uma pedra frouxa e a jogou por cima do parapeito, no bosque. — Diziam a ela que a cúpula era forte. O Rei era forte. Uma lanterna bastava.

— E ela acreditava?

— Ela dizia: “Uma lanterna basta até a noite em que não basta.” — Sabine olhou para o Bosque Sangrento. A névoa subia entre as árvores, mais espessa do que ao meio-dia. — Depois ela morreu, e eu virei a lanterna única.

O vento veio do bosque, frio e úmido, com cheiro de casca molhada e de algo azedo por baixo, como água parada. Sabine estremeceu. Tentou esconder erguendo a gola.

Garrick tirou o casaco e o estendeu.

— Não — disse ela.

— Você está com frio.

— Estou sempre com frio. É a pedra. Ela tira o calor da gente. — Olhou para o casaco, depois para ele. — Você vai congelar.

— Nasci no Pavio em plena estação fria. Minha mãe dizia que saí quente. — Continuou segurando o casaco. — Pegue, Guardiã. Ou eu mesmo visto em você, e você me bate com esse pé de cabra, e depois eu tenho que explicar ao Comando da Muralha como uma mulher com metade do meu tamanho quebrou meu nariz.

Dessa vez ela riu. Saiu curto e surpreso, como se ela tivesse esquecido como era. Pegou o casaco e o puxou sobre os ombros. Chegava aos joelhos. Ela o segurou fechado na garganta com uma mão, e ele a viu inspirar sem querer, do jeito que as pessoas fazem quando algo é quente e tem o cheiro de outra pessoa.

— Sabine — disse ela. — Não Guardiã. Se vai comer meu mingau e consertar minhas cordas, pode usar meu nome.

— Sabine — disse ele.

Ela o olhou por um instante longo demais. Depois se virou e seguiu em frente, e ele a seguiu, e nenhum dos dois disse mais nada até a porta da torre.

O primeiro Espreitador veio uma hora antes da meia-noite.

Garrick estava na escada entre o depósito e a cozinha quando sentiu a torre estremecer. Não foi um som. Foi a própria pedra, um tremor fundo que subiu pelas botas. Lá em cima, o zumbido da lanterna subiu até virar um lamento.

Ele subiu os degraus de três em três.

Na sala da lanterna, Sabine já estava junto à gaiola, com as duas mãos no corrimão. O cristal ardia. A luz violeta jorrava da janela oeste e, embaixo, na face da muralha, algo gritava.

Lucan subiu atrás de Garrick com uma besta que achara em algum canto do depósito. Emrys já estava lá, colado à janela norte, com o livro apertado contra o peito.

— Quantos? — disse Garrick.

— Quatro — disse Emrys. — Quatro na muralha. Mais nas árvores.

Garrick olhou pela janela oeste. À luz da lanterna, ele os viu. Formas negras blindadas, cada uma do tamanho de um cavalo, escalando a pedra em patas longas e articuladas. Uma estava em chamas. Enquanto ele olhava, ela se desprendeu e caiu na névoa. Três ainda vinham. Tic-tic-tic. As lâminas mordiam a pedra velha e puxavam.

Atrás dele, Sabine fez um som pequeno. Mal chegava a um suspiro. Era o som que uma pessoa faz ao levantar algo pesado demais.

Garrick se virou.

O rosto dela estava branco. O sangue corria do nariz, sobre o lábio, até o queixo. Os braços tremiam do ombro ao pulso. A luz na gaiola pulsou uma vez, enorme e brilhante.

Depois se apagou.

A sala da lanterna mergulhou na escuridão. A única luz era o brilho púrpura fraco da cúpula lá no alto, distante e fino como fumaça. Os joelhos de Sabine cederam, e Garrick a segurou antes que ela batesse no chão. Estava fria até o fundo, tão fria quanto o bronze.

— Acenda — disse Lucan. A voz falhou. — Sabine, acenda de novo.

— Não consigo — sussurrou ela contra o peito de Garrick. — Não sobrou nada.

Abaixo da janela oeste, no escuro, o estalar ficou mais alto.

Garrick a pousou com delicadeza contra a gaiola. Levantou-se. Sacou a espada, e a lâmina longa sussurrou para fora da bainha no escuro. Foi até a janela e olhou para baixo.

Três formas negras escalavam a muralha. Já estavam na metade da torre. E não diminuíam.

Espere — Garrick Stane está de espada na mão, a lanterna acabou de se apagar e três vultos escalam a muralha.

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