A luz apagada
Alda
Alda ouviu o casco partir antes de enxergar o barco. Estava debaixo do telheiro, ajustando a borda de uma tábua de carvalho, quando o estalo atravessou o rumor da chuva. Conhecia aquele som. Madeira boa podia gemer a vida inteira sem se romper; o que viera da enseada fora curto, seco, seguido por um grito que o vento levou para longe da praia.
Soltou a enxó. A lâmina entrou no cepo e ficou tremendo. Além da porta, o alto da torre estava escuro.
Runa acendia a cesta de fogo antes do último clarão da tarde. Fazia isso mesmo no verão, mesmo quando os pescadores diziam conhecer cada pedra pelo nome. Naquela noite, a névoa cobria o canal de entrada, e a ausência da luz deixava o mar sem distância. Alda pegou a corda pendurada na parede e correu para a areia.
Uma embarcação de carga se inclinava sobre o recife exterior. A vela, ainda erguida pela metade, puxava o mastro para a água. Dois vultos se agarravam à amurada. Um terceiro apareceu numa crista de espuma e desapareceu antes que Alda pudesse decidir se era pessoa ou barril.
— Afastem a vela! — gritou ela, embora ninguém pudesse ouvi-la do barco.
A pequena canoa dos remendos estava virada junto ao estaleiro. Alda enfiou o ombro debaixo da borda. A canoa tinha mais remendos que madeira original e fora feita para atravessar o porto, jamais o recife numa noite assim. Ainda era um barco. Empurrou até que uma onda a erguesse.
— Sozinha, ela vai virar antes da pedra comprida.
A voz veio do lado do armazém. Um homem desceu o declive carregando um remo e uma vara. Não era dos pescadores que trabalhavam naquela semana. Tinha o cabelo preso na nuca, um casaco curto de lã e a tranquilidade imprópria de quem já escolhera o perigo que ia enfrentar.
— Então empurre — respondeu Alda.
Ele a olhou por um instante, talvez medindo a ordem, talvez o barco. Depois tirou o casaco, jogou-o na areia seca e entrou na água. Onda nenhuma o poupou. Quando a canoa flutuou, ele agarrou a popa e esperou que Alda subisse.
— Eu conheço a passagem — disse.
— E eu conheço as tábuas. Se disser que precisa ir pela direita, vá devagar. A costura daquele lado ainda está nova.
O homem assentiu sem discutir. Isso já o distinguia dos últimos três marinheiros que haviam pedido reparos e depois explicado a Alda como fazer o próprio trabalho. Ela se acomodou à frente, com a corda entre os pés. Ele tomou o remo maior. Perto da praia, a canoa respondeu bem. No primeiro avanço para fora do abrigo, a água entrou sobre as pernas dela.
O desconhecido não tentou vencer a onda. Deixou a proa subir, segurou a direção e atravessou por trás da espuma. Alda sentiu a madeira flexionar sob o corpo. Confiava naquilo que havia feito com as mãos; o resto precisava demonstrar seu valor.
— Seu nome? — perguntou, sem se voltar.
— Torben.
— Alda.
— Eu sei.
Ela teve vontade de olhar. Não olhou. Uma ponta escura de pedra surgiu à esquerda, tão próxima que conseguiria alcançá-la com o remo. Se Torben conhecia seu nome, podia esperar para explicar. O barco grande deu outro estalo. A vela rasgou, e uma faixa de tecido chicoteou a água.
O primeiro homem estava agarrado a uma caixa vazia. Torben conduziu a canoa pelo lado em que a corrente o empurrava, e Alda lançou a ponta da corda. O marinheiro tentou pegá-la, errou, tossiu. Ela deitou o peito sobre a borda, suportou o jorro gelado na gola e conseguiu prender a corda debaixo do braço dele.
— Não suba ainda. Olhe para mim. Como se chama?
— Odel.
— Odel, encoste os pés na madeira. Isso. Agora espere.
Torben transferiu o peso para o outro lado. Os dois puxaram juntos, num movimento que pareceu arrancar a canoa do próprio mar. Odel caiu entre os bancos, vomitando água. O barco afundou um pouco. Alda puxou a pequena concha de madeira e começou a esvaziar o fundo.
Uma mulher ainda estava no navio. Mantinha um braço preso à grade de carga; com o outro, segurava um cofre pequeno contra o peito. A faixa da vela passou perto de seu rosto.
— Largue a caixa! — gritou Torben.
A mulher moveu a cabeça. O vento podia ter levado a ordem, mas Alda reconheceu a recusa.
— Ela está presa — disse. — A manga.
Torben enfiou a vara entre duas tábuas partidas e manteve a canoa junto ao casco. Alda se ergueu. O fundo escorregadio pareceu fugir debaixo de seus pés. Agarrando uma borda coberta de alcatrão, alcançou a manga da mulher e sentiu que o pano estava enrolado num prego torto. Puxar apenas rasgaria o braço.
— Preciso da sua faca.
Torben soltou o cabo sem perguntar para quê. Alda apanhou a arma e cortou o tecido junto ao ombro. A mulher veio para a frente de repente, pesada de água e pânico. O cofre bateu no joelho de Alda. Por um instante, as três pessoas penderam para o mesmo lado, e a borda da canoa sumiu sob uma língua negra.
— Para baixo! — ordenou Torben.
Alda caiu de joelhos, abraçada à mulher. Odel, apesar dos tremores, rastejou para a popa. A canoa se endireitou. Torben abandonou a vara presa no navio e retomou o remo. Uma pancada surda os alcançou quando o mastro desabou atrás deles.
A mulher não gritava. Apertava o cofre com as duas mãos e tinha os olhos fixos no espaço que acabara de abandonar. Alda puxou o capuz molhado sobre os cabelos dela. Não adiantava muito, mas era alguma coisa que se podia fazer.
— Há mais alguém?
— O mestre passou para o bote — respondeu Odel. — Antes de batermos. Dois homens com ele. O bote foi para o sul.
— Você viu os três saírem? — insistiu Alda.
Ele assentiu, batendo os dentes. Não era garantia de que chegariam à costa, apenas de que não estavam debaixo do casco. Torben apontou a proa para uma faixa de água mais lisa. Os músculos do pescoço dele se contraíam a cada remada. Alda voltou a tirar a água. O som da concha contra o fundo deu ritmo ao trajeto inteiro.
Na praia, uma fileira de tochas os esperava. Bersi, o ferreiro, entrou até a cintura e puxou a canoa, soltando imprecações contra o tempo, os barcos e a teimosia geral dos vivos. Yrsa estava atrás dele com duas mantas. Ao ver a filha, não perguntou se ela perdera o juízo. Fazia vinte e oito anos que aprendia a adiar as perguntas mais inúteis.
— A mulher primeiro — disse Alda.
Yrsa cobriu a passageira e a conduziu ao estaleiro. Odel tentou ficar de pé sozinho, mas caiu de joelhos. Bersi o ergueu como se carregasse um saco de cevada. Torben ficou na água até Alda saltar para a areia. Quando ela lhe devolveu a faca, ele viu sangue na mão dela.
— Cortou?
— Farpa.
Ele estendeu a palma, pedindo sem tocar. Alda mostrou o dedo. Era uma lasca funda, perto da unha, cercada por alcatrão. Torben segurou o pulso dela com uma delicadeza que não combinava com a força usada nos remos e examinou a ferida à luz da tocha de Bersi.
— Madeira salgada. Tire antes de dormir.
— Pretendia arrancar o dedo inteiro. Mas seu conselho parece mais barato.
Ele sorriu. Só então o rosto deixou de parecer parte daquela noite. Havia uma pequena falha na sobrancelha direita e rugas estreitas nos cantos dos olhos, talvez de sol, talvez de olhar longe. Alda retirou a mão antes que o calor daquele contato a distraísse.
A passageira se chamava Nessa e tinha trinta e seis anos. Disse isso junto ao braseiro, já coberta com a manta seca de Yrsa, como quem oferece informações que ninguém poderá tomar à força. Era viúva e viajara para buscar tecido de lã numa povoação do outro lado da baía. Odel, com vinte e cinco anos e uma vergonha que não conseguia esconder, confessou que aquela era sua terceira viagem como marinheiro pago.
Alda não perguntou se ele sabia nadar. O tremor de suas mãos já bastava para acusá-lo de tudo que ele temia ter feito errado.
— A luz estava no lugar de sempre — disse Odel. — Uma chama pequena, baixa. O mestre jurou que era a torre.
Bersi ergueu a cabeça.
— A torre ficou apagada desde que escureceu.
Odel olhou de um para outro, procurando a pessoa que acreditaria nele.
— Eu vi. Um fogo amarelo. Passamos pelo alinhamento e fomos direto às pedras.
Alda pensou na torre escura, na posição do casco. O recife exterior ficava longe da linha de entrada. Um homem podia errar na névoa. Um fogo no lugar errado também podia ensiná-lo a errar.
Nessa puxou o cofre para debaixo do banco. A tampa tinha uma fenda, e a água escura formava uma poça junto aos pés dela.
— Tem algo aí que precise secar? — perguntou Alda.
— Coisas minhas.
Não fora uma resposta. Alda reconheceu o direito de não dar outra. Apanhou uma cunha fina e estendeu para a mulher.
— Abra ao menos uma fresta. O que estiver molhado vai apodrecer fechado.
Nessa recebeu a ferramenta. Seus dedos eram fortes, com marcas de agulha nos nós. Não parecia alguém acostumada a transportar um tesouro. Parecia alguém que conhecia o preço de coisas pequenas.
Torben entrou por último. Vestira o casaco sem secar a camisa, e a lã gotejava. Yrsa apontou para um gancho onde havia uma túnica de Leif, o pai de Alda. A peça estava ali havia cinco anos, reservada para trabalhadores surpreendidos pela chuva. Ainda assim, Alda sentiu o impulso de impedir que aquele homem a usasse.
O impulso passou antes de virar palavra. Roupa era roupa. Ela mesma remendara os cotovelos depois que Leif morrera.
— Não me serve nos ombros — disse Torben, segurando a túnica pela gola.
— Serve melhor que febre — respondeu Yrsa.
Ele saiu atrás da divisória das velas. Alda se concentrou na farpa, trabalhando com a ponta de uma agulha. A mão tremia agora que já não precisava salvar ninguém. O sangue misturado à água formou um fio rosado na tigela.
— Eu seguro a luz — disse Torben quando voltou.
Não acrescentou que a mão dela estava instável. A túnica ficara apertada, como previra, e trazia no punho o remendo azul que Alda fizera num inverno comprido. Ela prendeu o dedo contra a mesa. A lasca saiu inteira. A dor diminuiu tão depressa que deu lugar a um cansaço fundo.
Do lado de fora, passos subiram o caminho. Hakon entrou acompanhado de dois homens que administravam o armazém. Vestia um manto quase seco. Aos quarenta e nove anos, cultivava uma barba aparada e a maneira de franzir a testa antes que outra pessoa terminasse de falar. Era o administrador do porto desde a morte do último chefe da enseada. O cargo devia ter sido temporário. Durava sete anos.
— Quantos? — perguntou.
— Dois resgatados aqui — respondeu Alda. — Outros três saíram no bote e foram para o sul. Precisam mandar homens pela praia.
Hakon deu a ordem a um acompanhante. Não era incapaz de fazer uma coisa útil, e Alda procurava se lembrar disso quando o homem a irritava. Ele então examinou Nessa, Odel e o cofre.
— Toda carga recolhida do recife deve ser inventariada no armazém.
Nessa apoiou o pé na tampa da caixa.
— Minha bagagem não é carga abandonada.
— É o costume da enseada.
— O costume vale para mercadoria sem dono — disse Alda. — Você acabou de ouvir o nome da dona.
Hakon olhou para ela com paciência ensaiada.
— Depois de amanhã, à tarde, haverá audiência das contribuições. Você poderá discutir costumes com todos. Até lá, temos ordens para manter o porto em funcionamento.
— Comece pela torre.
O silêncio que se seguiu incluiu o crepitar do braseiro. Hakon esfregou um dedo na fivela do manto.
— Runa deve explicar por que deixou a luz apagar.
— Então vou perguntar a ela — disse Alda.
— Hoje não. O caminho está perigoso.
Alda ergueu a mão enfaixada.
— Eu reparei que a noite está ruim.
Torben abaixou a cabeça. Um sorriso rápido lhe moveu a boca, mas ele não interferiu. Hakon saiu depois de mandar os sobreviventes se apresentarem pela manhã. Nessa permaneceu imóvel até os passos desaparecerem.
— Foi ele quem procurou sua caixa? — perguntou Alda.
A mulher fechou os olhos.
— Amanhã eu respondo.
Yrsa pôs mais um pedaço de turfa no fogo e anunciou que Nessa dormiria em sua casa. Odel ficaria com Bersi. Por trás do tom prático, Alda escutou a advertência materna: pessoas que quase morreram precisavam de sopa e sono antes de interrogatório. Concordou. Quando todos saíram, o estaleiro pareceu grande demais.
Torben ainda estava junto da porta. Segurava a própria camisa molhada, torcida numa trouxa.
— Você disse que me conhecia — lembrou Alda.
— Conhecia seu nome. Vim perguntar por um reparo. Bersi me apontou o telheiro antes de ouvirmos o navio.
— Seu barco está onde?
— No cais de dentro. Um remo quebrado e um banco rachado. Nada que mereça uma noite sua.
Ela gostou de ele ter considerado a noite uma coisa que lhe pertencia.
— Volte de manhã. Se o telhado não cair até lá, vejo.
Torben hesitou.
— Eu conheci esta enseada quando era mais novo. A passagem mudou, mas o recife não anda. Aquela luz que Odel viu estava no baixio do leste.
— Você viu também?
— Quando chegamos perto do casco. Quase apagada. Pensei que alguém tivesse descido com uma tocha para ajudar.
Alda voltou os olhos para a porta. A torre não ficava no baixio. Ficava acima das casas, sobre um caminho de pedra, alta o suficiente para que a luz aparecesse mesmo por trás da chuva. Seu pai lhe ensinara a distinguir os dois lugares antes de deixá-la brincar na areia.
Pegou a lanterna do gancho.
— Ainda vai à torre? — perguntou Torben.
— Vou.
Ele pendurou a camisa numa estaca e tomou a segunda lanterna. Não pediu que ela ficasse, nem anunciou que a protegeria. Esperou que Alda abrisse a porta.
No caminho, o vento levou o cheiro de turfa e trouxe outro, amargo: sebo queimado muito perto da praia. Alda parou junto a um abrigo de pedras usado para guardar redes. No chão, protegido da chuva por uma laje, havia um caco de barro com gordura recém-apagada.
Abaixou a lanterna. Um pedaço de corda fina saía do pavio. A fibra era vermelha, tingida para marcar as amarras do armazém de Hakon.
Ainda não sabia quem havia acendido aquele fogo. Mas alguém escolhera o lugar. E, antes que três dias terminassem, ela precisaria impedir que escolhessem outro.
O barco sem dono
Alda
Runa recebeu a pergunta sobre a luz com uma chave na mão. Estava sentada no degrau inferior da torre, um pé inchado dentro de uma bacia. Ao lado, uma cesta ainda cheia de lenha miúda esperava a subida. Tinha sessenta e um anos e raramente aceitava que alguém carregasse qualquer coisa por ela.
— A fechadura não é minha — disse, estendendo a chave. — Hakon mandou trocar ao meio-dia. Falou em prevenir furto de combustível.
Alda examinou o ferro. A chave tinha um dente quebrado. Na porta, marcas recentes cercavam a argola. Torben se agachou para olhar, mas não tocou em nada.
— Tentou forçar? — perguntou ele.
— Com esse pé? Eu mal consigo xingar sem apoio. Mandei uma menina ao armazém. Disseram que um homem viria acender. Esperei até ouvir o desastre.
Runa apontou a bacia com a boca dura. Torcera o tornozelo de manhã, levando sebo pela escada. Havia pedido uma ajudante havia meses; Hakon afirmava que um porto pequeno não podia alimentar duas pessoas para cuidar de um único fogo.
Alda pôs o caco encontrado no baixio sobre o degrau. Runa chegou a mão perto e recuou antes de tocar.
— Não é da minha cesta.
— Eu sei. Você usa recipientes fundos.
— E não desperdiço amarra boa em pavio. Quem queimou isso estava com pressa.
Torben retirou o broche do próprio casaco e o enfiou entre a argola e a madeira da porta. Alda viu o movimento dos dedos, preciso sem ser ligeiro demais. Ele testou uma vez, largou o broche e pegou uma lasca de ferro guardada na base da torre para limpar a cinza.
— Posso? — perguntou a Runa.
— Se quebrar, deixo a conta em nome de Hakon.
A porta cedeu com um pequeno gemido. Torben não sorria quando a segurou aberta. Alda recolheu a chave quebrada e subiu. Na plataforma, a cesta de ferro estava fria, seca debaixo da cobertura, com combustível suficiente para iluminar a entrada até o amanhecer. Acendeu um punhado de estopa e esperou que a chama pegasse nos gravetos. Só então percebeu quanto precisava daquela luz.
O mar lá embaixo continuava revolto. Nenhuma sombra de barco se movia junto ao recife. No caminho sul, duas tochas avançavam devagar: os homens enviados em busca do bote. Alda apertou o parapeito. O que podiam fazer naquela noite já havia sido feito; o que não podiam pesava mais.
Torben ficou na saída da escada, deixando espaço entre os dois.
— Você abre muitas portas? — perguntou ela.
— Mais amarras. Algumas portas.
— É um ofício?
— Já foi necessidade.
Ele não ofereceu uma história para tornar a resposta mais agradável. Alda achou prudente guardar a pergunta. Runa os chamava lá de baixo, pedindo a tigela de comida esquecida num degrau. A vida precisava de cuidados menores mesmo enquanto uma dúvida grande ocupava tudo.
Ao amanhecer, o bote chegou à praia sul com os três homens vivos. O mestre tinha um braço machucado; os outros haviam passado a madrugada puxando a embarcação por uma faixa de lodo. Bersi trouxe a notícia antes do pão, e Yrsa abriu a porta para agradecer a quem quer que estivesse escutando. Alda, que dormira pouco, apoiou a testa na borda da mesa. Só depois conseguiu comer.
Torben a esperava no estaleiro com o remo quebrado. O banco do barco permanecia no cais. Era um barco curto, próprio para levar um piloto entre embarcações maiores e a costa. Tinha marcas de uso honesto e uma pequena placa de madeira escura na proa, sem símbolo de senhor ou mercador.
Alda se ajoelhou no banco e apertou a rachadura com os polegares.
— Você salta para dentro quando chega à praia?
— Às vezes.
— Pare.
— Esse é o reparo?
— É a parte gratuita. A outra custa prata.
Torben soltou uma risada baixa. Alda marcou onde cortaria uma travessa nova. Gostava de trabalhar quando a resposta estava dentro da madeira. Um homem podia esconder intenção em cada palavra; uma tábua rachada mostrava a direção exata do dano.
Odel apareceu carregando a caixa de ferramentas dela. Deixara a manta com Bersi e vestia uma túnica emprestada, larga nos ombros.
— Quero ajudar — disse.
— Já carregou madeira?
— Barris.
— Madeira não reclama se você rolar. Mas eu reclamo. Comece levando essas aparas para o fogo de Runa.
Ele pareceu aliviado com a tarefa pequena. Alda conhecia aquele alívio. Depois que Leif morrera, as pessoas lhe haviam oferecido conselho, pena e silêncio. O primeiro homem que lhe pedira um serviço fora Bersi, com um cabo de martelo partido. Ela lembrava o peso do martelo até hoje.
Dois homens chegaram pelo caminho do armazém antes que Alda terminasse de tirar o banco. Um deles, de barba cor de palha, trazia uma tira de pano com o sinal do porto. Amarrou-a à proa do barco de Torben.
— O que está fazendo? — perguntou Alda.
— A embarcação fica retida para garantir as taxas de socorro e abrigo do navio naufragado.
Torben se ergueu devagar.
— Este barco não pertence ao navio.
— Você participou do recolhimento da carga.
— Recolhemos duas pessoas — disse Alda. — Posso cobrar do porto pela minha canoa também?
O homem evitou seu olhar. O segundo mantinha a mão junto à faca, mais para lembrar que a tinha do que por vontade aparente de usá-la. Torben ficou imóvel, com os dedos abertos. Alda notou que ele acompanhava os pés do homem armado, em vez de mirar a arma.
— Hakon recebeu ordem de quem? — perguntou ela.
— Ele é o administrador.
— Isso eu consigo ver todos os dias. Perguntei de quem veio a ordem.
Não houve resposta. Os homens saíram depois de avisar que remover a tira seria desacato. Alda segurou a borda do barco para não arrancá-la naquele instante.
— Vou falar com ele — disse Torben.
— E vai levar o remo quebrado?
Ele olhou para o objeto ainda em sua mão.
— Parece uma ameaça ruim.
— Parece uma pessoa que aceitará qualquer preço para ir embora. Termine o banco comigo primeiro.
Torben fitou a tira do porto. Seu rosto fechou, e Alda teve a impressão de enxergar uma porta que ele sabia abrir, mas preferia manter trancada. Depois, ele pousou o remo e pegou a travessa de carvalho. Ficou com o trabalho pesado enquanto ela marcava as juntas.
Na segunda tentativa de encaixe, suas mãos se encontraram sobre a mesma cunha. Ele retirou a dele, sem pressa teatral, e Alda odiou o próprio interesse pelo pequeno espaço que ficou entre os dedos. Não buscava um homem. Buscava atravessar três dias sem perder o estaleiro ou acusar alguém com base num pavio.
— Você pode segurar — disse ela.
Torben firmou a travessa. Alda bateu com o malho. O som atravessou o cais e trouxe de volta uma ordem que Hakon acabara de tentar tirar dali.
Nessa voltou perto do meio-dia. Levava o cofre embrulhado num pano, agora seco por fora. Pediu para falar longe dos trabalhadores. Alda apontou a casa das velas, um cômodo baixo onde Yrsa guardava linho, agulhas grossas e rolos de corda. Torben fez menção de se afastar.
— Ele pode ficar — disse Nessa. — Foi buscar a mim também.
Alda entrou por último e fechou a porta. A janela estreita deixava uma faixa de luz sobre o chão. Nessa pôs o cofre numa arca e retirou a tampa com cuidado. Dentro havia duas mudas de roupa, um saquinho de moedas e uma tabuinha coberta por marcas de carga.
— Meu irmão fazia contas para o armazém — explicou. — Morreu de febre na última primavera. Eu fui buscar coisas que ficaram numa casa alugada além da baía. Encontrei isto na bolsa dele.
A tabuinha tinha riscos agrupados, alguns nomes abreviados e pequenos sinais junto às quantidades. Alda não conseguia ler tudo. Reconheceu, porém, o sinal usado para o sebo da torre: uma cesta entre dois traços. Leif gravara o mesmo desenho em recipientes que preparara para Runa.
— O nome do meu irmão era Erec. Ele me escreveu que as contas não fechavam. Pensei que fosse reclamação de homem mal pago. Quando vi a tabuinha, procurei Hakon.
— Quando? — perguntou Alda.
— Há seis dias. Antes da viagem. Ele disse que Erec se enganara. Pediu que eu trouxesse qualquer outro registro que encontrasse.
Torben se inclinou, sem tocar na madeira.
— Por que acha que ele queria essa caixa ontem?
Nessa respirou pelo nariz, controlando alguma coisa que a voz não podia carregar inteira.
— Porque o homem do armazém que me acompanhou até o barco perguntou se o cofre estava trancado. E porque Hakon não perguntou se eu estava ferida quando entrou no estaleiro.
Aquilo era indício de interesse e de crueldade possível; ainda não era prova de naufrágio provocado. Alda puxou um banco e se sentou. O gesto ajudou Nessa a diminuir o aperto das mãos.
— Vamos separar o que sabemos do que tememos — disse. — Eu achei um fogo no lugar errado. Runa recebeu uma chave quebrada depois que trocaram a fechadura da torre. Você tem contas que Hakon queria ver. São três coisas. Podem estar ligadas. Precisamos mostrar como.
Nessa abriu um pedaço de linho que envolvia a tabuinha. Dentro, dobrado duas vezes, havia um pergaminho fino, manchado numa das pontas. Alda sentiu o cheiro de água velha antes de perceber as letras.
— Erec escrevia melhor do que falava — disse a mulher. — Eu leio pouco. Pode tentar?
Alda aprendera com um viajante que trocara lições por reparo de barco. Lia devagar, sobretudo quando a escrita corria. Aproximou a folha da janela. Havia uma lista de sacos e barris entregues para manutenção da torre, seguida de um nome repetido: Hakon. Na parte inferior, Erec anotara que a metade dos suprimentos fora levada para um navio particular. Não dizia por ordem de quem.
Torben apoiou um dedo ao lado de um sinal, preservando o pergaminho.
— Isso é marca de conferência. Deve existir uma segunda folha com o recebedor.
— Na casa de contas — disse Alda.
A construção ficava além da ponte oriental, separada do armazém por um braço de mar que a enchente tornava largo. O irmão de Nessa trabalhava ali quando os navios chegavam em grupo. Hakon mantivera o prédio fechado desde a morte dele, alegando vazamento no telhado.
— Como sabe ler marca de conferência? — perguntou Alda a Torben.
— Pilotos também precisam receber o que lhes devem.
Era plausível. Ele sabia disso. A resposta ficou entre os dois, lisa demais.
Nessa fechou o cofre, guardando a tabuinha e a folha. Alda pediu permissão para copiar as quantidades num pedaço de madeira clara. A mulher concordou, mas acompanhou cada movimento. Não queria que sua vida se transformasse num assunto tratado por pessoas que sabiam mais palavras.
Quando Alda terminou, devolveu o pedaço de carvão ao pote.
— O original fica com você. Se precisarmos mostrá-lo, será na sua presença.
— E se vierem buscá-lo?
— Minha mãe tem um armário para farinha que ninguém, além dela, consegue abrir sem estragar a porta.
Nessa soltou um riso que terminou quase em choro. Aceitou guardar ali o cofre. Yrsa escutou o pedido sem exigir o conteúdo da caixa; perguntou apenas se a farinha podia ficar num saco por dois dias. A dignidade daquele gesto apertou a garganta de Alda de um jeito inesperado.
A maré enchia quando Torben e Alda voltaram ao cais. Odel se esforçava com uma corda grossa, tentando impedir que a canoa dos remendos batesse num poste. O banco novo do barco de Torben estava seco e pronto. A tira de apreensão continuava na proa.
— Por que não foi embora antes de eu chegar? — perguntou Alda. — Poderia ter levado o barco na primeira luz.
Torben encostou o pé no cabeço do cais.
— Runa precisava de alguém para subir o combustível. Depois seu ferreiro pediu ajuda com o mestre do navio. Quando terminei, você já estava aqui.
— Então ficou por tarefas.
Ele a olhou de frente.
— No começo.
Uma gaivota desceu entre os dois e roubou um pedaço de casca deixado por Odel. Alda se abaixou para espantá-la e teve tempo de esconder um sorriso que não tinha intenção de conceder. Quando se ergueu, Torben examinava a ponte oriental.
O lugar ligava o cais à pequena ilha onde ficava a casa de contas. Tinha cinco apoios de madeira fincados no lodo e tábuas transversais cobertas de sal. Leif a reparara no último verão em que vivera. Alda continuara o serviço depois da morte dele, até Hakon entregar a manutenção a seus homens.
— Aquele apoio está solto — disse Torben.
Ela seguiu a direção do olhar. Um poste junto à ilha se movia mais que os outros a cada onda. Não devia se mover tanto, mesmo com a corrente forte.
— Fiquem aqui.
Alda avançou pela ponte. A madeira estava escorregadia, mas firme sob os primeiros passos. No meio, enxergou uma faixa clara de corte junto a uma travessa. Agachou-se. A cunha que mantinha o suporte pressionado desaparecera. Não fora arrancada pela água; havia lascas recentes em volta do encaixe.
Odel pisou atrás dela, curioso demais para obedecer. A ponte cedeu um pouco. Alda se virou a tempo de vê-lo agarrar a corda lateral.
— Recue devagar. Um pé de cada vez.
Torben estava na entrada, já descalçando as botas. Alda estendeu o braço para Odel e o fez passar à frente. O rapaz chegou ao cais com o rosto sem cor. Um estalo subiu dos apoios.
Alda não tentou correr. Distribuiu o peso, dando passos curtos, até alcançar a mão de Torben. Ele a puxou apenas depois que ela firmou o pé na pedra. Atrás, uma ponta da ponte desceu na água, levando o acesso à ilha.
Por um momento, ninguém falou. Odel esfregava o rosto com as palmas. Torben mantinha os dedos no braço de Alda, e ela sentia o polegar dele através da lã molhada.
Do armazém, veio o som de uma porta batendo. Hakon observava o cais sob o abrigo do telhado. Não pareceu surpreso com a ponte quebrada.
Alda soltou o braço devagar.
— Ele queria saber se chegaríamos até as contas — disse.
Torben olhou para a água entre o cais e a ilha.
— Agora sabe que vamos tentar.

























