A Cadeira que Falta
Lena
As crianças na planta baixa não têm pernas.
Têm uma mesa de artesanato, um painel de marca, um cesto de giz de cera de bom gosto e uma caixa de destaque que promete DIVERSÃO INTERATIVA EM FAMÍLIA numa fonte que sei que custa dinheiro. Não têm cadeiras. Cada adulto na disposição proposta para o camarote dos proprietários ganha um assento acolchoado. Pelo visto, esperam que as crianças levitem.
Tiro uma caneta vermelha do meu estojo de lona verde e desenho um quadradinho junto à mesa.
— É uma coluna — diz a mulher à escrivaninha.
— O quadrado?
— Onde pôs a cadeira. Coluna estrutural. Não pode mudar de lugar.
— Eu ia pedir com muito jeito.
Maren Ellis me olha por cima da tela. Tem os olhos atentos de quem já resolveu seis problemas esta manhã e espera que três deles voltem com outras roupas. Seu cabelo escuro está preso para trás. Seus sapatos parecem capazes de deixar um patrocinador para trás numa corrida.
— Me diga que trouxe a versão sem marca — diz.
Ergo a pasta azul. — Trouxe quatro. Uma para quem precisa de setas.
— Essa vai ser a mais popular.
Atrás dela, uma impressorinha solta etiquetas com a irritação paciente de uma máquina convidada para uma festa. O escritório cheira a adesivo aquecido e café. Pelo vidro vejo uma faixa de campo verde, não o glamour do estádio na fotografia do contrato, mas grama de treino, um funcionário de manutenção virando uma máquina na borda. Os Comets me deram três dias remunerados para melhorar as atividades para as famílias no evento de agosto. Planejamento na quinta-feira. Preparação na sexta. Execução no sábado. Meu contrato termina quando o equipamento emprestado volta para onde pertence.
Três dias bastam para entregar um resultado útil. Também são poucos o suficiente para sobreviver se esse resultado for o último trabalho que conseguir aqui.
Maren vira a planta impressa de lado. — Carter mandou ontem à noite. É o contato com os patrocinadores. Os quarenta e oito lugares à mesa são para o almoço dos doadores. Não são nosso público total.
— Ótimo. A lista de inscritos é maior que quarenta e oito.
— E no evento as famílias circulam pelo campo e pelas estações internas. Você fica com o canto de atividades e qualquer espaço tranquilo que possamos honestamente oferecer. Não quero prometer uma sala que não conseguimos manter quieta.
Gosto dela por isso. Uma promessa que não pode ser cumprida não é um atrativo. É uma reclamação com chegada marcada.
— O que tiveram no ano passado?
— Um fotógrafo, uma pessoa que fazia pintura facial e várias crianças que não queriam nenhum dos dois.
— Parece caro.
— Foi.
Ela empurra um envelope de recibos para mim. — O teto para materiais é seiscentos. Alimentação é separada. As horas da equipe existente também. Tudo o que for alugado ou comprado para suas estações entra neste envelope. Posso aprovar seu plano. Arturo aprova o que pode acontecer fisicamente no camarote.
O nome se prende por dentro das minhas costelas.
É um nome bastante comum. Deve haver milhares de Arturos trabalhando em prédios. Milhares com sapatos sensatos e absolutamente nenhuma ligação com a pior conversa final dos meus vinte e tantos anos.
— Arturo? — pergunto no que espero ser o tom de uma prestadora de serviços confirmando o próximo contato.
— Ruiz. Operações dos camarotes. Vai nos encontrar aqui.
Pouso a caneta antes que minha mão faça algo pouco profissional, como esfaquear o mapa de assentos dos doadores.
Maren percebe. É claro que percebe.
— Você o conhece?
— A gente se conhecia.
— Conhecia ele?
— Um ao outro. Sim.
— Isso vai afetar o trabalho?
Já me perguntaram isso sobre tempo ruim, prazos apertados, docas de carga, falta de energia e a decisão de última hora de um patrocinador de que laranja parece barato. Minha resposta sempre foi alguma variação de não.
— Podemos fazer o trabalho — digo.
É uma promessa menor. Maren aceita com um breve aceno.
A porta se abre antes que eu possa pedir outro planeta.
Arturo entra carregando um rolo de filme de proteção para piso debaixo de um braço. Um cordão de crachá laranja faz uma volta para fora do bolso. Tem um lápis vermelho preso atrás da orelha, exatamente onde costumava guardar a caneta que jurava nunca perder. Seus cachos estão mais curtos. Há linhas junto à boca que não existiam seis anos atrás.
O resto é inconvenientemente familiar. A largura dele. A pequena pausa no passo quando observa um cômodo antes de entrar. A mão direita espalmada sobre o rolo para que não bata no batente.
Ele me vê e para.
Por um segundo irracional, quero perguntar se ainda toma café com canela. Quero a resposta com uma força que não faz sentido diante dos seis anos que consegui passar sem ela.
— Lena — diz.
— Oi.
Maren ergue a planta entre nós. — Excelente. Apresentações feitas. Algum de vocês consegue achar doze assentos sem bloquear uma coluna?
Arturo olha dela para o quadradinho que desenhei.
— Provavelmente. Depende do quanto se apegaram a esta mesa.
— Emocionalmente ou por contrato? — pergunto.
Seus olhos voltam aos meus. Castanhos, firmes, com aquele anel escuro em volta da íris que esqueci de propósito.
— É mais fácil contornar o contrato.
Maren se levanta. — Vou deixar a sala com vocês por dez minutos. Preciso descobrir se a agenda de fotos dos jogadores foi escrita por alguém que entende de tempo. Arturo, os percursos de serviço continuam sendo prioridade. Lena, prefiro uma atividade que funcione a cinco promessas.
Ela leva o telefone para o corredor. A porta se fecha no próximo suspirinho organizado da impressora.
Arturo põe o filme junto à parede.
— Eu não sabia — diz.
— Nem eu.
— Seu contrato veio como Cho Events.
— É minha empresa.
— Eu sei. Quis dizer que só vi o primeiro nome esta manhã.
Não há acusação em sua voz. Ouço uma mesmo assim, fornecida pelo meu excelente departamento de arquivo.
Aliso a planta. — Podemos manter o profissionalismo.
— Não pedi mais nada.
Isso me atinge com mais força do que deveria. Assinto, pego a caneta e circulo o canto de atividades. — A mesa existente não tem assentos. Quero uma superfície de trabalho mais baixa com doze lugares, um caminho livre para a saída e algum lugar por perto onde uma criança possa se sentar sem um mascote aparecer na cara dela.
— Essa última parte talvez seja uma questão de equipe.
— O espaço afeta a equipe.
— A única porta de serviço ficar atrás do seu espaço tranquilo também.
Ele aponta com a ponta romba do lápis. Há uma lasquinha na tinta vermelha. Olho para aquilo em vez de para seus dedos.
— Este é o percurso da alimentação? — pergunto.
— Do elevador de serviço. Comida entra, coisas sujas saem. Se pusermos crianças ao lado, teremos carrinhos e bandejas quentes passando junto às cabeças delas.
— O desenho marca DEPÓSITO.
— O desenho é antigo.
— Veio do seu escritório.
— Muita coisa vem do meu escritório. Nem tudo vem de mim.
Nós nos olhamos por cima de uma folha de papel, e de repente tenho vinte e cinco anos, de pé numa cozinha com uma confirmação de passagem aérea no telefone e a nova oferta de emprego dele no balcão. Dois documentos. Duas pessoas que achavam que os documentos diziam tudo.
Puxo a planta para mais perto. — Então preciso da versão atual.
— Vai ter.
— Antes de fazer escolhas baseadas nesta.
— É por isso que estou aqui.
Minha boca se abre. Fecha. Ele não ergueu a voz. Não está atrapalhando meu trabalho. Identificou uma porta de serviço, o que é útil identificar antes de colocar crianças pequenas na frente dela.
Odeio a rapidez com que a memória pode transformar uma pessoa em adversária.
— Tudo bem — digo. — Me mostre.
Seus ombros relaxam num grau que eu talvez não notasse se não tivesse dormido com o rosto encostado num deles.
— Agora?
— A menos que a porta tenha planos.
Uma pequena ruga aparece junto à boca. — As portas são minhas colegas mais cooperativas.
— Isso é desolador.
— Você não conheceu a máquina de gelo.
Recolho a pasta azul, o envelope de recibos, a caneta e o telefone. Objetos demais. O envelope desliza de lado. Arturo estende a mão automaticamente, depois para antes de tocar nas minhas coisas.
— Quer uma mão?
— Eu dou conta.
Na verdade, não dou conta. O envelope cai, soltando três clipes no carpete. Nós dois nos agachamos. A mão dele alcança um clipe. A minha alcança outro. O espaço entre nossas cabeças se enche do leve cheiro limpo de seu sabonete.
— Eu podia ter usado uma mão — digo.
Ele põe seu clipe na minha pasta. — Vou manter a oferta aberta.
Levantamos. Não aconteceu nada. Seguro materiais de escritório no prédio esportivo com mais dinheiro sobrando do mundo, e meus batimentos precisam se comportar de acordo.
O camarote é maior do que parece na planta, o que deveria ser boa notícia. Então Arturo abre a porta de serviço e um carrinho surge exatamente onde eu imaginara uma criança com um livro de colorir.
O homem que o empurra freia ao nos ver.
— Desculpe — digo, saindo da frente.
— Tudo bem. — Ele ergue uma pilha de bandejas vazias. — É para sábado?
Arturo o apresenta como Ben, da alimentação. Ben aponta para o canto tranquilo proposto sem precisar ouvir minha ideia.
— Por favor, não ponham um arco de balões ali de novo. Desmontamos aquilo com uma faca de pão da última vez.
— Nada de arcos de balões — prometo.
Ben olha para Arturo. — Podemos ter isso por escrito?
— Ela tem uma pasta — diz Arturo.
Faço uma anotação solene, e Ben nos recompensa com um sorriso antes de levar o carrinho chacoalhando para o elevador.
Além do vidro, o campo brilha o suficiente para fazer o camarote parecer escuro por um instante. Alguns jogadores caminham em direção ao prédio, capacetes balançando ao lado do corpo. Um ergue a mão para alguém acima de nós. Em algum ponto do corredor, as travas das chuteiras estalam contra um piso que nunca foram feitas para atravessar.
É a parte que o folheto não pode oferecer. Um lugar já fazendo cem trabalhos antes que alguém traga uma criança.
Caminho junto à parede, contando meus passos sem fingir que são uma medida. Arturo espera que eu termine, depois oferece uma pequena trena.
— Eu ia pegar a minha.
— Esta já está aqui.
Pego. — Obrigada.
— De nada.
Uma troca perfeitamente comum. Exige esforço.
Na outra ponta do camarote, um nicho raso fica voltado para uma parede sólida em vez de para o campo. O carpete está gasto no meio, e duas cadeiras de encosto reto ladeiam um armário baixo. Sem painel de patrocinador. Sem televisão logo acima. Uma criança poderia se sentar aqui e observar as pessoas sem ser observada por todo mundo.
— O que tem no armário? — pergunto.
— Copos extras. Fica trancado durante eventos.
— Pode mudar de lugar?
— Pode.
— Exige a bênção de um doador?
— Só a minha. A minha é bem acessível.
Meço o nicho. Há espaço para uma mesa curta e assentos se virarmos o armário e mantivermos livre o caminho pela borda externa. Já vejo a bandeja de atividades, papel simples, opções de canetinhas, algum lugar para pôr algo feito pela metade enquanto se pega uma bebida.
— Não é uma sala silenciosa — digo.
— Não.
— Mas é menos exposto.
— Em geral. A porta do terraço fica ali.
Ele aponta para uma porta de vidro vários pés além do nicho. Observo alguém da equipe abri-la. A luz do sol faz um retângulo brilhante no carpete. O mecanismo de fechamento a puxa para fechar com uma pancada forte o bastante para me fazer erguer os olhos.
— Em geral — repito.
— Vou olhar o mecanismo de fechamento.
— Podemos tirar essa porta do percurso das famílias?
— Preciso conferir com Maren. Talvez faça parte do circuito dos doadores.
É uma resposta razoável. Não é a que eu quero. Anoto mesmo assim.
Uma mesa não conserta todo tipo de sobrecarga. Uma organizadora de eventos não pode construir um prédio inteiro à parte porque doze pessoas talvez precisem de um momento. Há algo útil entre não fazer nada e prometer perfeição, e meu trabalho é encontrá-lo.
Ajoelho no carpete ao lado da cadeira mais próxima.
Arturo olha para baixo enquanto apoio uma palma no assento e levo meus olhos à altura de uma criança.
— Seus joelhos vão recolher todas as migalhas — diz.
— Sou uma criança de amostra muito empenhada.
— Seu empenho é admirável. Seus joelhos parecem zangados.
Desta altura, a mesa é uma parede. A bela vista do campo vira uma fatia de céu branco. As pessoas que se aproximam do nicho viram corpos antes de rostos, e a porta do terraço enche minha visão periférica. Levanto para virar a cadeira na diagonal em direção ao cômodo, depois me abaixo ao lado dela para olhar de novo.
Melhor. Ainda não está bom. Melhor.
— O que foi? — pergunto.
Arturo tem uma expressão que não consigo interpretar.
— Nada.
— Tem uma objeção de trabalho?
— Não.
— Uma objeção aos joelhos?
Seu sorriso é pequeno e inteiramente verdadeiro. — Você testava todos os chuveiros de hotel antes de desfazer a mala.
— Se a pressão da água era ruim, queria saber enquanto ainda dava para escapar.
— Me fez ficar dentro de um de terno.
— Você abrigava as amostras dos convites. Era um trabalho importante.
A lembrança chega inteira: uma arrecadação de fundos da faculdade, um cano que tossia água marrom, Arturo rindo tanto que a gravata entortava. Antes da breve passagem pela equipe de treino. Antes dos circuitos de eventos e das ligações espremidas entre aeroportos. Antes de virarmos pessoas que mandavam mensagens educadas sobre encaminhar a última conta de serviços da casa.
Levanto rápido demais. A cadeira acerta a parte de trás da minha panturrilha.
Arturo se move, mas não estende a mão para mim desta vez.
— Estou bem — digo.
— Eu ia salvar a cadeira.
Rio antes de decidir se rir é seguro. Isso rompe algo frágil no ar. Ele olha para seu lápis, e tenho uma vontade súbita e ridícula de tocar a linha nova junto à boca.
Em vez disso, viro para a porta de serviço.
— Podemos fazer o percurso inteiro? Não só meu canto. Quero ver o que estou mudando antes de mudar.
Ele olha o relógio sobre o bar. — Tenho uma entrega ao meio-dia. Depois do almoço?
— À uma?
— À uma dá.
— Vou conseguir a liberação de Maren para o nicho antes disso. E o desenho atual.
— Vou mandar o desenho.
Lá está de novo: uma mão oferecida, uma pequena tarefa sustentada sem ser tirada de mim.
Maren nos encontra perto do bar com o telefone preso debaixo do braço.
— Acharam uma cadeira?
— Um canto possível — digo. — Arturo identificou um conflito de serviço no desenho antigo. Vamos testar o percurso esta tarde.
Os olhos dele se voltam depressa para mim. Mantenho os meus em Maren.
— Orçamento? — pergunta ela.
— Quatrocentos e oitenta planejados. Quero inventariar o que vocês já têm antes de comprar qualquer coisa.
— Excelente. A organização gosta de ser lembrada de que possui coisas.
Ela aprova a visita de verificação e pede uma página revisada até o fim do dia. Nenhum milagre prometido. Nenhuma grande reinvenção. Só um pequeno conjunto de escolhas que posso fazer direito se prestar atenção.
À porta do escritório, Arturo muda o rolo de proteção para piso para o outro braço.
— Lena.
Viro.
— Fico feliz de que sua empresa esteja indo bem.
As palavras são simples. Ele não sabe da sublocação, do outono incerto ou da proposta no meu telefone. Não pode saber se indo bem é a expressão certa.
Mas disse minha empresa, não minha coisinha de eventos, não as viagens que me levaram embora. Sinto a distinção num lugar que mantenho trancado há muito tempo.
— Fico feliz de que goste daqui — digo.
— Na maioria dos dias.
— Mesmo com a máquina de gelo?
— Temos um entendimento.
Aperto a pasta azul contra o peito. A impressora continua trabalhando. O dia ainda tem horas. Posso ficar ao lado de um homem que amei e fazer um plano que inclua uma porta de verdade.
Arturo segura a porta, e levo meu plano para dentro.
A Porta que Emperra
Arturo
A porta do terraço precisa de um quarto de volta, uma vedação nova e alguém que pare de fingir que o vento não faz parte do trabalho dela.
Dou a ela as duas primeiras coisas antes do almoço. A terceira exige uma conversa com quem insiste em deixá-la aberta enquanto o ar-condicionado esfria o campo de treino inteiro. Ponho essa conversa na minha lista, abaixo de um trinco emperrando no elevador de serviço e acima do fato de que Lena Cho está aqui.
Ela está aqui.
Aperto o parafuso com mais cuidado do que o necessário.
— Conhece a prestadora de serviços? — pergunta Ben atrás de mim.
— Sim.
— Ótimo. Parece sensata.
Testo a porta. Fecha sem a pancada forte. — Ela é.
— Anotou nada de arco de balões como se fosse para valer.
— Então não vai ter.
Ben assente com o alívio de um homem cuja faca de pão pode voltar às funções previstas. Empurra o carrinho para o elevador. A roda dianteira esquerda trepida na soleira.
— Deixe comigo depois de descarregar — digo.
— Vai fazer eu amar você.
— Entre na fila.
A piada vem fácil. O silêncio depois dela, não.
Tiro o lápis vermelho de trás da orelha e registro o ajuste do mecanismo de fechamento no livro de manutenção. Minha letra melhorou desde que parei de escrever anotações de treino na própria palma. Minha vida adquiriu prateleiras, um dentista, um mercado preferido. Sei quais vizinhos aceitam uma encomenda e quais funcionários precisam da confirmação de mudança de escala por mensagem.
Nada disso me preparou para Lena de pé no escritório de Maren com a trança sobre um ombro e um clipe equilibrado no polegar.
Aos vinte e sete anos, eu achava que ter um plano fazia de mim um homem confiável. Aos trinta e três, tenho pernas de cadeira quebradas suficientes no registro de consertos para saber que planos são testados pelo que você faz quando deixam de servir.
Meu telefone vibra. Uma mensagem de Maren.
Desenho atual do camarote aprovado. Por favor, mantenha o serviço de alimentação circulando. Nada de compras heroicas de móveis.
Respondo com uma fotografia da porta de serviço, com uma trena mostrando o caminho livre. Depois apago uma segunda mensagem perguntando se ela sabe por quanto tempo Lena vai trabalhar por aqui.
Isso não é uma pergunta de operações.
À uma, Lena chega com a pasta aberta e um sanduíche embrulhado em papel.
— Não é para provocar você que estou comendo — diz. — Estou comendo enquanto estabelecemos se você comeu.
— Comi.
— Almoço de verdade?
— A parte de cima de um sanduíche.
Ela olha para o seu. — O que aconteceu com a de baixo?
— O telefone tocou. Ben perguntou do gelo. Chegou uma entrega. Virou arqueologia.
— Trágico.
Ela rasga o papel do sanduíche bem certinho de um lado, dá uma mordida e estuda o corredor de serviço. Uma pequena mancha de mostarda fica no papel em vez de no polegar. Lembro daquela precisão. Lembro de outras coisas com usos menos públicos.
Afasto o carrinho vazio do elevador.
— Vamos começar por onde os materiais chegam — digo. — Tudo no plano do evento precisa ir daqui até sua estação. Inclusive as coisas que esquecem de pôr no plano.
— Como cadeiras.
— E funcionários.
— E o almoço deles.
— Parece pessoal.
— Só profissionalmente.
Ela sorri sem bem olhar para mim. Eu a levo pela rampa de concreto até a baia de carga, onde o ar muda do dinheiro climatizado e acarpetado para poeira e borracha quentes. Um ventilador gira acima da porta de enrolar. Há marcas na parede de caixotes que tecnicamente eram pequenos o bastante para caber.
Lena termina o sanduíche e dobra o papel num quadrado compacto. — Onde posso pôr isto?
Aponto para as lixeiras, depois empurro o carrinho para a rampa. A roda ruim começa sua discussão.
Ela inclina a cabeça. — Isso vai deixar você maluco até sábado.
— Já deixou.
— Quer que eu empurre enquanto você olha?
Quase digo que dou conta. As palavras são tão familiares que chegam aos meus dentes sem permissão.
Em vez disso, saio da frente. — Devagar sobre a junção, por favor.
Ela empurra. Agacho e observo o rodízio oscilar. O suporte está firme, mas um pedaço de filme plástico transparente de embalagem se enrolou no eixo. Puxo uma ponta, e vem mais, uma fita fina e suja que deve estar se acumulando há dias.
— Achei que fosse um rolamento — digo.
— Estava se esforçando muito para soar caro.
Desenrolo a última tira e me levanto. Quando ela empurra de novo, o carrinho roda em silêncio.
A satisfação no rosto dela é constrangedoramente atraente.
— Consertamos alguma coisa — diz.
— Um precedente perigoso.
— Não se preocupe. Tenho várias coisas que pretendo piorar.
Está brincando. Em grande parte. Ouço a pergunta debaixo da piada: Temos permissão para gostar disto?
Empurro o carrinho de volta ao elevador. — Me mostre.
Testamos sua primeira disposição com um caixote vazio no lugar da mesa de atividades. Ela desenha as dimensões da mesa num pedaço de papel e me faz parar duas vezes para medir como as pessoas passarão por ela. Descobrimos que o percurso anunciado só funciona se um pai ou mãe virar de lado e ninguém carregar uma bebida. Ela mesma o risca.
— Eu gostava dessa versão — diz.
— Ficava boa na página.
— Essa é a qualidade mais irritante dela.
Na tentativa seguinte, mantemos o nicho e movemos o carrinho de materiais para trás da mureta. O carrinho de comida passa sem entrar no espaço das crianças. Ainda há espaço para uma pessoa ficar ao lado de uma criança sentada. Lena entra no vão, põe a mão onde ficaria o encosto de uma cadeira e se vira como se alguém chamasse do camarote principal.
— Consigo ver a entrada — diz. — Ótimo.
— Quer ver as pessoas chegando?
— A maioria quer. Principalmente quando está tentando parar de observar tudo.
Diz com simplicidade, não como uma lição. Depois marca a borda do armário com uma lingueta removível.
— Vai me odiar se eu pedir para mover isto seis polegadas para o lado?
— Só seis?
— Estou acostumando você aos poucos.
Movemos o armário juntos depois que destranco e retiro os copos extras. Pergunto onde quer pegar o peso. Escolhe a ponta mais leve, sem pedir desculpas ou fingir o contrário. É uma coisa pequena. Houve um tempo em que nós dois tratávamos qualquer carga desigual como prova de algo maior.
Hoje o armário vai para onde precisa ir.
Às duas, o plano em papel virou um cômodo possível. Lena o abre sobre o bar e traça o caminho revisado com o dedo. Sua unha é curta, sem esmalte, uma pintinha de tinta vermelha perto da cutícula. O antigo puxão no meu corpo não liga que esta seja uma reunião profissional. Dou ao meu corpo trabalho para fazer.
— Aquela placa precisa ficar mais alta — digo.
Ela olha o suporte de parede. — Podemos testar a linha de visão?
Trago uma pequena escada de abrir. Antes que suba, ponho um dos banquinhos baixos ao lado para que possa deixar a placa e a fita ao alcance.
— Não precisa me entregar cada peça — diz.
— Não planejava. Isto sou eu evitando uma tarefa extra.
— Muito eficiente.
Ela sobe dois degraus. Mantenho uma mão na estrutura da escada, longe dos tornozelos dela. Segura a placa de papel contra o suporte.
— Esquerda?
— Sua esquerda ou a minha?
— Estamos virados para a mesma direção, Arturo.
— Então tenho convicções fortes sobre sua esquerda.
Ela ri. Isso a faz mudar o peso. Firmo melhor a estrutura, e a mão dela para no suporte.
Há um segundo em que nenhum de nós diz nada.
— Estável? — pergunto.
— Sim.
A palavra é quieta. Ergo os olhos. Ela olha para baixo.
Lembro de erguê-la e colocá-la sobre um muro baixo depois de um concerto de verão, os sapatos pendendo de uma mão, o ruído da cidade debaixo de sua risada. Eu também queria mantê-la segura naquela época. Às vezes confundira segura com perto o bastante para não precisar me perguntar para onde iria.
Baixo os olhos para a escada. — A placa funciona aí.
Ela prende com fita, desce e pega o banquinho por conta própria.
Não transformamos o momento numa conversa. Tiramos a escada do percurso.
Maren passa com um rapaz carregando duas placas de amostra e a ansiedade polida de alguém responsável por agradar pessoas que podem lançar seu salário nas despesas.
— Carter Bell — diz. — Contato com os patrocinadores. Lena Cho, atividades para as famílias. Arturo você conhece.
Carter oferece a mão a Lena. Ela aperta, depois vai direto às amostras.
— Qual está aprovada?
— A da esquerda. A da direita é um conceito.
— As duas dizem final no nome do arquivo.
Ele faz uma careta. — Sim. Estamos consertando isso.
A amostra aprovada tem o logotipo do patrocinador, o horário do dia das famílias e uma seta grande. O conceito mostra um contorno em forma de criança debaixo de um título sobre conexão. Sinto alívio quando Maren deixa essa de lado.
— Precisamos de consentimento antes de qualquer coisa que envolva famílias específicas — diz. — Nada de atalhos porque é um evento interno.
— Entendido — diz Carter. — Só trouxe o conceito pelo tom.
— O tom deve ser útil — diz Lena, depois suaviza com meio sorriso. — Se um pai ou mãe tem suco numa mão e uma criança na outra, deve saber para onde esta seta manda.
Carter olha sua placa aprovada. — Manda para o terraço.
— Atualmente manda para um armário.
Ele gira um quarto de volta. Todos olhamos.
— Melhor?
— Muito — diz Maren.
Seria fácil não gostar dele. Mais fácil que admitir que seu trabalho inclui exigências que chegam com pessoas diferentes copiadas em cada mensagem. Ele fotografa a orientação corrigida e escreve um lembrete para si. Respeito isso mais que o papel caro.
Depois que saem, o telefone de Lena acende ao lado da pasta. Só vejo a faixa de notificação antes que ela o vire: o nome de uma empresa de turnês, CONFIRMAÇÃO DO PRAZO DA PROPOSTA. Reconheço o tipo de mensagem. Uma vez, construímos o fim do nosso relacionamento com duas delas.
Ela vê que vi.
— Trabalho — diz.
— Imaginei.
— É uma opção. Não uma decisão.
Esfrego a tinta gasta do lápis com o polegar. A pergunta que quero fazer é grande demais para este bar, próxima demais de perguntar se o passado está prestes a acontecer de novo.
Então faço uma pergunta menor que ainda é verdadeira.
— Afeta o sábado?
— Só meu uso do telefone por volta das três e meia. O prazo é às quatro da tarde. Vou terminar o inventário antes.
— Certo.
Ela espera, como se aguardasse mais. Quando não acrescento nada, bate a borda da pasta para alinhá-la.
— Não quero que descubra por vias tortas — diz.
— Você não me contou nada que me dê o direito de ficar com raiva.
— Não foi isso que perguntei.
— Não fez uma pergunta.
O ar se contrai. Ouço minhas próprias palavras depois que saem da boca e não gosto de como são precisas. Há jeitos de estar certo que são apenas outra forma de fechar uma porta.
Lena olha para o campo. Um apito atravessa o vidro, fraco, mas distinto.
— Não — diz. — Não fiz.
Pouso o lápis.
— Está feliz de ter voltado?
O rosto dela muda. Não muito. O bastante.
— Às vezes. Ainda não desfiz a mala o suficiente para chamar isso de retorno.
— Está morando aqui?
— Numa sublocação. Por enquanto.
Assinto devagar. Seis anos sem conhecer sua vida não se compensam com doze perguntas no corredor errado.
— Eu não sabia — digo.
— Eu sei.
Um funcionário entra para pegar a escada. Nós nos afastamos para que possa levá-la. A interrupção deixa os dois respirarem.
Lena pega a planta. — Pode aprovar o percurso? Maren quer a página hoje.
Leio, inclusive a mudança de posição do armário e a passagem de serviço. Ela escreveu meu nome junto à aprovação do percurso em vez de deixar uma marca anônima de conferência. Não devia importar. Importa.
Assino com o lápis vermelho, depois lembro e pego a caneta que ela oferece. Ela observa enquanto risco com cuidado a assinatura a lápis antes de usar tinta.
— Muito oficial — diz.
— Quero que sobreviva a alguém derramando café.
— Um padrão ambicioso para um documento de evento.
A pressão diminui. Entrego a folha assinada. Ela a coloca na pasta e fecha a aba, e um pequeno pânico me atravessa à ideia de que vá embora com a única conversa que tivemos em anos ainda presa no meio.
Temos uma compra de materiais amanhã. Precisamos de bandejas, papel e o que o inventário do depósito não conseguir oferecer. Posso fazer a compra sozinho. Não há razão operacional para convidá-la.
Essa é a questão.
— Posso buscar você para ir à loja — digo.
Ela fica imóvel. — Pelos materiais?
— Sim. Mas também posso encontrar você lá. Ou pode ir sem mim. Estou tentando oferecer sem parecer uma tarefa atribuída à equipe.
Sua boca se curva num canto. — Está se saindo razoavelmente bem.
— Só razoavelmente?
— Há espaço para melhorar.
— Nove?
— A loja abre às oito.
— Oito e meia, então. Não quero nosso reencontro competindo com uma porta trancada.
Ela ri de novo, desta vez sem desviar os olhos.
— A gente se encontra lá — diz. — Mando a lista antes.
— Vou levar a van.
— A lista não é tão grande.
— Vai ser quando descobrir o corredor de papéis.
O olhar dela prende o meu. — Você lembra.
Eu poderia fazer uma piada. Já fiz piadas suficientes para sobreviver aos cortes da equipe de treino, a uma mudança de carreira, às longas semanas depois que ela foi embora. Poderia transformar tudo numa lembrança fácil, sem importância.
— Sim — digo. — Lembro.
Ela pousa a mão na pasta fechada. O camarote em volta está cheio de trabalho esperando para acontecer, e escolhi o momento menos conveniente possível para querer algo que não posso consertar com uma chave de fenda.
Lena olha para a porta. — Devo mandar isto para Maren.
— Deve.
Ela dá um passo. Ouço um carrinho no corredor, passando suavemente pela soleira que liberamos juntos. Isso me dá a menor dose de coragem.
— E depois — digo —, se tiver dez minutos, gostaria de ouvir sobre a sublocação. Ou a empresa. Algo que realmente queira me contar.
Seus dedos apertam a pasta.
— Não sei o que é isto — diz.
— Nem eu.
Deixo o lápis no bar. Deixo minhas mãos vazias. Não há assinatura que possa fazer esta parte por mim, nenhum plano que prometa o resultado antes que ela fale.
Dessa vez, peço que fique e ouço a resposta.













































