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O Espaço Entre os Passes — romance esportivo grátisGrátis · Exclusiva

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O Espaço Entre os Passes

Uma goleira que defende todos os problemas conhece uma meio-campista que ela não consegue manter a uma distância segura.

Romance sáfico F/F adulto de futebol entre companheiras de um time comunitário, com responsabilidade compartilhada e um recomeço.

Beijos sensuais consensuais e uma noite juntas sugerida de porta fechada; sem sexo explícito.

  • colegas de time que se apaixonam
  • Opostos Se Atraem
  • Recomeço
  • Comunidade acolhedora

🌶️ Cerca de 93 min de leitura · 21.403 palavras

Quando o Harbor Common perde o campo, Samira Venn tem uma lista, um prazo e nenhuma paciência para jogadoras novas e encantadoras. Jules Calder chega com um gol amarrado no teto do carro e um talento para encontrar brechas. Um torneio comunitário por convite no campo de treinamento do Seattle Sirens pode manter o time jogando. Aprender a confiar uma na outra pode mudar muito mais.

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O Gol Vazio

Samira

O gol chegou no teto de um hatch, preso com um cachecol.

Samira Venn ficou parada no estacionamento, com as luvas de goleira debaixo do braço, examinando o nó. O cachecol era vermelho, o carro era amarelo, e a mulher que desceu dele tinha uma faixa de tinta azul atravessada no pulso direito. Tudo na cena sugeria que alguém havia confundido um desastre com uma oportunidade.

“Por favor, me diga que você não pegou a estrada com isso”, disse Samira.

“Fui por ruas pequenas. Bem devagar. Um ciclista se ofereceu para me ultrapassar e me rebocar.”

A mulher olhou para a estrutura de alumínio no alto. Um canto da rede havia se prendido no bagageiro. Tinha o cabelo escuro, raspado rente nas laterais e mais comprido em cima, achatado no ponto em que, pelo jeito, ela havia dormido em cima dele. Vestia uma camiseta de treino verde e trazia chuteiras surradas penduradas no ombro, com os cadarços amarrados um no outro. Não havia nada de hesitante em seu sorriso. Samira desconfiou dele na hora, o que era uma reação inconveniente diante de uma mulher atraente que estava lhe fazendo um favor.

“Jules Calder”, disse a mulher. “A Mina me contou que vocês precisavam de um gol e de uma meio-campista. Só consegui achar um gol pequeno. Eu sou tamanho oficial.”

Samira largou as luvas antes que pudesse rir e incentivá-la. “Hoje estamos no campo dos fundos. Me ajude a levantar isso.”

Elas ficaram em lados opostos do carro. Jules soltou o cachecol, passou por baixo da estrutura e esperou a contagem de Samira em vez de sair puxando. Isso lhe rendeu um ponto. Juntas, carregaram o gol pelo cascalho até um retalho de grama entre um canil e uma vala de drenagem. A grama era inclinada. Um corvo observava de cima de um mourão da cerca, como se avaliasse se a ambição delas valia ser roubada.

Deveria haver catorze mulheres se aquecendo no campo recreativo do outro lado do bairro. Em vez disso, o Harbor Common tinha nove jogadoras e a permissão de usar aquela faixa irregular até as dez. O prédio dos vestiários do campo que alugavam tinha sido fechado para reparos no telhado. O fechamento levou junto o acesso ao campo. Samira entendia por que ninguém podia se trocar sob um telhado perigoso. Entendia bem menos a decisão de dar a reserva do outono a outra pessoa antes de avisá-las.

Jules pôs no chão a ponta que carregava. “Para que lado a gente vira?”

“Para longe da vala. Não vou pescar a bola de lá de novo.”

“‘De novo’ parece uma história interessante.”

“Não foi interessante enquanto eu estava dentro da vala.”

Mina Patel acenou da linha lateral do outro lado. A capitã tinha transformado duas toalhas velhas em marcadores de limite e os estava explicando a uma mulher com um carrinho de bebê. Tess Kim estava sentada numa caixa térmica, batendo numa calculadora com a mesma concentração que dedicava aos pênaltis. O time parecia pequeno visto dali. Samira já tinha jogado em estádios com menos gente nas arquibancadas do que o Harbor Common tinha no grupo de mensagens, mas nunca havia se sentido tão protetora em relação a um time.

“Calder!”, chamou Mina. “Você nos encontrou. Samira, seja simpática. Ela atravessou a cidade inteira.”

“Eu sou sempre simpática.”

Jules se abaixou para desembaraçar a rede. “Ela me perguntou se eu tinha colocado outros usuários da via em perigo. Foi íntimo.”

Mina riu e lançou uma bola para as duas. Samira a pegou contra a barriga. As palmas das mãos reconheceram o formato antes que o resto do corpo tivesse acordado de verdade. Ela tinha terminado um turno tardio no depósito de ônibus, dormido cinco horas e chegado cedo porque faltar a um sábado facilitava faltar ao seguinte. Aos trinta e dois anos, conhecia mais mulheres que haviam parado de jogar do que mulheres que ainda jogavam. Em geral, havia um motivo razoável. Hora extra. Filhos para cuidar. Aluguel. Um campo que de repente deixava de estar disponível.

Samira colocou a bola na grama. “Vamos ver que tipo de meio-campista a gente comprou.”

“Eu saí de graça”, disse Jules. “Confira a política de devolução.”

Elas se aqueceram em duplas. Jules ficou na outra ponta de uma linha de passe e bateu firme, rente ao chão. A bola bateu num montinho e deu um pulo; Samira se ajustou, amortecendo-a com a parte de dentro do pé. Jules ergueu a mão em reconhecimento. No passe seguinte, escolheu outra linha, que evitava o montinho.

Samira reparou. Boas jogadoras enxergavam o campo como ele era, em vez de reclamar que não era o que mereciam. Jules parecia enxergar também o pé esquerdo de Samira. Mandava os passes para aquele lado, convidando-a a devolver com o pé mais fraco, e mantinha a expressão neutra quando Samira lhe lançava um olhar feio.

“A Mina disse que você jogou em divisão inferior”, disse Samira.

“Até o inverno passado. E você?”

“Goleira reserva. Há muito tempo.”

“Quanto tempo?”

“Tempo suficiente para querer um aquecimento antes de uma entrevista.”

Jules assentiu e não perguntou mais nada. Mais um ponto, contra o melhor juízo de Samira.

Durante o jogo reduzido, esses pontos quase sumiram. Jules queria todas as bolas. Recuava para buscar a bola com as defensoras, corria para o corredor central e depois abria pelo lado quando outra pessoa o ocupava. O jogo de pés era lindo, econômico e rápido. A dificuldade era que o Harbor Common já tinha uma jogadora em cada um desses lugares. Jules parecia tentar se tornar útil em seis posições ao mesmo tempo.

No terceiro ataque confuso, Samira rolou a bola para Tess, que tinha saído da defesa. Jules cruzou o caminho dela e tomou a posse sem olhar. Mina interrompeu a corrida. Duas jogadoras se viraram para o mesmo trecho de grama livre. Um cachorro visitante, que tinha escapado do dono, fez uma interceptação mais decisiva do que qualquer pessoa do lado de Samira.

O cachorro levou a bola em direção à vala.

Samira soltou uma palavra que fez a mulher do carrinho de bebê abrir um sorriso.

Quando recuperaram a bola, as bochechas de Jules estavam vermelhas. “Foi erro meu. Achei que a Tess queria uma saída.”

“A Tess queria o passe dela”, disse Samira. “Você não pode tomar todas as decisões antes que alguém toque na bola.”

O sorriso de Jules apareceu, rápido e fino. “Justo. Onde você me quer?”

Samira apontou para o lado direito. “Segura aquele espaço. A gente te encontra.”

“Tudo bem.”

Era a resposta certa. Mesmo assim, Samira ouviu nela algo de fechado. Uma porta puxada quase até o fim. Odiava reconhecer aquele som; ela mesma o usava quando alguém oferecia um conselho que na verdade era um pedido para dar menos trabalho.

Jogaram de novo. Dessa vez, Jules ficou aberta. Por quase dois minutos, ninguém passou a bola para ela. Samira sentia a paciência da mulher se esgarçar pelo campo. Tess tentava levar a bola morro acima. Mina tinha recuado para ajudar. Todas as rotas sensatas pareciam bloqueadas porque a defesa adversária via todas elas viradas para o mesmo lado.

Samira pediu a devolução. Tess a mandou de volta, forte demais. Samira matou o quique, olhou para Mina e meteu um passe rasteiro em diagonal, passando pela defensora mais próxima. Jules se mexeu no instante em que a bola saiu do pé de Samira. Não cedo demais, não exigindo nada. Exatamente quando havia algo a encontrar.

Ela deu um toque ao longo da linha e passou para dentro, para Mina. Um segundo depois, Mina marcou entre as toalhas.

Jules olhou de volta para Samira. O sorriso dessa vez era largo o bastante para fazer Samira esquecer o placar.

“Me achou”, gritou ela.

Samira apontou para que voltasse à posição antes que alguém percebesse o quanto ela queria ver aquele sorriso de novo.

Depois do treino, sentaram-se na grama em volta da caixa térmica. Tess distribuiu fatias de laranja de uma caixa de plástico. Ninguém tinha trazido copos. Mina passou um frasco de álcool em gel de mão em mão, como se fosse um elaborado ritual do time.

Samira tirou as luvas, dedo por dedo. Os antebraços estavam úmidos de grama, e uma pedrinha tinha encontrado caminho para dentro da meia. Ela a deixou ali enquanto Tess explicava a nova oferta de aluguel.

“Seis meses”, disse Tess. “Dois horários à noite e a manhã de sábado, divididos com os outros grupos de adultos. Dá para segurar as mensalidades normais se todo mundo pagar o que já combinou. O problema é a caução. Dois mil e quatrocentos dólares. Eles querem na sexta que vem.”

O número pousou entre elas. Não era muito no orçamento de um clube profissional. Era enorme quando dividido entre mulheres que já tinham pago a anuidade, comprado o próprio equipamento e tirado folga do trabalho para jogar.

“Não dá para simplesmente cobrar mais duzentos de cada uma”, disse Mina. “Temos três que não estão aqui porque não podiam se dar ao luxo de faltar ao trabalho.”

“Eu sei.” Tess fechou a tampa da calculadora. “Por isso estou falando agora.”

Jules estava sentada de pernas cruzadas em frente a Samira, com um gomo de laranja equilibrado na unha do polegar. O pulso manchado de tinta repousava contra a camiseta verde. “O escritório comunitário das Sirens ainda organiza partidas de exibição locais?”

Mina levantou os olhos. “Às vezes.”

“Uma amiga de uma amiga ajudava com as instalações. No ano passado cancelaram um fim de semana e deixaram um torneio de adultas usar um campo de treino. Sem cobrar pelo campo.”

“Não somos uma instituição de caridade”, disse Samira, rápido demais.

Jules olhou diretamente para ela. “Elas também não eram. Eram mulheres que precisavam de um lugar para jogar.”

O calor que subiu pelo pescoço de Samira foi merecido. Ela tirou um fio de grama da correia da luva. “Desculpe. Quis dizer que não quero vender uma história de dar pena.”

“Então vamos vender um jogo.”

Mina já estava pegando o celular. “Conheço a Ruth Bell. Ela cuida do acesso da comunidade. Posso perguntar. Sem promessas.”

“Um quadrangular por convite”, disse Jules. “Cada clube ganha uma mesa. Competição amistosa, camisetas, doações voluntárias. Dar às pessoas algo pelo qual valha a pena ir.”

“Quem paga os custos dos times visitantes?”, perguntou Tess.

Jules fez uma pausa e então pôs o gomo de laranja na boca em vez de responder antes de saber. Samira apreciou isso mais do que a ideia.

Fizeram uma lista. Clubes que poderiam convidar. Pessoas que poderiam apitar. Um lugar para comprar camisetas lisas. Alguém para verificar as necessidades de acessibilidade. Samira anotou tudo no verso da carta de fechamento do campo porque não achou papel limpo. A avó dela teria aprovado pôr um documento irritante para trabalhar em algo útil.

Quando o telefone de Mina tocou, Samira já tinha chegado ao segundo lado da carta.

Mina escutou, fez duas perguntas e então colocou Ruth no viva-voz, com permissão. A mulher na ligação parecia ter passado uma longa vida dizendo a atletas otimistas onde ficavam as saídas.

“O Campo Dois talvez funcione no sábado que vem”, disse Ruth. “Preciso de um contato nomeado e de um plano completo antes de poder confirmar. Evento pequeno, de adultas. Nenhum acesso não autorizado ao estádio nem às áreas profissionais. Vocês terão que ter as próprias voluntárias e um cronograma realista.”

“Somos muito realistas”, disse Jules.

Samira ergueu o cachecol que havia prendido o gol ao carro de Jules. Jules apertou os lábios, sorrindo.

Ruth seguiu em frente, imperturbável. “Vocês podem fazer a vistoria amanhã de manhã. Às onze. Levem as pessoas que estão escrevendo o plano.”

Mina olhou em volta da roda. Várias jogadoras tinham filhos para buscar, trabalho para chegar, outros times para contatar. Samira sabia o que ia acontecer. Ela se ofereceria, porque podia remanejar o próprio sono. Sempre podia. Com o tempo, o sono tinha se tornado a única coisa que ninguém se importava de tirar dela.

“Eu vou”, disse Jules. “E sei desenhar uma planta do local que não pareça um bilhete de sequestro.”

Samira olhou para as próprias anotações. “Minhas setas são perfeitamente claras.”

“Aquela ali parece levar para dentro da caixa laranja.”

“Lanches.”

“Excelente. Aceito direção artística sua.”

Ficou decidido antes que Samira tivesse considerado por inteiro o que significaria trabalhar com Jules. Ela vistoriaria o campo amanhã. Jules iria junto. Mina ligaria para os outros clubes; Tess transformaria as ambições delas em números que pudessem sobreviver ao contato com a realidade.

Enquanto as outras iam embora, Jules devolveu a caixa térmica ao porta-malas de Tess e ajudou Samira a desmontar o gol. Não preencheu o silêncio. Isso surpreendeu Samira. Ela esperava que a alegria durasse até que alguém a desligasse na tomada.

“Para constar”, disse Jules enquanto dobravam a rede, “tenho trinta anos. Não sou uma jovem promessa que você precisa treinar. Se eu estiver fazendo alguma coisa errada, pode dizer sem arrumar a cara antes.”

Samira quase deixou cair um poste. “Que cara?”

Jules demonstrou uma expressão de paciência grave e exausta. Era horrível. Era precisa.

“Eu dormi cinco horas”, disse Samira.

“Só te julgo quando você tiver dormido seis.”

As duas riram então, e um pouco do constrangimento caiu entre elas, na grama. Samira admitiu que o primeiro jogo a havia abalado porque as pessoas viviam desaparecendo do time, e uma jogadora nova que parecia poder ir embora importava mais do que deveria.

Jules encostou a estrutura dobrada no hatch. “Você não sabe se eu vou embora.”

“Não.”

“Eu também não sei. Estou tentando ser sincera quanto a isso. Mas vou estar na vistoria amanhã.”

Samira conseguia trabalhar com uma promessa tão pequena. Tinha arestas que ela podia segurar.

O ônibus dela passaria em onze minutos. Quando mencionou isso, Jules ofereceu carona. Samira começou a recusar, mas então imaginou o teto do carro e o gol. Ainda havia espaço para o cachecol virar prova.

“Primeiro eu te ajudo a amarrar isso”, disse ela. “Depois pego o ônibus.”

“Um voto de confiança.”

“Sou mecânica. Conheço meus limites.”

Jules riu sem parecer ofendida. Usaram duas cintas de verdade da bolsa de equipamentos de Samira, feitas para prender material num carrinho. Samira mostrou a Jules como testar a carga. Jules testou ela mesma, em vez de aceitar um tapinha tranquilizador. No fim, a estrutura mal se mexia.

No ponto de ônibus, Samira encontrou uma mensagem de um número desconhecido. Uma fotografia mostrava o gol descarregado em segurança diante de um prédio de tijolos. Embaixo: Em casa. Nenhum ciclista ferido. Amanhã às onze?

Samira digitou Sim, depois acrescentou Levo as anotações. Ficou olhando a mensagem tempo suficiente para notar que chegava uma segunda fotografia. Jules tinha desenhado uma minúscula caixa laranja, cuidadosamente rotulada LANCHES, com setas apontando para ela de todas as direções.

O ônibus parou antes que Samira terminasse de rir. Ela subiu, pagou e escolheu um lugar junto à janela. À sua volta, as pessoas carregavam compras, bolsas de trabalho, uma criança dormindo. Vidas comuns de sábado. Ela olhou o espaço vazio ao lado e imaginou Jules ali, com os joelhos virados para o corredor, explicando por que um plano ruim podia virar um plano bom se alguém deixasse que ele crescesse.

Samira salvou o número como Jules Calder. Depois, porque era uma mulher adulta e não respondia pela disciplina do próprio celular, acrescentou uma bola de futebol depois do nome.

Lá fora, a cidade rolava em direção ao meio-dia. Pela primeira vez desde que a carta de fechamento chegara, Samira estava ansiosa pelo dia seguinte.

Um Ângulo Diferente

Jules

Jules lavou a tinta azul do pulso antes de sair para o estádio. Foi preciso sabão, uma escovinha de unhas e mais determinação do que a tinta merecia. Quando terminou, a pele estava rosada e ela quase se atrasou.

Havia pensado em deixar a faixa. Quem pinta letreiros pode chamar quase qualquer mancha de credencial profissional. Mas Samira Venn tinha olhado para aquele trecho azul como se conseguisse ver cada descuido que Jules cometera na última década, e Jules queria chegar com pelo menos uma prova a seu favor.

A entrada que Ruth indicara ficava ao lado dos escritórios do estádio. Jules estacionou, deixou o equipamento no porta-malas e encontrou Samira esperando sob uma marquise, com uma garrafa térmica e uma pilha de papéis presa por um clipe contra o vento. O cabelo estava preso para trás. Uma jaqueta cinza suavizava as linhas retas dos ombros. Sem as luvas, ela parecia menos imponente e consideravelmente mais difícil de ignorar.

“Bom dia”, disse Jules. “Quantas horas?”

“Sete.”

“Então aceito a cara como uma opinião ponderada.”

A boca de Samira se mexeu. Não chegou a ser um sorriso. Jules começou a suspeitar que conquistar o sorriso inteiro podia virar um hobby perigoso.

Ruth Bell abriu a porta antes que batessem. Era compacta, de cabelo prateado, e usava sapatos escolhidos para conduzir outras pessoas rumo às suas responsabilidades. Depois das apresentações, levou-as por um corredor interno. Jules entreviu a porta de uma sala de vídeo, depois uma placa indicando as salas médicas. Manteve as mãos nos bolsos e a curiosidade para si.

“O Memorial Stadium e o centro de treinamento dividem o complexo”, disse Ruth. “Isso facilita o acesso se todo mundo seguir o plano, e complica muito se alguém sair vagando. Os visitantes da comunidade usarão a entrada designada, a sala provisória, o túnel e o Campo Dois. Os vestiários profissionais sob as arquibancadas ficam fora da área do seu evento.”

Samira marcou o trajeto no papel. “Podemos pôr uma voluntária no cruzamento dos corredores?”

“Por favor, ponham.”

Atravessaram o túnel de concreto. Adiante, a luz do dia se espalhava pelo gramado. Jules já havia jogado em campos com bordas empenadas e refletores que zumbiam como insetos furiosos. O Campo Dois parecia quase irreal: linhas nítidas, terreno nivelado, um gol de pé, em esquadro, em vez de pendendo para dentro de uma sebe.

Ela parou logo na saída do túnel.

Samira não perguntou por quê. Parou também, deixando um passo de distância entre as duas.

Por um instante, Jules voltou a ter vinte e quatro anos, chegando ao primeiro treino remunerado com as chuteiras tão bem limpas que o couro rangia. Depois teve vinte e nove, guardando as mesmas chuteiras depois de um contrato que não fora renovado. Nenhuma das duas versões pertencia àquele lugar. Ela abriu espaço para a mulher que havia chegado de carro com um gol emprestado no dia anterior, que ainda podia jogar mesmo que ninguém lhe pagasse para isso.

“É um belo pedaço de grama”, disse ela.

“Gramado”, corrigiu Samira com delicadeza.

“Eu sei. Estou tentando parecer casual.”

Dessa vez Samira sorriu por inteiro. Jules sentiu isso na parte ridícula do peito que ainda acreditava em medalhas.

Passaram uma hora percorrendo os limites. Ruth aprovou quatro times adultos, seis jogadoras em campo incluindo a goleira, tempos de doze minutos, substituições livres e uma final entre os dois melhores colocados depois de um todos-contra-todos. O cronograma precisava de pausas para descanso e um intervalo para o almoço. Árbitras voluntárias experientes revisariam as regras do evento. Nada daquilo seria apresentado como competição oficial de liga.

Samira perguntou sobre o clima, a água, as saídas, o local do posto de primeiros socorros. Jules desenhou o trajeto da entrada ao campo, a área de assentos, os pontos onde as mesas poderiam ficar sem bloquear o acesso. Perguntou onde alguém em cadeira de rodas poderia assistir sem atravessar a área de jogo. Ruth mostrou o caminho plano ao longo do lado mais próximo.

“Vocês vão precisar de uma voluntária naquele canto”, disse Ruth. “As pessoas veem uma bola e esquecem que têm pés.”

“Dá para fazer”, disse Jules, e então notou o olhar de Samira. “Podemos perguntar ao time antes de confirmar.”

Samira anotou. Jules gostou de ela não ter feito uma lição da correção.

Jules parou junto à rede, observando-a se erguer na brisa. “A senhora nos deixaria usar este lado para um trabalho de passes esta tarde?”

“Às duas da tarde”, disse Ruth, consultando a agenda. “Trinta minutos para vocês duas, desde que me deem os dois nomes para o registro de acesso. Essa permissão não inclui mais ninguém.”

Jules olhou para Samira. Uma pergunta de verdade, dessa vez.

“Hoje estou livre”, disse Samira. “Eu gostaria.”

Jules anotou o horário de domingo no celular antes que esquecesse. Poderiam comer ali perto enquanto esperavam e depois encaixar a reunião do time em volta da sessão curta.

De volta à sala provisória, Ruth lhes entregou um rascunho do acordo de uso. “O campo não é o seu evento de arrecadação. É um campo. O que vocês fizerem aqui depende do plano de vocês. Não prometam um milagre às jogadoras só porque têm um cenário bonito.”

“Não vou prometer”, disse Samira.

Jules percebeu o peso com que ela dizia aquilo.

Sentaram-se a uma mesinha numa padaria a duas quadras dali. Samira pôs o acordo entre o saleiro e um vaso com uma margarida teimosa. Jules comprou dois cafés e um folhado de queijo, e então descobriu que Samira tinha trazido sanduíches numa caixa.

“Eu não sabia quanto tempo a gente ia ficar”, disse Samira. “Tem um sobrando.”

Jules tinha comido torrada em pé, na pia. Aceitou o sanduíche oferecido com o que esperava ser uma gratidão comum. Não era necessário ficar sentimental só porque uma goleira atraente havia previsto o almoço.

Ligaram para Tess. Entre as três, combinaram que cada clube visitante receberia cento e vinte dólares para ajudar nas despesas. Três clubes, trezentos e sessenta no total. Mais cento e oitenta cobririam um primeiro lote de camisetas lisas e tinta. O campo não custaria nada, mas a caução não ia magicamente ficar menor.

“Dois mil novecentos e quarenta brutos”, disse Tess. “É o mínimo para sobrarem dois mil e quatrocentos depois dessas despesas. Pedidos pagos contam quando são pagos. Promessas vão em outra coluna.”

Jules desenhou duas colunas. Havia passado anos fazendo palavras comuns ficarem bonitas em vitrines. DINHEIRO e PROMETIDO pareciam igualmente convincentes numa boa caligrafia. Ela sublinhou a primeira.

Mina mandou uma mensagem dizendo que dois clubes estavam interessados e um terceiro responderia à tarde. Quando os cafés esfriaram, o Harbor Common tinha um campo provisório, três adversários quase garantidos e um plano que exigia mais gente do que a que existia.

“Quantas horas você pode dar a isso?”, perguntou Samira a Jules.

“O que for preciso.”

Samira largou a caneta. “Isso não é um número.”

“Eu sou freelancer. É flexível.”

“O meu sono também, pelo jeito. E mesmo assim eu preciso de um pouco.”

Jules girou a xícara no pires. Podia fazer dois trabalhos de letreiros pagos nesta semana, se os dois clientes confirmassem. Nenhum tinha confirmado. Tinha o suficiente para o aluguel, o mercado, a gasolina se fosse cuidadosa. Uma agenda vazia não era o mesmo que tempo livre infinito, mas explicar isso a alguém com salário fixo a fazia se sentir com doze anos.

“Dez horas”, disse por fim. “Talvez doze, se o trabalho que orcei não vier. Eu faço o desenho do local e a arte das camisetas. Também posso jogar. Provavelmente é bom incluir isso.”

“Eu esperava que sim.”

A resposta simples a desarmou. Samira não estava medindo o que Jules podia produzir em troca de um lugar. Tinha feito uma pergunta e aceitado a resposta. Jules alisou a embalagem do sanduíche e esboçou um pequeno brasão: um farol de porto, uma bola, um círculo aberto em volta dos dois.

“O que você acha?”

Samira se inclinou o bastante para Jules sentir o cheiro de roupa limpa na gola dela. “Por que o círculo é aberto?”

“Espaço para mais gente. Além disso, eu sou péssima em círculos perfeitos.”

Samira tocou o papel ao lado do desenho, com cuidado para não borrar o lápis. “Deixa aberto.”

Lá fora, o vento fazia rolar um copo de papel pela rua. Lá dentro, Jules se viu desenhando mais devagar do que o necessário, porque Samira estava olhando e ela não queria chegar ao fim.

A meia hora de domingo no Campo Dois começou com uma discussão sobre cones.

“Esse espaço está estreito demais”, disse Jules.

Samira estava dentro do gol. “É o espaço que você ficou oferecendo ontem.”

“Eu estava tentando parecer disponível.”

“Você parecia cercada.”

Jules ajeitou um cone com a ponta do pé. “Às vezes uma mulher gosta de ser perseguida.”

Samira a encarou por um segundo inteiro e então rolou uma bola direto por entre as chuteiras de Jules. A bola passou atrás dela e parou contra a cerca.

“Concentra”, disse Samira, mas as pontas das orelhas dela tinham ficado rosadas.

Jules foi buscar a bola, encantada e constrangida na mesma medida. Flertar era fácil quando podia tratar aquilo como o tempo: uma coisa quente de passagem, sem responsabilidade sobre onde ia pousar. A reação pequena e involuntária de Samira fazia daquilo uma ação com consequências. Jules se pegou querendo ter cuidado.

Trabalharam o recebimento do passe da goleira enquanto giravam em direção à jogadora seguinte. A distribuição de Samira era precisa quando Jules lhe dava um ângulo, menos segura quando Jules começava atrás de uma defensora imaginária e rompia tarde. Jules pediu que ela tentasse mesmo assim.

“Não consigo te ver através de uma pessoa”, disse Samira.

“Você consegue ver para onde eu vou.”

“É assim que eu entrego gols.”

“E é assim também que se faz um.”

Samira pegou a bola. “Hoje a gente não vai treinar isso.”

Não havia mau humor naquilo. Era um limite, claro o bastante para se apoiar nele. Jules assentiu e mudou o exercício. Afastaram um cone para mais longe. Jules começou onde Samira podia vê-la e então deu um único toque para dentro. Na quarta repetição, o movimento pareceu menos um exercício e mais uma conversa numa língua que Jules quase havia deixado de falar.

No fim, Ruth avisou da entrada que o tempo havia acabado. Recolheram todos os cones, verificaram o campo e levaram as bolas de volta à sala provisória. Jules estava suada e feliz de um jeito que a deixava desconfiada. A felicidade depois do futebol podia ser seguida por um telefonema dizendo que não era suficiente.

Samira sentou-se para desamarrar as chuteiras. “O que aconteceu no inverno passado?”

Jules continuou enrolando um cadarço no dedo. A pergunta não trazia nenhuma acusação escondida. Ela podia dar uma resposta pequena ou uma grande. A atenção de Samira provavelmente sobreviveria a qualquer uma das duas.

“Uma técnica nova”, disse. “Eu não me encaixava no desenho que ela queria. Me ofereceram um esquema de treinos sem contrato de verdade. Eu podia ter chamado aquilo de outra chance, mas não podia me dar ao luxo de ficar disponível a semana inteira por nada. Então saí.”

“Parece sensato.”

“Pareceu menos sensato quando voltei para casa com tudo em três bolsas.”

Samira segurou a porta enquanto Jules levava o equipamento para fora. “Às vezes coisas sensatas também doem.”

Jules parou ao lado do carro. Estava preparada para um conselho sobre resiliência, um lembrete animado de que era jovem, ou a história de algum primo que virara treinador. Samira não oferecera nada daquilo. Isso deixava Jules com um problema inesperado: ela queria contar mais.

“E você? Por que reserva, e depois nada?”

Samira colocou a sacola de cones no porta-malas. “Não foi nada. Joguei em outros lugares.”

“Você tem razão. Desculpe.”

“Meu técnico achava que eu passava tempo demais me preocupando com quem recebia atrasado e quem não conseguia chegar ao treino. Eu achava que essas coisas afetavam se a gente conseguia jogar. Discordamos.”

Jules deixou a resposta assentar. De repente, os papéis presos com clipe, os sanduíches, as perguntas sobre despesas pareciam diferentes. Não era medo vestido de eficiência. Era a convicção de que pertencer exigia mais do que um nome numa escalação.

“Fico feliz que você tenha discordado”, disse Jules.

Samira desviou o olhar para o estádio. “Ainda me pergunto se eu poderia ter ficado e mantido a boca fechada.”

“Você gostaria da mulher que fez isso?”

“Provavelmente não.”

“Então ela seria uma péssima companhia.”

Samira riu, mas antes algo no rosto dela se soltou, algo que Jules teria deixado passar no dia anterior. Jules quis tocar o braço dela. Manteve a mão no porta-malas.

Foram em carros separados até um salão comunitário onde Mina fazia uma breve reunião de planejamento. Durante noventa minutos, Jules desenhou cartazes enquanto as pessoas se voluntariavam. Tess confirmou seiscentos e vinte dólares em doações recebidas. Trezentos e sessenta em pré-vendas pagas de camisetas ficaram numa linha de receita à parte. Jules viu Tess subtrair as despesas comprometidas antes de anunciar qualquer total utilizável. Era menos empolgante do que contar cada número como esperança. Também era melhor quando ninguém precisava corrigi-lo depois.

Mina aprovou o brasão depois de perguntar se a abertura no círculo era proposital. Jules olhou para Samira. “Totalmente.”

Às quatro, os três clubes visitantes tinham confirmado presença. Havia árbitras, uma voluntária de primeiros socorros, uma pessoa para cuidar da entrada pública e um cronograma que deixava tempo para comer. Ninguém tinha prometido um campeonato. Ninguém tinha sido convidada a pagar para salvar o próprio time.

Enquanto empilhavam cadeiras, Samira se aproximou com o desenho de Jules. “Você aceita jantar depois do treino amanhã?”

Jules segurava duas cadeiras dobráveis contra o peito. Era uma péssima posição para tentar sofisticação. “Um jantar de planejamento?”

“Podemos falar de outras coisas.”

“Eu sou extremamente boa em outras coisas.”

A sobrancelha de Samira subiu.

“Conversa”, acrescentou Jules. “Embora eu entenda se você quiser referências.”

O sorriso voltou, sem pressa dessa vez. Jules largou as cadeiras antes de fazer algo indigno com elas. Combinaram comida perto do depósito, onde Samira teria terminado um turno curto antes do treino da noite. Deslocamentos separados, nenhum favor complicado, apenas uma refeição que duas mulheres podiam escolher.

Na volta para casa, Jules parou num sinal vermelho e olhou para as mãos no volante. Pulso limpo. Grama debaixo de uma unha. Uma leve marca de grafite no ponto em que Samira tocara o desenho ao lado dos dedos dela.

Tinha voltado a Seattle esperando se tornar útil até a decepção passar. Amanhã, alguém a queria numa mesa mesmo sem nenhum plano para escrever.

Espere — Um convite para jantar espera depois do próximo treino. Será que essas colegas de time conseguem abrir espaço para algo pessoal?

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