O Homem que Mentiu sobre Gloucester
Faltavam dez para as seis da primeira terça-feira de novembro, e Frankie Medeiros tinha o balcão inteiro do Ballast inclinado na direção dele, enquanto Pete Lacasse ia ficando da cor de uma lagosta cozida.
— Então a caminhonete está em ponto morto — disse Frankie —, e a caminhonete do capitão do porto é uma caminhonete muito velha, e tem opiniões. E o Pete desce para consertar o engate do reboque, e a caminhonete diz: já vi demais desta cidade. E sai rolando.
— Não saiu rolando — disse Pete. — Ela deslizou.
— Ela deslizou rampa de lançamento abaixo a seis quilômetros por hora, que é rolar, Pete, é um clássico rolar. E o Pete corre atrás. Com as botas boas. Agarra a maçaneta da porta feito um sujeito de filme de faroeste, e a caminhonete continua, e o Pete continua, e lá no fim da rampa tem o oceano Atlântico, que, como todo mundo aqui sabe, não para por ninguém.
As duas enfermeiras no fim do balcão de zinco riam dentro das xícaras. Um pescador de macacão laranja estava com a testa apoiada no balcão. Atrás do caixa, Mags Ferreira fingia não escutar, o que queria dizer que escutava mais do que qualquer um.
— Até as portas — disse Frankie. — Até as portas na água salgada. E o rádio ainda ligado lá dentro, e vocês sabem o que estava tocando?
— Não — disse Pete.
— Sailing. Aquela música antiga. Sailing, takes me away. — Frankie abriu as mãos. — Juro pelos joelhos da minha mãe.
O balcão desabou. Até o Pete acabou rindo, uma gargalhada grande, com a cabeça jogada para trás, o tipo de riso que um homem usa para mostrar à sala que sabe levar na brincadeira. Frankie anotou isso como anotava tudo. Pete Lacasse, capitão do porto adjunto, quarenta e um anos, um reboque novo que não tinha como pagar com o salário que ganhava, rindo um pouquinho alto demais. Foi para a gaveta na cabeça de Frankie onde tudo ia parar. Ele nunca sabia de qual coisa ia precisar.
O Ballast àquela hora era a sala mais quente do porto. Os fornos de pão estavam acesos desde as quatro, e a comprida sala de tijolos cheirava a casca de pão e açúcar queimado e lã molhada secando no encosto dos bancos. A vitrine estava tão embaçada que a Water Street lá fora era só uma forma cinzenta com faróis dentro. Na prateleira acima das cafeteiras, Mags guardava um velho rádio de escuta marítima com a caixa rachada, ligado baixinho, de modo que os barcos conversavam entre si por baixo do barulho da sala a manhã inteira. As esposas costumavam vir só para ouvi-lo. Algumas ainda vinham.
O garoto atrás do balcão encheu de novo o café de Frankie sem que ninguém pedisse. Cabelo cacheado, moletom cinza por baixo do avental preto, um lápis atrás da orelha.
— Essa é a sua quarta história antes das seis — disse o garoto. — Estou contando. Você está a caminho de um recorde.
— Eu sou um serviço de utilidade pública, Harley.
— Você é uma agência de notícias. — O garoto tirou do bolso de trás um caderninho laranja e escreveu alguma coisa nele, depressa. Ele escrevia tudo naquele caderno. Frankie já o vira anotar até um pãozinho de graça, a coisa mais estranha que Frankie já viu alguém fazer com um pãozinho de graça.
— O que você está escrevendo? É sobre mim? Eu estou no caderno?
— Todo mundo está no caderno — disse o garoto, guardou-o e foi descendo pelo balcão com a jarra até as enfermeiras.
Frankie se virou no banco para procurar a próxima plateia, e foi aí que viu o homem novo.
Ele estava sentado na ponta, junto à porta, de costas para os tijolos. Alto, mesmo sentado. Uma jaqueta de lona marrom nova demais nas costuras. Cabelo castanho-claro comprido o bastante para se enroscar na gola, uma semana de barba e uma cicatriz fina e branca atravessando a sobrancelha esquerda, que o fazia parecer sempre prestes a perguntar alguma coisa. Tinha um café na frente e não o bebia. Observava a sala. Sem encarar. Só deixava os olhos pousarem numa pessoa e depois na próxima, do jeito que um homem lê os nomes de uma lista.
Frankie conhecia todos os rostos do Old South Pier. Sabia de quem era o barco com o bloco do motor rachado, de quem a mulher tinha ido morar com a irmã em Fall River, e quem devia o quê a quem. Não conhecia aquele rosto. Isso não era uma coisa que acontecia com ele.
Pegou a xícara e foi andando pelo balcão.
— Você está no barco do Ray Dunning — disse, e sentou no banco ao lado do desconhecido. — O Margaret D. Começou semana passada. O Skip Tolland diz por aí que você dá um lais de guia de olhos fechados.
O homem virou a cabeça. Tinha olhos cinza, ou verdes, ou da cor do porto quando ele não consegue se decidir.
— O Skip fala demais.
— O Skip fala pouco. Eu falo demais. Tem diferença. Eu sou o Frankie.
— Cole. — Uma mão se estendeu. Frankie a apertou. A palma era dura por cima, com calos novos, e ainda macia no meio, onde os calos não tinham terminado de chegar. Os nós dos dedos já tinham sido quebrados uma vez e curado bem. — Cole Rourke.
— De onde você é, Cole Rourke?
— Do norte. Do Maine, principalmente. Depois Gloucester, nos últimos anos.
Disse isso com facilidade. A voz era grave e um pouco seca no fim das palavras, o Maine nas beiradas, do jeito que falam os do Maine quando já passaram um tempo longe. Era uma boa voz. Frankie gostou dela mais do que queria.
— Gloucester — disse Frankie. — Não brinca. Então você conhece o Anchor House. Na Rogers Street. O lugar do Teddy Souza.
— Todo mundo conhece o Teddy.
— Ainda faz aquela sopa de mariscos horrível?
O canto da boca de Cole se mexeu. — Vai morrer fazendo.
Frankie sorriu para dentro do café. Não havia nenhum Anchor House na Rogers Street. Não havia nenhum Teddy Souza. Frankie o tinha inventado quatro segundos atrás, com o nome de um primo e um bar de onde fora expulso uma vez em New Bedford.
— Hum — disse Frankie, e mais nada.
Lá no balcão, uma bandeja de croissants escorregou da ponta do carrinho de pães e bateu no chão numa avalanche dourada e macia. Mags soltou uma palavra em português que fez o pescador de macacão laranja engasgar com o café. Era uma palavra muito antiga. A avó de Frankie só a usara duas vezes na vida, as duas a respeito do papa.
Ao lado dele, a boca de Cole Rourke tremeu de novo. Com força. Ele olhou para a xícara até passar.
A nuca de Frankie esquentou.
Um homem do Maine que tinha morado em Gloucester e conhecia um bar que não existia. E que acabara de entender, perfeitamente, um palavrão português que metade dos nascidos naquele porto não saberia traduzir.
No rádio acima das cafeteiras, um barco chamou outro por causa da neblina na boca do porto. O garoto do caderno laranja riu de alguma coisa que uma enfermeira disse. Cole enfim tomou o café, num longo gole só, como se tivesse decidido alguma coisa, e deixou dois dólares sobre o zinco e se levantou.
— Prazer, Frankie — disse.
— Prazer, Cole — disse Frankie, e o viu sair para o cinza, e não contou a uma única pessoa naquela sala o que acabara de descobrir. Não sabia por quê. Isso também era novidade.
Às duas da tarde, a neblina já tinha se dissipado e o porto jazia chato e brilhante como uma bandeja de lata. Frankie estava no convés da Lucinda com as mangas arregaçadas, trocando a corda podre de uma fieira de armadilhas e ouvindo o motor dele não pegar.
Tinha tentado quatro vezes. Quatro vezes ele tossira, pegara, sacudira o barco inteiro feito um cachorro molhado e morrera. A Lucinda tinha trinta e um anos. Fora o barco do pai dele e, antes disso, um empréstimo de um banco em New Bedford que o pai pagara à mão, uma temporada de cada vez. Tinha o nome da mãe de Frankie, que não pisara nela uma vez em trinta e um anos e não pretendia começar agora, do apartamento dela na Flórida.
— Você precisa de um motor novo — disse uma voz do cais.
Frankie olhou para cima. Cole Rourke estava no alto da escada com um rolo de cabo no ombro e o sol atrás.
— Preciso de um motor novo, de uma coluna nova e de um marido rico — disse Frankie. — Nessa ordem. Você está oferecendo algum desses?
— Eu sei levantar coisas.
— Um guindaste também.
Cole desceu a escada sem ser convidado. Movia-se bem num barco. Tinha aprendido em algum lugar. Largou o cabo e olhou a armadilha em que Frankie trabalhava, os nós, e depois Frankie.
— Você não disse nada hoje de manhã — disse Cole.
— Sobre o quê?
— O Anchor House.
Frankie largou a faca. A água batia baixinho no casco. Duas vagas adiante, o velho Benny Costa lavava o convés com a mangueira e cantava, mal, para ninguém.
— Vou te dizer uma coisa de graça — disse Frankie. — Você é um péssimo mentiroso para um homem que faz isso com tanta suavidade. Nem piscou. Esse é o problema. Gente de verdade pisca. Gente de verdade diz: o Anchor House? Na Rogers Street? Acho que não, Frankie, você deve estar pensando no Crow’s Nest. Gente de verdade discute.
— A maioria das pessoas não confere.
— Eu confiro. Tudo. É uma doença.
Cole o olhou por um longo momento. Então fez uma coisa que Frankie não esperava. Sorriu, um sorriso de verdade, pequeno e torto, e isso mudou o rosto inteiro dele. Fez com que parecesse mais novo e muito mais cansado.
— Então eu gostaria de pedir um favor — disse. — Por favor, não conte ao Ballast que eu sou mentiroso.
— Eu conto tudo ao Ballast. Minha vida inteira é contar tudo ao Ballast.
— Então diga que eu sou chato.
— Você não é chato. — Saiu antes que Frankie pudesse segurar. O calor subiu pela garganta dele. — Quer dizer. Ninguém com essa sobrancelha é chato. É uma sobrancelha muito suspeita. É uma sobrancelha com passado.
Cole tocou a cicatriz com um nó do dedo, como se tivesse esquecido que ela estava ali. — Manivela de guincho.
— Mentiroso — disse Frankie, baixinho.
— Sim — disse Cole. — Essa foi mentira.
Olharam-se por cima de uma armadilha cheia de corda ruim. O sol estava quente na nuca de Frankie, as gaivotas gritavam, e havia uma sensação estranha e apertada sob as costelas dele, como o instante antes de uma onda levantar a proa.
— Qual é a verdade, então?
— Um homem que não gostou de uma pergunta que eu fiz. — Cole pegou o rolo de cabo e voltou a subir a escada. No topo, olhou para baixo. — O filtro de combustível dela está entupido. Isso é metade do que há de errado. A outra metade é que ela é velha.
— Eu também — disse Frankie.
— Não — disse Cole Rourke. — Você não é.
Frankie não dormia uma noite inteira desde o janeiro em que o pai dele saíra com vento nordeste e não voltara. Quatro anos. Tinha tentado comprimidos, e cerveja, e corrida, e um médico em Boston que lhe disse que o luto era uma sala que a gente precisava atravessar. Frankie dissera ao médico que aquela era uma frase linda e perguntara se podia usá-la. Depois parara de ir.
Na maioria das noites ele caminhava. Saía do apartamento sobre o galpão de redes, na ponta do Old South Pier voltada para a terra, e descia as tábuas até o fim e voltava, passando pelo galpão de iscas e pela casa de gelo e pelas formas escuras dos barcos respirando nos cabos. Em algumas noites parava na janela do Augie Rocha, na outra ponta do prédio do galpão, porque o Augie também não dormia, e o rádio do Augie estava sempre ligado, e o Augie sempre tinha algo a dizer a respeito.
Augie dirigira a mesa de despacho do Cais Nove por trinta e oito anos. Estava com oitenta e um agora, pequeno e curvado como um anzol, e ainda mantinha um diário de bordo toda noite, a lápis, embora ninguém lhe pedisse isso havia quinze anos. Quando Frankie tinha nove anos, Augie lhe ensinara a ler as marcas do antigo capitão do porto, que Augie copiara nas margens dos próprios diários por trinta e oito anos. Um círculo com um traço no meio queria dizer que um homem estava quite pela temporada. Um círculo pequeno com um rabinho curvo queria dizer ligue de volta na virada da maré. Augie desenhara esse nos sacos de lanche da filha dele, nos dias em que sabia que ia se atrasar, para que ela soubesse que ele estava vindo.
Naquela noite a luz do Augie estava apagada. Frankie seguiu andando.
Eram dez para as três. A neblina tinha voltado sobre a água, baixa e espessa, e os postes do cais usavam halos. No fim das tábuas Frankie parou e se apoiou na amurada e olhou para o sul, na direção das docas de trabalho, na direção do longo dedo negro do Cais Nove que ninguém usava mais desde que o gelo levara metade das estacas num inverno ruim, muito tempo atrás.
Havia luzes no Cais Nove.
Não os lampiões da doca. Esses estavam mortos havia anos. Duas lanternas, em movimento, e o brilho vermelho e baixo das lanternas traseiras de um caminhão encostado de ré até a beira. E ao lado do cais, subindo e descendo na água preta, um barco com as luzes de convés apagadas e o motor funcionando tão baixinho que Frankie o sentiu na amurada antes de ouvi-lo.
Ele conhecia aquele barco. Reconheceria dormindo. O Margaret D., o melhor do Ray Dunning, casco branco e uma listra azul.
Homens carregavam alguma coisa do convés até o caminhão. Caixotes. Pesados, pelo jeito de andar, dois homens por caixote, devagar nas tábuas molhadas. Um deles era grande, de cabeça raspada, que pegava o brilho da lanterna, e Frankie conhecia aquele andar também. Skip Tolland, que fazia tudo o que Ray Dunning mandava e gostava.
A boca de Frankie secou.
Ray Dunning comprava metade da pesca daquele porto. Era dono de três barcos e do maior cais da ponta sul, e emprestava dinheiro a homens que os bancos nem olhavam, e quando eles não podiam pagar ele era muito paciente e muito macio na voz até que de repente deixava de ser. O pai de Frankie pedira dinheiro emprestado ao Ray Dunning uma vez. Frankie passara três anos depois do enterro pagando de volta. Cada dólar. Ainda guardava os recibos numa lata de café.
Ninguém descarregava lagosta às três da manhã num cais morto sem luzes.
Ele devia ir embora. Sabia que devia ir embora. Ficou apoiado na amurada e olhou, porque nunca na vida fora capaz de desviar os olhos de uma história.
Foi então que viu o terceiro homem.
Não carregava nada. Estava um pouco afastado, na borda da luz vermelha, com as mãos nos bolsos de uma jaqueta de lona marrom. Muito imóvel. Olhando os caixotes do jeito que olhara o Ballast naquela manhã, uma coisa e depois outra, como se lesse uma lista e a decorasse.
Cole Rourke virou a cabeça.
Por cem metros de neblina e água preta, olhou direto para o fim do Old South Pier, onde Frankie estava debaixo do único poste que funcionava num raio de um quilômetro, feito um bobo no palco.
Frankie parou de respirar.
Uma das lanternas girou. Varreu a água na direção do cais, devagar, e o feixe veio pela neblina como uma mão tateando em busca de uma porta.
— Quem está aí? — A voz de Skip Tolland, carregando como as vozes carregam sobre a água à noite. — Ei. Quem é?
O feixe estava a dez metros do fim do cais. Cinco. Frankie não conseguia fazer os pés se mexerem.
— Sou eu. — A voz de Cole, alta e entediada, o Maine nas beiradas. — Calma, Skip. Estou mijando. Quer segurar a luz para mim, ou o quê?
Alguém riu. O feixe voltou para o cais.
Frankie ficou no halo do poste com o coração batendo contra a amurada e entendeu duas coisas ao mesmo tempo. A primeira era que Cole Rourke acabara de mentir por ele, com suavidade, sem piscar, para um homem que não teria sido paciente a respeito.
A segunda era que Cole ainda olhava para ele. E muito devagar, onde só Frankie podia ver, ergueu um dedo aos lábios.
Luzes no Cais Nove
Fazia nove semanas que ninguém dizia o primeiro nome dele em voz alta.
Nico Barros estava sentado na beira da cama estreita no quarto que alugava sobre a loja de ferragens da Front Street e escutava o radiador estalar. Eram cinco e meia da manhã. As mãos cheiravam a diesel e a corda fria por mais que as esfregasse, e as bolhas que atravessavam as palmas tinham finalmente estourado e começado a endurecer. Nove semanas atrás ele era um detetive de camisa passada atrás de uma mesa em Boston. Agora era Cole Rourke, do Maine, via Gloucester. Oito dessas semanas ele passara no pátio de caminhões do Ray Dunning em New Bedford, carregando peixe e escutando. Na semana anterior, Dunning o transferira para o Margaret D., e as mãos de Cole Rourke ainda estavam correndo atrás da história dele.
O notebook sobre os joelhos mostrava o relatório semanal que ele precisava enviar até as seis. Já digitara a data. Já digitara os caixotes: onze deles, descarregados do Margaret D. no Cais Nove, às três e dez, um caminhão-baú branco sem placas. Motores de popa, pelo formato. Roubados de marinas ao longo da costa, com o número de série raspado a lima, e vendidos de novo pelo cais do Ray Dunning como se nunca tivessem pertencido a ninguém. Já digitara os nomes. Skip Tolland. Dois homens que ele só conhecia como Gus e o Garoto.
Não digitara o homem no fim do Old South Pier.
O telefone vibrou sobre o cobertor. Não o de Cole. O outro, o pretinho que ele mantinha colado embaixo da gaveta.
— Você está atrasado — disse a tenente Dana Keough.
— São cinco e trinta e quatro. É para as seis.
— Estou lendo o seu rascunho no arquivo compartilhado, Barros. Vejo você digitando. — Keough tinha uma voz de grampeador. — Como estamos com o falador?
Nico fechou os olhos. — Fiz contato ontem.
— E?
— E ele fala.
— É esse o ponto. Foi por isso que entreguei ele a você. — Papel se mexeu do lado dela. — Francisco Medeiros. Todo mundo naquele porto conta tudo a ele, e ele conta a todo mundo. É a melhor fonte de informação do Old South Pier e nem sabe que é fonte. Faça amizade. Pague um café. Deixe ele falar. Anote.
Na tela, o cursor piscava no fim da linha sobre o caminhão.
Nico pensou em Frankie Medeiros no convés de um barco velho, no sol, de mangas arregaçadas, uma faca na mão e uma armadilha cheia de corda podre. Você é um péssimo mentiroso para um homem que faz isso com tanta suavidade. Pensou nele às três da manhã sob o único poste que funcionava no cais, sem correr, sem se esconder, só olhando, como se não conseguisse desviar os olhos nem se o cais estivesse em chamas.
Pensou em como aquela lanterna chegara perto.
— Ele não é uma boa fonte — disse Nico. — Inventa coisas. Metade do que ele diz é história.
— Então anote a outra metade.
— Tenente…
— Seis horas — disse Keough, e desligou.
Nico ficou com o telefone na mão. Depois terminou o relatório, leu duas vezes e enviou às cinco e cinquenta e oito. O homem no fim do cais não estava nele.
Skip Tolland o encontrou no cais às sete, enrolando cabo no Margaret D.
— Ontem à noite — disse Skip. Era um homem grande, maior que Nico, de cabeça raspada e um cigarro mentolado que nunca parecia encurtar. — Quando você foi mijar. Tinha alguém na ponta do Old South. Vi um vulto.
— Tinha neblina — disse Nico. — Eu vi neblina.
— Você estava olhando direto para ela.
— Eu estava olhando para onde mirava. — Nico não parou de enrolar. Voltas lentas e regulares, do jeito que o velho de Gloucester lhe ensinara, o velho de verdade, o do bar de verdade. — Quer que eu volte lá para ver se a neblina ainda está?
Skip o observou por um tempo. A fumaça de mentol soprou de lado ao vento. Então riu e deu um tapa no ombro de Nico, forte o bastante para balançá-lo.
— Você é gente boa, Rourke — disse. — Você é um cara engraçado.
Foi andando até o escritório, onde Ray Dunning ficava atrás de uma janela com um bigode branco e uma xícara de chá, vigiando o cais como quem vigia peixes num aquário. Nico terminou o cabo. As mãos estavam firmes. Estavam sempre firmes. Era a única coisa que ele nunca precisara fingir.
O que o preocupava era o silêncio.
Foi ao Ballast naquela manhã a caminho do cais, e de novo na manhã seguinte, porque Cole Rourke ia ao Ballast e porque Keough perguntaria. Nas duas manhãs Frankie Medeiros estava no banco dele, no meio do balcão. Nas duas manhãs tomou o café e comeu os ovos no pãozinho e disse quase nada.
A sala não sabia o que fazer com aquilo. Um pescador contou uma piada e olhou para Frankie para ele terminar, e Frankie só sorriu. Uma das enfermeiras perguntou se ele estava doente. Mags Ferreira pôs a mão na testa dele por cima do balcão, como uma mãe, e disse alguma coisa em português sobre homens que não falam, e Frankie disse: “Estou pensando, Mags. Pensar é permitido”, e o garoto de cachos disse: “Para você, não. Você assinou um contrato.”
Era para ser engraçado. Ninguém riu muito.
Frankie não olhou para Nico nenhuma vez. Nenhuma vez, em duas manhãs. Nico passara nove semanas aprendendo a sentir quando alguém o olhava, e sentia agora, como se sente a corrente de ar de uma porta que não se vê. Frankie não olhava para ele com tanta força que aquilo era uma forma de olhar.
Ele não tinha contado a ninguém. O homem mais barulhento do porto vira um crime às três da manhã, e vira um homem que mal conhecia no meio dele, e mantivera a boca fechada por dois dias. Por Nico. Por um desconhecido que mentira na cara dele.
Nico também não sabia o que fazer com aquilo.
Foi encontrá-lo na quinta-feira, no último resto de luz.
A Lucinda estava baixa na vaga, com a tampa do motor aberta e Frankie meio enfiado dentro dela, praguejando contra alguma coisa numa voz firme e amistosa. Uma lâmpada de trabalho pendia do teto da cabine, num gancho. O porto tinha ficado da cor de ardósia, e para lá do quebra-mar o farol começara a girar.
— Permissão para subir a bordo — disse Nico.
Frankie tirou a cabeça do motor. Havia uma mancha de graxa preta na maçã do rosto e o cabelo escuro estava espetado de um lado. Tinha o nariz quebrado, Nico viu à luz da lâmpada, uma fratura antiga que pendia um pouco para a esquerda, e um pequeno vão entre os dentes da frente, e o tipo de olhos castanhos que riem há tanto tempo que têm rugas nos cantos mesmo quando não estão rindo.
— Está pedindo agora? — disse Frankie. — Na terça você simplesmente desceu.
— Na terça eu não conhecia você.
— Você ainda não me conhece.
— Não — disse Nico. — Eu gostaria de conhecer.
Frankie o olhou por um longo momento. Depois limpou as mãos num trapo e fez um gesto de cabeça para a cabine. — Tem café na garrafa térmica. É horrível. Senta antes de cair na água, você está me deixando nervoso.
Sentaram-se na caixa do motor com a garrafa entre os dois. O café era horrível. Também era quente, e as mãos de Nico estavam frias desde setembro. Frankie serviu uma xícara para si e a segurou sem beber, e por um tempo nenhum dos dois disse nada, o que Nico começava a entender que era a coisa mais difícil do mundo para Frankie Medeiros.
— Eu não contei a ninguém — disse Frankie por fim.
— Eu sei. Faz dois dias que vejo você não contando a ninguém. É muito barulhento.
Frankie riu, um som curto e surpreso. — Que coisa horrível de se dizer a um homem.
— Por que você não contou?
— Não foi por você. — Frankie girou a xícara nas mãos. — Não se ache. Não fiz por você. — Ficou calado um instante. — Meu pai pegou oito mil dólares emprestados com o Ray Dunning no inverno antes de morrer. Para um guincho novo. O Ray é muito gentil com dinheiro. Manda cartão de Natal. Pergunta pela sua mãe. E todo mês o número cresce, e ele pergunta pela sua mãe um pouco mais. — O polegar dele correu pela borda da xícara. — Meu pai saiu com um tempo em que não devia ter saído. Por causa desse número. E depois do enterro o Ray foi até a casa com flores e um papel, e eu paguei aquele papel por três anos.
— Frankie.
— Então não. Eu não contei a ninguém o que vi no Cais Nove. — Ele ergueu os olhos. Estavam muito firmes. — Porque, antes de abrir a boca, eu quero saber o que você é. Se for um dos homens do Ray, eu vou perceber. E se não for. — Parou.
— Se eu não for?
— Então eu quero saber o que você estava fazendo na doca dele às três da manhã, decorando os caixotes dele.
A lâmpada balançou um pouco no gancho. Lá fora, na água, uma bóia sineira tocou, devagar, como alguma coisa contando.
Nico tinha uma centena de respostas prontas. Tinha uma vida inteira pronta, Maine e Gloucester e um pai que pescava em Stonington e uma mãe que foi embora. Podia ter contado tudo ali mesmo.
Não queria contar. Esse era o problema. Pela primeira vez em nove semanas olhava para um rosto e não queria mentir para ele.
— Não posso — disse.
— Não pode o quê?
— Não posso responder a isso. Ainda não. — Sustentou o olhar de Frankie. — É a coisa mais verdadeira que eu disse a alguém desde setembro.
Frankie abriu a boca. Fechou de novo. Uma expressão estranha atravessou seu rosto, metade raiva, metade alguma coisa mais suave e mais perigosa.
Passos desceram o cais.
Pesados, mais de um homem, e o círculo branco e balançante de uma lanterna nas tábuas. Vozes. Nico reconheceu uma delas antes de entender as palavras. Skip. E o Gus com ele, pela risada.
— …disse que ele está sempre no barco a essa hora da noite — dizia Skip. — O Ray só quer uma palavrinha. Uma palavrinha amigável. Medeiros! Você está aí embaixo?
Frankie ficou muito quieto. À luz da lâmpada o rosto dele perdera a cor.
Nico se levantou e apagou a lâmpada de trabalho. O convés ficou escuro. Os passos estavam a trinta metros e vindo, a lanterna balançando, e a vaga da Lucinda ficava no fim de uma fileira, sem para onde ir a não ser a água ou a escada.
— Escada — disse Nico. — Agora. Quieto.
Subiram juntos. No topo, entre o galpão de iscas e a casa de gelo, havia uma fresta onde as luzes do cais não chegavam, um espaço estreito e escuro que cheirava a sal e arenque velho e alcatrão frio. Nico puxou Frankie para dentro dela pela manga. A lanterna estava a vinte metros, virando na direção dos barcos.
— Eles vão conferir o galpão — disse Nico, bem baixo. — Vão ver dois vultos. Se virem dois homens se escondendo, vão querer saber por quê. Se virem dois homens fazendo outra coisa, vão rir e olhar para o outro lado. Homens como o Skip sempre olham para o outro lado diante disso.
Frankie o encarou no escuro. — Fazendo outra coisa.
— Preciso beijar você. — Nico manteve a voz firme. — Só se você quiser. Diga sim ou diga não. Não tem problema. Vamos achar outro jeito.
O feixe da lanterna deslizou pela borda da casa de gelo, a três metros deles.
— Sim — disse Frankie. — Meu Deus. Sim.
Nico o beijou.
Pretendia que fosse um disfarce. Um espetáculo para uma lanterna. Pretendia contar até dez e manter um ouvido nos passos. Mas a boca de Frankie era quente e tinha gosto de café ruim, e Frankie soltou um som baixo e áspero contra os lábios dele e agarrou dois punhados da jaqueta e o beijou de volta como se esperasse por isso desde terça, e Nico esqueceu de contar. Esqueceu os passos. Pôs uma mão ao longo do maxilar de Frankie, por cima da graxa e da barba por fazer, e as costas de Frankie encontraram as telhas do galpão de iscas e o puxaram para si, e o porto frio inteiro foi embora.
A luz inundou os dois. Nico virou o ombro para ela, de modo que o feixe só encontrasse as costas de uma jaqueta de lona marrom e uma mão em cabelo escuro. Aguentou.
— Ah, pelo amor de… Rourke? — A voz de Skip, enojada e encantada. — É o Rourke?
Nico ergueu a cabeça alguns centímetros. Não soltou. — Se importa?
— Arranjem um quarto — disse Skip, e Gus riu, e a luz se afastou pelo cais. — Inacreditável. Vamos. O Medeiros não está no barco. O Ray pode esperar até de manhã.
Os passos voltaram para o lado da estrada. Uma porta de caminhão bateu. Um motor pegou e foi sumindo.
Nenhum dos dois se moveu.
As mãos de Frankie ainda estavam enroscadas na jaqueta dele. A respiração dele vinha rápida e quente contra a boca de Nico, e no escuro os olhos estavam enormes. Nico sentia o coração de Frankie batendo sob a própria palma, que de algum modo deslizara até pousar no peito dele, e sentia o seu próprio batendo igualmente forte, e isso também não era coisa que ele pudesse fingir.
— Foram embora — disse Nico. A voz saiu rouca.
— Eu sei.
— Pode me soltar.
— Eu sei. — Frankie não soltou. Engoliu em seco. — Isso não foi um disfarce. Não me diga que foi um disfarce.
— Começou como um.
— E depois?
— E depois deixou de ser.
Frankie soltou um longo suspiro trêmulo e encostou a cabeça nas telhas. Por um momento só o olhou. Depois disse, bem baixinho, como uma coisa que vinha guardando a semana inteira:
— Me diga seu nome. O de verdade.
Nico abriu a boca.
Lá em cima, na estrada, o motor do caminhão voltou. Faróis varreram o fim do cais, brancos e súbitos, e uma porta se abriu, e a voz de Skip Tolland chamou pelas tábuas escuras:
— Rourke! O Ray diz que você vem também.























