A voz atrás da porta
Nina
A voz de Celina pediu para entrar cinco minutos depois de Nina descobrir que a mulher havia deixado Chicago.
— Sou eu, querida. Abre depressa.
Nina permaneceu com a mão na maçaneta do apartamento, o casaco ainda fechado até o pescoço. No visor do telefone, a mensagem da filha de Celina continuava acesa: Mamãe está comigo desde domingo. Precisa ficar quieta um pouco. Depois fala com você.
Era quinta-feira. A chuva que congelava nas bordas da rua tinha levado quase uma hora para vencê-la entre a estação e o Saint-Cloud. Nina havia desejado uma sopa, meias secas e o direito de não ouvir outra voz humana naquela noite. Ganhara uma voz que não devia estar ali.
Apertou o botão do interfone.
— Celina? Você está no saguão?
Um estalo pequeno. Depois, uma inspiração ruidosa.
— Sou eu, querida. Abre depressa.
A repetição tirou o frio das suas botas e o levou para dentro do peito.
Nina soltou o botão. A tranca da entrada, no térreo, dependia de outro comando, um círculo gasto à direita. Ela o cobriu com a palma como se alguém pudesse alcançá-lo através da parede. O aparelho era antigo, de plástico amarelado; na semana anterior, uma entregadora precisara gritar para vencer o chiado. Agora a voz chegava limpa demais, próxima da textura que Nina conhecia pelos fones de estúdio.
Ela baixou o volume do telefone e ligou para Joana.
A amiga atendeu no terceiro toque, ofegante.
— Se você disser que perdeu o trem, eu vou pessoalmente buscar aquele aplicativo e jogar no lago.
— Preciso que fique na linha. Tem alguém usando a voz da Celina no meu interfone.
O ruído do outro lado cessou. Uma ferramenta bateu em metal, e Joana pediu um instante a alguém.
— A telefonista? Aquela da entrevista?
— Ela está fora da cidade. Acabei de receber uma mensagem da filha.
— Não abre.
— Eu não abri.
Dizer aquilo em voz alta ajudou. Havia uma decisão tomada, pequena mas inteira. Nina colocou o telefone sobre a sapateira, ligou o viva-voz e finalmente tirou a mochila. O peso do gravador cinza puxou uma das alças para o chão.
Celina lhe emprestara o aparelho no sábado, junto com um cartão de memória e uma sacola de fitas antigas. Uma faixa de esmalte azul atravessava a tampa das pilhas. Era o tipo de identificação que uma mulher de sessenta e um anos inventava depois de décadas vendo colegas tomarem canetas, grampeadores e o próprio almoço por engano. Nina gostara daquele detalhe. Tinha prometido devolver tudo na semana seguinte.
Agora não desejava tocar no gravador.
O interfone voltou a chiar.
— Abre, Nina.
Dessa vez não era a mesma frase. O nome veio baixo, quase impaciente. Nina sentiu as costas encostarem na porta de carvalho. A madeira não cedeu. O peso real da folha, seus dois trincos, a corrente nova que ela mandara instalar em setembro: pensou em cada peça como quem confere os dedos depois de prender a mão numa gaveta.
— Você ouviu? — perguntou à amiga.
— Ouvi. Tem alguém com você no andar?
Nina olhou para o olho mágico. Primeiro viu apenas a luz amarela do corredor e o desenho borroso do carpete bordô. Depois uma sombra atravessou a borda curva da imagem.
Ela se afastou sem fazer barulho.
— Tem um homem.
— Diante da sua porta?
Nina voltou a olhar. O homem estava na porta oposta, o 2C, uma chave entre os dedos. Vestia um sobretudo cinza que não conhecia. Cabelos escuros, barba curta, uma pequena falha clara na sobrancelha direita. Não parecia surpreso com o ruído vindo do apartamento dela. Olhava para o interfone do próprio corredor, instalado perto da escada, com a concentração de alguém que aguardava a última palavra de uma conversa.
— Acho que é o novo vizinho.
— Acha?
— Mudou faz poucos dias. Eu vi caixas.
A locação curta do 2C fora anunciada durante meses num papel inclinado junto à portaria. Nina notara o desaparecimento do aviso porque o plástico da moldura havia deixado uma mancha mais clara na parede. Do homem, só vira um ombro entrando no elevador e, na véspera, uma luva preta esquecida sobre as caixas de correspondência. Ela a deixara com Rute.
O homem virou o rosto para a porta de Nina.
Não tinha como vê-la pelo olho mágico. Ainda assim, ela recuou.
— Nina? — chamou Joana.
— Estou aqui.
Duas batidas leves soaram do outro lado da madeira.
Nina não respondeu.
— Não libere a entrada — disse uma voz masculina. — Há um homem na calçada. Ele acabou de esconder alguma coisa no casaco.
As palavras eram claras, sem pressa. Não pediam confiança; descreviam um perigo como quem informa uma mudança de temperatura. Isso a irritou antes de assustá-la mais.
— Como você sabe que ele falou comigo?
Um intervalo.
— Ouvi seu interfone.
— Do apartamento em frente?
— Eu estava no corredor.
Joana falou mais alto pelo telefone:
— Quem é você?
O homem pareceu ouvir. Nina imaginou seus olhos baixando para a altura do aparelho sobre a sapateira, o cálculo da distância até o viva-voz. Não gostou da facilidade com que montou a imagem.
— Tomás Vidal. Estou no 2C. Posso chamar a zeladora.
— Eu chamo — respondeu Nina.
— Certo.
Não tentou convencê-la. Os passos se afastaram dois metros, talvez menos. Ela conferiu pelo olho mágico e o viu junto ao próprio batente, mantendo o corredor livre. O rosto de perfil era mais novo do que a voz sugerira. Quase quarenta, pensou, e se aborreceu com o detalhe. Um desconhecido saber a idade aparente de outro desconhecido não resolvia nada.
Ligou para Rute sem desligar Joana, alternando entre as chamadas com o dedo que começara a tremer. A zeladora atendeu depois de uma demora que pareceu calculada para produzir o pior.
— Estou trocando uma lâmpada, minha filha. O que foi?
Nina explicou em frases curtas. Não usou a palavra perseguição; não sabia se havia alguém a perseguindo. Disse voz, entrada, homem, mensagem. Rute não a interrompeu para sugerir falha elétrica.
— Não toque no botão. Vou olhar da minha janela antes de descer.
— Tem um vizinho aqui fora. Tomás.
— O do 2C. Conheço a ficha dele, não conheço a vida. Não precisa abrir para ninguém.
A distinção, tão simples, soltou um pouco a tensão na mandíbula de Nina.
Ela voltou para Joana.
— Rute está verificando.
— Você quer que eu vá?
— Ainda está no teatro?
— Estou desmontando uma coisa que devia ter sido feita por alguém com braços de polvo. Posso sair.
Nina olhou para a bota molhada que havia deixado uma meia-lua escura no tapete. Queria Joana ali, no sofá estreito, reclamando do aquecedor. Queria uma testemunha para o tamanho verdadeiro do medo. Ao mesmo tempo, odiou a ideia de fazê-la atravessar a cidade por causa de um aparelho velho.
— Espera a Rute olhar. Só fica comigo.
— Fico.
O apartamento pareceu menor quando Nina apagou a luminária perto da janela. Não desejava oferecer uma silhueta à calçada. Deixou aceso o abajur da bancada, junto ao computador e ao pequeno painel de espuma que usava para gravar correções de locução. As placas não isolavam o imóvel. Serviam apenas para diminuir a reverberação no canto de trabalho. Uma voz no corredor ainda chegaria a ela.
Ela sabia a diferença. Pagava as contas sabendo diferenças que outras pessoas chamavam de ruído.
Abriu no telefone a conversa com a filha de Celina. Digitou: Sua mãe ligou para mim agora? Apagou antes de enviar. Se era algum problema familiar que a fizera sair, a pergunta poderia levar alguém ao telefone errado. Escreveu outra coisa: Preciso confirmar uma informação sobre o projeto. Pode me dizer quando ela conseguir falar?
Enviou. A mensagem permaneceu com uma única marca de entrega.
Três toques na porta.
Nina perdeu a sequência do próprio raciocínio.
— Quem é?
— Rute. O Tomás continua aí fora, longe da sua porta. Não tem mais ninguém na entrada.
Pelo olho mágico, a zeladora apareceu de casaco sobre o avental doméstico, óculos presos numa corrente vermelha. Segurava o molho de chaves com a mesma autoridade com que carregava sacolas de lixo: eram coisas que precisavam sair do caminho.
Nina abriu só depois de conferir o rosto, com a corrente ainda presa.
— Posso ver pelo seu vidro? — perguntou Rute. — Da minha janela a marquise esconde um pedaço da calçada.
Nina tirou a corrente e deixou a mulher entrar. Tomás não se aproximou. Ficou junto à parede oposta, as mãos vazias à vista. A uma distância segura, parecia quase uma demonstração de segurança. Ela não soube se aquilo deveria tranquilizá-la.
Rute foi à janela sem acender outra lâmpada. Nina a seguiu. O vento empurrava chuva fina contra a pedra clara da fachada. As gárgulas, vistas daquele ângulo baixo, eram apenas saliências negras despejando água. Um carro branco esperava o sinal na esquina. Havia um casal sob o mesmo guarda-chuva e um homem comprando cigarros do outro lado da rua.
— Casaco azul — disse Tomás, do corredor.
Ele não precisava elevar a voz. A porta aberta conduzia as palavras até o fundo do cômodo.
Nina olhou para ele.
— Você não disse a cor antes.
— Não me perguntou.
— Estou perguntando agora.
Ele aceitou a reprimenda com um movimento curto do queixo.
— Azul, acolchoado. Um pouco mais baixo que eu. Passou pela entrada duas vezes. Quando olhou para cima, escondeu o aparelho.
— Telefone?
— Não vi direito.
Pelo menos admitia isso. Nina tornou a observar a rua. Um homem apareceu debaixo da marquise da lavanderia. O casaco tinha a cor de tinta escolar, vivo demais naquele trecho escuro. Ele não olhou para a janela. Acendeu um cigarro e virou o corpo, protegendo a chama.
Ela teve a impressão de que ele esperava alguma coisa. Mas quase toda pessoa parada debaixo de chuva parecia esperar alguma coisa.
Rute anotou a hora no telefone.
— Vou pedir à administração para preservar a imagem da entrada. Se a câmera tiver pegado. Não contem com a do elevador, está dando defeito.
— E a senha? — perguntou Nina.
— A da rua será trocada de manhã. Hoje preciso avisar quem ainda chega do trabalho. Posso ficar no saguão até meia-noite.
Nina imaginou a mulher de cinquenta e oito anos montando guarda sozinha, com óculos vermelhos e uma chave de fenda.
— Não quero que fique exposta por mim.
— Não vou ficar na porta. A sala tem janela. E vou ligar para meu sobrinho, que mora a duas ruas. Não transformem isso numa patrulha de filme.
Joana soltou uma risada curta pelo telefone. Rute percebeu a voz e ergueu a mão para o aparelho.
— Estou ouvindo tudo — avisou a amiga.
— Melhor assim.
Nina voltou até a entrada. Tomás tinha tirado uma das luvas. Uma linha vermelha atravessava a pele perto do polegar, recente o bastante para brilhar. Ele fechou os dedos quando percebeu o olhar dela, sem esconder a mão atrás do corpo.
— Você se machucou?
— Numa caixa.
— A caixa tem dentes?
Por um instante, o canto da boca dele pareceu querer se mover. Não chegou a ser um sorriso.
— Às vezes o grampo fica para fora.
Nina conhecia o impulso de fazer piada quando faltava uma pergunta melhor. Não gostou de descobri-lo respondendo àquele impulso como se já a entendesse.
— Obrigada por avisar. Vou fechar.
— Faça isso.
O tom a fez parar.
Ele percebeu antes que ela dissesse alguma coisa.
— Não foi uma ordem.
— Ótimo. Eu já pago aluguel. Não preciso de supervisão incluída.
Dessa vez ele sorriu, pouco e sem mostrar os dentes. O efeito no rosto foi desproporcional. Nina sentiu o corpo registrar a mudança, aquele pequeno calor inconveniente sob o esterno, e fechou a porta antes de lhe atribuir importância.
Rute se demorou mais alguns minutos. Conferiu os dois trincos e pediu que Nina registrasse o ocorrido, mesmo que o telefonema fosse uma brincadeira de péssimo gosto. Não garantiu que uma viatura apareceria para vigiar um interfone. Deu o número do prédio, confirmou o próprio celular e saiu levando a chave de fenda.
Quando ficaram só as duas vozes, Nina sentou à bancada.
— Vou chamar um carro para você — disse Joana.
— Me dá dez minutos.
— Para quê?
— Quero ouvir uma coisa.
Nina colocou os fones. O couro sintético se ajustou às orelhas, isolando o chiado do aquecedor. Conectou ao computador o disco de trabalho onde copiara a entrevista autorizada, sem tocar no cartão original de Celina. Havia noventa minutos de conversa sobre turnos, sobrenomes difíceis e a época em que as telefonistas sabiam pelo jeito de respirar se uma ligação devia ser transferida.
No ponto que procurava, Celina ria de uma memória doméstica.
Nina ouviu uma vez. Voltou quatro segundos. Ouviu de novo, agora prestando atenção ao pequeno assobio no fim da inspiração. Durante a entrevista, uma chaleira começara a ferver fora do campo do microfone. Celina havia chamado alguém da cozinha. A frase era comum; a respiração depois dela, não.
No interfone, a mesma inspiração viera colada a outras palavras. Tinham cortado a chaleira, mas deixado o ar.
Nina tirou um lado dos fones.
— Não é ela lá embaixo.
— Eu sei, amor.
— Não. Quero dizer que alguém está usando a gravação. A minha gravação.
O silêncio de Joana mudou de natureza.
Nina procurou a pasta das correções que fizera naquela tarde. Uma abertura de documentário, três testes descartados, uma instrução técnica dita perto demais do microfone. Não precisava ouvir todos. O segundo arquivo lhe trouxe uma batida de língua que ela havia esquecido de limpar antes de enviá-lo ao cliente.
No corredor, alguma coisa raspou de leve a madeira. Nina ergueu os olhos, mas não retirou os fones.
Dessa vez encontrou o som antes que ele terminasse.
A última frase do interfone havia sido montada com a própria voz dela.
O homem do outro lado
Nina
Nina retirou os fones antes de ouvir o arquivo outra vez. Precisava da sala ao redor: o aquecedor batendo na parede, Joana respirando pelo telefone, a chuva tocando a janela. Sua voz estava no computador, guardada num teste de locução. Na lembrança do interfone, aquela mesma voz mandava abrir a porta. As duas coisas não podiam ocupar o mesmo lugar sem que alguém tivesse trabalhado para isso.
— Você consegue gravar o que vem do interfone? — Joana perguntou.
— Se tocar de novo. O que ouvi antes ficou só na minha cabeça.
— Então não conclui mais do que sabe.
Era o tipo de conselho que Nina dava a produtores apressados. A amiga o devolvia sem delicadeza, e por isso funcionou. Nina abriu um documento, anotou o horário e descreveu as três frases lembradas. Marcou a última como reconhecimento provável da própria voz. Não escreveria que possuía uma prova que não havia registrado.
Em seguida abriu uma cópia da entrevista. O cartão original continuava dentro do gravador cinza. Ela removeu o cabo do aparelho para evitar qualquer confusão entre a origem e o arquivo de trabalho. Um cliente já perdera uma tarde inteira porque três versões receberam o mesmo nome. Naquela noite, a diferença entre original e cópia tinha um peso que nenhum orçamento lhe ensinara.
Encontrou a passagem da chaleira. Celina chamava alguém, ria, retomava uma frase sobre o antigo emprego. Nina separou o trecho sem apagar o restante. No fim da inspiração havia dois pequenos cliques, produzidos pela boca seca. A coincidência com a ligação parecia forte. Ainda assim, não recuperaria uma ameaça inteira a partir de um ruído.
O telefone vibrou com uma mensagem da filha de Celina. A mãe não havia ligado. Não queria falar naquela noite e avisaria quando pudesse.
Nina leu a resposta para Joana.
— Vou mandar o endereço do café da esquina — disse a amiga. — Saio do teatro em quarenta minutos. Tem gente lá a noite toda.
— Não quero ir embora sem meu disco.
— O disco está aí.
— Esse é o da entrevista. O de trabalho ficou no depósito da Rute, com duas caixas. O aquecedor vazou no meu armário ontem.
Ouviu a própria voz explicando uma banalidade e quase chorou. Havia cabos secando num escorredor, um orçamento atrasado e pão no congelador. Alguém entrara naquela vida comum e transformara cada pendência numa rota de fuga.
— Você não vai carregar caixas agora — Joana respondeu. — Pega o que precisa para dormir e vem.
Nina concordou. Guardou o gravador, o telefone e a carteira na mochila. O disco da entrevista foi para o bolso interno do casaco, separado do aparelho. Trocou as meias molhadas sem tirar as botas de perto. Deixou um bilhete para si na bancada: desligar tomada do aquecedor quando voltar. O absurdo do bilhete a ajudou a respirar.
Dois toques rápidos vieram da porta.
— Nina? Sou eu — disse Rute. — Tem uma entrega sem nome aqui embaixo. Você pediu alguma coisa?
Nina levou o telefone consigo até o olho mágico. A zeladora estava no corredor com Tomás a vários passos de distância. Uma ponta de lã cinzenta pendia da luva dele, agarrada ao corte do couro. Nina reparou nela com uma irritação inesperada. Seu cérebro insistia em recolher detalhes pequenos enquanto as decisões grandes lhe escapavam.
— Não pedi. Como ele entrou?
— Ainda não entrou. Falou pelo painel da rua. Disse que era para uma moradora do segundo andar.
Tomás observava a porta da escada, não Nina. A mão sem luva estava apoiada no corrimão de madeira. Aquele corte perto do polegar parecia superficial, mas havia sangue seco na dobra da pele.
— É o homem do casaco azul? — Nina perguntou.
— A câmera mostra só uma caixa — Rute respondeu. — Eu não vou liberar.
Nina abriu a porta com a mochila presa aos dois ombros.
— Estou indo encontrar uma amiga. Você pode descer comigo?
Falava com Rute. Fez questão de manter os olhos na zeladora.
— Posso. Vou pegar meu telefone na sala. O sobrinho está vindo, mas não chegou.
— Eu espero aqui.
Tomás inclinou o rosto para a mochila.
— Fechou o bolso lateral?
Nina olhou para baixo. O zíper estava aberto dois dedos. Dentro havia um estojo de pilhas, nada que justificasse o sobressalto. Fechou-o e voltou a encará-lo.
— Você conta os meus bolsos também?
— Vi a abertura.
— E eu vi que você estava na janela antes de eu começar a falar com Rute. Há quanto tempo estava olhando a rua?
Ele esfregou o polegar na costura da luva.
— Uns vinte minutos.
— Esperando alguém?
— Observando o homem que passou duas vezes.
A resposta cabia na pergunta sem preenchê-la. Nina conhecia esse recurso de entrevistas difíceis: oferecer uma parte verdadeira, deixar que o interlocutor montasse o resto. Não significava uma mentira. Também não significava boa vontade.
Rute recebeu uma chamada e se afastou até o patamar para ouvir. Joana continuava na linha, agora silenciosa, acompanhando a conversa pelo aparelho que Nina segurava.
— O meu apartamento fica em frente — Tomás disse. — Se quiser esperar sentada…
— Quero luz e mais de uma saída.
Ele olhou para a escada e, depois, para o elevador.
— O saguão, então.
Nina esperava resistência. O acordo imediato a deixou sem o próximo golpe de língua. O homem mantinha a postura de quem sabia usar o próprio tamanho, mas fizera um espaço de passagem antes que ela o pedisse. Quando Nina se moveu, viu que ele também recuara do corrimão.
Desceram com Rute. Nina carregava a mochila à frente agora, apertada contra o estômago. O mármore do saguão devolvia a luz em manchas amareladas. Pela vidraça, a rua parecia mais distante do que dois metros, comprimida entre gotas. Havia uma caixa pequena no chão da marquise. Não havia entregador.
— Não vou mexer nisso — Rute disse.
— Nem eu — respondeu Nina.
A zeladora fez uma fotografia de dentro do prédio e telefonou para a administração. Tomás foi até a porta de serviço, no lado esquerdo do saguão, e parou antes de tocá-la.
— Rute, essa porta está destrancada?
— Não deveria.
O trinco se moveu do outro lado.
Nina sentiu a alça da mochila prender o fôlego. A folha de madeira abriu uma fresta, mostrando um pedaço de manga azul. Tomás empurrou a porta com o antebraço, impedindo que o homem passasse. O baque percorreu o saguão e pareceu voltar do teto.
— Tem gente aqui — Tomás disse, num tom que não reconhecia conversa. — Afaste-se.
O homem fez força. Nina viu os dedos dele na borda, as unhas escuras, um anel de metal no indicador. A porta avançou alguns centímetros. Tomás mudou o apoio dos pés sem tirar o braço da madeira.
Rute já falava com a emergência. Nina disse o endereço em inglês, alto o suficiente para a operadora ouvir pelo telefone da zeladora, e recuou para trás da coluna. Joana chamou seu nome no outro aparelho. Nina respondeu que estava ali e que um homem tentava entrar pela passagem de serviço.
Uma voz rouca veio da fresta:
— Vim pegar uma encomenda. Calma.
— Então espere na rua — Tomás respondeu.
O esforço cessou. Um tênis arrastou no piso de fora. Tomás manteve a porta pressionada até Rute puxar o ferrolho superior, uma peça que Nina nunca notara. O metal entrou no encaixe com dificuldade. Só então ele retirou o braço.
Sua luva estava rasgada na junta do dedo médio.
Nina percebeu que apertara o telefone contra o peito e o levou de volta ao ouvido.
— Estou bem, Joana.
Não estava. O corpo tremia num ritmo que parecia emprestado de outra pessoa. A língua pesava. Uma parte sua desejava que Tomás dissesse exatamente o que fazer, até onde andar, quando respirar. Ela odiou a facilidade dessa entrega imaginada e ficou mais reta diante da coluna.
— Vou para o café. Agora.
— Espere a orientação da atendente — disse Rute.
Nina assentiu. A operadora perguntou se o homem continuava à vista. Tomás olhou pela janela estreita da porta de serviço, afastado do vidro, e informou que não o via. Não afirmou que havia ido embora. Rute repetiu a frase, descreveu a roupa e recebeu instruções para permanecerem dentro até a chegada do apoio.
Ficaram na saleta de administração, com a porta aberta para o saguão. Havia uma chaleira elétrica e um calendário atrasado na parede. O vapor da água tocou o rosto de Nina quando Rute lhe ofereceu uma caneca sem perguntar se queria chá. Ela segurou a porcelana pelo corpo, procurando o calor.
Tomás permaneceu do lado de fora. Tirou a luva danificada com os dentes e examinou os dedos. Nina acompanhou o movimento antes de conseguir desviá-lo. A boca dele era mais suave do que o restante do rosto. Quis saber como seria ouvi-lo falar perto de sua pele, e a pergunta veio no mesmo instante em que se lembrava do antebraço bloqueando a entrada. Desejo e gratidão se misturavam de um jeito que ela não confiava em separar naquele momento.
Não faria nada com aquilo.
— Tem um pano limpo na gaveta — Rute disse a ele. — Não quero sangue no mármore. Já tenho problema demais.
Ele soltou uma respiração que quase foi riso e obedeceu. Ao passar pela cadeira de Nina, não tocou nela. O espaço entre o joelho dela e a perna dele ficou cheio de uma consciência desagradavelmente precisa.
O sobrinho de Rute chegou antes da viatura. Era um homem baixo com um capacete de bicicleta e uma sacola de mercado. A zeladora o identificou pelo vidro, abriu e imediatamente o mandou para longe da caixa na marquise. Ele tomou o lugar junto à janela sem fazer perguntas heroicas. Chamava-se Paulo e queria saber onde guardavam o carregador do celular.
A normalidade daquele pedido diminuiu o tremor de Nina.
Quando os policiais chegaram, ela contou o que vira. A voz do interfone era uma suspeita apoiada em seu trabalho, não uma gravação disponível para perícia. A tentativa pela porta de serviço fora testemunhada por três pessoas. Um dos agentes anotou ambas as coisas separadamente. Conferiram o beco, recolheram informações sobre a caixa e orientaram a administração quanto às imagens. Nina não ouviu promessa de proteção permanente. Ouviu que devia voltar a ligar se o homem aparecesse, evitar ficar sozinha e guardar as mensagens.
A caixa continha um catálogo velho, disseram depois de verificá-la. O nome de Nina estava escrito na fita que a fechava. Nenhum remetente.
Ela sentiu uma raiva limpa, melhor que a vertigem. Alguém queria que sua atenção se partisse entre a entrada principal e a porta lateral. A caixa fora suficiente para isso.
Joana já estava a caminho do café quando os agentes terminaram. Nina pediu a Rute que a acompanhasse até a esquina. Tomás se ofereceu para ir também.
— Você pode vir até lá — Nina disse. — Eu não pedi que volte comigo.
Ele aceitou com um aceno. A serenidade quase a fez provocá-lo de novo. Talvez o incômodo maior fosse que ele não lhe entregava uma reação fácil para condenar.
Antes de sair, Rute lembrou do casaco reserva guardado junto às caixas de Nina.
— Está seco no depósito. Esse aí vai te deixar doente. Pega o outro, pelo menos.
O depósito ficava atrás da saleta, num corredor curto que terminava na antiga área telefônica. A porta não era de carvalho como as dos apartamentos: tinha pintura bege descascada e uma placa metálica perto do chão. Rute procurou a chave certa. Nina manteve o telefone aceso, iluminando o molho.
Tomás ergueu a mão para um botão quadrado junto ao batente.
— A lâmpada daqui acende nesse.
A claridade veio amarelada, revelando prateleiras e um cheiro úmido de papelão. Nina olhou primeiro para o botão, depois para ele.
— Já entrou aqui?
— Rute me mostrou a saída quando aluguei.
A zeladora confirmou que explicava o trajeto a quem alugava por pouco tempo. Nina não soube por que aquela explicação, razoável e testemunhada, lhe pareceu uma peça colocada tarde demais no lugar. Tomás conhecia a altura exata do interruptor num corredor onde ela mesma entrava raramente.
Encontrou o casaco reserva numa sacola transparente. Não era mais quente, mas estava seco. O disco de trabalho permanecia numa caixa pesada, debaixo de cabos e livros. Rute se abaixou para alcançá-la, e Nina pediu que deixasse para a manhã. Não arrastaria aquele volume pelo beco nem atrasaria a saída de todos. Tirou só o cachecol seco que havia sobre a sacola. O ferrugem, úmido, foi enrolado por fora da mochila.
Tomás abriu o sobretudo para procurar um lenço. Havia uma mancha escura no punho, onde a chuva se misturara ao corte. Pousou a peça cinza numa cadeira e limpou a mão, virando o corpo para dar espaço a Nina junto das sacolas. Ela dobrou o cachecol molhado sem pedir ajuda. O cuidado com aquele espaço apertado a atingiu de maneira inconveniente: o homem podia ser atencioso e continuar sendo um desconhecido.
O telefone dele vibrou dentro do sobretudo. Um papel escorregou do bolso interno e caiu perto da bota de Nina.
Ela o recolheu antes de pensar.
A primeira linha trazia uma sequência de números. Abaixo havia duas palavras impressas: equipamento portátil. Nina conhecia o número porque o digitara no recibo de empréstimo de Celina, ao lado da faixa de esmalte azul.
Levantou o gravador da mochila, girou-o na mão e conferiu os últimos quatro algarismos sob a luz fraca.
Iguais.
Tomás se virou. Viu o papel nos dedos dela e a expressão de seu rosto mudou, não para surpresa, mas para uma imobilidade que Nina entendeu pior.
— Nina — ele começou.
Ela recuou até Rute, levando o documento consigo.
— Não fale aqui.
O homem parou. Pela primeira vez naquela noite, pareceu procurar uma saída que não estivesse numa parede.
Nina fechou a mochila e ligou a câmera do telefone. Fotografou o papel inteiro, inclusive a dobra que escondia parte do cabeçalho. Depois enviou a imagem a Joana.
— O número do meu gravador estava no seu casaco — disse. — Você vai explicar isso onde outras pessoas possam ouvir.










































