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A Mulher do Lote Sete — dark romance grátisGrátis · Exclusiva

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A Mulher do Lote Sete

Leiloada por uma dívida, uma afinadora encontra no piano de seu comprador a última pista da irmã desaparecida.

Romance sombrio M/F adulto com uma afinadora de piano, coerção criminosa e confiança conquistada.

Beijos e tensão sensual; sem sexo gráfico. Contém cárcere, coerção criminosa, ameaça e violência não gráfica.

  • dívida coercitiva
  • leilão clandestino
  • proximidade forçada
  • heroína profissional
  • homem moralmente comprometido
  • confiança conquistada

🌶️ Cerca de 88 min de leitura · 20.257 palavras

Teresa Nunes conhece o peso de uma ferramenta e o som de um mecanismo quebrado. Não aceita que suas mãos sejam parte de uma cobrança. Dante Moura pagou por sete noites, mas precisa dela para abrir um rolo de pianola que alguém quer destruir. Entre trabalho, ameaça e atração, ele terá de arriscar mais que dinheiro para que Teresa possa escolher ficar.

Livros de Alisson Bento

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O martelo

Teresa

O esmalte que Helena passou nas minhas unhas começa a descascar antes que alguém me explique por que há uma etiqueta com meu nome sobre a mesa. Esfrego o polegar no indicador e arranco uma pequena meia-lua vermelha. Minha irmã escolheu a cor do vestido também. Disse que credor nenhum concede desconto para quem chega vestida de derrota. Agora quero perguntar se ela conhece o desconto concedido a quem aparece sem a bolsa de ferramentas e com um homem bloqueando a escada.

— O senhor falou em avaliação — digo.

Artur Faria ajeita a etiqueta. Não olha para o segurança. Não precisa.

— E é o que estamos fazendo, Teresa.

Atrás dele há um violoncelo com o cavalete caído, dois bancos de concerto e um piano de cauda fechado. Em cada peça, um número. Sobre o papel diante de mim, o sete está impresso numa tinta mais nova que o meu nome. A cola no verso ainda reluz. Dou um passo para alcançar a etiqueta e o homem da escada adianta o sapato.

— Minha bolsa.

— Será devolvida — diz Faria.

— Quando?

Ele toca o relógio sem consultar as horas. O gesto ensaiado me dá mais medo do que uma resposta grosseira. Na oficina, eu sei reconhecer quando alguém está apenas apertando um parafuso para parecer ocupado. Ali, o homem de terno claro está fazendo isso com a minha pergunta.

O subsolo foi um camarim, talvez. Sob a tinta bege, restam quadrados de espelho colados na parede. Uma lâmpada próxima aquece meu ombro descoberto; a outra pisca sobre um cabideiro vazio. O vestido vinho prende meus joelhos quando me abaixo para conferir o fecho da sandália. Finjo precisar apertá-lo. Quero ver a parte de baixo da mesa, a distância até a porta, qualquer coisa que não seja o sorriso do credor.

Não há segunda saída visível.

Helena não atende desde a tarde. Na última mensagem, escreveu que estava resolvendo uma entrega e que eu não devia assinar mais nada. Li aquilo no ônibus, depois de aceitar o convite para a avaliação. Tentei voltar à rua quando cheguei. Faria disse que a reunião levaria poucos minutos. O motorista pegou minha bolsa para que eu pudesse tomar água. Depois pegou meu telefone para carregá-lo. Aceitei coisas pequenas, separadas. Agora as peças estão montadas ao meu redor.

— Eu sou fiadora de um empréstimo — digo, devagar. — Vim conversar sobre parcelas. Não trouxe instrumento para vender.

— Sua irmã deixou de cumprir o combinado.

— Então mostre o cálculo.

Ele abre uma pasta e passa o dedo por uma coluna. Reconheço minha assinatura na última folha. Acima dela, porém, há linhas que não estavam na cópia que guardei. Puxo o papel. Faria o prende com dois dedos, sem esforço aparente.

— Isso não é o que eu assinei.

— A finalidade permanece a mesma. Garantir a obrigação.

Minha irmã passou meses dirigindo uma van cujo motor fervia nas subidas. Aceitei ser fiadora porque conhecia a rota, os clientes, o dinheiro que entraria. Não conhecia a empresa que adiantou o conserto. Faria veio com recibos e um mecânico recomendado. Quando o primeiro pagamento não foi localizado, Helena fez outro. Quando o segundo desapareceu também, fomos juntas ao endereço do escritório. Havia uma porta de enrolar e uma loja de capas de celular. A moça do balcão nunca tinha ouvido falar deles.

Eu devia ter procurado ajuda naquele dia. A ideia chega inútil, pontual, com a mesma crueldade dos serviços que precisam de mim quando a madeira já rachou.

— A obrigação é financeira — respondo. — O senhor não pode trocar o que está escrito.

— Posso oferecer uma solução para não envolver sua irmã numa cobrança desagradável.

Na parede, o quadrado de espelho divide meu rosto. Vejo um olho castanho e o canto da boca. Meu queixo fica fora. Inclino a cabeça até encontrar a cicatriz que ganhei aos nove anos, caindo da bicicleta de Helena. Preciso reconhecer o rosto inteiro antes de continuar.

— Onde ela está?

Faria fecha a pasta.

— Gostaria que eu soubesse.

Pela primeira vez, acredito numa frase dele. Não parece satisfeito com a ausência da minha irmã. O medo muda de forma. Se Helena conseguiu escapar, quero que continue longe, mesmo que isso signifique ficar sem ouvir sua voz.

O homem da escada recebe um sinal e abre a porta. A música do andar superior desce recortada: duas notas, uma risada, o baque de alguma peça pesada. Faria prende a etiqueta numa fita e estende para mim.

Não pego.

— Ninguém pode prometer minhas mãos em meu lugar.

Ele me olha então, sem o sorriso de atendimento.

— Use-as bem esta noite.

O segurança toca meu cotovelo. Sacudo o braço antes que consiga firmar os dedos. Ele não insiste; aproxima o peito das minhas costas e a escolha disponível fica reduzida a andar ou ser empurrada. Subo. Conto os degraus por costume profissional, como conto teclas sem vê-las, mas perco a sequência quando encontro o salão.

As cadeiras estão dispostas em duas fileiras curtas. Não há multidão que eu possa usar para desaparecer. Homens e duas mulheres seguram catálogos sem capa. Um garçom recolhe taças perto de uma coluna. Ao fundo, uma porta dupla dá para a rua. O trinco está à vista, tão comum que sinto vontade de chorar.

— Eu preciso sair — digo ao garçom.

Ele baixa os olhos para a bandeja. Pode não ter ouvido. Posso precisar dizer mais alto. Abro a boca e Faria me toma pelo braço, sorrindo para as cadeiras como se eu tivesse feito uma observação engraçada.

— A técnica veio demonstrar a condição de algumas peças.

— Não vim.

Um homem de gravata afrouxada ergue o rosto. Tem uma mancha de vinho no punho. O olhar dele percorre meu vestido e para na etiqueta que Faria agora segura junto ao meu ombro.

— Essa é a garantia?

O ar preso nos meus pulmões sai tão depressa que me dói o peito. Faria mantém a mão em mim. Procuro as mulheres, mas uma folheia o catálogo e a outra me observa com uma atenção fria, interessada na resposta. Não encontro aliado apenas por procurar um rosto semelhante ao meu.

— Sete noites de serviço especializado — anuncia Faria. — Com possibilidade de quitação antecipada pelo adquirente.

— O adquirente de quê? — pergunto, alto.

O homem do punho manchado ri.

— Ela faz perguntas.

— Faço. O senhor tem dificuldade para responder?

Ele deixa o catálogo no assento e vem até nós. Faria me solta para recebê-lo. Aproveito o espaço, ando para o lado da porta, e encontro o segurança que subiu atrás de mim. Ele não precisa tocar outra vez. Encosta o polegar no botão do rádio e me olha. O homem da gravata segura meu queixo antes que eu consiga recuar.

Há uma taça sobre a mesinha ao meu alcance.

Pego-a pela haste e bato o bojo contra a quina de pedra. O estalo atravessa a conversa. Seguro o que resta apontado para o punho que me tocou. O vinho escorre pela mesa, não pela minha mão. Aprendi cedo a observar onde o vidro cede; troquei vitrines de instrumentos que ninguém teve dinheiro para mandar ao vidraceiro.

— Tire a mão.

Ele tira.

Por um segundo, escuto apenas o ruído de uma cadeira arrastando. Minha mão não treme até perceber que todos estão olhando para ela. Aperto a haste mais forte. Não quero cortar ninguém. Quero chegar ao trinco. A distância entre as duas coisas parece enorme.

— Ela não vale essa dor de cabeça — diz o homem.

— Então não dê lance.

A voz vem da segunda fileira. Um homem se levanta sem pressa. O sobretudo preto fica aberto sobre uma camisa da mesma cor. Ele tem alguns fios grisalhos nas têmporas e um corte antigo atravessando a sobrancelha direita. Não sorri para me acalmar. Olha primeiro o caco, depois a posição do segurança junto à porta.

Faria faz uma pequena pausa.

— Dante. Você veio pelo cauda.

— Ainda estou decidindo o que vou levar.

Há um anel de prata no indicador esquerdo dele. Reparo nisso porque a mão fica entre mim e o homem da gravata, sem tocar em nenhum dos dois. A barreira inesperada me permite baixar o vidro um pouco. Odeio sentir alívio por causa de um desconhecido que fala em levar coisas enquanto me olha.

— Ponha a taça sobre a mesa — diz Dante.

— Afaste aquele homem da porta.

Os olhos pretos encontram os meus. Ele entende que não estou falando do comprador. Olha para Faria. Não há ordem, porém. Não há porta abrindo. O auxílio que imaginei se interrompe antes de chegar ao lugar necessário.

— Você trabalha com pianos? — pergunta.

— Trabalho. Isso não me transforma num deles.

— Eu sei.

— Então fale comigo como se soubesse.

Uma corrente de ar passa pelo salão e a lâmpada suspensa oscila. No piano exposto atrás de Dante, algo metálico vibra. Não é corda. É uma peça solta no pedal, respondendo ao assoalho. Meus olhos vão até lá antes que eu possa impedir. A curiosidade do ofício sobrevive à pior ocasião para existir.

Dante segue o movimento.

— Qual é o defeito?

— Tem mais de um.

— O que você ouviu?

— Uma haste batendo. Se alguém pisar forte, pode travar o conjunto. Não teste agora.

Faria lança um olhar ao homem que está perto dos pedais. Ele retira o pé. A demonstração involuntária termina. Sinto uma náusea súbita: acabo de mostrar meu valor aos compradores porque uma parte de mim não suporta ver alguém danificar um mecanismo.

Deixo o vidro na mesa com cuidado. As bordas quebradas ficam para dentro. Se me levarem dali, não quero que o garçom se corte recolhendo os restos. O pensamento é tão pequeno, tão fora de escala, que quase rio.

— Quero meu telefone — digo. — E uma pessoa aqui disposta a me ouvir sem negociar preço.

Ninguém responde. A mulher do catálogo fecha as pernas e desvia os olhos. O homem de gravata retorna à cadeira. Dante continua diante de mim, e consigo sentir o espaço que seu corpo ocupa sem que ele se aproxime. Faria parece calcular o que pode recuperar daquela interrupção.

— Os termos são simples. Hospedagem, trabalho, liquidação da dívida ao fim do período. O lote de instrumentos fica separado.

— Não existe termo que me obrigue a dormir na casa de um estranho — digo.

— Existem coisas mais difíceis do que um serviço temporário, Teresa.

O nome da minha irmã não precisa ser pronunciado outra vez. Está na pausa, na pasta que ele segura, na lembrança da van azul deixando a oficina depois do conserto. O motor novo soou tão bem que Helena chorou ao volante. Eu ri dela. Prometi que em breve compraríamos um elevador de carga usado e pararíamos de pedir favores.

Dante fala um valor. Não consigo guardá-lo. Faria inclina a cabeça para as cadeiras.

— Pelo instrumento e pela garantia?

— Pela quitação dela.

O homem do vinho levanta a mão e acrescenta alguma coisa. A mulher fria ergue um dedo. O lance seguinte vem de Dante. Cada resposta chega sem hesitação, e o horror passa a ter ritmo. Sou capaz de prever a batida do martelo antes que Faria o levante.

— Eu não concordo — digo.

Dante me escuta. Vejo isso no músculo que salta perto da boca. Ainda assim, oferece mais.

Faria bate o martelo na madeira.

O som é curto. Não há nada nele que devesse conseguir alterar minha vida. Na oficina, um martelo pequeno acomoda cavilhas, assenta peças, devolve firmeza a uma estrutura. Este apenas faz os homens relaxarem nas cadeiras, satisfeitos com uma coisa resolvida.

— O cauda fica — diz Faria a Dante. — Nesse valor, você sabe que não pode levar os dois.

Dante olha o piano uma última vez. A perda tem um peso visível para ele, embora eu não saiba qual. Não me comove. Meu valor acaba de ser comparado ao de madeira envernizada, e recuso fazer a conta de quem saiu perdendo.

Faria entrega minha bolsa azul. Ela parece menor pendurada na mão de Dante. A alça está costurada com linha laranja, num remendo que fiz no ônibus. Reconhecê-la me devolve uma raiva útil.

— É minha.

— Vai com você — diz ele.

— Eu pedi que me desse.

— Depois de sairmos.

Já ouvi Faria chamar meu comprador de Dante, mas ainda não sei a quem pertence a mão que retém a alça. Quero me lembrar dessa recusa, mesmo que a rua lá fora faça todo o resto parecer um favor.

Faria se aproxima para entregar uma pasta. Dante não a recebe. Pede meu telefone. O aparelho sai do bolso do segurança, ligado, sem carregador algum. A bateria marca quase cheia. Estendo a mão e dessa vez Dante o coloca nela. Toco o nome de Helena. A chamada cai na caixa postal.

— Ela continua responsável por outras obrigações — diz Faria. — Convém não esquecer.

— Eu ouvi — responde Dante. — Agora se afaste.

O credor abre os braços, como um anfitrião dando passagem. A porta dupla se destranca por dentro. Dante espera que eu ande primeiro, mas o segurança desce conosco até o carro. Não posso confundir a abertura de uma porta com a possibilidade de escolher qualquer destino.

Lá fora há gente numa padaria do outro lado da rua. O balcão iluminado me parece impossível, uma exposição de vida comum. Dou um passo na direção da faixa e Afonso, como Faria chama o segurança, põe o braço à minha frente.

— O carro é aqui.

— Eu vi a padaria.

Dante se volta. Afonso abaixa o braço com um atraso calculado. Nenhum dos dois diz que posso ir comprar pão. Passo pelo carro devagar, procurando placa, cor, algo que consiga mandar numa mensagem. Meus dedos erram as letras. Escrevo para Norma apenas que estou com problemas e volto depois para acrescentar o nome da rua. Afonso olha para a tela. Viro o aparelho contra o peito.

— Não toque nela — diz Dante.

— Ordem do Faria era acompanhar até a saída.

— Já acompanhou.

Afonso retorna ao prédio. Dante tira o sobretudo e estende para cobrir meus ombros. Aceito porque o frio faz meus dentes baterem. A lã cai pesada sobre o vestido e a bainha quase toca o chão. Não agradeço. Ele abre a porta traseira; fico parada.

— Para onde?

— Minha casa. Há uma oficina.

— E minha irmã?

— Não sei onde ela está.

— Você pode descobrir?

Ele poderia me prometer qualquer coisa. Faria prometeu uma avaliação, um acordo, poucos minutos. Espero a próxima frase com uma atenção que dói.

— Posso tentar falar com pessoas. Não vou inventar uma resposta.

Enfio a etiqueta sete no bolso do sobretudo. Não percebi quando a arranquei da mão de Faria. O papel roça meus dedos, e guardá-lo é a primeira decisão da noite que ninguém contesta. Entro no carro com o telefone aceso e escrevo para Norma o nome que acabo de ouvir. Dante Moura. Peço que guarde. O sinal de envio aparece antes que eu levante o rosto.

Ele vê a tela. Depois olha para mim, e o medo tem companhia: uma curiosidade involuntária, desagradável, sobre o homem que pagou por algo que eu não ofereci. Não deixo que a pergunta apague as anteriores.

O homem que comprou sete noites acaba de fechar a porta do carro.

A casa que escuta

Teresa

O portão começa a fechar antes que eu tire o cinto. A luz do carro revela o ferro correndo sobre o trilho, um movimento lento o suficiente para me fazer calcular se conseguiria passar. Há um homem do lado de fora, junto à guarita. Ele recebe um gesto de Dante e continua onde está. Não usa o mesmo uniforme de Afonso. A diferença não me serve para abrir caminho.

— Qual é o nome dele? — pergunto.

— Raul. Trabalha aqui à noite.

— Ele sabe o que aconteceu?

Dante desliga o motor. A bolsa azul está no banco da frente, longe do meu braço.

— Sabe que você vai ficar alguns dias.

— Então não sabe.

Ele se vira no assento. Tenho a impressão de que vai corrigir a informação ali mesmo, mas Dante apenas segura as chaves por um momento antes de abrir a porta. Saio do outro lado. O sobretudo escorrega do ombro e prendo a gola com a mão livre. A lã está fria onde ficou contra o vidro.

A casa tem um único andar alto e um anexo ligado por uma passagem coberta. Vejo a janela de uma cozinha, uma porta lateral com fechadura comum, uma claraboia no anexo. Não é um palácio. É grande porque foi feita para guardar objetos maiores do que pessoas. Na parede da garagem, capas de piano pendem de ganchos. Um carrinho de carga bloqueia parte da passagem.

— Aquilo é a oficina?

— É.

— Posso dormir lá?

— Tem um quarto preparado.

— Eu perguntei sobre a oficina.

Dante leva minha bolsa até a porta do anexo e experimenta uma chave. A familiaridade com o espaço pertence toda a ele. Espero no meio do pátio, sem me aproximar da entrada principal, para que não pareça que aceitei um convite. O cuidado é inútil e, ainda assim, preciso dele.

— Não há cama ali. Vou mostrar o quarto. Depois conversamos.

— Quero minha bolsa antes.

Ele olha para as ferramentas através do zíper mal fechado.

— Amanhã você vai ter o que precisa para trabalhar.

— Preciso dela agora para decidir que não vou trabalhar.

A frase o faz parar. Dante fecha o zíper e guarda a bolsa no armário visível pela porta da oficina. Não esconde de mim onde a põe. Tranca o móvel, porém. O clique é baixo e definitivo. A pequena melhoria de eu conhecer o lugar da perda não diminui a perda.

— Tem ferramentas capazes de abrir uma fechadura — diz.

— Algumas. Se você acha que preciso delas para sair, tem um problema com o motivo de eu estar aqui.

— Não quero você na rua com Faria procurando a gravação.

Ele interrompe a frase como se tivesse ouvido uma nota errada. Gravação. Guardo a palavra sem fingir que não a ouvi.

— Que gravação?

— Falamos disso dentro.

Olho para o portão. Raul acende a luz da guarita e põe um copo na mesa. A rotina dele já absorveu a minha presença. Posso gritar. A rua fica além do jardim e do muro, mas não desapareceu. Abro a boca para chamar o homem; Dante não me impede. Isso torna a decisão mais difícil de executar. Não sei se Raul ajudaria ou apenas avisaria que fui inconveniente.

— Raul — chamo.

Ele sai da guarita.

— Sim, senhora?

— Pode abrir o portão para mim?

O olhar dele vai direto a Dante.

— Ela fica — responde meu comprador.

Não há mais ambiguidade para eu resolver. Raul retorna devagar, constrangido ou apenas cansado. A minha garganta se fecha antes que eu consiga perguntar qual é a diferença entre aquele lugar e o salão. Conheço a diferença: aqui há menos testemunhas.

Entro porque preciso de água, de uma tomada para o telefone, de tempo para descobrir o que fazer. Digo isso a mim mesma enquanto passo pela porta. O corredor tem paredes claras e manchas retangulares onde quadros foram retirados. Um banco de madeira sustenta correspondências e uma caixa com dobradiças novas. Dante acende as luzes uma por uma, sem transformar a casa numa vitrine para me impressionar.

— O banheiro é a segunda porta. O quarto, no fim. Você pode fechar por dentro.

— Você pode abrir por fora?

Ele tira uma chave pequena do molho, vai até a porta do quarto e deixa a chave do lado de dentro. Testo. É uma fechadura antiga, simples. Com a chave girada pelo interior, outra chave não entraria facilmente pelo lado oposto. Isso me permite uma respiração mais funda.

— Não vou entrar sem bater — diz Dante.

— Não vou agradecer por isso.

— Não pedi.

O quarto contém uma cama estreita, uma cadeira e um guarda-roupa vazio. A janela dá para o pátio. Posso abri-la; não posso atravessar o muro que vejo além dela. Experimento o trinco na frente dele. O ar entra com cheiro de terra regada. Dante fica no corredor, esperando a inspeção terminar.

Devolvo o sobretudo. A etiqueta está no bolso interno e tiro-a antes que o tecido mude de mãos. Ele acompanha o gesto. Dobro o papel uma vez e enfio junto ao telefone, na pequena bolsa de festa que Helena me emprestou. Faria a revistou e devolveu porque não havia nada útil dentro. Agora guarda a prova que consigo carregar.

— Preciso falar com minha irmã.

— Pode usar o seu aparelho.

— Preciso que ela atenda.

O cansaço aparece no meu tom antes de eu conseguir contê-lo. Dante baixa os olhos, como se me concedesse privacidade para aquela fraqueza. Isso quase me irrita mais que a recusa da bolsa. Não quero ser grata por gestos educados intercalados com impedimentos.

Faço a chamada na janela. Outra vez a caixa postal. Deixo uma mensagem curta, dizendo onde estou. Evito explicar o leilão para uma gravação que outra pessoa pode ouvir. Depois tento Norma. Ela manda uma resposta escrita: está desmontando luz num evento, recebe mal, viu meu pedido e vai ligar assim que puder. A resposta me segura de um jeito físico. Alguém fora daquela casa sabe meu nome sem um número preso a ele.

Dante se afasta até a cozinha. Sigo porque não quero ficar sentada na cama à espera de instruções. Há uma laranja cortada num prato e uma panela no fogão. Ele abre a geladeira, observa o conteúdo como se dependesse de uma interpretação técnica e tira um pote.

— Sopa.

— Isso é um aviso ou uma oferta?

— A segunda opção, se estiver boa.

A tentativa de humor é tão seca que eu solto o ar pelo nariz. Não chega a ser riso. Ele não tenta prolongar o efeito. Põe a panela no fogo e afasta o prato de laranja para me dar espaço na bancada. Sirvo minha própria água. Pego o copo no armário aberto, encho na torneira do filtro e bebo de pé.

— Quem cozinhou?

— Uma mulher que vem durante a semana.

— Ela sabe de mim?

— Não.

— Pretende dizer que sou uma parente?

Ele fecha o pote com força excessiva. A tampa estala.

— Não gosto de mentir.

— Tem outras preferências piores.

O silêncio fica conosco enquanto a panela aquece. Dante troca a chama de boca e busca duas tigelas. Tem dedos de quem segura peso: uma unha partida, pele engrossada perto da base do polegar. O anel de prata não combina com o restante da mão. Quero saber por que o usa. A pergunta me desagrada e olho para a janela.

Um toque sai do bolso da calça dele. Ele consulta a tela do aparelho que tirou do bolso e recusa a chamada. Logo depois, chega uma mensagem. Vejo apenas uma tabela e números, o bastante para saber que o trabalho dele continua. Não sei se minha dívida aparece ali entre as mercadorias.

— Sete noites — diz, enfim. — Preciso de um reparo. Depois você vai embora com a dívida encerrada.

— Posso ir embora agora?

— Ainda não.

— Então não descreva como emprego.

Dante encosta as duas mãos na bancada. O modo como prende o próprio corpo me faz notar o tamanho dele de novo. A cicatriz na sobrancelha corta uma expressão que poderia parecer apenas cansada. Ele tem condições de me assustar sem fazer esforço, e parece saber disso.

— O que Faria estava vendendo não era um serviço — diz.

— Eu percebi.

— Você não teria saído de lá sozinha.

— E agora estou aqui com você. Essa parte eu também percebi.

Ele não oferece uma resposta boa o suficiente para acabar a discussão. A sopa começa a borbulhar e somos obrigados a nos mover. Dante se vira para o fogão. Eu recuo da bancada. A normalidade da ação é obscena: dois adultos decidindo se há sal suficiente, depois de um deles negar ao outro a porta da rua.

Sento porque as pernas estão tremendo desde o salão. Como devagar. A sopa tem pedaços de abóbora e um excesso de pimenta. O calor me faz lacrimejar. Não explico e Dante não pergunta. Ele come do outro lado da mesa, mantendo distância. A ausência de requinte surpreende. Eu esperava alguém que mandasse tocar música enquanto levantava uma taça. Meu comprador sopra a colher e queima a boca mesmo assim.

De algum lugar da casa vem uma nota grave, longa, seguida de um ruído de motor. Viro o rosto.

— O que é isso?

— Um sistema de teste. Desligo já.

Ele se levanta e atravessa o corredor. A vibração passa pelo piso, chega à sola da minha sandália. Tem algo de errado no ataque, uma força aplicada cedo demais. Ponho o copo na mesa antes que meu corpo resolva perseguir o defeito por hábito. Não sou chamada de emergência daquela casa.

Dante retorna com um controle na mão. O som baixa até desaparecer.

— Tenho clientes que não percebem ruído assim — diz.

— Meus ouvidos pagam minhas contas. Os que eu puder preservar, vou preservar.

Ele pousa o controle fora do próprio alcance, na ponta da mesa perto de mim. É um reconhecimento pequeno e específico. Meu corpo o registra, embora eu não queira somar aquele gesto ao que ele fez no portão. Coisas diferentes precisam continuar diferentes para eu conseguir pensar.

Depois de comer, lavo minha tigela. Dante deixa que eu ocupe a pia. A torneira tem uma folga e pinga quando a fecho. Minha mão retorna sozinha para apertá-la no ângulo certo. Desta vez eu a detenho. Um conserto não oferecido seria a primeira hora de trabalho que ele não precisou exigir.

— Mostre o reparo — digo.

— Está cansada.

— Estou presa. O cansaço eu administro.

Ele pega uma chave sobre a bancada e vai à sala de música. Espero na entrada enquanto acende a luminária. A sala ocupa a parte de trás da casa e tem cortinas grossas. Há um piano vertical, caixas de transporte e uma pianola com a tampa superior aberta. Reconheço a marca do fabricante, antiga, mas não a série. O verniz foi retocado de forma ruim ao redor dos pedais.

O impulso de chegar mais perto é quase doloroso. Pianolas costumam aparecer nos meus serviços depois de tentativas de reparo feitas por quem as considera pianos com um acessório engraçado. Um mecanismo pneumático não perdoa essa simplificação. Com a bolsa certa, eu passaria horas procurando vazamentos antes mesmo de testar o papel.

Fico onde estou.

— Comprou de quem?

— Um lote de penhores.

— De Faria.

Ele confirma com a cabeça.

— Você percebe como isso está soando?

— Percebo.

Sobre o banco há um estojo verde, comprido, com fechos de metal opaco. Dante abre um deles e mostra o rolo perfurado. Não o retira. Vejo uma mancha avermelhada numa extremidade, talvez goma-laca. A madeira do núcleo está limpa demais perto da borda do papel. Preciso de iluminação melhor para ter certeza, e não quero demonstrar interesse antes de saber o que ele espera.

— É isso que quer ouvir?

— Preciso recuperar o que estiver nesse rolo.

— Pode haver uma peça inteira ou um papel rasgado que não suporta passar pelo leitor. Não prometo sem examinar.

— Por isso precisava de você.

O meu nome, ausente da frase, pesa. Há dezenas de profissionais que ele poderia contratar. Alguns não trabalhariam com modelo tão antigo; outros cobrariam caro. Nenhuma dessas limitações explica um leilão. Dante sabe que não explica. Pelo modo como fecha o estojo, sabe também que eu ainda vou perguntar.

— Por que não ligou para uma oficina?

— Porque Faria começou a perguntar pelo instrumento antes de ele chegar. E porque eu fui buscar o instrumento hoje, mas encontrei você.

— Não me encontrou perdida numa calçada.

— Não.

Seu telefone vibra de novo. Dessa vez Dante atende, afastando-se até a porta. Ouço apenas o lado dele: não, o cauda não entrou; não aceita substituição; vai rever as condições pela manhã. O negócio perdido no salão continua ali, ao alcance de uma ligação. A bolsa confiscada também continua no armário, ao alcance de uma chave.

Dou a volta na pianola para não escutar mais. Uma caixa de transporte está apoiada na parede. Madeira grossa, parafusos novos, cordas enroladas. Na lateral, uma faixa azul cobre parte de um nome antigo. No canto inferior, há um desenho amarelo que parece um peixe feito por uma criança. A tinta borrou para a direita.

Minha garganta se contrai.

Helena não sabe desenhar setas que pareçam setas. Nos primeiros fretes, eu marquei para ela o lado de cima das caixas com um traço e duas abas curvas. Ela disse que pareciam peixes e passou a pintar os mesmos bichos onde eu teria usado avisos profissionais. Pusemos uma pequena gota atrás da cauda para diferenciar nossas caixas das dos contratantes.

A gota está ali.

Puxo o telefone. Há uma mensagem que não apareceu antes, presa à conexão ruim da minha irmã. O áudio tem poucos segundos. Encosto o aparelho no ouvido, virada para a parede.

— Tê, se perguntarem, eu não voltei para buscar nada. A pianola foi para um Moura. Você precisa pegar a carga antes que…

Um ruído cobre o restante. Tento reproduzir outra vez. Dante encerra a ligação e pronuncia meu nome. Fico imóvel com o telefone junto à orelha. Não sei o que posso contar a ele. Não sei quanto sabe. A sala inteira muda de tamanho; o objeto que eu queria ignorar acaba de se tornar o último endereço verificável de Helena.

— Teresa?

Olho para a pianola, para o estojo verde, para a caixa encostada na parede. Amanhã vou precisar da minha bolsa. Vou precisar de todas as ferramentas e de tempo suficiente para trabalhar sem que ele veja cada coisa que encontro.

Examino a mensagem uma terceira vez antes de sair da sala. Não descubro palavra nova, apenas um estalo ao fundo que pode ser porta de van ou caixa batendo. Minha experiência não me dá o direito de escolher a hipótese mais confortável. Anoto a duração do arquivo e guardo uma cópia com a conversa completa, para não separar a voz do número de onde veio. Dante espera junto à passagem. Peço um carregador para levar ao quarto; ele entrega um comum, sem recolher meu aparelho. Fecho os dedos em volta do cabo e só então consigo me afastar do instrumento.

Eu conheço a marca na madeira porque fui eu quem a ensinou à minha irmã.

Espere — A pianola traz a marca de transporte de Helena. O homem que comprou a dívida de Teresa guarda a única carga que pode explicar seu desaparecimento.

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Dúvidas

Antes de você se apaixonar.

Que relação esta história acompanha?

Romance sombrio M/F adulto com uma afinadora de piano, coerção criminosa e confiança conquistada.

Como a intimidade é apresentada?

Beijos e tensão sensual; sem sexo gráfico. Contém cárcere, coerção criminosa, ameaça e violência não gráfica.

Esta história conclui seu próprio arco?

Teresa e Dante têm uma história com conclusão própria.

Passe adiante.

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