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Depois Que A Balsa Parou — romance contemporâneo grátisGrátis · Exclusiva

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Depois Que A Balsa Parou

Uma balsa cancelada. Um único quarto. Dois rivais que entenderam tudo errado um sobre o outro.

  • rivais que se apaixonam
  • Um Só Quarto
  • Proximidade Forçada
  • Porto De Cidade Pequena

🌶️🌶️ Cerca de 21 min de leitura · 4.920 palavras

Dahlia Mercer, fabricante de quadros de bicicleta, precisa de uma oficina à beira-mar. O chef Ben Navarro disputa o mesmo imóvel, e aquele sorriso fácil não ajuda em nada a paciência dela. Quando a última balsa é cancelada durante o festival de Bellweather, os rivais dividem o único quarto disponível de uma pousada — e finalmente abrem seus projetos. Talvez um futuro diferente caiba entre eles, se o desejo sobreviver à luz do dia, às contas difíceis e à liberdade de escolher separadamente.

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1. Um Prédio Com Duas Portas

Dahlia Mercer levara uma trena para o festival do porto. Todos os outros pareciam ter levado alguém que pretendiam beijar.

Casais se aconchegavam sob as bandeirolas enquanto ela, diante dos antigos galpões de uma fábrica de velas náuticas, calculava se uma bicicleta de carga passaria pela porta leste. Passaria, com quatro centímetros de folga. Quatro centímetros eram mais tranquilizadores do que o sorriso do gerente do banco na terça-feira passada.

— Parece que está tirando as medidas para um caixão.

Ben Navarro estava junto à porta oeste, segurando uma bandeja de papel com batatas fritas. As mangas da camisa estavam arregaçadas; havia farinha em um dos antebraços. Pelo visto, ele usara a cozinha do festival enquanto ela passava a tarde explicando por que uma mulher poderia querer um fornecimento de energia industrial.

— Seu restaurante pode ser o caixão — disse Dahlia. — Dependendo da música.

— Sem música. Só os gritos de quem pediu peixe bem passado.

Ela recusou uma batata com a dignidade apropriada a uma concorrente. Seu estômago emitiu uma declaração inteiramente diferente.

Ben aproximou a bandeja sem comentar. Uma gentileza irritante. Ela pegou uma.

O anúncio do imóvel tratava os galpões contíguos como uma oportunidade única. Na proposta de Dahlia, o galpão leste seria sua oficina, e o oeste ficaria para aulas, estoque e uma futura expansão. O restaurante de Ben, ela supunha, ocuparia os dois. Não havia tantos imóveis acessíveis à beira-mar em Bellweather, e nenhum deles podia se dar ao luxo de perder aquele por distração.

Além das janelas, o porto cintilava prateado. Um pátio público se estendia entre os galpões e a mureta do cais, com o piso rachado aquecido pelo sol da tarde. Dahlia imaginou uma cliente testando ali uma bicicleta nova e descobrindo que um quadro feito para seu corpo não precisava causar dor.

Depois imaginou mesas de restaurante engolindo cada metro quadrado.

— Você não pode cercar o pátio — disse.

— Eu não pretendia fazer isso.

— A passagem pública corta o pátio.

— Minha mãe também, quando quer criticar meu corte de cabelo. Eu não ousaria.

O cabelo dele realmente precisava de um corte. A mecha encaracolada junto à orelha não tinha o direito de fazer aquilo parecer uma vantagem.

Ruth Keene, a administradora dos imóveis do porto, apareceu com uma prancheta. Confirmou as próximas etapas: propostas em duas semanas, avaliação conforme os critérios publicados, nenhuma decisão naquele dia. Nem a vistoria nem o festival dariam preferência a ninguém. Ela já repetira aquilo duas vezes, provavelmente porque os candidatos esperançosos não paravam de lhe oferecer bolos.

— Um único contrato para os dois galpões? — perguntou Dahlia.

— Na concorrência atual, sim. Qualquer alteração relevante exigiria um novo processo público.

Ben assentiu. Dahlia anotou a resposta em seu caderno azul. Gostava de respostas que continuavam iguais depois de escritas.

Passou mais uma hora medindo o interior, guardou suas coisas e foi para o embarcadouro. O vento aumentara enquanto ela trabalhava. As bandeiras do festival estalavam com força suficiente para parecer zangadas. Na bilheteria, um funcionário do porto prendia um aviso no vidro.

ÚLTIMA BALSA CANCELADA. VENTO FORTE. SERVIÇO DA MANHÃ SUJEITO ÀS CONDIÇÕES CLIMÁTICAS.

Por um instante, Dahlia encarou o aviso como se a atenção cuidadosa pudesse mudar as palavras.

Seu quarto alugado ficava no continente. As roupas limpas, o carregador e a noite tranquila que prometera a si mesma também estavam lá. Atrás dela, equipamentos de fogos de artifício chacoalhavam sob uma lona.

— Por favor, diga que você tem um barco — disse Ben.

Ela se virou. A bandeja dele desaparecera. A bolsa de viagem, não.

— Por favor, diga que essa não é a bolsa de um homem que planejou tudo isso.

— Cozinha do festival. Eu planejava ficar cheirando a alho e depois tomar banho antes da balsa. — Ele olhou para o aviso. — Acertei uma de duas.

Dahlia pegou o telefone. Todas as buscas por hospedagem mostravam as mesmas palavras vermelhas. Do outro lado do porto, o continente se tornara uma linha de luzes que ela conseguia ver, mas não alcançar.

2. O Quarto Em Cima Da Padaria

A pousada Lantern Inn cheirava a pão quente e lã molhada. Mina Patel, a proprietária, ouviu o pedido de Dahlia com a expressão de quem já comunicara aquela mesma decepção doze vezes.

— O festival lotou a pousada em fevereiro. Tenho um quarto que normalmente não alugamos. Minha irmã cancelou. Cama de casal, uma cadeira, banheiro privativo. A cadeira não é uma cama, diga meu sobrinho o que disser.

Atrás de Dahlia, Ben parou de sacudir a chuva da jaqueta.

— Posso tentar o salão comunitário — disse.

— Estão hospedando os artistas que ficaram presos na ilha. A menos que você toque acordeão, não tem chance.

— Já me pediram para parar de cantar.

— Isso não conta como qualificação.

Dahlia olhou para ele. Dividir o quarto economizaria um dinheiro que ela não tinha. Também deixaria o homem entre ela e sua oficina ao alcance da mão a noite inteira.

— Podemos dividir — disse. — Se você se sentir à vontade.

A expressão brincalhona dele ficou séria.

— Você se sente?

— Podemos estabelecer regras.

— Ótimo. Sou muito bom com regras que outras pessoas conseguem explicar.

Mina colocou uma chave de latão no balcão.

— Decidam antes de pagar. Ninguém deve companhia a ninguém por causa do tempo.

Aquilo ajudou. Dahlia respirou fundo e perguntou diretamente a Ben se ele conseguiria dividir uma cama sem interpretar aquilo como um convite. Ele respondeu que sim, com a mesma franqueza. Combinaram que qualquer um poderia mudar de ideia; a sala de estar no térreo ficaria aberta se alguém precisasse de espaço. Dividiriam o custo, se revezariam no banheiro e deixariam a concorrência de lado.

— Principalmente a concorrência — disse Dahlia.

— Vou seduzir você exclusivamente com minhas opiniões sobre toalhas.

— Você já perdeu.

No andar de cima, o quarto era mais generoso do que a descrição de Mina. Teto inclinado, um lavatório com uma chaleira, uma mesa redonda junto à janela. A cama, infelizmente, continuava exatamente como descrita. Uma cama. Não um par decorativo disfarçado por uma colcha.

Dahlia pôs a bolsa na cadeira. Ben deixou a dele ao lado do lavatório e olhou para a janela, em vez de olhar para a cama. Ela apreciou aquela pequena delicadeza mais do que gostaria.

Revezaram-se para se lavar. No banheiro, Dahlia alisou o cabelo com água, um exercício ridículo considerando o vento à espera lá fora. Sua única opção de roupa de dormir era a camiseta de algodão que usava sob o suéter. Manteve o suéter.

Quando saiu, Ben encontrara chá e duas canecas diferentes. Seu caderno estava onde ela o deixara, fechado sobre a mesa. Ele afastara a própria caneca da capa.

— Só para constar — disse ele —, eu nunca quis bloquear a passagem.

— Combinamos não falar do aluguel.

— Combinamos não falar da concorrência. Estou falando da sua aparente convicção de que eu devoro espaços públicos.

Ela envolveu a caneca quente com as duas mãos.

— Sua foto de divulgação tinha mesas do lado de fora.

— Do meu antigo restaurante. Ficavam em terreno particular.

— Ah.

Era uma palavra pequena para uma suposição que ela carregava havia três semanas.

Ben tirou um projeto dobrado da bolsa e hesitou.

— Posso mostrar uma coisa? Você não precisa me mostrar o seu.

Ela assentiu. Ele abriu o papel entre as canecas. A cozinha, o balcão e um salão modesto cabiam dentro do galpão oeste. A metade leste estava em branco, exceto por um ponto de interrogação.

— Você não ia usar os dois?

— Não teria dinheiro para equipar os dois. Esperava poder ceder o uso da outra metade a algum negócio, com autorização. — Ele a observou. — O que você achava que eu estava propondo?

Dahlia olhou do projeto dele para seu caderno fechado. As duas portas lá embaixo lhe vieram à memória, separadas e obstinadamente óbvias.

— Algo consideravelmente menos interessante do que isto.

Espere — O projeto da cozinha dele ocupa só metade do prédio. O que mais Dahlia entendeu errado sobre seu rival?

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