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Dívida Quitada — romance contemporâneo grátisGrátis · Exclusiva

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Dívida Quitada

Ele entrou no escritório dela e largou sobre a mesa a fatura vencida, congelada dentro de um bloco de gelo.

  • Herói Ranzinza
  • Operário Encontra Corporativo
  • Opostos Se Atraem
  • Sacrifício Secreto
  • Cruzada no Trabalho

🌶️🌶️🌶️🌶️ Cerca de 66 min de leitura · 15.132 palavras

Chloe Novak paga todo mundo em dia. É a única promessa que ela nunca quebra. Então um escultor de gelo invade a Miller Enterprises com a fatura atrasada congelada num bloco de gelo, e Chloe tem três semanas para enfrentar o CEO mais frio de Chicago por um homem que se recusa a precisar de alguém.

Fatura Congelada na Mesa Dela

Às quatro e quarenta de uma segunda-feira, com a neve soprando de lado diante do décimo nono andar, um homem entrou no setor de Contas a Pagar e pôs um bloco de gelo sobre a mesa de Chloe Novak.

Ele pousou com um baque sólido e molhado. O café pulou na caneca. A caneta rolou do teclado e foi parar no carpete.

Chloe olhou para o gelo. Depois ergueu os olhos.

Ele era grande. Foi a primeira coisa. Não grande de academia, nem daquele tipo polido que saía da sala de ginástica no subsolo da torre da Miller Enterprises. Era construído como quem levantava coisas pesadas para viver e nunca se preocupara com a aparência disso. A neve repousava nos ombros de um casaco de trabalho de lona marrom. Um gorro de lã cinza puxado até embaixo cobria o cabelo ruivo-escuro. A barba era curta e um tom mais escura que o cabelo, e acima dela os olhos tinham o verde-acinzentado e frio do lago em março.

Ele cheirava a rua. A neve, lã molhada e algo agudo e metálico, como uma garagem no inverno.

— Posso ajudar? — disse Chloe.

— Espero que sim. — A voz era grave e áspera, como se ele não a usasse muito. Ele indicou o gelo com a cabeça. — Isso é meu. Quero que você pague.

Chloe olhou de novo para baixo.

O bloco tinha o tamanho de um livro de capa dura grosso e era perfeitamente transparente, mais do que qualquer gelo que ela já tinha visto. Nenhuma bolha. Nenhuma nuvem branca no meio. Era como olhar através de um vidro. E congelada no centro, dentro de uma capa plástica, havia uma folha de papel.

BRENNAN ICE WORKS, dizia a linha de cima, em letras pretas simples. Embaixo, FATURA, e embaixo disso, um número que ela conseguia ler mesmo através de cinco centímetros de gelo.

US$ 41.600,00

Havia datas também. Uma linha para outubro. Uma para novembro. Uma para dezembro.

— Você congelou a sua fatura — disse ela.

— Vocês congelaram primeiro. — Ele tirou as luvas de trabalho, um dedo de cada vez. — Noventa e seis dias. Eu liguei. Mandei e-mail. Mandei pelo correio, duas vezes, como se fosse 1985. Caí numa gravação dizendo que a minha ligação era importante. — Pousou as luvas na quina da mesa dela, lado a lado, muito arrumadas, o que a surpreendeu. — Então trouxe pessoalmente. De um jeito que ninguém conseguisse perder.

Do outro lado do corredor, Gary, da Contabilidade, tinha parado de comer. Estava com o garfo no ar, um pedaço de salmão requentado pendurado na ponta. O andar inteiro cheirava àquele salmão. Cheirava àquele salmão desde o meio-dia.

Chloe ignorou Gary. Ignorou as outras três cabeças que tinham aparecido por cima das divisórias cinzentas das baias, feito cães-da-pradaria curiosos.

Não ignorou o homem. Teria sido difícil.

— Certo — disse ela. — Primeiro, você está pingando no meu teclado.

Ele olhou para a pequena poça que se espalhava debaixo do bloco. Um músculo se mexeu em sua mandíbula. Ele pegou o gelo com as mãos nuas, com a mesma facilidade com que pegaria um sanduíche, e o pôs sobre a pilha de papel de impressora dela.

— Segundo — continuou Chloe —, eu não congelo nada. Trabalho aqui há quatro anos. Toda fatura que passa pela minha mesa é paga em até trinta dias. Todas. Pergunte a qualquer pessoa deste andar.

— É verdade — disse Gary, de boca cheia de salmão. — Ela é meio assustadora com isso.

— Obrigada, Gary.

O homem não olhou para Gary. Continuou olhando para ela, firme e nada impressionado, do jeito como as pessoas olham previsões do tempo em que já pararam de acreditar.

— Então não passou pela sua mesa — disse ele.

Aquilo doeu mais do que devia. Chloe puxou a cadeira para perto e acordou a tela.

— Nome?

— Está no gelo.

— O seu nome. Não o da empresa.

Uma pausa.

— Rhett Brennan.

Ela digitou. A Brennan Ice Works apareceu na hora, fornecedora desde muito antes do tempo dela. Esculturas de gelo para eventos da empresa. Cisnes para a festa de verão. Um logotipo gigante congelado para o jantar dos acionistas em outubro. Um floco de neve de três metros e meio para a festa de fim de ano, em dezembro, aquele ao lado do qual ela tinha ficado com um copo de plástico de ponche, pensando como era estranho que algo tão bonito tivesse sido feito para derreter.

Nunca tinha pensado em quem o fizera.

Três linhas. Três pagamentos. Todos parados no sistema, com a mesma palavrinha cinza ao lado.

BLOQUEADO.

Chloe clicou. O bloqueio tinha sido feito por Douglas Pratt, Diretor de Eventos. Clicou de novo. Douglas Pratt tinha saído da empresa em quinze de dezembro. A conta dele fora desativada no mesmo dia. Todo pagamento que esperava a aprovação dele simplesmente parara, como um relógio com a pilha arrancada.

Abaixo, em vermelho, havia uma linha nova que alguém lá de cima tinha acrescentado em janeiro.

PAGAMENTOS DE EVENTOS ACIMA DE US$ 25.000 SEM APROVADOR DESIGNADO EXIGEM ASSINATURA DO GABINETE DO CEO.

Chloe se recostou.

— E então? — disse Rhett Brennan.

— Então — disse ela devagar —, o homem que devia aprovar o seu pagamento pediu demissão antes do Natal. Ninguém passou o trabalho dele para outra pessoa. Então o seu dinheiro está numa sala sem porta.

Alguma coisa atravessou o rosto dele. Foi rápido, e ele a escondeu depressa, mas ela viu. Não era raiva. Raiva ela saberia lidar. Era o olhar cansado de um homem que esperava exatamente aquilo e tinha torcido, em silêncio, para estar errado.

— Então é isso — disse ele.

— Não. Esse é o problema. Não é só isso. — Ela virou a tela para que ele visse a linha vermelha. — Precisa da assinatura do gabinete do CEO. O que significa que eu subo até o quadragésimo segundo andar e consigo uma.

— Com o Miller.

— Com o gabinete dele. Com o assistente, provavelmente. O Kevin. O Kevin é um homem muito nervoso, mas é um ser humano. Eu sei lidar com um ser humano.

Rhett ficou olhando para a tela por um longo momento. Depois olhou para ela. Olhou de verdade, dessa vez, absorvendo-a pedaço por pedaço. O cabelo escuro que ela mesma cortara na altura dos ombros em outubro. Os anéis de prata em quatro dedos. O vestido preto transpassado que passava por roupa de escritório e, debaixo da mesa, onde ele não podia ver mas de algum jeito parecia saber, as botas pretas de combate, riscadas, que ela usava todo dia do inverno porque se recusava a estragar um bom par de saltos na lama de neve de Chicago.

— Você vai subir até o quadragésimo segundo andar — disse ele. — Por mim.

— Pela fatura.

— Por quarenta e um mil dólares que pertencem a um cara que você nunca viu.

— Esse é o meu trabalho — disse Chloe. — Eu pago as pessoas. Esse é o trabalho inteiro. É a única coisa neste prédio de que tenho certeza absoluta de que é boa.

Ele não respondeu. Olhou para o bloco de gelo, suando em silêncio sobre o papel de impressora, e depois para ela.

— Quanto tempo?

— Me dê até sexta.

— Eu não tenho até sexta. — Saiu seco e rápido. Então ele soltou o ar pelo nariz, e parte da dureza deixou os ombros dele. — O banco tem um financiamento em cima dos meus dois freezers grandes. Estou três meses atrasado. Querem as parcelas até o dia dezenove, ou mandam um caminhão. Depois disso eu não tenho um negócio. Tenho uma garagem cheia de ar frio muito caro.

O dia dezenove era uma quinta-feira, dali a três semanas e três dias. Chloe fez a conta sem querer. Ela sempre fazia a conta.

— E tem o baile — acrescentou ele.

— Que baile?

— O seu baile. A coisa de Baile de Máscaras no Ritz. O pessoal de Eventos me contratou em novembro. Uma máscara de um metro e oitenta, esculpida em gelo, com o M grande da empresa na frente. — A boca dele se apertou. — É na noite seguinte à do banco. Ninguém me pagou sinal. Ninguém me pagou nada. Então pode dizer a quem for lá em cima que, se eu não for pago até o dia dezenove, não tem máscara no dia vinte.

— Você abandonaria o trabalho.

— Eu ficaria em casa. É diferente.

— Não vai soar diferente no quadragésimo segundo andar.

— Não estou perguntando como vai soar. — Ele pegou as luvas. — Estou pedindo o que vocês me devem.

Vocês. Não a empresa. Não a Miller Enterprises. Você. A palavra pousou em algum lugar embaixo das costelas de Chloe e ficou ali, e ela odiou isso, porque não era justo e ao mesmo tempo era exatamente certo. Alguém neste prédio devia a esse homem. E agora ela era a única pessoa que ele conseguia ver.

— Sexta — repetiu. — Eu ligo até sexta com boas notícias. Eu prometo.

Ele vestiu a primeira luva de volta.

— Não prometa — disse. — Todo mundo neste prédio promete.

— Eu não sou todo mundo neste prédio.

— Não — disse Rhett Brennan. Ficou olhando para ela um instante mais do que precisava. — Você é a primeira que foi procurar.

Então se virou e saiu andando entre as baias. A neve nos ombros dele tinha derretido em manchas escuras na lona, e todas as cabeças do décimo nono andar se viraram para vê-lo ir embora.

Gary finalmente comeu o salmão.

O gelo não derreteu.

Essa foi a parte estranha. Chloe esperava uma poça às cinco. Às cinco e meia o bloco tinha encolhido muito pouco, as bordas macias e arredondadas como bala chupada, a fatura lá dentro ainda perfeitamente nítida. Ela encostou a ponta de um dedo. Tão frio que queimava.

— Você não pode ficar com isso — disse uma voz atrás dela. — É prova.

Maya Brooks estava encostada na divisória, com um saquinho de pretzels de máquina numa mão e a cara de quem não dormia direito desde janeiro. O cabelo escuro estava preso num coque apertado. O batom vermelho estava perfeito, porque o batom da Maya era sempre perfeito, mesmo quando o resto dela se desfazia pelas costuras.

— Prova de quê? — perguntou Chloe.

— Do homem mais gostoso que já pisou em Contas a Pagar. Chegou ao Marketing em seis minutos. A Dana disse que ele atravessou o saguão carregando um bloco de gelo como se fosse atirar em alguém. — Maya mastigou um pretzel. — Ele atirou?

— Ele pousou com toda a educação.

— Isso é pior. Isso é muito pior. — Maya contornou a divisória e se inclinou sobre o bloco. Os olhos dela se suavizaram, como faziam quando via algo que daria uma boa foto. — Ah. Isso é lindo mesmo. Olha como é transparente.

— Eu sei.

— Quem congela uma fatura?

— Um homem que foi ignorado por noventa e seis dias. — Chloe contou o resto. Douglas Pratt. O bloqueio. A linha vermelha. O banco, o dia dezenove e o baile.

Maya ouviu do jeito que sempre ouvira, desde a primeira semana de faculdade, quando eram duas meninas sem um tostão num alojamento de blocos de concreto, comendo miojo na mesma panela. Ouviu até o fim, com o rosto inteiro.

— Você vai subir até o quarenta e dois — disse Maya.

— Amanhã de manhã.

— Você sabe quem está no quarenta e dois.

— O Kevin.

— E além do Kevin. — A boca de Maya se apertou. — Chloe, estou subindo e descendo esse andar há semanas. Estou montando a apresentação da Vanguard para ele como se fosse uma catedral. E ele não disse uma palavra gentil para mim. Nenhuma. Ele não acredita nisso. Disse ao andar inteiro no meu primeiro dia que elogio é um desconto no trabalho.

— Eu não preciso de elogio. Preciso de uma assinatura.

— Ele vai querer saber por quê. Ele sempre quer saber por quê. E depois vai decidir que o seu porquê está abaixo dele.

Chloe pensou em Rhett Brennan dizendo você é a primeira que foi procurar, e no jeito como a voz dele baixara nas últimas palavras, como se tivessem lhe custado alguma coisa.

— Então vou levar um porquê muito bom — disse.

Maya a estudou. Depois sorriu, devagar e sabida.

— Ai, não.

— O quê?

— Você gostou dele.

— Eu conversei com ele por seis minutos.

— Você está fazendo a coisa com o anel. — Maya apontou. Chloe olhou para baixo. Estava girando o anel de prata do polegar, de novo e de novo, como fazia quando pensava em algo em que não devia. Parou. — Você só faz isso quando está nervosa ou interessada. E você nunca fica nervosa.

— Estou interessada em pagar uma fatura.

— Claro. — Maya estendeu o saquinho de pretzels. Chloe pegou um. — Bom, quando o Grant Miller te comer viva amanhã, eu levo pretzels no seu enterro.

— Eu ia querer os bons.

— Esses são os bons. É o quanto a coisa está feia aqui embaixo.

Depois que Maya foi embora, Chloe ficou sozinha no andar que se esvaziava enquanto as janelas passavam ao azul, depois ao preto. A neve continuava caindo atrás do vidro, na luz da torre. Em algum lugar do outro lado da cidade, um homem de mãos frias que ela ainda não tinha tocado estava numa garagem cheia de ar frio muito caro, esperando que ninguém ligasse.

Ela levou o bloco de gelo pelo corredor até o freezer da copa e o enfiou atrás dos burritos congelados do Gary.

Disse a si mesma que era para não pingar no carpete.

Não acreditou em si mesma por um segundo sequer.

O Rei do Gelo Diz Não

O quadragésimo segundo andar era tão silencioso que Chloe ouvia as próprias botas.

Ela as tinha calçado de propósito. Todo mundo ali em cima andava em carpete macio, de sapato macio, e falava em voz macia, como se o andar inteiro fosse uma biblioteca e o homem atrás das portas de carvalho, no fim do corredor, fosse um bebê dormindo. Chloe andava como quem tinha para onde ir, e as solas pretas e pesadas faziam um barulhinho honesto a cada passo.

Kevin a ouviu chegando de trinta metros. Levantou os olhos da mesa diante das portas de carvalho com a cara de quem acabou de saber que o prédio está pegando fogo.

— Chloe? De Contas a Pagar?

— Oi, Kevin.

— Ninguém de Contas a Pagar sobe aqui. — Ele puxou o tablet da mesa e o segurou contra o peito como um escudo. — Aconteceu alguma coisa? É o meu relatório de despesas? Eu sei explicar o estacionamento.

— Não é o seu estacionamento. — Ela pôs uma folha impressa na mesa dele. Três linhas, três bloqueios, uma frase vermelha. — É um escultor de gelo. A Miller Enterprises deve a ele quarenta e um mil e seiscentos dólares, e é preciso uma assinatura deste gabinete.

Kevin leu a folha. Leu de novo. A cor foi abandonando o rosto dele por etapas.

— O senhor Miller não assina pagamento de fornecedor.

— Alguém neste gabinete tem que assinar. O sistema diz isso.

— Então o sistema vai ter que subir aqui e perguntar pessoalmente a ele. — Kevin baixou a voz num sussurro. — Chloe. Semana passada ele devolveu um pedido de almoço porque o sanduíche veio cortado na diagonal. Disse que corte na diagonal é para quem precisa que a comida pareça animada. Eu não vou entrar lá com um escultor de gelo.

— Então eu espero.

— Ele está em ligações emendadas até o meio-dia.

— Eu trouxe um livro.

Não tinha trazido, mas se sentou na poltrona de couro diante da mesa de Kevin como se tivesse, cruzou as pernas e ficou olhando para as portas de carvalho. Kevin olhou para ela, depois para as portas, depois para ela de novo, e pareceu envelhecer um ano inteiro.

Às onze e cinquenta, as portas se abriram.

Grant Miller saiu já em movimento, o telefone numa mão, a outra ajeitando uma abotoadura de ouro. Terno de três peças cinza-chumbo. Gravata escura. Um relógio que provavelmente custava o que Chloe ganhava em dois anos. Falava com Kevin antes mesmo de ter saído por completo da porta.

— Passe a ligação de Zurique para as três. Diga ao pessoal da Hartwell que não, e faça parecer um favor.

— Sim, senhor. Senhor, tem alguém…

Os olhos de Grant foram para Chloe.

Ela já o tinha visto antes, é claro. Todo mundo tinha. Na festa de fim de ano, do outro lado de uma sala cheia de gente fingindo se divertir. No saguão, passando como o tempo. Mas nunca tão perto, e nunca com a atenção inteira dele sobre ela, e a diferença era como ficar ao lado da porta aberta de um freezer. Os olhos dele eram cinza. Não um cinza suave. O cinza do aço esquecido na neve.

— Você não está na minha agenda — disse ele.

Chloe se levantou.

— Chloe Novak. Contas a Pagar. Preciso de um minuto.

— Você tem trinta segundos. Ande. — Ele já se encaminhava para o elevador.

Ela andou. Precisou alongar o passo para acompanhar, e as botas faziam seu barulho honesto no carpete silencioso dele, e ela viu os olhos dele descerem até elas por meio segundo e voltarem, indecifráveis.

— Devemos a um fornecedor quarenta e um mil dólares por três eventos do ano passado — disse ela. — Brennan Ice Works. Os pagamentos ficaram parados quando o Douglas Pratt saiu. Precisam de uma assinatura do seu gabinete. O fornecedor tem um prazo no banco no dia dezenove, e está contratado para esculpir o gelo do seu baile no dia vinte.

— O homem do bloco de gelo.

É claro que ele sabia. Chloe se perguntou se acontecia alguma coisa naquele prédio que ele não soubesse.

— Sim.

— Ouvi dizer que ele ameaçou abandonar o baile. — Grant apertou o botão do elevador. Não olhou para ela. — A Miller Enterprises não paga quem a ameaça, senhorita Novak. Se eu pagar um homem antes do prazo porque ele fez cena no meu saguão, vou ter uma fila de homens com blocos de gelo até março.

— Ele não fez cena. Ele fez uma fatura. A cena fomos nós que fizemos. Ficamos sentados em cima do dinheiro dele por noventa e seis dias.

Aquilo virou a cabeça dele. Só um pouco.

— Ele não está ameaçando o senhor — disse Chloe. — Ele está se afogando. Tem diferença.

— Então que aprenda a nadar. — As portas do elevador se abriram. Grant entrou e se virou para encará-la, e por um momento simplesmente a olhou, do jeito como ela imaginava que ele olhava uma página de números, procurando o que estava errado. — Aqui estão os meus termos. O senhor Brennan entrega a escultura no dia vinte. Se valer o que ele cobra, o pagamento sai na segunda-feira, dia vinte e três. Se não valer, discutimos o que ele nos deve.

— E o banco, no dia dezenove?

— É o banco do senhor Brennan — disse Grant Miller. — Não o meu.

As portas começaram a fechar.

— São quatro dias — disse Chloe. — Quatro dias podem custar tudo a ele.

— Então devia ter se planejado. — Uma pausa, uma fração de segundo, enquanto a fresta se estreitava. — Vinte e três andares é um bom caminho a pé para um homem do gelo, senhorita Novak. Espero que ele saiba disso.

As portas se fecharam.

Chloe ficou no corredor encarando o próprio reflexo no aço polido. Uma mulher de preto, cabelo escuro, bochechas vermelhas e anéis de prata, as mãos em punho ao lado do corpo.

Atrás dela, bem baixinho, Kevin disse:

— Foi melhor do que eu esperava.

Rhett estava havia três horas esculpindo a mesma máscara de treino, e odiava cada centímetro dela.

A oficina estava fria do jeito que ele gostava, dez graus abaixo de zero na sala de escultura, os refletores grandes jogando luz branca pelo chão. Os freezers zumbiam ao longo da parede dos fundos. Dois deles eram velhos e quitados. Dois eram os novos, o motivo de ele não conseguir dormir, o motivo de o banco mandar cartas em envelopes grossos com tinta vermelha. Cada um congelava um bloco de cento e trinta quilos de gelo transparente em quatro dias, devagar, de baixo para cima, para que a água empurrasse o ar para fora no caminho. O pai dele passara a vida inteira perseguindo um gelo assim tão claro. Rhett enfim comprara as máquinas que o faziam, um ano depois de o pai partir.

Largou a serrinha e pegou um cinzel chato. Tirou um cacho de gelo da borda do olho esquerdo da máscara. Caiu no chão como uma pluma branca.

Ainda errado. Era uma máscara. Era uma máscara bonita. Era exatamente o que uma empresa encomendaria para pôr numa mesa de festa. Não tinha coração nenhum.

Hector tinha ido para casa às seis. Darius, o garoto, às cinco, porque tinha vinte anos, uma namorada e planos. Então Rhett estava sozinho quando a campainha da porta lateral tocou.

Saiu da sala de escultura limpando as mãos num pano, pronto para dizer a quem quer que fosse que não vendia saco de gelo para festa, que tentasse o posto de gasolina na Archer.

Chloe Novak estava dentro da porta com neve no cabelo e dois copos de café de papel nas mãos.

Por um segundo, ele esqueceu o que ia dizer.

Ela era menor do que ele lembrava. Na mesa dela parecera mais alta, afiada e rápida atrás daquela tela, uma mulher que conhecia todas as regras do prédio e como fazê-las trabalhar a seu favor. Ali, na salinha estreita da frente dele, entre as prateleiras de ferramentas velhas e a foto desbotada do pai segurando um cisne do tamanho de um homem, ela parecia o que era. Uma mulher que atravessara uma nevasca às sete da noite para lhe levar uma coisa.

Ele percebeu pelo rosto dela que não era boa notícia.

— Você achou o lugar — disse.

— Eu passo na frente todo dia de manhã. — Ela estendeu um dos copos. — Moro a quatro quadras naquela direção. Pego o ônibus na Halsted. Olho para o cisne na sua vitrine há dois anos e nunca li o nome em cima da porta. — Balançou a cabeça um pouco. — Puro, sem açúcar. Você tem cara de quem toma puro, sem açúcar.

Ele pegou o café. Os dedos dos dois não se tocaram, mas quase.

— O que ele disse?

Ela contou. Tudo, sem rodeios, sem deixar mais macio do que era. O Kevin e o sanduíche na diagonal. O elevador. A segunda-feira, dia vinte e três. Então devia ter se planejado.

Rhett ouviu sem se mexer. Quando ela terminou, pousou o café no balcão com muito cuidado, porque queria arremessá-lo, e o café não tinha feito nada.

— Então ele quer a máscara — disse. — Quer o meu trabalho na mesa dele, na frente dos amigos ricos, antes de me pagar pelos três últimos serviços. E o banco leva os meus freezers na véspera.

— Sim.

— Então eu fico em casa.

— Se você ficar em casa, ele nunca te paga. Nem na segunda, nem nunca. Vai dizer que você quebrou o acordo. Ele tem mais advogados do que você tem cinzéis.

— Então eu perco de qualquer jeito.

— Não se você ligar para o banco. — Chloe chegou mais perto. — Peça mais uma semana. Uma. Diga que um cheque chega no dia vinte e três. Eu escrevo uma carta em papel da Miller dizendo isso. Eu assino.

— Não.

— Rhett…

— Brennan não implora.

— Não é implorar. É pedir.

— Onde eu cresci, é a mesma coisa. — Saiu mais duro do que ele pretendia. Viu o golpe acertá-la e quis poder retirar, e não soube como. Virou-se e voltou para a sala de escultura, porque o frio era mais fácil do que o rosto dela.

Ela o seguiu.

Ele a ouviu parar na soleira. Ouviu a respiração dela prender. As pessoas sempre faziam isso, na primeira vez. A sala de escultura era toda luz branca e sombra azul e geada nas paredes, e no meio dela, no suporte, estava a máscara de treino, um metro e oitenta de gelo transparente com a luz atravessando direto.

— Ah — disse Chloe, baixinho.

— Está errada.

— Está linda.

— É uma máscara com uma letra em cima. — Ele pegou o cinzel. — Não significa nada.

Ela se aproximou. Usava um casaco de lã preto sobre o mesmo tipo de vestido preto, e aquelas botas, e o frio deixava as bochechas dela rosadas e a respiração branca. Parou ao lado do suporte e olhou para dentro do gelo.

— O que você esculpiria — perguntou ela — se pudesse significar alguma coisa?

Ninguém lhe perguntava isso havia anos. Desde que uma carta de uma escola em Nova York chegara àquele mesmo endereço, e o pai estava no hospital pela primeira vez, e Rhett guardara a carta numa gaveta e fora trabalhar.

— Não sei mais — disse.

Ela estendeu a mão.

— Me mostra como você faz aquilo.

— Aquilo o quê?

— A coisa em que você faz a pluma cair.

Ele devia ter dito não. Estendeu o cinzel, pelo cabo, e quando ela o pegou, ele se pôs atrás dela. Sem tocar. Perto o bastante para sentir o calor que saía das costas dela para dentro da sala fria. Pôs a mão sobre a dela no cabo, e a mão dela era tão quente que quase foi um choque.

— Leve — disse, perto da orelha dela. — Você não está rachando lenha. Deixe o fio fazer o trabalho. Assim.

Ele guiou a mão dela. O cinzel deslizou pela borda da máscara, e um cacho fino de gelo se soltou e flutuou até o chão.

Chloe riu. Foi um som pequeno e surpreso, e atravessou-o por inteiro.

— Fui eu que fiz isso — disse ela.

— Foi você que fez isso.

Ela virou a mão sob a dele, com a palma para cima, e olhou para o lado de dentro da mão esquerda dele. Para a fina cicatriz branca que a cruzava de ponta a ponta, da base do indicador até a beirada do pulso.

— O que aconteceu?

— Um cinzel. Eu tinha dezenove anos e estava me exibindo para uma garota.

— Funcionou?

— Ela desmaiou. Então, não.

Chloe riu de novo, e então parou de rir, porque tinha se virado para dizer alguma coisa e o encontrado ali. A centímetros. As costas contra um metro e oitenta de gelo, o rosto erguido para o dele, o cinzel ainda na mão, entre os dois.

Os freezers zumbiam. Em algum lugar lá fora, um ônibus passou na Halsted, os pneus chiando na neve molhada.

Ela não se mexeu.

Rhett sabia que devia recuar. Ela trabalhava para a empresa que lhe devia dinheiro. Vinha de uma torre cheia de gente que prometia coisas. Era quente, e ele estava numa sala que mantinha fria de propósito, e tinha uma regra sobre querer o que não podia pagar.

Ele não recuou.

— Chloe — disse, e a voz saiu mais grave do que ele a ouvia havia anos. — Você devia ir para casa.

— Devia?

— Se ficar — disse Rhett —, eu vou te beijar.

Espere — Rhett acabou de dizer a ela o que acontece se ela ficar. Ela não se mexeu.

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