O pedido que não foi feito
Clara
O homem do orçamento deixou o guarda-chuva escorrendo sobre o papel marmorizado. Clara Matos observou a primeira gota abrir uma estrela na folha que levara dois dias para secar. Antes que ele começasse a explicar a urgência, puxou o papel pelo canto ainda seco e colocou uma bandeja de metal sob a ponteira.
— Aqui — disse.
Ele olhou para a bandeja, depois para ela, como se aquela pequena mudança de lugar fosse parte de uma negociação difícil.
— A moça do térreo falou que você faz qualquer caixa.
— Faço caixas sob medida. Não faço qualquer prazo.
O visitante riu, esperando que ela acompanhasse. Clara pegou o caderno de encomendas. Tinha trinta e seis anos, uma oficina que pagava suas contas na maioria dos meses e um joelho que doía quando passava a tarde em pé. Já perdera dinheiro suficiente sorrindo antes de compreender um pedido.
O homem queria seis caixas para uma exposição particular. Queria também um móvel para apresentá-las, uma marca estampada nas tampas e entrega na sexta seguinte. Tirou do telefone a fotografia de uma peça estrangeira. Na imagem, o couro parecia polido, o fecho era de metal e as bordas tinham um acabamento que exigiria várias etapas. Ele falou em simplicidade.
Clara ofereceu três possibilidades, com preços e datas diferentes. Quando ele disse que conhecia alguém disposto a fazer pela metade, ela virou o caderno na direção dele e indicou o orçamento mais econômico.
— Esta opção reduz material e tamanho. Se o outro profissional oferece o mesmo serviço por menos, talvez seja o melhor orçamento para você.
O visitante recolheu o telefone. Saiu levando a promessa de pensar e deixou duas moedas molhadas no balcão, o preço do café que ninguém lhe cobrara. Clara só percebeu quando a porta já estava fechada. Empurrou as moedas para o pote destinado ao ônibus de Bia. Não estava com vontade de perseguir ninguém na chuva para devolver uma ofensa minúscula.
— Você devia cobrar consulta — disse Bia, da mesa de corte.
— E perder a oportunidade de ouvir que papelão é tudo igual?
A amiga ergueu uma tira de tecido verde. Trabalhavam juntas havia quatro anos, cada uma com seus clientes e sua parte do aluguel. Bia fazia álbuns fotográficos; Clara, caixas e encadernações. Aquela proximidade tinha sobrevivido justamente porque nenhuma delas chamava o trabalho da outra de ajudinha.
— A senhora das cartas telefonou de novo — Bia acrescentou. — Lídia. Pediu seu correio eletrônico.
Clara limpou a água que restara no balcão. Lídia enviara fotografias de três livros de receitas, correspondência e uma escrivaninha pequena. Queria conservar tudo para as filhas. Algumas lombadas estavam partidas; a escrivaninha tinha uma perna solta. A encomenda exigia alguém que entendesse de madeira. Clara podia recomendar um restaurador, mas a mensagem da cliente sugeria um projeto conjunto, com proteção para os papéis e um gaveteiro que os recebesse sem dobrar.
O nome anotado no fim era Vicente Azevedo.
Ela o conhecia de um modo estranho: pelas respostas que ele escrevia num fórum, sempre assinadas apenas como Vicente. Não sabia se era a mesma pessoa. Na Biblioteca de Couro, onde Clara entrava para ler sobre práticas consensuais de troca de poder, aquele nome aparecia em discussões sem transformar cada resposta numa vitrine. Havia homens que conseguiam anunciar o próprio peito mesmo sem fotografia. Vicente escrevia pouco. Na última conversa que ela acompanhara, perguntara a um participante o que a parceira havia dito, em vez do que ele achava que ela precisava.
Clara lembrava da pergunta porque a copiara num pedaço de papel. Não como ensinamento. Como irritação. Quantas vezes ela mesma respondera ao pedido imaginado de alguém, por medo de escutar o verdadeiro? Na oficina, isso custava horas gratuitas. Na cama, em experiências antigas e inteiramente escolhidas, custara o prazer de dizer que uma posição incomodava ou que não queria continuar daquele jeito.
Não confundia as situações. O trabalho lhe pertencia por inteiro; a entrega íntima era uma preferência que podia oferecer, em termos concretos, a uma pessoa concreta. Gostava da expectativa de seguir uma voz. Gostava mais ainda quando essa voz sabia ouvi-la.
Lídia enviou o contato profissional do marceneiro. Clara escreveu propondo uma visita técnica, com duração e valor definidos. Ele respondeu naquela tarde: podia se encontrar com ela num café perto da oficina, na manhã seguinte, para avaliar se fazia sentido trabalharem juntos. Acrescentou que aquele encontro seria por conta dele, por ser preliminar; a visita ao acervo teria cobrança separada.
Ela releu a assinatura completa. Havia uma fotografia pequena: rosto comprido, barba curta, cabelos com cinza nas têmporas. Não oferecia certeza. Ainda assim, ficou um pouco mais atenta ao dobrar a manga do avental.
Vicente chegou com seis minutos de antecedência e esperou junto à porta do café, sem escolher uma mesa antes dela. Trazia uma pasta fina de elástico e uma camisa azul que parecia confortável nos ombros largos. Ao se apresentar, não tentou converter o aperto de mão em demonstração de força. Clara reparou nisso com uma vergonha breve, como se o próprio corpo tivesse feito uma pergunta particular em voz alta.
Sentaram perto da janela. Ele pediu café coado. Ela pediu pão de queijo e uma água, porque ainda não havia tomado café da manhã e não pretendia fingir delicadeza diante de um orçamento.
— A Lídia disse que você trabalha bem com medida difícil — ele comentou.
— Isso pode ser elogio ou aviso.
— Ela tentou encaixar uma moldura oval numa gaveta quadrada. Para mim, foi aviso.
Clara sorriu antes de conseguir evitar. Vicente abriu a pasta. Havia desenhos à mão, dimensões provisórias e dúvidas marcadas a lápis. Em vez de propor uma solução pronta, colocou a fotografia dos livros ao lado do esboço.
— Preciso saber quanto espaço você considera seguro. Não quero construir um lugar bonito que estrague o conteúdo.
Ela puxou o desenho para perto e pediu licença para anotar. Explicou que caixas rígidas poderiam proteger os volumes, mas precisavam ser retiradas sem raspar nas laterais. Falou da ventilação, do peso e da diferença entre conservar uma carta e exibi-la. Ele fez duas perguntas, ambas úteis. Não disse que ela complicava.
O pão de queijo chegou. Clara partiu a casca ainda quente e queimou a ponta de um dedo. Vicente moveu a água para o espaço livre à sua direita, sem empurrá-la para sua mão. Ela percebeu o gesto e a ausência de comentário. Não era motivo para confiar em alguém; era, contudo, uma coisa boa de perceber numa manhã fria.
— A cliente falou de uma feira — Clara disse. — Você sabe o que ela espera mostrar?
— O móvel. Talvez uma caixa vazia. Mauro, que organiza, quer divulgar artesãos do bairro. Falei que não posso prometer seus trabalhos por você.
Ela levantou os olhos do desenho.
— Obrigada.
— Seria um pouco cedo para começar uma parceria criando serviço sem combinar.
Clara deixou a resposta assentar. Seu antigo sócio comercial chamava isso de aproveitar oportunidade. Ela passara um ano fazendo capas gratuitas para demonstrar o que sabia, enquanto o nome dele crescia nos convites. Ao sair da sociedade, precisara comprar novamente ferramentas que já havia pago. Não era uma história que contaria num primeiro café. Bastava saber por que a frase de Vicente a atingira.
O garçom passou para recolher os pratos. Vicente esperou que a mesa ficasse livre antes de perguntar sobre o transporte dos materiais. Clara fez uma conta no verso da folha: carro até a cliente, embalagem, tempo de conferência. O valor parecia pequeno quando dividido entre os dois, mas precisava aparecer no orçamento. Ela o mostrou sem arredondar para baixo.
— Incluindo a volta? — ele perguntou.
Clara conferiu o cálculo e acrescentou a segunda viagem.
— Agora, sim. Você tem razão.
Vicente anotou a parte dele. Não sorriu como quem descobrira uma falha na especialista. A correção tornou o trabalho melhor, e a conversa seguiu. Clara percebeu o quanto lhe agradava poder errar uma soma sem entregar ao outro o direito de decidir todo o resto.
Escolheram também quem faria o recibo dos livros. Ela prepararia uma relação com estado e fotografias; ele registraria o móvel separadamente. A cliente receberia cópias antes de qualquer retirada. Não era desconfiança. Objetos antigos guardavam marcas que a memória das pessoas podia atribuir ao reparo, e um registro claro protegia tanto o afeto da dona quanto o ofício de quem cuidaria deles.
Quando terminou a anotação, Clara colocou o lápis ao lado da xícara. Pela primeira vez naquela manhã, acreditou que o projeto caberia na agenda sem exigir que alguém desaparecesse dentro dele.
Ele perguntou sobre a agenda. Ela mostrou os espaços disponíveis no calendário do telefone, sem entregar o aparelho. Seis semanas eram suficientes, desde que as decisões da cliente viessem na primeira. Combinaram uma visita de duas horas no sábado, divisão clara das despesas e orçamentos separados. Nenhum receberia o pagamento do outro.
— Se o conjunto não funcionar, os projetos precisam poder existir sozinhos — Clara explicou.
Vicente bateu a ponta do lápis no espaço entre as caixas desenhadas.
— Faz sentido.
Era possível que dissesse aquilo a todos. Era possível também que tivesse um jeito desarmante e o utilizasse com precisão. Clara não tinha como saber. Por isso, quando ele fechou a pasta e a conversa profissional terminou, ela escolheu não transformar a curiosidade numa investigação secreta.
— Posso fazer uma pergunta pessoal?
— Pode. Talvez eu não responda.
Ela gostou mais dessa resposta do que de uma disponibilidade sem limites.
— Você participa da Biblioteca de Couro?
Um movimento discreto atravessou o rosto dele. Não pareceu susto, mas a mudança de atenção de quem percebe uma segunda porta numa sala conhecida.
— Participo. Com meu primeiro nome. Você também?
— Leio e comento às vezes. Como Linha Curta.
Ele não fingiu reconhecê-la.
— Não lembro de ter conversado com você.
— Não conversou. Eu vi uma pergunta sua sobre escutar a pessoa antes de atribuir uma necessidade.
Vicente olhou por um instante para a colher ao lado da xícara.
— Tenho mais facilidade para lembrar disso por escrito.
A honestidade não veio acompanhada de piscadela. Clara apoiou as mãos sobre a mesa. Até então, podia recolher aquela revelação e voltar à oficina com um orçamento. Ele não fizera nenhum movimento para transformá-la em convite. Ela compreendeu que, se quisesse mudar o encontro, teria de correr o risco de ser clara.
— Gostaria de conversar outra vez. Sem as medidas da escrivaninha.
Vicente ficou quieto pelo tempo de uma respiração. O calor que subiu pelo pescoço dela não era o do café. Clara quase se adiantou, oferecendo uma saída, mas conteve o impulso. Tinha feito uma pergunta; podia suportar a resposta.
— Eu também — ele disse. — Só quero pensar na parceria com cuidado. Não gostaria que uma coisa tornasse a outra difícil.
— Nem eu. Podemos manter as mensagens de trabalho no correio eletrônico. E não tomar decisões sobre o projeto num encontro pessoal.
— Parece um começo possível.
Trocaram números. O telefone dele vibrou quando ela enviou apenas seu nome. Clara viu a própria mensagem aparecer na tela e sentiu uma satisfação boba, desproporcional ao ato. Não mandara uma fotografia, não prometera uma entrega, não se apresentara como disponível para qualquer coisa. Apenas Clara. Era um nome suficiente para começar.
Na oficina, Bia escutou o relato do orçamento sem esconder a curiosidade pelo resto. Clara deixou a pasta de amostras sobre a mesa e contou o bastante para impedir que a amiga inventasse uma novela de espionagem com um marceneiro misterioso.
— Você fez o convite? — Bia perguntou.
— Fiz.
— E continua viva.
— Por enquanto. Se eu morrer de constrangimento até sexta, você fica com o estoque de tecido japonês. As tesouras vão para minha irmã.
Bia ergueu as duas mãos, recusando a herança incompleta. Depois voltou ao álbum que estava montando. Não perguntou o que Clara pretendia fazer com Vicente. Conhecia a parte íntima da vida da amiga porque Clara escolhera compartilhá-la, não porque uma preferência lhe desse direito a relatórios. Esse respeito talvez fosse a melhor coisa que haviam construído naquela sala alugada.
Clara precisava terminar duas caixas antes das cinco. Separou as folhas manchadas pela água do visitante e verificou quais trechos poderiam ser aproveitados. Uma estrela acinzentada cortava a parte mais bonita. Era tentador insistir nela, salvar o papel inteiro e fingir que a marca não prejudicava o conjunto. Em vez disso, cortou ao redor e guardou os pedaços menores para testes.
O telefone vibrou no bolso do avental.
Vicente perguntava se ela preferia jantar na quinta ou caminhar no domingo. Acrescentara dois bairros, ambos fáceis de alcançar de transporte público. Clara leu a mensagem sentada no banco alto, cercada pelo cheiro de cola e tecido. A escolha era simples. A vontade, nem tanto. Queria vê-lo à noite, sem a luz franca do café, e descobrir como soava sua voz quando não discutia encaixes.
Respondeu quinta. Propôs um restaurante pequeno onde costumava ir com Bia, com mesas espaçadas e comida que não exigia explicações. Ele aceitou e perguntou o horário. Clara enviou oito horas. Só depois percebeu que sorria para um telefone apoiado entre duas réguas.
O resto da tarde foi menos produtivo do que planejara. Errou um cálculo, conferiu antes de cortar e chamou a si mesma de distraída num tom que tentou manter bem-humorado. Havia trabalho a fazer. Não tinha quinze anos; sentir desejo por um homem não a impedia de somar. Mas mudava a temperatura de uma sala, o intervalo entre dois ruídos, a maneira como se imaginava voltando para casa.
Às seis, fechou o caderno e encontrou o orçamento da cliente no correio eletrônico. Vicente já enviara a parte dele com uma observação no fim: a proposta conjunta dependia da aprovação de ambos, sem obrigação de participação na feira. Clara acrescentou suas condições e encaminhou o documento para Lídia. Em seguida, tirou o avental.
Bia já havia saído. A oficina guardava aquele silêncio particular do trabalho encerrado, quando as ferramentas pareciam esperar uma mão que não viria até o dia seguinte. Clara passou a palma pela mesa para recolher um resto de pó e apagou a luminária.
Na porta, ainda com a chave entre os dedos, recebeu outra mensagem. Vicente não comentava a quinta-feira. Avisava que a cliente aprovara a visita e perguntava se ela queria levar amostras claras e escuras, para evitar comprar material antes de ouvir Lídia.
Clara respondeu ao trabalho, guardou o telefone e desceu a escada. Na calçada, a chuva tinha parado. As poças devolviam pedaços de fachadas e o céu sem cor do fim da tarde. Ela respirou o ar úmido antes de procurar o ônibus.
Não conhecia Vicente o suficiente para confiar a ele uma parte íntima de si. Conhecia o bastante para desejar uma conversa. A diferença lhe pareceu confortável. Não precisava chegar ao fim de uma história antes de aceitar o primeiro encontro. Podia levar suas perguntas, seu desejo e a capacidade de voltar para casa sozinha.
Na esquina, parou numa loja de ferragens para comprar a lâmina que vinha adiando desde a semana anterior. O vendedor perguntou se queria o modelo mais barato. Clara examinou a embalagem, comparou os encaixes e escolheu a peça que realmente servia. Pagou com o dinheiro reservado para manutenção, sem culpa e sem pensar em transformar aquela compra num símbolo. Era apenas uma ferramenta necessária.
Ainda assim, ao sair com o pacote pequeno, gostou de ter feito uma escolha que não precisava justificar a ninguém. A quinta-feira podia vir depois. Naquela noite, haveria banho, uma comida quente e a leitura de um livro deixado pela metade. A oficina continuaria sua. Seu tempo também.
Ela guardou a chave no bolso e seguiu para o ponto, levando um convite que havia feito em voz alta.
As mãos disponíveis
Vicente
Vicente tinha lixado a mesma borda duas vezes quando percebeu que estava pensando no jantar. A superfície do freijó já não precisava de correção. Largou a lixa, passou um pano na madeira e conferiu a agenda pendurada acima da bancada. Quarenta e dois anos deveriam ser suficientes para não trocar uma medida por uma expectativa. Pelo visto, não eram.
O armário em que trabalhava pertencia a um cliente antigo. Precisava ser entregue antes da visita à casa de Lídia. Vicente ajustou a porta, instalou o puxador e recuou para examinar o conjunto. Gostava do instante em que uma peça deixava de pedir esforço para se tornar útil: a gaveta corria, a dobradiça sustentava, a mão encontrava onde pousar. Pessoas não ofereciam esse tipo de conclusão. Esquecia disso com frequência, apesar de saber explicar a diferença.
No fundo da marcenaria, a chaleira apitou. Ele preparou chá e ligou para o pai. A conversa durou pouco. O homem reclamou do preço do tomate, disse que caminhara até a praça e lembrou que o filho não precisava aparecer para verificar a geladeira. Depois de uma cirurgia, dois anos antes, Vicente passara meses administrando consultas, compras e horários. A necessidade acabara antes do hábito.
— Eu queria saber se você vai ao almoço da tia — Vicente disse.
— Você pode perguntar isso sem perguntar antes o que eu comi.
Ele aceitou a correção. Anotou o almoço, desligou e ficou com o telefone na mão. Gostava de ser necessário. Não gostava de reconhecer quanto. Talvez por isso lhe fosse fácil falar de limites num fórum, onde as frases esperavam revisão e ninguém olhava para ele com confiança.
No fim da manhã, uma cliente veio buscar duas prateleiras pequenas. Vicente havia deixado as peças embaladas perto da saída, com instruções de instalação e a indicação de um profissional caso ela preferisse contratar o serviço. A mulher contou que o filho prometera instalar tudo no domingo, mas nunca usara uma furadeira. Ele explicou o tipo de parede para o qual os parafusos fornecidos serviam e recomendou não improvisar se encontrassem material diferente.
— Você não pode fazer um desenho bem fácil para ele? — ela perguntou.
Vicente pegou uma folha. Poderia desenhar. A dificuldade era outra.
— Posso mostrar os pontos de fixação. Mas o desenho não substitui saber verificar a parede e o peso. Prefiro que a senhora espere a avaliação do que se machuque tentando cumprir uma promessa de domingo.
A cliente suspirou e perguntou quanto custaria a instalação. Ele informou o valor do profissional indicado, deixando claro que ela precisaria confirmar diretamente. Não acrescentou uma garantia pelo trabalho alheio. A mulher decidiu fazer essa consulta e saiu com as prateleiras.
Vicente voltou à bancada levando a folha sem desenho. Era curioso como reconhecia os limites com facilidade quando havia uma ferramenta elétrica envolvida. Sabia que uma explicação cuidadosa não transformava vontade em experiência. Em outras partes da vida, sentia-se tentado a oferecer um mapa e chamar aquilo de capacidade.
Antes do almoço, enviou ao pai apenas a confirmação do encontro de família. A resposta veio com uma fotografia do tomate comprado na feira, muito vermelho, apoiado sobre a palma enrugada. Vicente entendeu a provocação e riu. Escreveu que o preço parecia justificar um retrato. O pai respondeu que cobraria ingresso para ver o restante da sacola.
Ficaram trocando piadas por alguns minutos. Nenhum perguntou o que o outro deveria fazer. Vicente descobriu que aquela conversa lhe fazia mais companhia do que uma lista de providências cumpridas. Guardou o telefone quando o chá esfriou e terminou o trabalho com o corpo menos tenso.
No café da véspera, Clara escutara suas respostas com uma atenção que ele ainda sentia na pele. Ter sido lido por ela na Biblioteca de Couro lhe dera uma vantagem que poderia confundir com intimidade. Mas uma postagem revisada nada mostrava da sua impaciência no trânsito ou da desordem que deixava em casa. Queria que os próximos encontros revelassem também esse homem, antes que ela escolhesse qualquer coisa a partir de uma imagem incompleta.
Antes de sair, lavou as mãos com uma escova pequena para tirar o pó das unhas. A camisa escura que escolhera não escondia o corpo nem o anunciava. Olhou o relógio e chegou ao restaurante cinco minutos antes das oito.
Clara veio pela calçada com uma bolsa de tecido no ombro. Usava um vestido vinho e botas baixas. O cabelo curto estava penteado para trás de uma orelha, deixando visível um brinco prateado. Vicente abriu um sorriso que não ensaiara.
— Você chegou bem? — perguntou.
— O ônibus resolveu colaborar com a minha vida social.
Entraram. A garçonete indicou uma mesa perto de uma parede coberta de fotografias antigas. Vicente esperou Clara escolher o lado. Ela reparou e arqueou uma sobrancelha.
— Pode sentar. Não é uma prova.
Ele riu.
— Obrigado pelo aviso. Eu teria estudado errado.
Pediram comida. Antes de qualquer pergunta íntima, falaram do bairro, de filmes que não haviam terminado e do prazer de cozinhar apenas uma coisa muito bem. Clara sabia fazer uma torta de alho-poró que cobrava dos amigos o compromisso de lavar a louça. Vicente fazia pão. Não usou isso como convite para levá-la para casa. Preferiu escutar a história de uma viagem em que ela perdera a mala e passara três dias usando uma camiseta emprestada com o nome de um candidato desconhecido.
— Fiquei com medo de entrar num bar e descobrir que ele tinha inimigos — ela disse.
— Você investigou?
— Claro que não. Eu estava de férias. Virei a camiseta pelo avesso.
Vicente gostou da risada dela, que chegava inteira e acabava num pequeno pigarro. Gostou mais quando Clara deixou de rir e perguntou por que ele entrara na Biblioteca de Couro. Não preparou uma história impressionante.
— Porque tive perguntas que não conseguia fazer aos meus amigos — respondeu. — E porque algumas experiências boas me mostraram o que eu queria aprender a oferecer.
— Você se considera dominante?
— Em relações escolhidas para isso, sim. Não o tempo inteiro, com toda pessoa ou em qualquer lugar.
Ela girou a taça de água pelo pé. Nenhum dos dois pedira álcool. A decisão não fora combinada, e Vicente evitou tratá-la como uma prova de compatibilidade.
— Já tive experiências de submissão que gostei — Clara disse. — E algumas que terminaram quando precisavam terminar. Não estou procurando alguém para me ensinar quem sou.
— O que você gostaria de encontrar?
Ela olhou para ele com uma firmeza que lhe deu vontade de aproximar a cadeira.
— Uma pessoa por quem eu sinta desejo. Com quem eu possa pedir direção sem receber uma avaliação da minha vida inteira.
Vicente deixou a resposta existir antes de colocar a sua ao lado. Podia oferecer elogios, dizer que entendia perfeitamente, prometer jamais confundir as coisas. Preferiu a parte que era verdadeira.
— Eu tenho tendência a organizar demais. Preciso que as pessoas me digam quando estou passando do ponto. E preciso aceitar isso antes que tenham de gritar.
Clara cortou um pedaço do peixe, mas não o levou à boca.
— Não quero ganhar um segundo trabalho, então.
A frase acertou um lugar exposto. Ele assentiu.
— Justo. Não quis dizer que seria sua responsabilidade me administrar. Posso perceber meu próprio impulso. Só não quero fingir que não existe.
Ela comeu o pedaço de peixe e pareceu pensar. Vicente tolerou o intervalo. O barulho de pratos e conversas ao redor protegia a mesa de uma solenidade excessiva.
— Isso eu consigo ouvir — ela disse, por fim. — O que não consigo é uma promessa de perfeição seguida da descoberta de que eu deveria ter adivinhado tudo.
Falaram de limites com pausas para comentar a comida, pedir outra água e corrigir uma informação sobre o filme que ele mencionara. Nenhum deles precisava converter o jantar numa ficha preenchida. Ainda assim, quando Clara disse que não queria dor naquela fase da vida, Vicente não procurou uma versão negociável da frase. Ela não gostava de humilhação. Gostava de instruções simples, atenção concentrada e da expectativa criada por um gesto adiado. Não aceitava controle sobre dinheiro, roupa de trabalho ou amizades.
— E você? — perguntou.
— Não gosto de fingir que uma recusa é um desafio. Não quero interpretar resistência como autorização. E não entro numa relação em que alguém espere disponibilidade permanente.
— Ótimo. Tenho dias em que não quero nem responder ao entregador.
O humor devolveu ar à conversa. Vicente descobriu que conseguia desejar a boca de Clara enquanto ouvia uma objeção dela, sem que uma coisa diminuísse a outra. Talvez fosse essa a parte que mais o atraía: o modo como ela se apresentava inteira, sem oferecer o conforto de parecer simples.
Quando a conta chegou, dividiram. Ele pagou sua metade sem transformar o ato num gesto de desapego. Na calçada, o ar estava frio. Clara ajeitou a alça da bolsa e perguntou se ele tinha pressa.
— Não.
— Podemos andar um pouco.
Caminharam até uma praça pequena, ainda iluminada. Havia um casal passeando com um cachorro que parecia ter opinião sobre cada árvore. Clara mostrou uma casa de janelas amarelas e contou que, quando criança, acreditava que todo sobrado guardava uma escada em caracol. Vicente disse que aquele provavelmente tinha uma escada reta, estreita e mal-humorada. Ela o acusou de destruir patrimônios imaginários.
Pararam perto de um banco. Ele queria beijá-la desde a chegada ao restaurante. Agora queria mais, porque o rosto dela havia mudado várias vezes durante a noite e nenhuma dessas versões lhe parecera uma apresentação.
— Gostaria de beijar você — ele disse.
Clara baixou os olhos para a boca dele e voltou a encará-lo.
— Eu também gostaria que você fizesse isso.
Vicente aproximou a mão do rosto dela, parando onde Clara pudesse acompanhar. Ela virou o queixo ligeiramente, aceitando o toque. O primeiro beijo foi cuidadoso; o segundo já teve a resposta de seus dedos na camisa dele. Vicente sentiu o calor da palma através do tecido e uma vontade profunda de segurá-la pela cintura. Não precisou satisfazer tudo ao mesmo tempo.
Quando se afastaram, Clara continuou perto.
— Isso funcionou — ela falou.
— Tenho vontade de confirmar a avaliação.
Ela riu baixo e o puxou pela gola. Dessa vez foi Vicente quem perdeu a frase que preparava. O beijo teve gosto de sobremesa e frio na pele ao redor. Quando Clara se afastou de novo, ele soltou a mão que apoiara na cintura dela sem tentar prolongar o gesto.
Esperou com ela no ponto. O ônibus veio depressa demais. Clara subiu, encontrou um lugar junto à janela e levantou a mão. Vicente voltou para casa caminhando, com a sensação inconveniente de que todas as pessoas na rua conseguiriam perceber o que acontecera.
No sábado, ele chegou à oficina de Clara carregando apenas a pasta e uma trena. Ela o recebera para separarem amostras antes da visita a Lídia. Estava de calça escura, camiseta e avental cinza; o vestido da quinta parecia pertencer a outra iluminação, não a outra mulher.
Vicente deu bom-dia e esperou o movimento dela. Clara pousou uma caixa vazia sobre a mesa, aproximou-se e lhe beijou o rosto, perto demais do canto da boca para ser protocolar.
— Hoje a gente precisa conseguir trabalhar — disse.
— Fiz uma lista para ajudar.
— Claro que fez.
Ela não parecia censurá-lo. Vicente mostrou o papel: dimensões do acervo, estado do móvel, condições de guarda, escolha de materiais e autorização para qualquer divulgação. Clara acrescentou a distinção entre intervenção estética e conservação. Também anotou que não fariam promessas de recuperar papéis danificados sem examiná-los.
Bia apareceu com uma caneca e foi apresentada. Cumprimentou Vicente com a naturalidade de quem tinha uma vida própria, depois pediu que Clara conferisse a largura de um álbum. Ele se afastou para deixá-las trabalhar. Observou a oficina sem procurar mensagens privadas: rolos de tecido, prensas pequenas, pesos, um copo com tesouras, uma parede de amostras que revelava muitas tentativas antes do resultado.
Clara discutiu dois milímetros com Bia por quase cinco minutos. Vicente sentiu uma admiração física pelo cuidado da conversa. Nenhuma delas precisava vencer; precisavam que o álbum fechasse. Quando chegaram à solução, Clara marcou a medida e voltou para perto dele.
— Está pronto?
— Estou.
No táxi a caminho de Lídia, as bolsas de amostras ficaram entre os dois. A proximidade tinha uma reserva que não existira na praça. Vicente percebeu que gostava dela também. Não exigia que Clara lhe entregasse na manhã seguinte o que escolhera oferecer durante um beijo.
— Pensei numa coisa — ela disse, olhando a rua pela janela. — Eu gostaria de experimentar um encontro com direção. Curto. Sem misturar com o trabalho.
Vicente apoiou a mão sobre o próprio joelho para conter o gesto de procurá-la.
— Podemos conversar depois da visita. Com tempo para decidir o que você quer dizer por isso.
Clara assentiu. Ele não pediu uma lista ali, com um motorista a meio metro. Era possível esperar. Sua vontade não tinha urgência superior à privacidade dela.
Chegaram ao prédio de Lídia dez minutos antes do horário. Preferiram caminhar até a esquina e voltar, em vez de tocar o interfone cedo. Clara comprou um pacote de balas de gengibre numa banca. Ofereceu uma. Vicente aceitou, e os dois ficaram na calçada mastigando em silêncio, com expressões igualmente ofendidas pelo ardor.
— Parece uma punição — ele disse.
— Foi você que aceitou sem perguntar.
A risada dela o acompanhou até o elevador. Quando a porta do apartamento se abriu, Vicente conseguiu voltar à tarefa sem a sensação de abandonar alguma coisa. Estavam ali para conhecer o trabalho. O encontro íntimo, se viesse, teria outra porta.
Lídia os recebeu com a escrivaninha já afastada da parede e os papéis sobre uma toalha limpa. O móvel precisava de reparo, mas estava longe de ser uma ruína. Vicente pediu autorização para virá-lo e examinou a parte inferior. Clara abriu uma caixa provisória com luvas apenas depois de avaliar o material, explicando à cliente quando era melhor usar mãos limpas e secas. Ele escutou a conversa sem intervir.
Lídia parecia querer pedir desculpas pelo estado dos objetos. Vicente conhecia aquela vergonha: as pessoas imaginavam que amar alguma coisa deveria bastar para conservá-la. Mostrou a junta solta, explicou o reparo e não atribuiu culpa à forma como ela cuidara do móvel.
— Vai continuar com a marca aqui? — a cliente perguntou, apontando um risco na madeira.
— Se a senhora quiser. Não preciso apagar tudo para fazer a peça funcionar.
Clara olhou para ele. Vicente não soube o que ela pensara, e teve o bom senso de não decidir por ela.
Ao fim da visita, cada um tinha medidas suficientes para preparar o orçamento definitivo. Lídia pediu que ficassem para um café. Aceitaram. Enquanto a cliente foi à cozinha, Clara aproximou sua folha da dele e apontou uma altura que precisariam rever. Os dedos quase se tocaram sobre o papel; ela não os afastou depressa.
Vicente percebeu, naquele pequeno quase, que esperava mais do que uma experiência. Queria ouvir Clara discutir um acabamento, errar uma piada, escolher um domingo. Ainda não lhe cabia transformar esse desejo numa proposta. Era cedo, e a vontade de estar perto podia aprender a suportar o tempo.
Guardou a régua dobrável e deixou as mãos disponíveis sobre a mesa.















































