Invasor
Daisy
O carro alugado era branco, o que, no Wyoming em agosto, é uma decisão de que você se arrepende antes de percorrer dois quilômetros de cascalho.
Quando passei sob o arco de ferro de Lark Creek, o capô adquirira a cor de um envelope pardo e meus óculos escuros tinham uma película fina de estrada que eu espalhava com a barra da camisa. A camisa era de seda. Eu a comprara no Brooklyn para uma reunião com um comprador que nunca aconteceu e a vestira naquele dia porque era a coisa mais cara que tinha e quisera, estupidamente, chegar com cara de mulher que se dera bem na vida.
Não havia ninguém para ver. Essa era a vantagem de voltar para casa depois de um funeral ao qual você não comparecera. Ficava com a casa, a poeira e o silêncio.
Só que a casa não estava em silêncio.
Ouvi antes de ver: uma batida grave e ritmada atrás do celeiro, depois um relincho agudo e furioso, depois a voz de um homem dizendo algo baixo que o vento despedaçou antes de chegar a mim. Desliguei o motor e fiquei com as mãos no volante.
Vovô Amos morrera em abril. Eu sabia porque estava num provador em Manhattan, com alfinetes na boca, quando o advogado ligou, e engolira um. Não até o fim. O bastante para tossir até a modelo perguntar se eu precisava de água. O advogado dissera “em paz”, “na própria cama” e depois “há a questão da propriedade”, e eu dissera que não podia ir até a temporada acabar, porque Lark, minha grife, meus nove funcionários, minhas faturas vencidas e minha única chance, finalmente despertava o interesse de uma rede de quarenta lojas, e eu não podia sair.
Quatro meses depois a rede dissera sim, meu investidor dissera não, e eu voara para Casper com duas malas de amostras e uma visita marcada com Peggy Dunn, da Dunn Realty, para colocar o imóvel à venda às nove da manhã seguinte.
Eu não previra cavalos.
O celeiro estava onde sempre estivera, o vermelho virando ferrugem, os choupos ao longo do riacho projetando sombras longas e azuis sobre os currais. Uma caminhonete que eu não reconhecia estava ao lado, preta e amassada em lugares que denunciavam trabalho, engatada a um reboque de animais com lama de Montana ainda nos para-lamas. A janela da cozinha da casa estava aberta. Um pano de prato pendia do peitoril.
Alguém morava na casa do meu avô.
Saí do carro. O calor subiu do cascalho e me atingiu nas canelas. O ar cheirava exatamente como em todos os verões da minha vida até os dezenove: artemísia, cavalo, poeira quente e, sob tudo, o hálito verde e frio do riacho, como se a terra guardasse um segredo que só contaria à noite. Minha garganta se fechou. Obriguei-me a andar.
O redondel ficava depois do celeiro, numa pequena elevação. Contornei o canto do celeiro e parei.
Um homem montava um cavalo que não queria ser montado.
Era um castanho grande de crina preta e uma mancha branca numa anca, e se desmontava sob ele em corcovos enormes e duros, dianteira no alto, traseira no alto, torcendo no ar como se pretendesse arrancá-lo à força. A poeira fervilhava ao redor. O homem se mantinha no lombo com uma mão numa rédea grossa e a outra erguida e solta, os calcanhares roçando dos ombros do cavalo para trás, na direção da sela, em movimentos longos e ondulantes, no tempo perfeito, como se ele e o animal dançassem uma música que só os dois ouviam, e o cavalo perdesse a discussão sobre quem conduziria.
Eu conhecia aquele ritmo.
Conhecia o alinhamento daqueles ombros, o jeito como a mão livre nunca enrijecia, como mantinha o queixo baixo. Eu vira aquilo das arquibancadas na feira do Condado de Fremont aos dezenove, com o coração na boca. Vira de mais perto também.
O cavalo desistiu de uma vez, como fazem, como se alguém cortasse um fio. Ficou bufando, os flancos arquejantes. O homem desmontou, pousou leve e passou a mão no pescoço escurecido de suor. “Aí está ele”, disse. “Era só o que eu queria. Foi tão ruim assim?”
Então ergueu os olhos e me viu junto à cerca.
Não se assustou. Só ficou imóvel, como o cavalo, e por um longo momento nos encaramos através de quinze metros de terra revolvida e onze anos.
Ele ficara maior. Tinha trinta e três agora, se eu fizera a conta certa, e fizera; calculava todo março, no aniversário dele, querendo ou não. Não mole, nunca isso, mas mais largo no peito e nos ombros, o peso de um homem assentado no que fora uma estrutura esguia. A camiseta estava ensopada e colada ao corpo. O jeans, branco de poeira até os joelhos. Perdera o chapéu em algum momento da montaria, e o cabelo estava mais escuro que na minha lembrança, o castanho quase preto de suor, ondulado na nuca. E o rosto.
Alguém passara uma faca no rosto de Wade McCallister, ou um cavalo passara, o que, na profissão dele, dava no mesmo. Uma linha pálida atravessava a sobrancelha esquerda, dividindo-a em duas. Outra, mais antiga e fina, acompanhava a articulação do maxilar do mesmo lado, descendo para a garganta. O nariz fora quebrado ao menos uma vez e posto no lugar por alguém com pressa. Devia arruinar sua beleza. Não arruinava. Só fazia parecer que ela entrara numa briga e vencera.
“Daisy Harlan”, disse.
A voz também engrossara. Atravessou o ar quente e encontrou um lugar sob meu esterno que eu selara muito tempo antes.
“O que está fazendo aqui?” Minha voz saiu mais aguda do que eu queria. Tentei de novo. “Isto é propriedade particular.”
“É.” Juntou a rédea do castanho e caminhou até mim sem pressa. O cavalo o seguiu feito cachorro. “É mesmo.”
“É minha propriedade.”
“Parte dela.”
Parou do outro lado da cerca. De perto cheirava a cavalo, suor e couro limpo, e havia uma linha de sangue seco junto à raiz do cabelo onde algo o cortara. Os olhos eram os mesmos. Essa era a pior parte. Cinzentos como pedras de riacho, com as mesmas pintas douradas que eu passara um verão inteiro nomeando, como se pudesse possuí-las assim.
“Você está com cara de Nova York”, disse.
“É para ser um insulto?”
“É uma observação.” Seu olhar desceu pela camisa de seda, a calça justa, as sandálias já cheias de areia, e tornou a subir. Sem pressa. “Insulto seria observar que acabou de pisar numa pilha de merda de cavalo com sapatos que imagino terem custado quatrocentos dólares.”
Olhei para baixo. Pisara. Ergui os olhos de novo, e ele me observava com uma expressão que eu não decifrava, a boca reta, os olhos fazendo outra coisa completamente diferente.
“Por que”, perguntei com muito cuidado, “sua caminhonete está na casa do meu avô, Wade?”
“Porque eu moro aqui.”
Ele me mostrou o arrendamento à mesa da cozinha.
A cozinha do vovô. O mesmo oleado de cerejas desbotadas, a mesma cafeteira azul de esmalte lascado no mesmo fogão, o mesmo calendário da Corley Feed and Seed pregado junto à porta, ainda em abril. Alguém circulara o dia catorze a lápis. Não perguntei o que era. Não queria saber se fora o dia em que morrera, uma consulta do veterinário ou coisa nenhuma.
A cozinha estava limpa. Mais limpa do que o vovô jamais deixara. Havia um escorredor com um prato, um garfo, uma caneca. Um par de luvas de trabalho no peitoril. Um frasco de ibuprofeno do tamanho de uma lata de café.
Wade deslizou o papel sobre as cerejas. Lavara o rosto e as mãos na pia e vestira uma camisa seca, de cambraia azul desbotada, que não se dera ao trabalho de abotoar até em cima; sentou à minha frente com a cadeira apoiada nas duas pernas de trás como se fosse dono do lugar.
O que, segundo o documento à minha frente, ele meio que era.
Li duas vezes. Era curto. Amos Harlan, Arrendador, e Wade J. McCallister, Arrendatário. O celeiro, os currais, a arena e o pasto do Rancho Lark Creek, junto com a ocupação da residência, pelo prazo encerrado em 31 de outubro. Contraprestação: um dólar, cujo recebimento se reconhece neste ato. Assinado na letra inclinada do vovô, datado de nove de março, testemunhado por alguém chamada Lorraine Pruitt, com firma reconhecida.
“Um dólar”, disse.
“Ele era duro de negociar.”
“Nove de março. Ele já estava doente em março.”
Algo atravessou o rosto de Wade e desapareceu. “Sabia o que estava fazendo.”
“Sabia?” Pousei o papel. Minhas mãos não estavam bem firmes, e as espalmei na mesa para que ele não visse. “Porque falo com o advogado dele há quatro meses e ninguém mencionou uma vez sequer que ele entregara o rancho inteiro a um peão de montaria em sela por um dólar.”
“Não o rancho inteiro. Leia de novo. A terra é sua. O gado foi para os Pruitt no outono passado; ele vendeu pessoalmente. Só posso usar o lugar.” Deixou a cadeira pousar nas quatro pernas. “Até outubro.”
“Vou colocar à venda amanhã.”
“Então coloque.”
“Com você aqui?”
“O arrendamento acompanha a propriedade, Daisy. Quem comprar leva a mim junto.” Um canto da boca subiu. Não era bem um sorriso, mais um aviso de que poderia acontecer. “Até outubro.”
Encarei-o. O relógio da cozinha tiquetaqueava. Lá fora uma cotovia-dos-prados disparou como água de uma mangueira, e odiei aquilo, odiei como era lindo, odiei saber o nome do pássaro.
“Por quê?”, perguntei. “Por que precisa de um rancho no Wyoming por dois meses? Não tem um…” Agitei a mão. “Um lugar? Um circuito? Um reboque cheio de mulheres?”
“A caminhonete tem cama.” Falou sem o menor constrangimento. “O reboque tem cavalos. E preciso deste lugar porque sou o décimo sétimo no ranking mundial de montaria em sela faltando sete semanas para o fim da temporada regular, os quinze primeiros vão para as Finais em dezembro, e tenho dois cavalos de treino e um castrado que não se dão bem em estacionamentos de motel.” Recostou de novo. “Amos me deixou ficar com eles aqui no inverno passado enquanto me recuperava. Ofereceu o resto quando adoeceu. Aceitei.”
“Se recuperava de quê?”
Tocou o ombro direito sem parecer perceber. “Um cavalo chamado Widowmaker em Fort Worth.”
“Não é um nome de verdade.”
“Daisy também não.”
“É sim.”
“É uma flor.” Os olhos fizeram aquilo de novo, o deslizar sem pressa. “Deram a você o nome de uma coisa que nasce em valas.”
“Deram o nome da minha bisavó.”
“Que tinha o nome de uma coisa que nasce em valas.”
Levantei. A cadeira arranhou o chão. Não me importei. “Quero você fora.”
“Eu sei.” Não se moveu. “Não vou.”
“Vou chamar o xerife.”
“Dale Pruitt é o xerife. Lorraine é a esposa dele. Testemunhou o arrendamento.” Indicou o papel com a cabeça. “Dale vem, bebe um café, diz que você cresceu e ficou bonita e vai embora.”
Eu crescera com as filhas de Dale Pruitt. Ele me ensinara a pescar. Faria exatamente isso.
“Ótimo.” Peguei a bolsa, uma coisa ridícula, de couro e pequena, que levava um celular e um batom e nada útil para um impasse numa cozinha. “Então fico no motel da cidade até resolver.”
“O Wagon Wheel está cheio. A equipe do oleoduto pegou todos os quartos até setembro.” Falou com uma espécie de prazer preguiçoso. “A cama mais próxima fica em Riverton, e tem uma feira de armas lá.”
“Então durmo no carro.”
“Vai fazer quatro graus esta noite.”
“Eu sou daqui, Wade. Sei o frio que faz.”
“Você era daqui.” Aquilo acertou. Ele viu e não pareceu arrependido. “Está fora há onze anos. Não veio no Natal. Não veio quando ele quebrou o quadril. Não veio em abril.”
“Não.” A palavra saiu afiada o bastante para cortar. “Não se atreva. Você não tem o direito de ficar nesta cozinha e me dizer quem foi embora.”
Por um segundo, só um, vi o golpe acertar. Seu rosto se fechou, liso, como uma porta batendo no vento. As mãos, soltas na mesa, se fecharam em punhos e depois se abriram deliberadamente.
Quando falou, a voz era baixa. “Seu quarto está como deixou. Ele não deixava ninguém tocar. Lençóis limpos na cama. Pus em maio.” Levantou. A diferença de altura entre nós era maior do que eu lembrava, e naquela cozinha pequena ele estava perto o bastante para me obrigar a inclinar a cabeça. “Banheiro no fim do corredor. A água quente acaba em uns oito minutos, então, se gosta de ficar lá pensando nos sentimentos, pense rápido.”
“Esta é minha casa.”
“Metade.” Pegou o arrendamento, dobrou uma vez e guardou no bolso da camisa, sobre o coração. “A meu ver, metade é minha até o Halloween.”
Trouxe as malas sozinha. Ele ofereceu uma vez, da varanda, eu disse não, e deu de ombros e voltou ao celeiro. Ouvi-o falar com os cavalos enquanto a luz ficava laranja, depois roxa. Falava com eles como outras pessoas cantarolam, um som baixo e constante que não precisava de resposta.
Meu quarto estava exatamente como deixara.
Era mentira. Estava exatamente como deixara mais onze anos de poeira que ninguém tivera permissão de limpar, só que alguém limpara, havia pouco, com cuidado, deixando o tampo da cômoda limpo e o espelho claro. A colcha era a mesma azul, no padrão de alianças entrelaçadas, que a vovó fizera antes de eu nascer. O painel de cortiça acima da escrivaninha ainda tinha meus croquis presos, desenhos de vestidos de alcinha e camisolas de corte em viés feitos aos dezenove, linhas tão ansiosas que quase rasgavam o papel. Uma fita de um concurso de costura do 4-H. Uma tira de fotos da feira do Condado de Fremont.
Não olhei para a tira de fotos.
Olhei.
Quatro quadros. Uma menina de nariz queimado de sol e chapéu de palha rindo tanto que os olhos se fechavam. Um rapaz sem cicatriz nenhuma, braço ao redor do pescoço dela, olhando para ela em vez da câmera. No terceiro quadro ele virara e beijara sua têmpora. No quarto ela se virara para encontrá-lo, e o obturador os pegara meio segundo antes de as bocas se tocarem; a tira toda era tão luminosa, tão idiota e tão segura de si que precisei sentar na cama.
Dezenove. Eu tivera dezenove anos, uma bolsa numa escola de design em Nova York e um rapaz que dizia me amar sob as arquibancadas da feira do Condado de Fremont, e estivera prestes a jogar a bolsa fora. Escrevera a carta. Agradeço a oferta generosa, mas, por circunstâncias familiares. Circunstâncias familiares. Como se ele fosse família.
Então uma noite de agosto ele fora ao riacho onde eu esperava e dissera que fora uma coisa de verão. Foi como chamou. Uma coisa de verão. Que eu devia ir para Nova York, porque ele partiria para o circuito de manhã e não era do tipo que escrevia.
Não escrevera. Nem uma vez.
Fui para Nova York.
Desprendi a tira de fotos, pus virada para baixo na gaveta da escrivaninha e fechei com força de chacoalhar os lápis.
No corredor, a porta dos fundos bateu. Botas nas tábuas. O chiado da torneira da cozinha. Depois a porta do banheiro, os canos gemendo na parede quando o chuveiro ligou. Eu ouvia a água atingir os azulejos, depois a mudança no som quando ele entrou debaixo dela.
Sentei na cama da infância com as mãos entre os joelhos e fiz um esforço enorme para não pensar em Wade McCallister nu do outro lado de uma parede em que eu podia encostar a palma.
Aguentei uns noventa segundos.
Então levantei, abri o notebook na escrivaninha e mandei um e-mail para Peggy Dunn: Amanhã confirmado. Pequena complicação. Explico depois. Mandei para Priya no Brooklyn: Cheguei. A casa está bem. Tem um homem nela. Apaguei a segunda frase e escrevi Tem um inquilino. Apaguei também e escrevi Não se preocupe. Terei o dinheiro até outubro.
O chuveiro desligou. Oito minutos, quase exatos.
Ouvi a porta dele. Depois sua voz através da parede, muito mais perto do que eu esperava, como se tivesse vindo ficar do outro lado.
“Daisy.”
Não respondi.
“Sei que está acordada. A luz passa por baixo da porta.”
“Vá dormir, Wade.”
Uma pausa. Longa o bastante para eu pensar que ele fora embora. Então, mais baixo, quase inaudível através de reboco e pinho:
“Não vou embora. Desta vez não.”
Fiquei na luz do notebook com o coração como o cavalo castanho no redondel, tentando descobrir se era uma ameaça ou promessa e por que, aos trinta anos, com um arrendamento, um advogado e uma reunião com um comprador às nove, não conseguia distinguir.
A Linha no Meio
Wade
Meu corpo tem opiniões às quatro e meia da manhã, e nenhuma é gentil.
O ombro é o mais barulhento. Agora tem uma placa e seis parafusos, e dói como um dente ruim sempre que o tempo está para virar, o que no Wyoming é sempre. Depois vêm as costelas do lado esquerdo, onde um cavalo chamado Cinnamon Toast pisou em mim em Pendleton dois anos atrás, e montei na noite seguinte mesmo assim. Depois o joelho. Depois um zumbido de fundo geral de treze anos sendo arremessado no chão por animais de quinhentos e quarenta quilos que não têm interesse no meu plano de aposentadoria.
Fiquei deitado na cama estreita do quarto de hóspedes de Amos, ouvindo a casa e fazendo uma lista, como faço toda manhã para não precisar pensar em mais nada.
Décimo sétimo. Quatro mil e cem dólares atrás de Cody Rasmussen, o décimo quinto. Sete semanas. Corley Days no próximo sábado, Ellensburg depois, então uma sequência de rodeios pequenos em Montana e nas Dakotas, depois o Big Horn Stampede em Sheridan no último fim de semana de setembro, que pagava o bastante para resolver de um jeito ou de outro. Alimentar os cavalos. Montar Domino, porque o castanho enfim parara de tentar me matar ontem e eu queria ver se lembrava. Tábua de treino de esporas. Alongar o ombro. Gelo no ombro. Não pensar em Daisy Harlan dormindo a doze metros pelo corredor, numa cama que eu arrumara para ela em maio, quando não achava que viria.
Passei bem pela lista até o último item.
A luz era cinzenta quando saí para o corredor. E ali, da porta da frente direto pelo meio do assoalho antigo de pinho, passando pelo banheiro, pela minha porta e pela dela, até a cozinha, havia uma linha de fita de pintura azul.
Segui a linha.
Dividia a mesa da cozinha pelo centro, cerejas dos dois lados. Atravessava a bancada, contornava a cafeteira, subia pela frente da geladeira e cruzava o fogão entre as bocas da esquerda e as da direita. Na porta dos fundos fazia uma curva fechada e seguia a soleira, deixando a área de botas de um lado e a despensa do outro. Era muito reta. Fora colada por alguém que sabia cortar um molde.
Havia uma folha de papel presa na porta da geladeira com um ímã em forma de truta. Escrita com marcador preto numa letra que eu reconheceria em qualquer lugar, mesmo que onze anos a tivessem deixado menor e mais afiada.
REGRAS DA CASA
1. O lado norte (do celeiro) é seu. O lado sul é meu. Fique no seu lado. 2. Cozinha e banheiro são compartilhados. Cozinha: você antes das 7, eu depois. Banheiro: BATA. 3. Café é território neutro. 4. Camisas são obrigatórias nos espaços compartilhados. 5. Este acordo acaba em 31 de outubro ou quando eu vender, o que acontecer primeiro.
Li duas vezes. Então peguei o marcador onde ela deixara na bancada, que era do lado dela, e acrescentei umas linhas.
6. A regra 4 vale para as duas partes. (Seda conta como meia camisa.) 7. Cavalos não respeitam fita. 8. Eu também não.
Fiz café. Servi uma xícara, deixei do lado dela na mesa, no lugar onde sentava quando era criança e Amos a fazia comer mingau de aveia antes das tarefas, e saí para alimentar os animais.
Ela saiu às nove com Peggy Dunn.
Eu estava em Domino na arena. Ele lembrara, em grande parte. Deu dois saltos sérios ao sair da porteira que eu construíra com paletes, depois jogou a cabeça e deu pulos de lado sem grande vontade, querendo dizer que pensava no assunto e decidira que não se importava o bastante. Aguentei até o fim, desmontei e os vi na cerca: Peggy de blazer lavanda e colar turquesa de flores de abóbora que devia pesar tanto quanto o pito de uma sela, um garoto magricela com câmera atrás dela e Daisy.
Ela trocara de roupa. Jeans, ao menos, se desse para chamar assim. Escuro e tão justo que parecia ter sido costurado com ela dentro, o que, conhecendo-a, era possível. Camisa branca de mangas dobradas. Cabelo preso num coque na nuca e óculos de armação tartaruga que a faziam parecer prestes a auditar minhas contas. Fora uma menina magrela e sardenta que subia em árvores e usava minhas camisas com os punhos dobrados quatro vezes. Voltara uma mulher que olhava o celeiro como uma linha na planilha.
Só que não. Não exatamente. Vi seus olhos subirem pela lateral até a porta do palheiro, onde sentáramos nas noites de verão com as pernas pendendo sobre o vão, e a vi desviar depressa, como se queimasse.
“Wade McCallister”, disse Peggy, erguendo os óculos escuros. “Ouvi dizer que estava ocupando sem licença.”
“Arrendando, Peggy.”
“Ocupando com papelada.” Ela me examinou com franco interesse profissional. “Meu Deus, querido, o que aconteceu com seu rosto?”
“Rodeio.”
“Bom. Está favorecendo você.” Deu uns tapinhas no braço de Daisy. “Querida, vou ser sincera. Um inquilino até o Halloween vai espantar os fazendeiros. Mas tem um sujeito de Jackson, da Summit Ridge Land Company, farejando o vale inteiro e comprando propriedades. Não liga para inquilinos. Liga para extensão de terra.”
“Summit Ridge”, disse Daisy.
“Chácaras.” Peggy fez uma careta como se o gosto fosse estranho. “Lotes de quarenta acres, uma casa de troncos em cada um, gente da Califórnia instalando aquelas luzinhas solares na entrada. Mas o dinheiro é de verdade. Está pagando muito bem. Três milhões por uma propriedade deste tamanho não me surpreenderiam.”
Não disse nada. Nem precisava. Daisy olhou para mim mesmo assim, um olhar rápido, quase culpado, depois de volta a Peggy.
“Vamos tirar as fotos”, disse.
O garoto começou pela casa. Voltei ao trabalho. E admito aqui e agora que não foi acidente tirar a camisa e pendurá-la num mourão enquanto preparavam uma foto dos currais com as montanhas atrás, nem atravessar o enquadramento sem pressa com uma sela no quadril.
“Wade”, chamou Peggy. “Você está na foto.”
“Eu moro aqui.”
“Pode morar de camisa?”
“Regra seis”, disse, encontrando o olhar de Daisy do outro lado da arena.
Ela ficou vermelha. Não de vergonha. De raiva, da gola da camisa branca até a raiz do cabelo. Sempre corara assim, tudo que sentia correndo à superfície onde qualquer um podia ler. Eu a fazia corar de propósito só para ver acontecer. Costumava seguir o rubor com a boca.
Pus a sela na cerca e o pensamento para fora da cabeça, e nenhum dos dois ficou onde deixei.
“Tiro ele no Photoshop”, disse o garoto.
“Você põe uma camisa nele no Photoshop”, disse Peggy. “É a coisa mais bonita da propriedade.”
Às seis e cinquenta e oito daquela tarde eu estava ao fogão com dois bifes na frigideira de ferro de Amos, e admito que aquilo também não foi acidente.
A cozinha era minha antes das sete. Dizia a regra, com o marcador dela, e não escrevera manhã nem noite, então decidi que valia para as duas. Viera do celeiro às seis e meia, sem pressa, me lavara, pusera a frigideira para esquentar, e ouvi a porta dela abrir no corredor na hora certa e os pés descalços no assoalho; virei os bifes para chiarem alto o bastante para ela ouvir.
Parou à porta da cozinha. Moletom cinza caindo de um ombro. Óculos. Um saco de salada do Mercantile numa mão, como arma.
“São sete horas”, disse.
Olhei o relógio acima da porta. “Seis e cinquenta e nove.”
“Está nas minhas bocas do fogão.”
Olhei para baixo. A frigideira estava bem sobre a linha azul, duas bocas do meu lado, duas do dela, o ferro atravessando a fronteira como uma cerca com a qual não se importava.
“A frigideira é maior que a boca”, disse. “Não tenho culpa de Amos comprar a grande.”
“Mova.”
“Não posso. Está selando.” Inclinei a frigideira para a gordura escorrer e o cheiro subir, manteiga, pimenta-do-reino, carne, e vi o nariz dela se mexer. “Ancho dos Pruitt. Gado a pasto. Maturado três semanas. Vai comer essa salada do saco em pé na pia, não vai?”
“Gosto de salada.”
“Ninguém gosta de salada. As pessoas comem porque têm medo de alguma coisa.”
Ela entrou na cozinha. Não atravessou a fita. Ficou no lado dela da bancada, rasgou o saco, tirou um pedaço de alface e comeu olhando direto para mim, mastigando devagar.
O relógio marcou sete.
“Minha cozinha”, disse.
“Sua cozinha.” Apaguei o fogo. Então tirei dois pratos do armário, que estava do lado dela, pus um bife em cada um e deslizei um pela bancada até parar exatamente sobre a fita. “Território neutro. Como o café.”
Ela olhou o bife por muito tempo.
“Isto não significa nada”, disse, e sentou.
Comemos um de cada lado da linha, as cerejas entre nós. Ela cortava a carne em pedaços pequenos e precisos como se traçasse um molde. Observei-a tentar não fechar os olhos na primeira garfada e fracassar.
“Então”, disse depois de comer metade e fingir que não terminaria. “Oito segundos.”
“O que tem?”
“É só isso? Treina o ano inteiro, dirige pelo país todo, tem o rosto reorganizado, por oito segundos?”
“Oito segundos é o que pontuam.” Recostei. “Tem que ficar por oito. Depois faz o que quiser. Em alguns cavalos você monta muito mais que oito. Em alguns, passaria a noite toda montando, se deixassem.”
Ela pousou o garfo. “Ainda estamos falando de cavalos?”
“Não sei, Daisy. Estamos?”
O rosa subiu da gola do moletom. Mesmo assim sustentou meu olhar. “Sabe, em Nova York oito segundos não são motivo para se gabar.”
Ri. Escapou antes que eu impedisse, alto naquela cozinha silenciosa, a primeira risada de verdade desde abril. Sua boca se moveu. Por um segundo ela tinha dezenove, eu vinte e dois, e estávamos na carroceria da minha caminhonete na feira do condado, jogando pipoca um no outro.
“Você montava”, disse. “Era boa. Biscuit, a égua velha de Amos. Saía em pelo pela baixada do riacho e voltava com o cabelo cheio de carrapichos.”
“Não monto há onze anos.”
“Volta. Seu corpo lembra.” Peguei o prato vazio, porque ela terminara afinal. “Quando quiser voltar a montar, Nova York, me avise. Garanto que aguente os oito inteiros.”
Saí para a varanda antes que jogasse a salada em mim. Ouvi-a rir atrás da porta de tela, só uma vez, pega de surpresa, como se a risada estivesse trancada em algum lugar havia muito tempo.
Os dias seguintes passaram como passam quando você mora com uma mulher que tenta não desejar, de lados opostos de uma faixa azul.
Ela levantava antes de mim, o que surpreendeu. Eu entrava na cozinha às quatro e meia e encontrava a luz já acesa na sala de costura na frente da casa, que fora da avó dela. Ela trouxera uma mesa dobrável e instalara um notebook, um ferrinho a vapor e um manequim de costura sem cabeça; sentava na luz do abajur de moletom cinza com a gola cortada, caindo de um ombro, desenhava num tablet com caneta e falava ao telefone numa voz nova-iorquina rápida e baixa com alguém chamada Priya sobre aviamentos, tarifas de importação e algo chamado pedido de compra para quarenta lojas que parecia o eixo em torno do qual sua vida inteira girava.
Não entrava na cozinha antes das sete. Cumpria as próprias regras. Eu cumpria as minhas, o que significava deixar uma xícara de café do lado dela na mesa toda manhã, e toda manhã ela bebia sem agradecer uma única vez.
À noite nos cruzávamos no corredor como barcos apagados. Eu entrava cheirando a celeiro, e ela estava à porta do quarto num robe da cor do interior de uma concha, um tecido escorregadio que se movia como água quando ela andava. Ela olhava a fita. Eu olhava o robe. Nenhum dos dois dizia nada que valesse dizer.
“Tem fita na sua bota”, disse na quarta noite.
Olhei para baixo. Uma tira azul se soltara do chão e enrolara no meu calcanhar.
“Cavalos não respeitam”, disse. “Parece que minhas botas também não.”
“Está arrastando para o meu lado.”
“Então acho que vai ter que vir tirar de mim.”
Ela me olhou por um longo segundo. Depois entrou no quarto e fechou a porta, e fiquei no corredor feito idiota, com fita na bota e o coração batendo mais forte que em Domino.
Na quinta noite cometi o erro de não bater.
Ficara na arena até escurecer de vez, depois consertara a boia de um tanque de água com lanterna, e quando entrei esquecera que outra pessoa morava ali. A porta do banheiro estava fechada, sem luz por baixo. Empurrei.
A luz não estava apagada. A lâmpada acima da pia queimara no dia anterior, e ela acendera uma daquelas velas grossas que trouxera da cidade; o banheiro estava cheio de vapor, ouro e cheiro de algo escuro e floral, como uma rosa deixada num carro fechado. E Daisy estava à pia de toalha.
Só uma toalha. Branca, do armário de roupa de cama, do tipo antigo que Amos comprara em quantidade na loja agropecuária, fina de tanta lavagem. Enrolara sob os braços, e a barra parava no alto das coxas; o cabelo estava solto, molhado, pingando nos ombros nus, e ela se inclinava para o espelho embaçado com a ponta de um dedo, desenhando no vidro.
Virou. Nós dois congelamos.
Eu devia ter recuado. Qualquer homem decente recuaria. Fiquei na porta com a mão ainda na maçaneta, olhando, sem conseguir mover os pés.
Ela tivera dezenove da última vez. Magra, queimada de sol, só cotovelos e coragem. Agora tinha trinta e seu corpo se desenvolvera, curvas onde fora reta, maciez nos quadris sob a toalha e volume acima da dobra, onde a respiração fazia o tecido subir e descer. Havia uma sarda na clavícula. Eu lembrava daquela sarda. Pusera a boca nela sobre o capô da minha caminhonete, sob mais estrelas do que vira em qualquer lugar desde então.
“Regra dois”, disse. Sua voz não estava bem firme.
“A luz estava apagada.”
“A lâmpada está queimada. O que saberia se consertasse alguma coisa nesta casa que não fosse cavalo.”
“Consertei a boia do tanque.”
“Parabéns.” A mão fora para o nó da toalha entre os seios, segurando firme. Os nós dos dedos estavam brancos. “Saia, Wade.”
Não saí. Entrei e fechei a porta atrás de mim.
O banheiro era pequeno. Um passo me deixou perto o bastante para sentir o calor da pele dela, perto o bastante para o vapor formar gotas nos meus braços. Ela recuou até bater o quadril na pia. Não desviou. Seus olhos percorreram meu rosto, as cicatrizes, desceram à garganta, até a abertura da camisa, e pararam no meu lado esquerdo, onde o tecido se abria e dava para ver o começo da linha branca comprida de onde tinham entrado para reparar as costelas.
Seu rosto mudou.
“O que”, perguntou muito baixo, “aconteceu com você?”
“Aconteceu um monte de cavalo.”
“Não é resposta.”
“É a única que tenho.”
Ergueu a mão livre como se fosse tocar a cicatriz nas costelas e parou a dois centímetros. Eu sentia o calor da palma pela camisa aberta sem que me tocasse. Meu corpo inteiro se contraiu ao redor daquilo. Não respirei.
“Li sobre Fort Worth”, disse. “Na internet. Depois que falou. Tiveram que cortar o equipamento para tirar você. Ficou no hospital nove dias.”
“Você me pesquisou.”
“Queria saber se estava mentindo.”
“Estava?”
“Não.” Sua mão continuava ali, sem tocar. “Sinto muito pelo seu rosto.”
“Eu não”, disse. “Impede as pessoas de olhar de perto demais.”
Ela ergueu os olhos então. De perto. A luz da vela se movia nos olhos castanhos, quentes e escuros como uma sela boa, e eu a vi enxergar através daquilo, como sempre enxergara através de toda maldita coisa que eu dizia para mantê-la longe.
“Estou olhando”, disse.
A vela estalou. Em algum lugar lá fora Domino relinchou no curral, e Hank, o heeler velho de Amos que me adotara desde o funeral e dormia na varanda, soltou um latido grave.
Daisy baixou a mão. “Saia”, repetiu, mas mais suave, e dessa vez saí.
Fechei a porta. Fiquei no corredor escuro de costas contra ela, mãos em punhos e jeans tão apertado que doía, e ouvi Daisy soltar uma respiração longa e trêmula do outro lado da madeira.
Então a água ligou de novo.
Saí para a varanda e sentei com Hank até parar de tremer, depois fui para a cama e não dormi.
À uma da manhã desisti e fui à cozinha buscar água. A luz estava acesa na sala de costura. Disse a mim mesmo que só ia apagar porque a conta chegava para mim, o que não era verdade, e atravessei a fita para fazer isso.
Ela dormia à mesa dobrável, bochecha no antebraço e óculos empurrados tortos para o cabelo. Trocara de roupa, calça de pijama de flanela e um moletom velho da Corley High que eu tinha quase certeza de que fora meu. O tablet apagara. Havia papéis espalhados em volta, esboços a lápis, e fiquei com a mão no interruptor olhando.
Eram lingeries.
Eu sabia. Peggy já contara a metade do condado: a neta de Amos Harlan faz roupa íntima chique em Nova York. Eu vira o site uma vez, tarde, num motel em Salinas, e fechara depressa como se me pegassem fazendo algo. Mas saber e ver eram coisas diferentes. Não eram as fotos do site. Eram rascunhos rápidos, cheios de linhas apagadas, setas e anotações na letra pequena e preta dela, e eram as coisas mais lindas que eu já vira uma pessoa desenhar.
Um espartilho com barbatanas costuradas como os desenhos trabalhados de uma sela. Um conjunto de tiras pelas costas de uma mulher que se cruzavam e afivelavam como uma cabeçada. Uma camisola longa e solta, cortada de algo que ela identificara como charmeuse cinza-pomba, com a barra descendo atrás como a linha da espinha de um cavalo. Escrevera conchos? ao lado de uma cinta-liga e circulara duas vezes. Desenhara uma calcinha com uma fivelinha de prata em cada quadril e escrevera ao lado, em letras minúsculas, para W, depois riscara tão forte que o lápis rasgara o papel.
No alto da página, em letras de forma maiúsculas, escrevera o nome da coleção.
LARK.
Fiquei muito tempo com a mão no interruptor.
Ela dera o nome por causa daquele lugar. A tudo. O negócio inteiro, o site que eu fechara em Salinas, o pedido de quarenta lojas, aquilo por que abrira mão do rapaz, do rancho e dos últimos dez anos do avô. Fora para Nova York e construíra uma vida de cetim, arame e teimosia, e dera a cada pedaço dela o nome da terra que estava prestes a vender a um homem que a cortaria em pedaços de quarenta acres e poria luzes solares nas entradas.
Apaguei a luz e a deixei dormindo no escuro.
Então voltei pelo corredor, passei sobre a fita e fiquei acordado até as quatro e meia, quando meu corpo começou com as opiniões; pela primeira vez não fiz lista.
Só continuava vendo duas letras riscadas numa página. Para W.
Tempestade
Daisy
No meu nono dia em casa, fui de carro a Corley comprar linha e descobri que meu avô não morrera sozinho.
O Mercantile ainda tinha o mesmo sino sobre a porta e o mesmo cheiro de cera de chão e pacotinhos de sementes. Ainda vendia de tudo, óleo de motor, fórmula infantil, iscas de pesca e, em dois corredores empoeirados ao fundo, tecidos e aviamentos, porque o grupo de patchwork de Corley se reunia às terças desde Eisenhower e incendiaria o lugar se parasse. Eu estava agachada diante das linhas, procurando uma marfim grossa o bastante para pesponto, quando um par de tênis ortopédicos cor-de-rosa parou ao lado.
“Daisy Jean Harlan”, disse Lorraine Pruitt. “Levante e deixe eu olhar.”
Levantei. Ela olhou. Tinha no mínimo setenta anos, um metro e cinquenta, o cabelo uma nuvem branca, e testemunhara o arrendamento que arruinava minha vida. Segurou meu rosto com as duas mãos como um melão que pensava em comprar.
“Magra demais”, disse. “Nova York não dá comida a você.”
“Nova York me alimenta bem, senhora Pruitt.”
“Lorraine. Você é adulta. Mulheres adultas me chamam de Lorraine e trazem torta.” Soltou meu rosto, pegou o carretel marfim que eu segurava e apertou os olhos para olhar. “Isto é para estofado.”
“Eu sei. Vou usar em couro.”
“Em roupa íntima?”
O Mercantile inteiro, as quatro pessoas lá dentro, ficou quieto para ouvir.
“Num espartilho”, expliquei. “Com acabamento de couro. Como costura de sela.”
Lorraine ponderou. Então assentiu, como se eu passasse num teste. “Sua avó gostaria. Dizia que quem costura uma manta de sela costura qualquer coisa.” Devolveu o carretel. “Você está ficando lá na propriedade.”
“Por enquanto.”
“Com Wade.”
“Na mesma casa. Não com ele.”
“Sei.” Os olhos de Lorraine eram muito azuis e muito perspicazes. “Ele foi bom para Amos, sabe. No fim.”
Eu não sabia. Não queria saber. Disse: “Imagino.”
“Não, não imagina. Acha que convenceu um velho doente a dar um arrendamento para ter onde estacionar os cavalos.” Pegou um pacote de agulhas no expositor e o virou nas mãos. “Levou Amos a Riverton para cada tratamento. Duas vezes por semana, de janeiro a março. Sentava com ele naquela sala horrível de cadeiras de vinil e lia as cotações do gado, o ranking do rodeio e aquele Louis L’Amour com as páginas caindo. Quando trouxeram Amos para os cuidados paliativos em casa, Wade dormia no chão ao lado da cama para ouvir se Amos precisasse virar de lado.” Devolveu as agulhas. “Segurava a mão dele quando se foi. Alguém devia contar a você, já que ninguém contou.”
A luz fluorescente zumbia. Fiquei no corredor de aviamentos com uma linha de estofado na mão e algo subindo à garganta tão depressa que não conseguia engolir.
Eu não estivera lá. Estivera num provador de Manhattan, engolindo um alfinete.
“Por que”, perguntei, e precisei parar. “Por que ninguém me ligou?”
“Wade ligou, querida.” A voz de Lorraine suavizou. “Amos mandou não ligar. Disse que você estava ocupada construindo seu futuro e não queria ser o motivo para parar.” Deu uns tapinhas no meu braço. “Aquele homem teve orgulho de você todos os dias da vida. Tinha seu site salvo no computador que a biblioteca deu a ele. Mostrou para o grupo. Metade de nós não sabia para onde olhar.”
Paguei pela linha. Saí para o carro. Fiquei no estacionamento do Mercantile com os vidros abertos e o vento quente atravessando, chorando tanto que não enxergava o painel, por Amos, pelas cadeiras de vinil e pelo homem que eu passara onze anos odiando e que dormira no chão ao lado de uma cama hospitalar para ouvir quando meu avô precisasse dele.
Então o telefone tocou, era Priya, e limpei o rosto com o dorso do pulso e atendi, porque é o que se faz.
“A Halvorsen’s quer as amostras até o dia primeiro”, disse sem alô. Priya não dava alô. Fora minha primeira estagiária e agora, de algum modo, era minha sócia, o que significava principalmente que estávamos falidas juntas. “Fotos finais de prova, os oito looks. E a fábrica no Queens precisa do sinal da produção até primeiro de outubro ou passa nossa vaga para uma marca esportiva.”
“Quanto mesmo?” Eu sabia. Queria ouvir numa voz que não fosse a minha.
“Trezentos e oitenta mil, mais tecido.” Priya fez uma pausa. “Daisy, sem sinal não tem pedido. Sem pedido não tem Lark. E sem Lark volto a trabalhar para aquele homem que nos fazia chamá-lo de Diretor Criativo na assinatura do e-mail.”
“Eu sei.”
“A corretora conseguiu comprador?”
Olhei pelo para-brisa. A cordilheira Wind River estava no horizonte como sempre, roxa e de pontas brancas, indiferente a tudo. Em algum lugar ali havia um homem de Jackson com um talão de cheques e um plano de lotes de quarenta acres.
“Talvez”, disse. “Tem um incorporador.”
“Então pegue o dinheiro do incorporador e volte para casa.”
Casa. Como se a palavra significasse uma coisa só.
“As fotos de prova estão resolvidas?”, perguntou Priya. “Porque Jasmine está ocupada até setembro.”
“Faço eu mesma. Visto o tamanho da peça-piloto. Monto um espelho e um tripé.” Esfreguei os olhos. “O único problema é o espartilho. Não consigo amarrar sozinha nas costas.”
“Então peça para alguém amarrar.”
“Estou num rancho no Wyoming, Priya. Para quem eu…”
Parei.
“Daisy?”
“Esqueça”, disse. “Dou um jeito.”
A tempestade chegou às quatro.
Aqui dá para ver o mau tempo chegando com uma hora de antecedência. Primeiro se empilha sobre as montanhas, uma torre branca num dia azul, depois fica cor de hematoma e atravessa o vale arrastando embaixo uma cortina cinzenta de chuva como uma barra de vestido. Quando voltei da cidade, os choupos mostravam o avesso pálido das folhas e o ar cheirava a moedas molhadas.
A caminhonete de Wade estava lá, mas ele não. Hank choramingava na varanda. Domino e os dois cavalos de treino corriam ao longo da cerca no curral grande, cabeças erguidas e caudas levantadas, e a porta do celeiro abria e fechava no vento como alguém saindo de uma briga às batidas.
Não pensei. Eu crescera ali. Põe os cavalos para dentro antes dos raios.
Corri pelo pátio, larguei a bolsa na varanda e puxei a porteira do curral. A chuva me atingiu no caminho, não gotas, mas lençóis, fria o bastante para roubar meu ar. Minha camisa branca ficou transparente em uns quatro segundos. Não me importei. Segurei o cabresto do primeiro cavalo de treino, uma égua alazã chamada Sugar que cheirava meus bolsos atrás de maçãs a semana inteira, e a conduzi com a voz pela porteira até o celeiro; o segundo seguiu porque cavalos costumam fazer isso. Sobrou Domino, parado no meio do curral com chuva escorrendo pelo lombo e o branco dos olhos à mostra, olhando para mim como se eu fosse a tempestade.
“Tudo bem”, disse, limpando a água do rosto. “Tudo bem, eu sei. Sei que você não gosta.”
“Daisy.”
Wade surgiu do aguaceiro correndo da direção do riacho, molhado até os ossos, um alicate de cerca numa mão. Estivera conferindo o arame. O cabelo colava na testa. A camisa grudava tanto que eu via cada linha dura do peito e da barriga, cada músculo se movendo quando andava.
“Entre no celeiro”, disse.
“Estou com ele.”
“Vai arrebentar sua cabeça a coices.”
“Não vai.” Estendi a mão espalmada e baixa. Domino olhou. Um raio abriu o céu sobre as montanhas, ele se encolheu, e eu disse “Aí está ele, é só o que eu quero, foi tão ruim assim?” na mesma voz baixa que ouvira Wade usar na primeira noite em casa, e o castanho baixou a cabeça, veio pela lama até mim e deixou que eu segurasse o cabresto.
Wade ficou na chuva me encarando.
Levei Domino para o celeiro passando por ele sem uma palavra.
O celeiro estava escuro e barulhento de chuva no telhado de zinco, um rugido como estar dentro de um tambor. Cheirava como sempre, feno, couro, cavalo e poeira virando lama. Pus Domino na baia e fechei a tranca. Minhas mãos tremiam. Frio, disse a mim mesma. Os dentes batiam, a camisa era uma segunda pele molhada, e senti Wade entrar atrás e puxar a porta grande contra o vento; então ficou mais escuro e mais íntimo, só a luz cinzenta das janelas altas e os cavalos se mexendo nas baias.
“Onde aprendeu?”, perguntou rouco.
“Com você.” Virei. “Primeira noite. Eu estava olhando.”
“Estava olhando para mim.”
“Você montava um cavalo no meu quintal. Era difícil não ver.”
Ele se apoiava na porta, água escorrendo do corpo, o alicate ainda na mão. Pousou-o com muito cuidado num fardo de feno, como quem larga uma coisa por medo do que as mãos farão vazias.
“Sua camisa”, disse.
Olhei para baixo. Era pior do que imaginava. O algodão branco ficara claro como janela, a renda do sutiã aparecendo, cada festão, e o frio fizera o que faz. Cruzei os braços. Então, cansada de cruzar os braços perto daquele homem, descruzei.
“Vi Lorraine Pruitt hoje”, disse.
Algo ficou imóvel no rosto dele.
“Contou de Riverton. Das cadeiras de vinil. Do Louis L’Amour.” Minha voz se partiu, e não impedi. “Disse que dormia no chão.”
“Lorraine fala demais.”
“Disse que ligou. Que ele mandou não ligar.” Dei um passo na direção dele. “Por que não ligou mesmo assim? Nunca fez o que mandavam.”
“Fiz uma vez”, disse.
A chuva rugiu. Uma rajada atingiu o celeiro, e o prédio inteiro gemeu ao nosso redor.
“O que significa?”
“Nada.” Desencostou da porta. “Vá para casa, Daisy. Vá se secar.”
“Não.”
“Não vou fazer isso com você num celeiro.”
“Fazer o quê?” Eu estava perto agora, perto o bastante para ver a água nos cílios, sentir a chuva na pele dele e o suor por baixo. “Conversar? Explicar? Porque espero há onze anos que explique, Wade, e começo a achar que nunca vai. Disse que era uma coisa de verão. Só ganhei isso. Uma coisa de verão.” Empurrei seu peito com as duas mãos. Não se moveu. Era como empurrar o celeiro. “Você não dorme no chão pelo avô de uma coisa de verão.”
“Quer saber por quê?” Sua mão subiu e segurou meu pulso, sem força, só mantendo contra a camisa molhada, sobre o coração que eu sentia martelar. “Porque era a única pessoa neste maldito condado inteiro que me tratou como se eu valesse alguma coisa. Porque, quando meu pai estava bêbado e batendo, Amos me deixava dormir neste celeiro sem perguntar por quê. Porque eu devia a ele.”
“E a mim?”
Os olhos desceram à minha boca.
“O que devia a mim?”, sussurrei.
Ele me beijou.
Ou eu o beijei. Já repassei cem vezes desde então e ainda não sei dizer quem se moveu primeiro. Só sei que num segundo tremia de frio e fúria e no outro sua boca estava na minha e eu não tinha frio nenhum.
Beijava como montava. Como se fosse a última coisa que faria e pretendesse aproveitar cada segundo. Soltou meu pulso, deslizou a mão pelo cabelo molhado e a fechou ali, inclinando minha cabeça para trás; o outro braço passou pela cintura e me puxou com tanta força que os pés quase saíram do chão. Tinha gosto de chuva e café. A barba por fazer arranhou meu queixo. Abri a boca sob a dele, e ele fez um som baixo no peito, áspero e indefeso, um som que eu ouvia dormindo havia onze anos sem saber.
Agarrei sua camisa. Fiz com que recuasse, ou ele me fez recuar, e meus ombros atingiram a porta do quarto de arreios com uma pancada que sacudiu os freios pendurados dentro. Prendeu-me ali com o corpo inteiro, um antebraço na porta ao lado da minha cabeça, e beijou mais fundo, mais lento, mais sujo, a língua deslizando na minha até meus joelhos pararem de funcionar e eu me segurar em punhados de camisa molhada para ficar em pé.
“Daisy.” Disse contra minha boca, meu maxilar, a lateral da garganta, onde seus lábios acharam o ponto sob a orelha que eu esquecera que alguém conhecia. “Mande eu parar.”
“Não.”
“Estou falando sério.”
“Eu também.” Meus dedos encontraram a cicatriz nas costelas sob o algodão molhado. Percorri a linha comprida inteira e o senti estremecer. “Você não pode parar. Desta vez não. Você mesmo disse.”
Ele fez aquele som de novo. Sua mão desceu pelas costas, pela curva do quadril, e me puxou contra ele, e não dava para confundir o efeito daquilo. Estava duro e pesado contra minha barriga através de duas camadas de jeans molhado, e me pressionei de volta sem pensar, girei os quadris contra os dele; ele praguejou no meu pescoço, uma palavra curta e obscena que desceu direto pela coluna e se acumulou embaixo, quente.
Um raio atingiu algo perto.
O clarão deixou o celeiro inteiro branco. O trovão veio em cima, não um ronco, mas um estalo, como o céu se partindo ao meio, tão alto que senti nos dentes. Lá fora uma árvore gemeu e tombou num estrondo longo de rasgo. Na baia, Domino gritou e chutou as tábuas uma, duas vezes, um som de tiro.
Nós nos separamos.
Wade recuou com o peito arfando, cabelo desgrenhado e boca molhada da minha. Olhou como se acabasse de descer de um cavalo em que não lembrava de montar.
“Aquilo”, disse, “foi um erro.”
A palavra entrou em mim como água fria. Ergui o queixo. “Seu ou meu?”
Ele não respondeu. Virou, foi à baia de Domino, pôs as mãos no cavalo e falou baixo, calma, calma, eu sei, eu sei, sem olhar para mim; depois de um minuto abri a porta do celeiro e voltei para casa pela chuva.
Eu não ia chorar por Wade McCallister duas vezes no mesmo dia.
Tomei banho, os oito minutos inteiros. Vesti o robe rosa-concha. Entrei na sala de costura, acendi todos os abajures e montei o tripé diante do espelho comprido que ficara atrás da porta da vovó por cinquenta anos. Estendi o espartilho na mesa dobrável.
Era a melhor coisa que eu já fizera. Cetim duchese marfim sobre coutil, barbatanas de aço, acabamento estreito de couro de luva caramelo em cada borda, costurado à mão como uma sela com aquela linha de estofado marfim do Mercantile. Doze pares de ilhoses nas costas. Tiras de liga com fivelinhas de latão, do tipo encontrado num freio. Fizera para a coleção. Fizera para a Halvorsen’s. Fizera no meu tamanho porque não podia pagar uma modelo de prova, e todos aqueles motivos eram verdade, e nenhum era a verdade inteira.
Vesti por cima do conjunto: um sutiã meia-taça marfim fino, quase inexistente, e calcinha do mesmo cetim com uma fivela em cada quadril. Prendi as ligas a um par de meias transparentes com costura atrás. Fechei os colchetes do busk na frente, um, dois, três, quatro, cinco, então alcancei atrás de mim os cordões e não consegui pegá-los.
Tentei por dez minutos. Tentei me torcer. Tentei o espelho. Tentei puxar os cordões por cima do ombro como alça de mochila. O espartilho cedia na cintura, ficava aberto nas costas e parecia exatamente o que era: uma coisa bonita que não funcionava sem ajuda de alguém.
Fiquei diante do espelho na sala de costura da minha avó, de cetim marfim, couro e meias de seda, robe jogado nos ombros e rosto ainda manchado de chorar, e pensei: Aquilo foi um erro.
Seu ou meu.
Amarrei o robe. Saí da sala, desci pelo corredor e atravessei a fita azul. Pareceu saltar da beirada do palheiro.
Bati na porta dele.
Abriu com uma toalha no pescoço e o cabelo ainda molhado do banho depois do meu. Camiseta cinza. Jeans. Pés descalços. Seus olhos foram ao robe, às meias aparecendo sob a barra, e pararam. Engoliu em seco. Vi acontecer.
“Preciso de mãos”, disse.
“Daisy…”
“As fotos de prova têm que chegar ao comprador em doze dias. O espartilho amarra nas costas. Não alcanço.” Meu coração batia tão rápido que eu sentia nas pontas dos dedos. “Disse que foi erro. Tudo bem. Não estou pedindo beijo. Estou pedindo que amarre um espartilho, sente numa cadeira, me veja trabalhar e mantenha as mãos longe, a menos que eu diga o contrário.” Ergui o queixo. “A menos que não consiga.”
Ele me encarou. A luz do corredor pegou a cicatriz na sobrancelha e a tornou prateada.
“Está me desafiando”, disse devagar.
“Desafio você a ficar numa sala comigo vestindo meu próprio trabalho sem desviar.” Sustentei seus olhos. “Nunca conseguiu, Wade. Quando importava, não. Prove que estou errada.”
Por um longo momento não se moveu. Lá fora, o fim da tempestade resmungava na direção de Montana. Água pingava dos beirais.
Então tirou a toalha do pescoço, largou no chão e saiu para o corredor, para o meu lado da fita.
“Mostre”, disse.
Levei-o para a sala de costura. Abajures por toda parte, ouro nas rosas do papel de parede antigo. O manequim sem cabeça no canto. O espelho, o tripé, o olhinho vermelho da câmera. Puxei a cadeira de encosto de travessas da vovó para o meio do chão, de frente para o espelho, apontei e ele sentou. Como sentara na cozinha na primeira noite, pernas abertas, antebraços nos joelhos, só que agora não havia nada relaxado nele. Parecia um homem prestes a sair do brete.
A porta continuava aberta atrás. O corredor escuro. A fita.
“Feche”, disse.
Ele levantou e fechou.
“Tranque.”
A fechadura antiga de latão estava dura. Girou com um clique que atravessou a sala inteira, o assoalho, as solas dos meus pés descalços.
Ele se virou, apoiou-se na porta e olhou para mim; quando veio, a voz era baixa, áspera, destruída.
“Sua vez, Daisy.”
Desamarrei o robe.

















































