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O Ar Entre Nossos Nomes — Free sci fi romanceGrátis · Exclusiva

Free sci fi romance

O Ar Entre Nossos Nomes

O ar está falhando. A piloto que ela nunca deixou de desejar tem um único beliche estreito — e um recibo de carga que precisa explicar.

Romance F/F adulto de sobrevivência no espaço, com desejo mútuo não declarado e uma primeira relação escolhida, não um reencontro de ex-amantes.

Beijos, proximidade em uma única cama e intimidade F/F adulta de porta fechada, sem sexo gráfico. Falha no suporte de vida, confinamento, pressão no trabalho, ferimentos e perigo de desastre.

  • Anseio mútuo
  • Proximidade Forçada
  • Uma Cama Só
  • Heroínas competentes
  • Tripulação que vira família
  • Segunda chance no amor

🌶️ Cerca de 90 min de leitura · 20.806 palavras

Liora Chen sabe contar cada conexão de um sistema de suporte de vida. Nunca encontrou um jeito seguro de dizer a Mara Vale que a quer. Quando a nave de manutenção das duas perde o depurador nas rotas de Saturno, oito vidas dependem de um refúgio provisório, de suprimentos danificados e de uma piloto cujas escolhas cuidadosas escondem um erro caro. Sobreviver à noite vai exigir mais que competência. Continuar juntas depois vai exigir palavras.

Livros de Alisson Bento

Every Breath We Steal

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Gosto de Cobre

Liora

O primeiro sinal de que o nosso ar estava falhando foi o gosto de uma colher limpa.

Eu comia pêssegos em cima da bancada de amostragem, tentando não pingar calda num sensor que valia mais que o meu beliche. A colher tocou a minha língua. Cobre. Pousei-a e passei a língua pela parte de dentro do lábio inferior. O gosto continuou.

Do outro lado do compartimento, Mara Vale esperava com um recibo de carga na mão.

Fazia um ano que eu queria beijá-la. Isso já era inconveniente o bastante sem que eu ainda tivesse de decidir se a sala estava nos envenenando.

“Não assine isso ainda”, falei.

Ela olhou para o recibo. “Eu esperava que você lesse primeiro.”

“Quero dizer: não toque em nada. Me dê um instante.”

Mara ficou imóvel. Era boa nisso. Pilotos que sobreviviam o bastante para reclamar dos joelhos sabiam quando uma instrução pedia uma pergunta e quando pedia um corpo que não se mexesse.

Afastei os pêssegos da entrada de ar, limpei os dedos e colhi uma segunda amostra. O analisador portátil precisava de tempo para se estabilizar. As pessoas tendiam a olhar para o primeiro número dele e entrar em pânico ou comemorar, conforme o temperamento. Eu observei a linha abaixo do número, a que mostrava a rapidez com que as condições mudavam.

Ela ia na direção errada.

Nossa nave de manutenção, a Bluefin, estava na metade de um turno perfeitamente comum, num trecho perfeitamente comum das rotas de Saturno. Tínhamos suprimentos, uma vaga de serviço reservada e três cartuchos reserva do depurador na gaiola de popa. Não estávamos perto do limite de exclusão do portal. Nada de exótico deveria acontecer ali. Numa nave, isso deixava muitas maneiras corriqueiras de morrer.

“Mara. A cabine de comando está com cheiro diferente?”

“Como se Oren tivesse requentado as botas para o jantar.” Ela parou quando não sorri. “Quente. Mais forte do que deveria. Achei que a cozinha tinha queimado alguma coisa.”

“Dor de cabeça?”

“Não até ver a sua cara.”

Olhei para ela com atenção. Macacão de voo cinza, mangas fechadas nos pulsos, um lenço escuro enfiado na gola. O cabelo castanho e curto estava achatado de um lado, onde ela dormira encostada num apoio de cabeça. Uma luzinha âmbar no aparelho auditivo do lado esquerdo piscou quando ela ajustou a configuração. Estava cansada. Todos nós estávamos. A fadiga era um ótimo esconderijo para sintomas.

“Vou verificar o depurador”, falei. “Chame Oren. Peça as leituras ambientais ao vivo, não o resumo.”

Ela já estava diante do painel de parede.

Abri a tampa de inspeção debaixo da minha bancada. A condensação se acumulara ao longo de um cano, cada gota inchada e trêmula com a vibração da nave. O ar de retorno deveria estar quente o suficiente para manter aquela superfície seca. Toquei o alojamento com as costas da luva. Calor de um lado. Frio do outro.

Um técnico podia construir uma carreira inteira descobrindo que uma máquina fazia duas coisas contraditórias ao mesmo tempo. Isso não tornava a descoberta agradável.

A voz de Oren veio pelo alto-falante. “O resumo ambiental está verde.”

“Os números reais”, disse Mara. “Liora tem uma amostra ruim.”

“Não é uma amostra ruim. É um resultado ruim.”

Ela se corrigiu na hora. “Resultado ruim. Mande o feed.”

Valorizei aquilo mais do que queria. Um pouco de precisão, devolvida sem encenação. Ela já fizera o mesmo no nosso último contrato: pegou-se chamando um alarme de incômodo e trocou a palavra antes que eu objetasse. Eu guardara aquilo por meses. Pelo visto, eu tinha uma fraqueza romântica por gente capaz de sobreviver a uma correção.

O feed apareceu no meu tablet. Oxigênio dentro da faixa de operação. Dióxido de carbono subindo, ainda sem chegar ao nível que dispararia o antigo alarme geral. Consumo dos ventiladores elevado. Temperatura do aquecedor oscilando bruscamente em vez de se manter estável.

O bastante para investigar de imediato. Não o bastante para dizer a oito pessoas que a última hora delas tinha chegado. Eu não pretendia inventar essa hora.

“Pare a recirculação do laboratório de popa”, disse a Oren. “Mantenha o suprimento de proa funcionando. Avise Tavi e acorde todo mundo que estiver dormindo. Quero as pessoas examinadas, não assustadas a ponto de sair correndo.”

“Você tem autoridade para isolar o laboratório?”

“Pelo procedimento de falha ambiental, tenho. Registre o meu nome.”

Ele respirou fundo uma vez. “Registrando.”

Mara estava logo fora da minha luz, o recibo ainda dobrado entre dois dedos. Ela deslocara uma lâmpada de trabalho para que o feixe não se refletisse mais nos meus óculos de segurança dourados. Eu não pedira. Nem percebera que estava apertando os olhos até o brilho sumir.

“Onde precisa de mim?”, perguntou ela.

A primeira resposta que me subiu era grande demais para a pergunta. Eu a queria no café da manhã. Numa sala em que nenhuma de nós estivesse prestes a partir. Do outro lado de uma mesa que eu não precisasse recolher depois da refeição.

“Gaiola de suprimentos. Não abra os cartuchos. Traga a caixa para cá.”

“Isso eu faço.”

Ela guardou o recibo no bolso do macacão e foi.

Apertei a palma contra a bancada até a atração se assentar em algo com que eu conseguisse trabalhar. Havia momentos em que o corpo parecia mal projetado para a sobrevivência: sede na hora errada, dedos trêmulos, o calor relembrado de uma mulher cuja manga roçara a minha onze meses antes. Eu não precisava parar de sentir nada daquilo. Precisava impedir que decidisse em qual válvula eu tocava.

A unidade do depurador ficava atrás de uma tela de malha, dois compartimentos a ré. Peguei o analisador, o caderno e a máscara de respiração. A máscara era um dispositivo de emergência para travessias, com um pequeno suprimento independente. Daria um caminho por um corredor ruim, não uma atmosfera particular para um turno inteiro de reparo.

Tavi me encontrou na primeira escotilha, puxando o macacão por cima de uma camiseta térmica. Tinha um lápis atrás da orelha e a marca do travesseiro vincada na bochecha.

“Quão errado?”, perguntou.

“Dióxido de carbono subindo. Ciclo irregular do aquecedor. Não sei a causa.”

“Ótimo. Odeio quando você sabe antes de me acordar. Me faz sentir substituível.”

Tavi conferiu o indicador da própria máscara antes de conferir o da minha. Fazíamos nessa ordem toda vez, para que nenhuma das duas pessoas ficasse tentada a pular uma etapa enquanto olhava a outra. Acenei com a cabeça para o painel.

“Retorno do laboratório isolado?”

“Confirmado mecanicamente. Oren mandou o comando. Eu verifiquei o indicador no registro de ar.”

Eram duas formas de confirmação, não duas provas de que o resto funcionaria. Atravessamos a escotilha.

O ar tinha um gosto pior perto da unidade. O calor cozera a poeira até virar um cheiro de torrada velha. Uma fina crosta branca marcava a conexão de dreno. Fotografei antes de tocar em qualquer coisa, com o número da unidade visível no mesmo quadro. Tavi abriu a tampa de serviço e a segurou enquanto eu inspecionava os contatos do aquecedor.

Um estava descolorido. O isolamento ao lado endurecera e escurecera na borda.

“Não é reinício de software”, disse Tavi.

“Ainda não é reinício de nada.”

A tela da nave acendeu com uma chamada do entreposto. O gerente Rusk recebera a notificação da falha mais depressa do que eu esperava. O rosto dele surgiu sobre os diagramas de serviço, lavado de cor por qualquer que fosse a luz de teto sob a qual trabalhava. Estava num entreposto, respirando um ar que não era o nosso, olhando o mesmo resumo verde em que Oren confiara.

“Liora. Estou vendo o chamado.”

“Então está vendo o pedido de autorização de substituição.”

“Estou vendo uma leitura transitória. A remessa foi certificada. Reinicie a unidade e colha outra amostra.”

“Há dano físico por calor no contato.”

“Parou de funcionar?”

Tavi me olhou por cima do alojamento aberto. Quase ouvi a resposta que queria dar: tudo funciona até deixar de funcionar. Mantive a voz neutra.

“A saída não está se mantendo dentro da tendência. Estamos isolando os compartimentos afetados e testando o lote de reposição. Também precisamos que uma nave de apoio seja avisada.”

“Chamar apoio significa interrupção de rota.”

“Sim.”

A palavra pairou entre nós. Havia bons argumentos que eu poderia ter usado sobre custos e horas de reparo. Não os usei. Se o preço de admitir uma falha era o inconveniente, o inconveniente tinha de ter permissão para existir.

Rusk esfregou um olho. “Posso liberar o suporte técnico. Não precisa descrever como situação de emergência até ter uma falha confirmada.”

“Vou descrever o que os instrumentos e a inspeção mostram.”

“Não quero um alerta sem qualificação num canal aberto.”

“Eu também não.”

Tavi baixou a tampa até as travas. Observei as mãos de Tavi, não o rosto de Rusk. Uma pessoa podia falar sem parar sobre procedimento enquanto alguém ao lado fazia o trabalho que tornava o procedimento possível.

Quando a chamada terminou, mandei a Oren um aviso medido: falha ambiental, oito pessoas a bordo, isolamento temporário estabelecido, teste de reposição em andamento, assistência solicitada antes que as margens se estreitassem. Nenhuma afirmação de que já estivéssemos sem oxigênio. Nenhuma licença para que outro esperasse até estarmos.

Oren confirmou o recebimento da mensagem por escrito. Guardei a confirmação.

De volta à passagem de proa, Bex despejava água em copos. Era ela quem cuidava da nossa cozinha e sabia, melhor que qualquer instrução que eu pudesse dar, quantas pessoas cansadas se esqueciam de beber água quando algo as assustava. Senn estava sentado no chão, as costas contra um armário, cinzento em volta da boca.

“Ele diz que é só cansaço”, contou-me Bex.

“Eu só estou cansado”, disse Senn.

Agachei-me ao lado dele. “Então você pode ficar cansado no refúgio de proa. Como está a cabeça?”

“Meio burra.”

“Isso não é uma medida que eu possa pôr num formulário.”

“Dolorida.”

“Melhor.”

Ele tentou se levantar depressa demais. Pus a mão no ombro dele e pedi que esperasse enquanto Bex trazia um monitor portátil. Era um aprendiz adulto, velho o bastante para se ressentir de ser tratado como carga e jovem o bastante para esconder um sintoma por ter recebido um trabalho que valia a pena manter. Reconheci o instinto. Era uma das coisas de que eu menos gostava na nossa profissão.

“Vamos examinar todo mundo”, falei. “Relatar uma dor de cabeça não vai tirar você da tripulação.”

“Fazer drama talvez tire.”

“Não num relatório que eu escrever.”

Ele então me olhou, de verdade, e disse que os olhos também vinham doendo.

Anotei a hora, pedi a Bex que ficasse com ele e passei a atualização a Oren. Sintomas e leituras em alta, juntos, mudavam a urgência. O antigo alarme podia ficar com o limiar dele. Não precisávamos ficar com o julgamento dele.

Mara veio pela passagem carregando a caixa de suprimentos contra o quadril. Parou ao ver Senn.

“Ele está bem?”

“Está sendo examinado. Leve isso direto para a bancada. Depois preciso da atitude atual da cabine de comando e da próxima janela de aproximação do apoio.”

“Já solicitei.”

Ela não me disse para não me preocupar. Era um dos motivos por que eu a quisera muito antes de ter qualquer direito de precisar dela.

Na bancada, ela pousou a caixa com tanta delicadeza que os pés de metal quase não fizeram barulho. Dentro havia três cartuchos, cada um embrulhado e selado num tubo rígido. A etiqueta da remessa continuava sob a cobertura transparente, com os cantos intactos. A certificação oficial acompanhava o número do lote.

Passei o dedo pela cobertura e olhei para Mara.

“Você trouxe isto na sua última viagem de suprimentos.”

“Trouxe.”

“Alguma variação de temperatura? Vazamento no compartimento de carga? Qualquer coisa que parecesse pequena demais para entrar no repasse?”

Ela considerou as perguntas uma a uma. Eu a vi fazer isso, resistindo ao desejo feio de que respondesse com a rapidez da inocência. Uma memória cuidadosa demorava mais que uma defesa.

“Um engradado externo tinha um canto úmido. A caixa interna parecia seca. O entreposto disse que era condensação da transferência. Anotei o engradado e me deram uma capa de reposição.”

“Alguém abriu a caixa interna?”

“Não na minha frente.”

Anotei exatamente assim. A distinção importaria. Ela vira um engradado úmido. Não vira dano no conteúdo. Eram fatos diferentes, ainda que acabassem levando ao mesmo lugar.

A luz compartilhada da bancada deixou visível a velha queimadura no pulso direito dela, onde a manga havia subido. Eu perguntara sobre aquilo no nosso primeiro contrato. Ela dissera: uma chaleira, uma manhã ruim, nada de heroico. Eu gostara da recusa em melhorar a história. Agora precisava que ela continuasse recusando, mesmo que uma história melhorada tornasse mais fácil para mim olhar para ela.

“O seu recibo de repasse”, falei. “Posso ver inteiro?”

Ela o tirou do bolso e o alisou sobre a bancada.

Não só a assinatura dela. Hora de liberação do entreposto, nota de embalagem, destino e uma segunda página em que alguém registrara o teste final. Conferi a data e franzi a testa. Não era uma contradição que eu soubesse interpretar ainda. Marquei para depois, em vez de arrancar uma acusação de um carimbo de hora enquanto o ar continuava mudando.

Mara acompanhava o movimento do meu lápis.

“Me diga se eu deixei passar alguma coisa.”

“Digo. Primeiro precisamos saber o que temos.”

Dei nomes aos tubos de cartucho no caderno: A, B, C. O A ficava mais perto da dobradiça, o B no centro, o C junto ao trinco. Dali em diante, ninguém teria permissão para se referir a um deles como se fosse o outro reserva. Três era um inventário pequeno. Ainda assim podia virar uma confusão fatal se mexêssemos nas coisas sem manter os nomes delas.

Mara conferiu o analisador enquanto eu rompia o lacre externo do A. Nossos ombros estavam próximos. Eu poderia ter me inclinado uma fração e me apoiado nela, tirado um segundo de calor de uma pessoa viva em vez de mais uma leitura de uma caixa.

Não fiz isso. Não porque achasse errado querê-la. Porque nunca aprendera a pedir algo antes de poder oferecer uma garantia em troca.

O lacre se partiu com um estalo seco e pequeno. Levantei a tampa.

A embalagem sob ela deveria ter farfalhado. Em vez disso, grudou.

Inclinei o tubo na direção da luz. Uma gota transparente se juntou na borda interna e rolou para a minha luva. Não era suor, nem umidade da sala: o interior do cartucho selado retivera água o bastante para encharcar o envoltório de papel.

Mara aproximou a luz.

Nenhuma de nós falou enquanto eu conferia o número do lote com o da caixa.

O reserva que eu tinha nas mãos estava molhado.

O Reserva que Não Servia

Liora

Pus o cartucho A numa bandeja limpa antes de me permitir ter uma opinião.

A bandeja tinha compartimentos separados. Fixei a etiqueta do A no da esquerda antes de transferir qualquer material solto, depois pedi a Mara que fotografasse o arranjo por cima. Uma tira solta de embalagem poderia acabar ao lado da amostra errada quando abríssemos o B. Ela incluiu na imagem o meu identificador manuscrito e conferiu se estava legível. Não estávamos preservando uma prova de tribunal com perfeição. Estávamos impedindo que o manuseio comum destruísse informação de que talvez precisássemos para entender a falha. Anotei a hora da coleta ao lado do número da imagem.

Mara recuou para eu poder trabalhar. Não inventara desculpas para o engradado úmido. Tentei não contar isso como generosidade. Era o mínimo de que eu precisava numa colega, mesmo numa colega cujo polegar eu sentia na memória sem nunca ter segurado a mão dela.

“Tavi. Preciso de você na proa”, falei no painel de parede. “Traga o bloco de teste e uma segunda testemunha.”

“Que tipo de testemunha?”

“Alguém que consiga dizer se uma capa está molhada sem ter de manter a remessa no cronograma.”

“Levo Bex. Ela não tem respeito nenhum por cronogramas.”

Mara olhou para a bandeja. “A umidade estraga o cartucho automaticamente?”

“Não. Muda o que eu preciso verificar.”

Era a resposta honesta. O material sorvente tolerava certas condições dentro de limites definidos. Água dentro de uma peça de reposição selada, somada a um lote que viajara dentro de um engradado suspeito, deixava-o fora das premissas impressas na etiqueta. Eu não podia dar à etiqueta autoridade sobre o que havia debaixo dela.

Pesei uma amostra, anotei o valor e comparei os grânulos com o material de referência. Mara lia a balança em voz alta enquanto eu escrevia. Trocamos de tarefa na segunda medição. Se as minhas mãos tivessem começado a tremer, eu queria outro par de olhos observando os números, em vez de ignorá-las com educação.

Tavi chegou com Bex e o equipamento de teste. A cozinheira vestia o avental térmico da cozinha por cima de um suéter, como se pudesse transformar qualquer sala numa cozinha só por chegar vestida adequadamente.

“Por favor, diga que não vamos comer isso”, disse ela.

“Só se todo o resto der muito errado.”

“Ótimo. Pra mim, giz já é demais.”

Ela assinou a linha de observação no meu caderno e ficou para ver o segundo cartucho ser aberto.

O B parecia seco até eu o inclinar sobre a peneira de amostragem. Os grânulos externos se desfizeram em pó. Uma nuvem pálida subiu e fechei a tampa na hora, desviando o rosto. Tavi ligou a extração local. Esperamos que se dissipasse antes que eu voltasse a me mexer.

Mara estendeu a mão para o meu ombro e parou antes de tocar.

“Você está respirando bem?”

“Estou. Fique longe até o filtro terminar.”

Verificamos a exposição e as superfícies antes de testar qualquer outra coisa. Não haveria satisfação alguma em identificar um cartucho ruim engolindo-o.

A segunda amostra teve desempenho pior que a do A. Talvez tivesse secado depois de danificado, ou fosse feito de um material cuja história ainda desconhecíamos. Anotei o comportamento, não a teoria. A, molhado. B, esfarelando. Dois tubos distintos, amostras retidas separadas. As etiquetas eram idênticas, e por isso mesmo continuariam com o conteúdo de cada um.

O C abriu sem umidade nem desintegração visível. Mesmo assim não o declarei seguro. Testamos a saída real sob fluxo controlado e observamos a resposta de temperatura. Tavi verificou se havia vazamentos no equipamento enquanto Bex lia o identificador da unidade para o registro.

Só depois que o desempenho se estabilizou soltei o fôlego que vinha prendendo.

“Um reserva utilizável”, falei.

Mara apoiou as duas mãos no lado oposto da bancada. Pela primeira vez desde que sentira o gosto da colher, parecia abertamente assustada.

“Trouxemos três.”

“Trouxemos três recipientes. Podemos usar um.”

Bex dobrou a ponta do avental entre dois dedos e depois a alisou. “Um só consegue nos manter vivos?”

“Não, se continuarmos tratando a nave inteira.”

Era a resposta que eu vinha construindo desde a primeira linha de tendência. Ouvi-la em voz alta fez a sala parecer maior, um volume extravagante de ar que teríamos de parar de usar. O laboratório de popa, vazio, não ligava se continuaria respirável. A oficina não precisava de oxigênio fresco para conservar uma prateleira de suportes sobressalentes. As pessoas precisavam.

Podíamos lacrar as seções sem uso, estabelecer um refúgio menor e operar um depurador temporário com o C. Isso exigia energia, fluxo de ar controlado e gente disposta a ficar onde pudéssemos medi-la. Ganharíamos tempo para reparar ou transferir, mas isso não apagaria a necessidade de ajuda.

Antes que alguém se mexesse, dei a cada pessoa a sua próxima tarefa e pedi que a repetisse. Mara cuidaria da aproximação, Bex das pessoas e dos suprimentos, Tavi da montagem portátil. O plano soava menos assustador quando as ações pertenciam a mãos específicas.

Bex perguntou sobre o aquecedor da cozinha.

“Desligado até sabermos a carga”, falei.

“O principal, sim. Eu tenho uma chapa aquecedora pequena e independente. Outro circuito.”

“Traga para a proa desligada da tomada. Podemos precisar das peças dela.”

“A gente come primeiro?”

“Comida fria. Sinto muito.”

Ela me examinou. “Você não fabricou o cartucho. Pare de pedir desculpas pela temperatura de uma bolacha.”

Depois foi embalar comida para oito pessoas.

Rusk ligou enquanto instalávamos o C na unidade portátil. Tavi estava apertando uma conexão e não podia soltar uma mão para o painel, então Mara atendeu. O gerente perguntou por mim como se ela fosse uma recepcionista inadequada, e não a pessoa que havia pilotado os suprimentos dele pelas rotas.

“Liora está cuidando da reposição”, disse ela. “Pode falar. Estamos gravando a chamada.”

A boca dele se apertou. “A certificação do lote está em dia.”

“O material falhou nos testes”, falei, sem erguer os olhos do lacre. “Vou mandar os resultados e as fotografias. Dois cartuchos não são utilizáveis.”

“O seu equipamento local não é o do entreposto.”

“Não. Por isso retive amostras. Você pode compará-las depois.”

Tavi ergueu uma verificação de pressão. Assenti, esperei que se estabilizasse e dei permissão para continuar. Rusk teve de esperar o mesmo silêncio que todo mundo.

“Você está restringindo o volume habitável com base num teste improvisado?”

“Com base numa tendência ambiental em alta, dano físico na unidade principal, dois reservas reprovados e sintomas em um tripulante. Quer isso em linhas separadas?”

Mara baixou os olhos tão depressa que suspeitei de um sorriso. Não me virei para confirmar. Eu tinha um lacre para inspecionar e nenhuma atenção de sobra para me sentir satisfeita comigo mesma.

Rusk disse que enviaria um cronograma operacional revisado. Pedi que mandasse os registros originais dos testes. Ele prometeu os dois, o que não era o mesmo que fornecer qualquer um.

Depois da chamada, Mara enviou de novo o pedido de aproximação, dessa vez também pelo canal de serviço local, além do sistema do entreposto. Descreveu nossa posição com precisão e afirmou que a nave continuava manobrável com energia limitada. Uma nave cujo ar falhava ainda podia acionar os motores. Isso não significava que pudesse gastar a bateria sem considerar o aquecedor que mantinha o sorvente ativo.

A unidade portátil começou o seu consumo baixo e constante. Verifiquei o escape, depois a entrada, depois as leituras do compartimento, que mudavam. Não estávamos consertados. A direção tinha melhorado.

Tavi encostou o lápis no meu caderno.

“Diga”, pediu.

“Controle temporário estabelecido.”

“Ótimo. Eu temia que você tentasse dizer parabéns.”

Quase ri. O ar não machucava mais a minha boca, mas eu não estava pronta para confiar na ausência de gosto. Sintomas eram mensageiros, não instrumentos. Podiam ir embora antes de a sala ficar segura.

Oren anunciou que Jules e Adra tinham lacrado o laboratório de popa. Bex estava levando a comida. Senn, depois de descansar e ser examinado, poderia ajudar a carregar suprimentos leves, mas ficaria longe da passagem de retorno ruim. Tavi levaria a unidade portátil para a proa no carrinho. Mara e eu faríamos uma varredura na oficina e verificaríamos os fechamentos finais.

Pedi a cada pessoa que repetisse sua posição e sua tarefa. Oren suspirou com a repetição até eu mandar que contasse as vozes. Oito. Ele parou de suspirar.

A caminho da popa, Mara me entregou uma máscara de emergência.

“Eu já tenho uma.”

“É a reserva de Senn. Preciso que você confira o indicador. O meu parece estranho ao lado dele.”

Não era desculpa. O medidor dela estava um pouco fora da marca de referência. Comparamos os dois sob a mesma luz e rejeitamos o cilindro dela para uso imediato até Tavi poder inspecionar a válvula. Mara o trocou por uma unidade conferida do armário.

Se ela quisera que eu a achasse invulnerável, escolhera uma demonstração pouco promissora. Em vez disso, prendeu a substituta no cinto e me deixou ver que ser competente incluía encontrar uma falha no próprio equipamento.

A oficina estava quente e vazia. Uma folha fina impressa tremulava ao lado da grade do ventilador, presa por um canto sob um parafuso. Soltei-a e encontrei no verso a nossa velha escala de limpeza. Mara costumava escrever recados naquelas escalas durante a nossa primeira missão, pequenos desenhos de naves espetacularmente feias. Eu guardara um por motivos que nunca admitira a outro adulto.

“Você se lembra deste compartimento?”, perguntou ela.

“Outra nave. Os mesmos suportes de armazenagem ruins.”

“Eu me referia ao trabalho.”

“Eu me lembro do trabalho.”

Ela olhou para mim e depois se virou para fechar um armário. Eu respondera de novo à parte mais segura da pergunta. Era uma habilidade que eu precisava parar de praticar se quisesse um resultado diferente.

Conferimos armários em busca de tripulantes dormindo, espaços de manutenção em busca de gente que talvez tivesse ouvido só parte do anúncio, e o lavabo, em busca de um alerta de fluxo com defeito que pudesse desperdiçar nossa reserva de água. Não havia clandestino, nenhum passageiro não contado para saltar de um armário. Só coisas que tínhamos de levar e coisas que tínhamos de deixar.

A minha maleta ainda estava embaixo da bancada. Continha um suéter, um livro de lombada solta e a oferta de contrato que eu imprimira porque lê-la numa tela a tornava fácil demais de apagar. Partida em dez dias, depois desta missão. Trabalho independente de atmosfera, pagamento melhor, nenhum motivo para continuar reservando naves em que eu pudesse ver Mara.

Peguei a maleta.

Ela observou sem perguntar o que havia dentro. Ressenti-me dela por ser cuidadosa, depois ressenti-me de mim por querer que soubesse coisas que eu me recusava a contar. Era possível que o meu pior hábito não fosse o silêncio. Era esperar que outra pessoa provasse o seu amor superando-o.

Amor era uma palavra grande demais para uma passagem cheia de ar ruim. Guardei-a para mim e conferi o último armário.

Na escotilha de popa, colocamos as máscaras para a travessia. Eu ouvia a minha própria respiração movendo-se pelo pequeno sistema de suprimento, cada inspiração próxima e privada. Mara checou a vedação ao redor do meu maxilar sem tocar a minha pele, usando as abas de inspeção. Eu conferi a dela. Trocamos um sinal de positivo bem visível e atravessamos.

O refúgio de proa abrigava seis pessoas à espera e o depurador portátil. Bex arrumara a comida sobre um cobertor dobrado em vez de uma mesa, preservando o acesso livre ao painel. Oren trouxera o equipamento de comunicação. Jules estava sentada de pernas cruzadas com um inventário de material de remendo. Adra tinha um kit médico aberto ao lado de Senn, que tentava ajudar sem fingir que se sentia totalmente bem.

Tavi observava o medidor de fluxo como se fosse um bicho de estimação particularmente pouco confiável.

Mara fechou a última escotilha. Conferi o indicador de vedação e, depois que a pressão se estabilizou, verifiquei o isolamento no painel local. Só então tiramos as máscaras.

O ar do refúgio cheirava a corpos, adesivo e a um pacote de ervas secas de Bex que se rompera no transporte. Não era agradável. Era mensurável e estava melhorando.

Contei todo mundo pelo nome, em voz alta. Tavi respondeu com o lápis erguido. Senn disse presente como se tivéssemos voltado à escola. Bex disse a ele que a escola tinha lanches melhores.

Mara se sentou ao lado do equipamento de comunicação e trabalhou as faixas de serviço. A estática entrava e saía conforme a interferência local cruzava o nosso caminho. Não estávamos isolados da civilização. Tínhamos acesso pouco confiável a ela, o que era frustrante de um modo diferente, muito prático. Oren ajustava o alinhamento da antena enquanto Mara repetia o aviso.

A resposta chegou em pedaços.

Rebocador de serviço Sparrow. Capitã Imani. Recebera nossa posição. Trabalhava numa aproximação fora de um corredor de trânsito de destroços. Exigia que economizássemos energia e preparássemos uma orientação segura de acoplamento. Não podiam simplesmente enfiar uma manga de resgate por uma obstrução só porque queríamos que chegassem mais perto.

Mara pediu que repetissem a condição de aproximação. Imani repetiu. Oren anotou o que de fato disseram, deixando um vazio onde uma palavra se perdera, em vez de completar a frase por esperança.

Quando Mara ergueu o rosto, todas as pessoas no refúgio a observavam.

“A ajuda sabe onde estamos”, disse ela. “Eles têm um problema de rota real. Estão trabalhando nele. Nós vamos fazer a parte que podemos fazer aqui.”

Ela não prometeu um horário de chegada que não recebera. Eu quis pôr a mão sobre a dela. Em vez disso, ofereci-lhe um copo de água e me sentei ao seu lado por tempo suficiente para tornar o querer mais difícil.

O indicador do aquecedor tremulou. Inclinei-me à frente na hora, depois parei. Um breve ciclo de controle, dentro do padrão que tínhamos acabado de medir. Meus ombros haviam subido até as orelhas. Mara notou e deslocou o joelho um pouco, perto o bastante para eu sentir o calor sem tocar.

“Dá para vigiar daqui”, disse ela. “Você não precisa ficar em cima de cada número.”

“Eu sei.”

“Sabe mesmo?”

Olhei para ela. Já não falávamos de um número. Eu ouvia a pergunta que ela não insistia em fazer: se eu algum dia deixava alguém ficar ao meu lado quando eu não estava sendo útil.

“Posso tentar”, falei.

Mara se recostou na parede. Foi o menor convite que eu já deixara de interpretar mal.

Do outro lado, Jules terminou de arrumar os cobertores. As pessoas se mexiam para abrir espaço para um cotovelo, uma bota, um rapaz assustado que não queria dizer que estava assustado. Estávamos apinhados, competentes e já cansados.

Havia espaço suficiente para todos nós. O ar era outra questão.

Espere — Um cartucho reserva funciona. O registro de aprovação mostra que ele só foi liberado depois que Mara já havia transportado a carga.

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Romance F/F adulto de sobrevivência no espaço, com desejo mútuo não declarado e uma primeira relação escolhida, não um reencontro de ex-amantes.

Como a intimidade é apresentada?

Beijos, proximidade em uma única cama e intimidade F/F adulta de porta fechada, sem sexo gráfico. Falha no suporte de vida, confinamento, pressão no trabalho, ferimentos e perigo de desastre.

Esta história conclui seu próprio arco?

O romance completo de Liora e Mara é independente dos segredos do romance longo relacionado.

Liora e Mara já foram um casal?

Não. Elas começam como colegas de trabalho com desejo mútuo não declarado. Um jantar recusado anteriormente foi uma oportunidade perdida, não um rompimento; este é o primeiro romance que escolhem viver.

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