A Cama Na Planta
O quarto na confirmação de Iris Bellamy tinha duas camas. O quarto na tela da recepcionista tinha uma. Entre esses fatos havia um homem de casaco escurecido pela chuva que parecia acostumado a ver outras pessoas corrigirem a realidade por ele.
— Eu fico no sofá — disse Rowan Calder.
— Não tem sofá — respondeu a recepcionista.
Iris examinou a pequena fotografia. Uma cama de casal, duas cadeiras de encosto reto, vista para o mar. No celular, o próximo hotel a uma distância que desse para percorrer a pé aparecia sem vagas. A enchente fechara a estrada costeira; os participantes do congresso tinham chegado cedo e ocupado tudo. Aos trinta anos, com três funcionários para pagar e um saldo devedor que sabia de cor, Iris preferia dormir numa cadeira a perder a visita técnica do dia seguinte.
— O sistema duplicou a reserva do quarto quatorze — explicou a recepcionista. — E o quarto com duas camas que tínhamos de reserva está com uma infiltração no teto. Sinto muito.
Atrás dela havia uma fotografia de Calder House em sua primeira vida: toldos com listras de bala de hortelã, garçons equilibrando bandejas de prata, o mar reduzido a uma borda pálida. No dia seguinte, a prefeitura receberia as propostas finais para restaurar o hotel. A pequena empresa de Iris concorria com a Calder Hotels. Rowan, de trinta e seis anos, era seu herdeiro e o homem cujo nome constava no fim de todos os documentos da concorrência que ela lera.
— Sua família construiu este lugar — disse ela. — Você não tem um apartamento secreto?
— Venderam há quarenta anos. Meus poderes aqui se limitam a uma conta não paga no bar.
A recepcionista olhou para ele, assustada.
— Uma conta hipotética — acrescentou.
O riso contrariado de Iris afrouxou alguma coisa sob a gola molhada. Ela pediu a planta do quarto, a localização da saída de emergência e outro edredom. Rowan observou sem interromper. Quando a recepcionista foi buscar a roupa de cama, Iris se virou para ele.
— Dividir um quarto não significa discutir nossas propostas. Nem pressupor qualquer outra coisa.
— De acordo.
— Preciso da escrivaninha até as onze.
— Preciso da chaleira em intervalos que decepcionariam os profissionais de saúde.
— Então talvez a gente sobreviva.
Ele se ofereceu para pagar. Ela disse que pagaria metade. Ele começou a falar, viu sua expressão e pediu recibos separados à recepcionista. Iris reparou nisso mais do que gostaria.
No andar de cima, o quarto cheirava a encanamento quente e chuva. O papel de parede se soltava sob a janela, com seus pequenos leques dourados se abrindo na umidade. Rowan ocupou a cadeira mais próxima da porta. Iris pôs o caderno azul na escrivaninha e inspecionou a cama: um colchão decididamente de meia-idade, sem possibilidade de ser dividido em dois.
— Podemos pôr o edredom extra no chão — disse ele. — Já dormi em lugares piores.
— Por favor, não me conte sobre um iate problemático.
— Uma estação ferroviária. Perdi o último trem tentando impressionar uma mulher que já tinha ido embora.
— Parece mesmo difícil.
— Foi educativo.
Ela tirou os sapatos. Um deles fizera uma bolha no calcanhar. Ele a viu fazer uma careta, estendeu a mão para a bolsa e parou.
— Curativos para bolhas?
— Sim, obrigada.
Ele deixou o pacote na metade dela da escrivaninha, em vez de se ajoelhar para salvá-la. Lá fora, a chuva tamborilava no vidro. Embaixo, alguém testava um microfone, enviando um assobio melancólico pelo assoalho.
Iris abriu o caderno. A primeira página trazia fotografias dos ladrilhos rachados da escada do hotel e uma lista a lápis dos doze funcionários cujos empregos dependiam do próximo responsável pelo lugar. Rowan olhou para a janela, dando-lhe privacidade.
Ela esperava arrogância. A consideração seria bem mais inconveniente.
O Que Havia Sob A Tinta
Às seis, o grupo da visita do congresso se reuniu sob o teto manchado da sala de jantar. Um técnico da prefeitura descrevia os ornamentos de gesso enquanto a chuva caía num balde atrás de uma palmeira em vaso. Iris se ajoelhou junto ao radiador e verificou o rodapé com um dedo.
— Madeira podre? — perguntou Rowan baixinho.
— Infiltração antiga. Já secou. Continuam pintando por cima da prova.
— Uma tradição do setor.
Ele permaneceu ao lado dela quando o grupo avançou. Seus sapatos caros rangiam nas tábuas gastas. Ela apontou a abertura de manutenção, a entrada estreita da cozinha e a curva que dificultaria a passagem dos carrinhos de café da manhã se a empresa dele instalasse a divisória de vidro do desenho conceitual divulgado ao público.
— Você viu aquilo? — perguntou ele.
— O desenho estava no folheto do congresso.
— A equipe de operações também não gostou da divisória.
— Alguém escutou?
— Não o suficiente.
Ela ergueu os olhos. Não veio nenhuma explicação ensaiada. Aquela admissão, oferecida sem exigir admiração, tornava mais difícil descartá-lo.
Na cozinha, Mina Shah contava xícaras. A representante dos funcionários usava um cardigã sobre o uniforme e tinha a precisão cansada de quem respondera à mesma pergunta a semana inteira.
— Doze funcionários efetivos — disse Mina ao técnico. — Nove moram aqui em Merehaven. Se algum concorrente nos chamar de ativo transferível, pergunte se ele realmente incluiu nossos salários no orçamento.
Iris observou a expressão de Rowan, mas ele prestava atenção em Mina, sem verificar se alguém o reconhecera.
Depois da visita, Iris usou a sala de café da manhã vazia para espalhar suas fotografias técnicas não confidenciais. Rowan apareceu com duas tigelas de sopa.
— Uma tentativa de suborno — disse ela.
— Das fracas. É quase só batata.
Ele deixou uma tigela a uma distância segura das fotografias. Ela comeu de pé, acompanhando o trajeto de um ralo com o cabo da colher. Sua proposta preservava a cozinha e doze empregos, mas o edital original da prefeitura exigia a reabertura simultânea de todos os quartos. O financiamento necessário durante aquele intervalo tornava suas contas dolorosas.
— Não me diga seu preço — disse Rowan. — Ainda sou um concorrente.
— Eu ia dizer que falta sal na sopa.
— Também é confidencial.
Ela sorriu e perguntou por que um homem com uma carteira de hotéis reluzentes queria aquela casa cansada.
— Minha avó conheceu meu avô no salão de baile. Essa é a resposta sentimental. A útil é que nossos hotéis menores no litoral estão lotados, enquanto os grandes hotéis de congressos passam dificuldades.
— Então por que aquela entrada monumental de vidro da sua empresa?
— Porque Graham Flint, nosso diretor de desenvolvimento, acha que uma restauração deve anunciar quanto dinheiro se gastou nela.
— E você?
— Acho que um hóspede deve conseguir achar a porta na chuva.
A resposta foi tão prática que ela parou de mexer a colher.
Conversaram apenas sobre informações públicas: os elementos protegidos da casa, o orçamento publicado pela prefeitura, a entrada oeste sem uso. Se essa entrada servisse aos trabalhadores da obra, a ala leste poderia funcionar durante a restauração da oeste. A equipe de cozinha de Mina continuaria recebendo, o hotel continuaria acolhendo hóspedes e a lacuna de financiamento diminuiria.
— O edital não permite reabertura por etapas — disse Iris.
— Não. Mas talvez o problema seja o edital.
De volta ao quarto, ela desenhou as duas entradas numa página em branco. Rowan ficou do outro lado da escrivaninha. Entre os dois, o hotel impossível se tornou duas metades administráveis.
— Se propuséssemos algo juntos… — Ele parou. — Precisaríamos de regras.
— De muitas regras.
Uma batida a interrompeu. Alguém do lado de fora disse:
— Sra. Bellamy? Preciso saber se vocês dois estão planejando nos demitir.























































