Pular para o conteúdo
Antes que a maré vire — Romance de máfia grátisGrátis · Exclusiva

Romance de máfia grátis

Antes que a maré vire

Uma dívida forjada ameaça sua oficina de reparos. O motorista perigoso à sua porta precisa aprender a pedir antes de poder ficar.

Suspense romântico M/F adulto no meio criminoso, com uma restauradora de móveis, um motorista e confiança conquistada.

Intimidade consensual adulta de porta fechada.

  • Aliados relutantes
  • motorista do crime e mulher civil
  • confiança conquistada
  • devoção protetora
  • redenção

🌶️🌶️ Cerca de 87 min de leitura · 19.950 palavras

Mara Vidal sabe consertar uma cadeira quebrada. Uma garantia falsificada e um cobrador à sua porta são outra história. Quando um assento antigo revela um documento que alguém quer manter enterrado, o motorista que fez a entrega se torna o último homem em quem ela deveria confiar e o primeiro a deixá-la decidir. Numa Miami anterior, Mara e Dario precisam proteger a verdade sem transformar seu desejo crescente em outra dívida.

Livros de Alisson Bento

Caged in Miami

Comprar na Amazon

Edição Kindle · leitura grátis no Kindle Unlimited, onde disponível.

Começar a ler grátis Ou libere a história inteira agora
Compartilhar história

Compartilhar história

Uma cadeira sem dono

Mara

Mara Vidal estava com a boca cheia de tachinhas de latão quando o homem chegou para tomar sua oficina. Cuspiu-as na palma antes que ele confundisse seu silêncio com concordância.

“Estamos fechadas”, disse.

Ele olhou a porta aberta, a bancada iluminada e a cadeira de cabeça para baixo sobre dois engradados de leite. A chuva escurecera os ombros da camisa cinza. Não era o homem que telefonara naquela tarde. Aquele soara polido o bastante para vender uma garantia estendida a um cadáver. Este parecia ter carregado o cadáver escada abaixo depois.

“Tenho uma entrega para a Vidal Upholstery.” Ergueu uma ordem de serviço dobrada. “E um recado.”

Mara guardou as tachinhas na lata. Nos fundos, a máquina de costura da tia parou com a agulha ainda enfiada numa tira de vinil verde. Aquele som minúsculo, interrompido, fez a oficina parecer menor.

“Primeiro a entrega”, disse Mara. “Recados costumam levar mais tempo.”

O olhar do homem foi para as mãos dela. Tinha uma cicatriz de agulha atravessando o polegar esquerdo e uma mancha recente de tingidor de móveis no pulso. Ele não olhou a gaveta do dinheiro. Quem queria roubá-las geralmente olhava.

“Dario Sosa.” Desdobrou a ordem e a pousou numa parte limpa da bancada. “Liguei ontem sobre uma cadeira de jantar.”

“Disse que precisava de assento.”

“Precisa.”

“Então traga a cadeira.”

Ele saiu. Pela vidraça da frente, marcada de chuva, ela o viu atravessar até uma van de carga branca. Abriu as portas traseiras sem tirar os olhos inteiramente da rua. Nada escrito nas laterais, nenhum telefone comercial. Tirou uma poltrona de nogueira com o assento de couro rasgado e a trouxe pela porta como se o peso merecesse consideração. A maioria dos entregadores batia as pernas no batente.

Ines saiu de trás da cortina que separava a área de costura da oficina. Usava óculos amarelos de leitura presos numa corrente e uma fita métrica pendurada no pescoço.

“Isso não é uma cadeira de jantar”, disse Ines.

“Ninguém pediu uma fotografia pelo telefone”, respondeu Dario.

A própria Mara atendera à ligação e se lembrava da pressa com que ele descrevera o estrago. Pegou a ordem de serviço e viu sua própria letra apressada debaixo do nome dele. Consertar assento. Inspecionar estrutura. Orçamento antes do serviço. Não havia endereço, apenas um número de celular.

“Quem é o dono?”

“Um cliente do meu patrão.”

“Então seu patrão pode autorizar o orçamento.”

“Roque Ledesma.”

Ines tirou os óculos. Mara manteve os olhos no papel porque se recusava a deixar aquele estranho vê-la entender. Roque era o nome que Esteban Lugo usara ao telefone, com muita casualidade, enquanto explicava o que acontecia a quem ignorava obrigações vencidas. Mara dissera a Esteban que não lhe devia nada. Ele lhe dissera que era uma questão de interpretação.

O ar-condicionado tossiu no alto. Sob o barulho, água pingava no balde que Ines pusera debaixo da emenda do teto que vazava. Uma gota, depois outra. Os sons comuns da oficina continuavam sem perguntar se Mara conseguia suportá-los.

“Seu recado?”, perguntou.

“O senhor Lugo quer se reunir amanhã às nove. O escritório dele fica na Eighth Street. Pediu que levasse a garantia.”

“Não tenho nenhuma.”

“Disse que você diria isso.”

“Ele disse o que você devia falar em seguida?”

O maxilar de Dario se moveu. “Disse para não se atrasar.”

Ines soltou um som seco pelo nariz. “Diga a ele que isto é um negócio. Temos horários marcados.”

“Estou transmitindo o que me passaram.” Dario olhou para Mara, não para a tia. “Não tenho autorização para negociar.”

“Maravilha. Nem eu. Porque a dívida não é minha.”

Ela foi até o arquivo velho e abriu a gaveta do aluguel. Prendeu na metade, como sempre acontecia quando a umidade aumentava. Puxou com mais força que o necessário. Uma gaveta cheia de faturas sacudiu contra os limitadores. Por um instante, quis atirar tudo nele, inclusive a conta de luz por pagar.

Em vez disso, tirou a fotocópia que Esteban lhe enviara por e-mail naquela manhã. Seu nome aparecia debaixo de uma promessa de garantir um empréstimo feito ao antigo dono do prédio. A assinatura parecia a dela se alguém a tivesse visto assinar do outro lado de uma sala e depois tentado imitar bêbado.

“Aqui diz que assinei em março”, disse. “Estava em Tampa naquela semana, ajudando meu primo a se mudar. Tenho recibos do hotel. Tenho fotos de um sofá que não passou por uma porta. Quer ver?”

“Devia levar amanhã.”

“Você podia levar agora.”

Os olhos dele baixaram para o papel, mas não tentou pegá-lo. “Não quero me tornar o lugar onde sua única cópia desaparece.”

A resposta interrompeu o discurso que ela tinha pronto. Pela primeira vez o examinou sem tentar decidir onde poderia alcançar uma arma. Talvez uns trinta e cinco anos. Cabelo escuro bem curto nas laterais. Um relógio preto com pulseira gasta. O rosto tinha a quietude de quem se acostumara a ouvir manifestações de raiva sem esperar que mudassem alguma coisa.

“Não é minha única cópia”, disse.

“Ótimo.”

Ele lançou à oficina um último olhar avaliador. Não o inventário de um cliente. A porta da frente, a cortina, a passagem estreita ao lado da mesa de corte. Mara sentiu cada parte de seu local de trabalho se registrar na mente dele.

“Vai ficar aqui a noite inteira?”

“Preciso de um recibo da cadeira.”

“Claro que precisa.”

Ela escreveu um, com a identidade do proprietário marcada como não verificada e sem autorização de serviço. Dario leu aquela linha. O canto da boca se moveu sem chegar a um sorriso. Assinou no espaço do cliente e deixou a segunda via com ela.

Depois que ele saiu, Ines trancou a fechadura de segurança.

“Precisamos ligar para alguém”, disse a tia.

Mara olhou pela janela. A van partiu numa faixa molhada de luzes de freio. “Vamos ligar.”

“Alguém com licença profissional e escritório. Nada de amigo do seu primo que entende de problemas.”

“Sei o que quis dizer.”

Ines contornou a bancada e pegou a ordem de serviço dela. Alisou-a com cuidado, como se os vincos fossem o perigo imediato. “Não precisa provar que consegue resolver isso sozinha.”

Mara quis dizer que não estava sozinha. Tinha a tia, uma pasta de recibos, três meses de aluguel numa conta separada e a capacidade de distinguir sua assinatura de uma falsificação. Aquilo devia ter peso. Sob as lâmpadas fluorescentes, parecia tão frágil quanto papel de molde.

“Vá para casa”, disse a Ines. “Vou ligar para a assistência jurídica antes de sair.”

“Já passou das seis.”

“Então vou deixar um recado.”

A tia ficou enquanto ela ligava. Mara deu à assistência jurídica seu nome, telefone e um relato conciso da suposta garantia. A secretária eletrônica apitou antes que ela terminasse. Ligou de novo, dessa vez sem a parte concisa, e pediu o primeiro horário disponível.

Só então Ines pegou a bolsa. Mara a acompanhou até a esquina, onde o ônibus da noite chegou com as luzes internas brilhando contra a chuva. Ines subiu, pagou e se virou para apontar com severidade pelo vidro. Mara ergueu as chaves para mostrar que trancaria tudo. A tia saberia perfeitamente que não fora aquilo que prometera.

De volta, Mara fez um sanduíche com as duas últimas fatias de pão da geladeira do escritório. O peru cheirava bem o suficiente. Comeu de pé, ao lado de uma cadeira que pertencia a um estranho que trabalhava para um homem aparentemente decidido a tomar todo o resto.

Era uma cadeira feia. Não de início; alguém passara um bom tempo entalhando os braços curvos. Mas o couro fora tingido de quase preto sobre o vermelho antigo, e o assento afundava de um lado. Alguém a consertara com grampos de estofamento mais adequados a prender cartazes de campanha em postes de telefone.

Podia deixar até de manhã. Devia deixar. Nada de trabalho sem orçamento, dizia seu próprio recibo.

Mara engoliu a última mordida e pegou uma chave de fenda na barra magnética.

Inspeção não era trabalho. Inspeção era o que permitia fazer um orçamento.

Estendeu uma manta de mudança no chão e deitou a cadeira sobre o encosto. A parte de baixo cheirava a poeira, tabaco velho e à doçura seca do enchimento se desfazendo. Quatro parafusos prendiam o painel do assento à estrutura. Três eram iguais. O quarto era brilhante, recente e comprido demais. Pôs cada parafuso num prato raso e soltou o painel.

Uma tira de fita de linho pendia da parte de baixo como uma bainha solta. Debaixo dela havia um envelope dobrado, entalado entre as percintas e a estrutura. Alguém o escondera onde uma pessoa que trocasse o assento encontraria. Outra pessoa poderia tê-lo posto ali esperando que ninguém trocasse o assento.

Mara pegou o celular antes de tocar no envelope. Fotografou a cadeira de cabeça para baixo, depois o envelope onde estava. Os dedos tremiam tanto que precisou tirar a segunda foto duas vezes. Não se considerava uma mulher esperta numa história de crime. Considerava-se uma profissional irritada que gostaria de ter um registro se um cliente a acusasse de roubar seu dinheiro.

Não havia dinheiro dentro.

Um recibo estreito fora dobrado em volta de um cartão de visita. O recibo trazia a assinatura de Esteban Lugo e uma quantia que fez Mara se sentar sobre os calcanhares. Abaixo do valor havia uma referência de conta e as palavras cessão quitada integralmente. Reconheceu o endereço impresso acima. Era o de sua oficina, inclusive o número da unidade que alguém sempre errava nas entregas de tecido.

O cartão de visita era de uma notária chamada Celia Montes. Mara conhecia Celia de vista. O escritório dela ficava entre uma agência de viagens e uma sapataria de consertos, a dois quarteirões da padaria onde Ines comprava pão.

No verso do cartão, em tinta azul, alguém escrevera: Ele vendeu o mesmo título de novo. Guarde o original.

Mara não se moveu por um bom tempo. O chão pressionava seus joelhos. Uma moto passou lá fora com o escapamento quebrado, e ela deu um pulo tão forte que o recibo estalou entre seus dedos.

Pousou-o na manta, alisou pelas bordas e fotografou os dois lados. A data antecedia a suposta garantia em dois meses. Isso conseguia entender sem advogado. O resto podia significar tudo ou nada. Não deixaria a esperança transformar um papel numa resposta que ele não podia de fato dar.

O celular ainda estava em sua mão quando tocou.

O número de Dario Sosa encheu a tela. Ela o salvara só para acompanhar a cadeira. Viu pulsar três vezes antes de atender.

“Você abriu o assento?”, perguntou ele.

A oficina pareceu se contrair ao redor dela.

“É uma pergunta normal depois de uma entrega?”

“Mara. Abriu?”

Ele usara seu primeiro nome sem pedir. Devia tê-la irritado mais. O que a assustava era a urgência por baixo, a primeira coisa nele que não soara ensaiada.

“Por quê?”

Um motor zumbia na ligação. Uma seta estalou seis vezes. Ela contou porque não conseguia evitar.

“O filho do dono veio procurar aquela cadeira esta tarde. Falou com Roque depois que eu a trouxe para você.”

“Seu patrão sabe que está aqui.”

“Sim.”

“Então por que está me ligando?”

“Porque Lugo perguntou a que horas você fecha.”

Mara se levantou depressa demais. A manta se enrolou no sapato, e ela se apoiou na mesa de corte. Sua mão deixou uma marca úmida na madeira.

“É agora que oferece proteção?”, perguntou. “Porque também não tenho como pagar por isso.”

“Tranque a porta dos fundos. O portão do beco não fecha direito.”

Ele reparara no portão pela passagem estreita. Claro que sim. Ela olhou para a cortina, que se movia um pouco na corrente do ar-condicionado.

“Você não pode me dar ordens.”

“Então aceite uma sugestão de um homem que sabe quem perguntou.”

Levou o telefone aos fundos e correu o ferrolho até o fim. O beco além da pequena janela aramada estava vazio, salvo a caçamba de lixo e um quadro de bicicleta preso por corrente a um cano. A chuva tamborilava na cobertura ondulada.

“Pronto”, disse.

“Estou voltando.”

“Não venha.”

“Outra pessoa pode vir.”

“Então diga que a polícia já está aqui.”

Houve uma pausa. “Está?”

“Pode estar.”

“Se houver ameaça, ligue. Não estou pedindo para esconder isso.”

Ela fechou os olhos. Era a segunda coisa útil que ele dizia, e detestava ter de contar. Um homem ligado a Roque Ledesma devia ser fácil de entender. Já tinha o suficiente para fazer sem descobrir nuances de comportamento decente na pessoa que entregara a ameaça.

“Encontrei um papel”, disse por fim. “Não vou dizer qual.”

A respiração dele mudou. Ela o ouviu encostar, o cascalho estalando sob os pneus.

“Não me mande foto”, disse ele. “Não me entregue o original.”

“Você não para de dizer o que não devo lhe dar.”

“Sei quem me paga.”

Mara olhou o cartão de visita na manta. Celia Montes. Um número local impresso em azul-escuro. O fornecedor habitual de papelaria da oficina teria chamado aquela tinta de cara. Um detalhe inteiramente comum, e ela se agarrou a ele.

“Preciso fazer outra ligação”, disse.

“Vou esperar lá fora. Você decide se a porta abre.”

Ela encerrou antes de poder concordar. Então ligou para o número da notária. A linha do escritório transferiu para um celular, e uma mulher atendeu com a educação cautelosa de quem já tivera a noite interrompida duas vezes.

“Meu nome é Mara Vidal. Sou dona da oficina de estofamento na Seventeenth. Encontrei seu cartão com um recibo envolvendo Esteban Lugo.”

“Leia a referência da conta para mim”, disse a mulher.

Mara leu. Ouviu papel se mover do outro lado.

“Não deixe esse original na oficina durante a noite”, disse Celia. “Posso atendê-la amanhã. Oito e meia. Traga um documento de identificação.”

“É verdadeiro?”

“Não posso autenticar um documento por telefone.” A voz de Celia se suavizou sem perder a precisão. “Mas me lembro dessa transação.”

Mara agradeceu, anotou o horário no pulso porque não achava um pedaço de papel sem nada escrito e ligou para Ines. A tia atendeu de casa com a televisão alta demais ao fundo. Mara contou sobre o recibo, a fotografia e o horário marcado. Só contou que Dario estava voltando quando faróis passaram devagar pela janela.

“Ele está aí dentro?”, exigiu Ines.

“Não.”

“Ótimo. Deixe assim até saber o que quer.”

Mara dobrou o recibo pelos vincos existentes e o enfiou numa capa transparente de faturas. Pôs a capa no bolso interno com zíper da bolsa. O cartão foi separado, atrás da carteira de motorista. A cadeira ficou desmontada no chão, o esconderijo vazio exposto.

Lá fora, Dario apagou os faróis da van. Saiu e ficou debaixo da cobertura, bem afastado da porta. Pelo vidro, ela via a chuva brilhar no cabelo dele. Agora ele não olhava para dentro da oficina. Observava a rua.

Mara apagou a luminária da bancada. Deixou a luz da frente acesa, pegou a bolsa e se aproximou da porta trancada.

Pela primeira vez naquela noite, a chave estava na mão dela.

O preço de uma carona

Dario

Dario passara doze anos aprendendo a distinguir uma porta que se abriria de uma que precisaria forçar. Mara ficou atrás do vidro da oficina e o fez esperar o suficiente para entender que ela também sabia a diferença.

Quando o ferrolho enfim girou, ela abriu a porta só até onde a corrente permitia.

“Pode ficar aí”, disse.

“Era o que eu estava fazendo.”

“Então começou muito bem.”

A bolsa estava atravessada no corpo. Tirara o avental verde, ficando de camiseta escura e jeans com poeira nos joelhos. Trocara os tamancos macios de trabalho por tênis. Pronta para se mover. Ele aprovou sem lhe dizer; ela não gostaria de receber nota pela maneira como lidava com o problema que o patrão dele levara à sua porta.

“Lugo me ligou”, disse. “Quer a cadeira de volta.”

“Sem orçamento?”

“Parece que descobriu um apego profundo a ela.”

Ela não sorriu. “Contou que eu abri?”

“Não.”

“Sabia o que havia dentro?”

“Sabia que um homem chamado Abel Rivas pediu a Roque que a guardasse. Morreu no mês passado. O filho veio buscar as coisas dele esta tarde.”

Os dedos dela apertaram a borda da porta. Dario reconheceu a conta que tentava fazer. Um dono morto, um documento escondido, um estranho oferecendo ajuda. Maneiras demais de se tornar uma história contada por outra pessoa.

“Foi assassinado?”, perguntou.

“Doença pulmonar. Tinha setenta e dois anos. O filho tem a certidão de óbito, se precisar de mais que minha palavra.”

“Talvez precise.”

“Deveria mesmo.”

Um ônibus suspirou na esquina, os freios soltando ar quente na rua úmida. Dario manteve metade da atenção no reflexo da vidraça. Nenhum sedã escuro estava parado atrás dele com o motor ligado. Nenhum homem atravessara a rua duas vezes. Isso não significava que Lugo desistira. Significava que o quarteirão estava tranquilo naquele momento específico.

“Tenho horário com a notária amanhã”, disse Mara. “Antes da reunião de Lugo.”

“Contou a Lugo?”

“Estou contando a você. Pode ser a mesma coisa.”

Ele merecia. Levara cobradores a apartamentos com sapatos de criança do lado de fora, armazéns com câmeras quebradas, escritórios onde o dono fingia ter saído. Dissera a si mesmo que dirigir era um limite. Não segurava o homem contra a parede; esperava no carro. O patrão também gostava daquela distinção. Mantinha o estofamento limpo.

“Não vai ser a mesma coisa esta noite”, disse.

“O que acontece amanhã?”

“Ainda não sei.”

Pelo menos a resposta era honesta. Podia ter transformado ficar na chuva em algo nobre. Ela teria percebido como aquilo lhe custava pouco.

Mara olhou por cima do ombro dele. “Liguei para minha tia. Ela sabe seu nome, seu número e a placa da van.”

“Ótimo.”

“Pare de falar assim, como se eu estivesse fazendo um exercício de treinamento.”

Ele esfregou a nuca. “Estou sem prática de conversar com alguém que pode discordar de mim.”

“Vai ter bastante prática aqui.”

Ela fechou a porta, tirou a corrente e saiu com um molho de chaves. Dario se afastou da entrada. Ela conferiu a fechadura de segurança duas vezes, depois ficou olhando o quarteirão em direção ao ponto de ônibus.

“Não precisa ir comigo”, disse ele.

“Eu sei.”

“Posso seguir um táxi.”

“Isso parece muito pior.”

Ele quase riu. A surpresa foi tanta que precisou desviar os olhos. Houve um tempo em que ria sem se perguntar quem poderia ouvir. Lembrava-se do hábito do corpo com mais facilidade que das circunstâncias.

“Aonde vai?”, perguntou.

“A um lugar cujo endereço você não precisa saber.”

“Então vou com você até o ponto.”

“Do outro lado da rua”, disse ela.

Por isso, ele andou de um lado da rua enquanto ela avançava sob a fileira de coberturas do outro. A distância era absurda e necessária. Água da chuva caía de uma calha quebrada diante da loja de ervas e artigos religiosos. Um homem de poncho plástico erguia seus engradados de frutas para longe do meio-fio. Mara parou para ajudá-lo com um, não porque confiasse no mundo, mas porque as laranjas rolavam para o trânsito. Dario a viu segurar o engradado contra o quadril enquanto o vendedor as recolhia.

Quando ela chegou ao ponto, o ônibus já partira.

“Vinte minutos”, gritou do outro lado da rua, olhando o celular.

Ele conferiu os retrovisores dos carros estacionados. “Vai vir outro.”

“É assim que os ônibus funcionam, sim.”

O celular dele vibrou. O nome de Roque apareceu, e Dario sentiu os ombros voltarem à postura de sempre antes de atender. Virou-se de costas para Mara para que ela não precisasse ouvir sua obediência.

“Onde está?”, perguntou Roque.

“Perto da oficina.”

“Lugo diz que não está atendendo.”

“Estava dirigindo.”

“Você tem viva-voz.”

“O trânsito estava ruim.”

Uma pausa. Roque não gostava de mentiras pequenas porque sugeriam que o funcionário guardava as boas.

“Traga a cadeira para o depósito de manhã”, disse. “Antes de levar a mulher para Lugo.”

“Ela não aceitou carona.”

“Então explique a conveniência.”

Dario olhou o outro lado da rua. Mara encontrara uma faixa seca debaixo do abrigo do ponto. Segurava o celular junto ao ouvido, o rosto virado. A trança prendera na alça da bolsa. Ela a soltou com um movimento irritado da mão.

“Ela diz que não assinou”, disse a Roque.

“As pessoas dizem muita coisa quando uma conta chega.”

“Você viu a garantia original?”

“Tem algum motivo para ter virado contador de repente?”

Dario ouvia uma televisão ao fundo, um locutor esportivo erguendo a voz. Roque estava em casa. Seco, alimentado, sentado numa sala de onde podia sair quando quisesse. Não devia importar. Naquela noite, importou.

“Se comprou um crédito problemático de Lugo, prefiro descobrir antes que alguém se machuque por causa dele.”

A televisão ficou em silêncio.

“Cuidado”, disse Roque. “É do meu dinheiro que está falando.”

“Por isso estou falando.”

“Amanhã. Nove. Ela traz os papéis. Você traz a cadeira.”

A ligação terminou. Dario segurou o celular por mais um instante, depois o guardou. Não mencionara o assento. Não mencionara Celia Montes. Duas omissões, pequenas o bastante para caber numa ligação e grandes o bastante para mudar a direção de sua vida se Roque as descobrisse.

Do outro lado da rua, Mara baixou o telefone.

“Minha tia está vindo”, gritou. “O vizinho dela está dirigindo.”

“Vou esperar.”

“Já disse isso.”

Dessa vez, ele sorriu. Ela pareceu brevemente irritada consigo mesma antes que o canto de sua boca respondesse. Então um sedã prateado entrou no quarteirão e parou ao lado dela, e o pequeno momento sumiu sob questões práticas. Ines se debruçou pela janela do passageiro, examinou Dario dos sapatos ao rosto e disse algo que ele não ouviu. Mara entrou no banco de trás.

Não acenou. Ele não esperava que acenasse.

Ficou até o sedã ir embora. Então voltou à van, sentou ao volante e olhou sua mão direita sobre a alavanca de câmbio. Não havia nada de particularmente notável nela. Uma cicatriz sobre um nó dos dedos, um calo perto do polegar. Sempre achara que um homem sabia quando cruzava uma linha. Geralmente, já a tinha cruzado e estava ocupado explicando por que a estrada fizera uma curva.

Antes de ligar o motor, saiu e fotografou a vitrine da oficina da calçada pública. Não para vigiar Mara. Queria o horário de fechamento afixado ao lado da porta, o vidro intacto, a ausência de alguém esperando lá dentro. Um pequeno registro de um momento tranquilo antes que alguém alegasse que fora diferente. Mandou a foto com uma linha explicando quando fora tirada, depois parou de digitar. Quase acrescentara instruções sobre caminhos e fechaduras. Ela lhe dera um limite, e cruzá-lo num tom prestativo seria um péssimo começo.

A resposta chegou enquanto ele guardava o celular: Recebida. Nada de ligações esta noite, a menos que algo mude.

Ele leu duas vezes, reconhecendo o conforto desconhecido de uma instrução clara que podia seguir sem assustar ninguém. Então mudou a configuração do celular para o número dela tocar mesmo no silencioso. Era uma decisão sobre sua própria disponibilidade. Não precisava contar nem transformar aquilo num direito sobre a dela.

Ligou para o filho de Abel Rivas.

Luis atendeu no quarto toque, parecendo cansado. Dario o conhecera naquela tarde no depósito de Roque, onde Luis discutira sobre uma cadeira velha como se fosse a única coisa que restara do pai.

“É o Sosa. Perguntou para onde foi a cadeira.”

“Disse que não podia me contar.”

“Posso contar agora. Mas antes preciso saber por que Lugo a quer.”

Luis ficou em silêncio. Um cachorro latiu perto do telefone dele. Dario esperou durante os latidos e a voz de uma criança pedindo água.

“Meu pai guardava papéis de negócios nos móveis”, disse Luis por fim. “Achava o arquivo óbvio demais. É engraçado até você tentar resolver um inventário.”

“Ele fazia negócios com Lugo?”

“Comprou um título. Lugo vendeu para ele, depois ficou como agente de cobrança. Meu pai desconfiou de que Lugo vendera a mesma coisa a outra pessoa. Foi a uma notária documentar o pagamento.”

“Por que não fez alguma coisa?”

“Ficou doente. Passou os últimos seis meses tentando respirar. A explicação basta?”

Dario fechou os olhos. “Sim.”

“Encontrei a agenda dele ontem. Uma anotação só diz cadeira, recibo. Liguei para Lugo como um idiota porque achei que poderia ajudar.”

“Não é o único que ele anda ajudando.”

Luis soltou o ar com força. “Onde está?”

Dario lhe deu o endereço do escritório de Celia e o horário que Mara mencionara. Não deu o endereço da oficina, embora estivesse no recibo. Mais uma contenção que devia ter aprendido anos antes.

“Traga prova de que é filho de Abel”, disse. “E os documentos do inventário que permitem falar por ele. A mulher que achou o documento tem seu próprio problema com Lugo. Não vai entregá-lo a um homem só porque ele aparece e pede.”

“Nem eu entregaria.”

Depois da ligação, Dario dirigiu para seu quarto em cima de uma borracharia fechada. A escada cheirava a borracha quente e ao jantar de alguém. Ouvia o vizinho discutindo com um programa de competição na TV atrás de uma porta fina. Tomou banho, trocou de camisa e comeu feijão direto da panela, sem se sentar.

Na prateleira acima da cama havia uma foto do irmão mais novo aos dezesseis anos, sorrindo ao lado de uma bicicleta que tinham montado com peças descartadas. O irmão morava em Jacksonville agora, consertava motores marítimos e ligava nos aniversários. Nenhum dos dois mencionava a última visita, quando Dario chegara num carro que o irmão não deixara seus filhos tocarem.

Pegou o celular, abriu a conversa e digitou uma pergunta sobre trabalho. Depois apagou. Um homem não podia fazer uma ligação útil e se anunciar regenerado.

Em vez disso, pôs o despertador para as sete e se deitou vestido.

Às oito da manhã seguinte, Mara estava na frente do escritório de Celia com Ines ao lado e um saco de papel da padaria na mão. Dario estacionou na outra ponta do quarteirão. Não trouxera cadeira e esperava que a decisão logo custasse caro.

Mara o viu se aproximar. “Não foi convidado.”

“Pedi ao filho de Abel Rivas que viesse.”

O saco parou de se mover na mão dela. “Fez o quê?”

“Ele pode explicar o recibo. Tem os registros do pai.”

“Podia ter me perguntado.”

“Não tinha sua permissão para usar seu número.”

“Tinha meu número para ligar e pedir permissão.”

Ele abriu a boca, fechou e olhou a porta trancada do escritório. O caminho óbvio de algum modo lhe escapara porque estava acostumado a organizar pessoas antes de lhes dizer onde precisavam estar.

“Tem razão”, disse.

Ines cruzou os braços. “Anote a hora. Vamos querer um registro.”

A boca de Mara se contraiu, mas ela manteve a atenção nele. “Chega de convidados-surpresa. Nada de arranjos em meu nome.”

“Combinado.”

“E se esse homem pedir o recibo, Celia cuida disso.”

“Foi o que eu disse a ele.”

Ela olhou o saco da padaria. Havia manchas de gordura no fundo. “Já comeu?”

Ele devia ter dito que sim. Teria impedido que a pequena gentileza o alcançasse exatamente no momento errado.

“Ainda não.”

Ela estendeu o saco. “Tem um a mais.”

Ele pegou um folhado de queijo e se afastou para ela oferecer um à tia. O folhado ainda estava quente. Migalhas ficaram nas dobras da palma úmidas de chuva. Por alguns segundos, não tinha nada para fazer além de comer algo que alguém lhe dera sem esperar que assustasse outra pessoa depois.

“Obrigado”, disse.

“Não me faça me arrepender do café da manhã.”

“É uma promessa bem modesta. Acho que dou conta.”

Ela riu uma vez, inesperadamente, e pareceu quase zangada com o som. Dario entendia. O alívio podia parecer descuido quando o perigo ainda existia.

Um homem de polo azul-marinho veio pela calçada carregando uma caixa de papelão para documentos. Lembrava Abel na região dos olhos, embora a doença tivesse encovado tanto o rosto do homem mais velho que a semelhança não fora evidente em vida. Luis parou a vários passos deles.

“Senhora Vidal?”

Mara pousou o saco da padaria no colo da tia e endireitou o corpo. “Sim.”

“Sou Luis Rivas. Sinto muito por estar envolvida nisso.”

“Eu também.”

Luis assentiu como se a resposta merecesse todo o seu peso. Não ofereceu a mão nem tentou alcançar a bolsa dela. Dario sentiu algo se soltar no peito.

Então o celular tocou.

Lugo, dessa vez. Dario deixou tocar duas vezes antes de atender.

“Soube que começou cedo”, disse Lugo.

Do outro lado da rua, um carro azul-escuro estava parado ao lado de um hidrante. O motorista baixara a janela. Dario não conseguia ver o rosto do homem, mas via o telefone junto ao ouvido.

“Marcou comigo às nove”, disse Dario.

“E eu detestaria que alguém confundisse a ordem dos negócios.”

A porta do escritório se abriu. Celia Montes saiu, chaves numa mão, caneca térmica na outra. Passou os olhos pelo grupo e parou no rosto de Dario.

“Entrem”, disse. “Todos os que têm assuntos de verdade para tratar aqui.”

Dario esperou Mara e Ines entrarem. Luis foi atrás com a caixa. Só então falou de novo no telefone.

“Vamos buscar orientação primeiro.”

A respiração de Lugo sibilou no aparelho. “Você trabalha para Roque.”

“Eu me lembro.”

“Ele não vai gostar de você tomando decisões.”

Dario olhou pela porta aberta. Mara pusera a bolsa na mesa da notária. Tirava a capa transparente com cuidado pelas bordas. Ines estava ao lado da cadeira dela. Havia testemunhas, janelas, uma mulher com uma agenda que registraria o que de fato acontecesse. Nada daquilo os tornaria intocáveis. Tornava mais difícil apagar o que viesse em seguida.

“Então ele mesmo pode me ligar”, disse Dario.

Encerrou a ligação e entrou, deixando a rua para trás.

Espere — Mara tem testemunhas e um horário com a notária. Dario acabou de recusar uma ordem do patrão, mas documentos não podem tornar nenhum dos dois intocável.

Continue lendo Antes que a maré vire grátis

Informe seu e-mail para liberar os capítulos restantes — e o Cofre da Leitora: 138 histórias exclusivas e todas as histórias bônus.

Sua próxima maratona

Caged in Miami

Edição original: inglês

An Enemies-to-Lovers Latino Cartel Romance

Da série Dinastia Sangre

Um romance de máfia sobre ódio, faíscas e o momento em que a linha entre eles pega fogo.

Edição Kindle · leitura grátis no Kindle Unlimited, onde disponível.

Mais da série Dinastia Sangre

Ver todos Mais da série Dinastia Sangre

Quem amou este também devora

Ver todos Quem amou este também devora

Os links abrem a Amazon da sua região.

Dúvidas

Antes de você se apaixonar.

Que relação esta história acompanha?

Suspense romântico M/F adulto no meio criminoso, com uma restauradora de móveis, um motorista e confiança conquistada.

Como a intimidade é apresentada?

Intimidade consensual adulta de porta fechada.

Esta história conclui seu próprio arco?

Um desfecho de casal completo e esperançoso, com compromisso e sem final em suspenso; a investigação da invasão permanece aberta.

Passe adiante.

Antes que a maré virealissonbento.com

WhatsAppFacebookXTelegramRedditThreadsE-mailSMS