O Estojo sem Violino
Mara
O estojo do violino chegou sem seu violino, o que foi a primeira coisa honesta que Pavel Rusan lhe enviara em onze meses.
Mara Keller observou o entregador baixá-lo sobre sua bancada. A neve derretia das mangas dele sobre o feltro. Usava luvas finas de couro, inadequadas para o frio, e não parava de olhar para a porta dos fundos. Quem queria um conserto olhava para suas ferramentas. Quem queria alguma coisa quebrada contava as saídas.
— Deixe aí — disse ela.
Ele obedeceu, com um cuidado surpreendente. O estojo era de nogueira, reforçado na borda inferior por uma faixa de latão que seu pai instalara antes de ela nascer. Mara conhecia a pequena meia-lua junto à fechadura. Aos doze anos, tentara poli-la com algo que o pai usava numa bicicleta. A mancha sobrevivera a todas as tentativas posteriores de corrigir sua prestatividade.
— O senhor Rusan espera você às nove.
— O senhor Rusan pode esperar o que deixar a noite dele mais agradável.
O homem olhou para o relógio acima da pia. Oito e vinte. Lá fora, Brighton Beach encolhera os ombros na escuridão do início de janeiro. Carros avançavam de mansinho entre montes de neve cinzenta. Um restaurante do outro lado da rua punha o lixo para fora em sacos pretos que brilhavam sob o toldo. Trabalho comum de sexta-feira, gente comum ansiosa para terminar. Mara pretendia se juntar a essas pessoas. Havia sopa esperando lá em cima, se a panela não tivesse congelado e grudado no peitoril onde a deixara esfriar.
— Você assinou por isto — disse o entregador.
— Assinei pela devolução de um estojo. Ponha isso no recibo.
— Havia um instrumento.
— Era para haver.
Ele não gostou da distinção. Nem ela. Abriu o estojo, deixando-o ver o veludo verde vazio, a depressão onde o violino repousara, as tiras separadas para seu arco. Dois dias antes, Rusan entregara alguma coisa dentro dele. Um instrumento marrom com filetes descuidados e um verniz envelhecido por alguém com mais confiança do que paciência. Esperara que o luto a cegasse. Em vez disso, o luto a fizera examinar cada milímetro.
Ela levara aquele violino a Viktor antes que Rusan pudesse exigi-lo de volta.
O entregador pôs uma folha dobrada na bancada. Mara a deixou dobrada. A dívida de seu pai fora paga. Os registros bancários estavam numa pasta sob o balcão, junto da confirmação do próprio Rusan, entregue com um sorriso tão caloroso que ela deveria ter cobrado pelo aquecimento. Isso fora em novembro. Seguiram-se dois meses de atrasos. Por fim, houvera o violino falso e, agora, o estojo vazio voltava de uma inspeção que ela não autorizara.
— Meu empregador acredita que você está confusa.
— É mesmo?
— Diz que o luto faz as pessoas se apegarem às coisas.
Mara pressionou a tampa do estojo para fechá-lo antes que suas mãos respondessem por ela. Seu pai morrera na primavera anterior. Passara o último ano de vida envergonhado de um empréstimo que nunca deveria ter aceitado e de uma doença que não escolhera. Ela não tinha interesse em defendê-lo diante de um homem que carregava a crueldade de outro numa folha de papel dobrada.
— Diga a Pavel que identifiquei o substituto. Diga que outra pessoa já o viu. Depois diga que traga o que me pertence.
O entregador olhou para o polegar esquerdo dela. A cicatriz fina e branca atravessava a articulação, um antigo deslize com uma ferramenta de corte. Mara dobrou o dedo contra a palma. Ele podia estar percebendo uma fraqueza. Podia não estar percebendo nada. Ela estava cansada de se perguntar qual das duas coisas era.
— Nove — repetiu ele.
Ela esperou até o sino acima da porta parar de tremer antes de abrir a folha. Não havia explicação. Apenas uma exigência do estojo e de todos os materiais de reparo relacionados ao instrumento, com o valor da dívida original impresso embaixo. Não o valor restante. Não uma nova taxa plausível. A dívida inteira, ressuscitada em tinta preta.
Seu telefone acendeu ao lado de um pote de grampos. Elsa, ligando de uma cozinha a seis fusos horários dali. Mara deixou tocar duas vezes antes de atender. A irmã mais velha apareceu numa névoa de luz de abajur e vapor, saudável e irritada com uma chaleira. Por um instante, Mara não suportou a facilidade com que uma pessoa podia estar em algum lugar seguro.
— Você está horrível — disse Elsa.
— Sua câmera também está favorecendo você.
— Já comeu?
Mara olhou para a escada. — Daqui a pouco.
Elsa começou a contar sobre um vizinho que confundira o pacote dela com o dele. A história oferecia um lugar onde repousar a atenção. Mara ouviu, riu uma vez no momento certo e não virou o telefone para a cobrança. Elsa sabia da dívida e do atraso. Não precisava ser assustada por uma ameaça que Mara ainda não compreendera. A irmã se oferecera para vir. Mara recusara. Não havia motivo para mudar isso agora.
— Talvez seja difícil falar comigo amanhã — disse Mara quando Elsa terminou. — Tenho uma avaliação.
— Do violino do papai?
— Do que mandaram.
A expressão de Elsa se fechou. Ela entendeu a diferença. Mara lhe deu o nome de Viktor, disse que ligaria depois do encontro e encerrou a conversa antes que a preocupação pudesse virar uma viagem. Nada da vida de Elsa pertencia a Pavel Rusan. Mara não lhe daria um caminho até ela por meio do próprio pânico.
Pôs o telefone no bolso do casaco e se voltou para o estojo.
Seu pai lhe ensinara a olhar por baixo de qualquer conserto que parecesse perfeito demais. O forro do estojo fora levantado durante sua ausência não autorizada. Ela conseguia ver onde o adesivo fresco atravessara o veludo. Quem o revistara sabia onde procurar, mas não como deixar tudo como estava. Tirou a espátula fina do suporte e trabalhou por baixo do bolso interno.
O decalque ainda estava lá.
Não uma conta secreta. Não um documento milagroso. Um pedaço de papel japonês para reparos com o desenho de uma rachadura antiga dentro do bojo inferior do violino verdadeiro. Seu pai o fizera antes de fechar o instrumento durante uma restauração. Ao lado, havia uma pequena farpa envernizada que ele retirara e guardara para igualar a cor. Preservava fragmentos como outras pessoas guardavam fotografias. Mara amaldiçoara a bagunça enquanto esvaziava o quarto dele. Naquela noite, se curvou sobre o pedacinho com uma gratidão tão feroz que doeu.
Deslizou os dois itens para um envelope de papel. Havia fotografias com Viktor, e a inspeção dele forneceria outra opinião. Rusan só poderia destruir a palavra dela se destruísse todos os objetos que a sustentavam. Era isso que significava a exigência. Estojo, materiais de reparo, dívida original. Não estava tentando acertar uma conta. Estava tentando apagar a devolução.
Ela conferiu a última mensagem de Viktor antes de guardar o telefone. Amanhã às nove, escrevera ele. Entrada lateral, porque as persianas da frente tinham emperrado de novo. Enviou uma confirmação e uma fotografia do estojo vazio na bancada. Um registro banal, mas naquela noite até o horário em que um objeto estava em sua posse podia importar. Desejou que o pai tivesse guardado menos fragmentos e mais acordos assinados. Então olhou para o envelope sob o veludo e retirou a acusação. Ele guardara o que entendia.
O sino da loja tocou de novo.
Ela pôs o envelope sob o forro levantado e ergueu o olhar. Dois homens estavam dentro da loja, junto à porta. O entregador não era um deles. Um tinha o couro cabeludo claro e raspado. O outro usava um gorro de tricô vermelho puxado quase até as sobrancelhas. Trancou a porta atrás de si sem pedir.
A mão de Mara foi na direção do casaco. O careca moveu a cabeça, só o suficiente para dizer que tinha visto.
— Não dificulte as coisas.
Seu pai usava essa frase com juntas coladas que não queriam se soltar. Mara nunca gostara de ouvi-la dirigida a uma pessoa.
— Levem o estojo — disse ela. — Saiam da loja.
— Precisamos saber o que você guardou.
O homem do gorro atravessou a loja na direção do arquivo. Mara se pôs entre ele e a gaveta. Ele não se apressou. A confiança de ter permissão para machucar alguém tornava seus movimentos quase preguiçosos.
— Isto é propriedade particular.
— O violino também era.
Ele agarrou seu pulso quando ela estendeu a mão para a gaveta. O polegar dele pressionou a articulação acima da cicatriz antiga. A dor disparou pela mão dela. Mara bateu no cotovelo dele com a outra palma, mais raiva do que técnica, e ele a empurrou contra a bancada. Grampos caíram. Um quicou no chão com um som de que ela se lembraria por muito tempo depois de parar de querer lembrar.
O careca tirou um pequeno frasco de metal do bolso.
Por um segundo absurdo, ela achou que ele pretendia beber. Então ele afrouxou a tampa, e ela sentiu cheiro de combustível.
— Não — disse.
A palavra saiu sem volume. Seus olhos foram para os potes de verniz à base de álcool ao longo da parede, as aparas finas sob o torno, a escada que levava à sua cama. Ele não precisava de muito. Não teria que incendiar a sala inteira enquanto estivesse ali dentro. Um foguinho, uma explicação adiada, sua recusa transformada em descuido.
O homem que segurava seu pulso sorriu.
O sino quebrou antes que alguém o ouvisse tocar. Um ombro forçou a porta trancada contra o batente, o vidro rachou acima da maçaneta e o ar frio atingiu a oficina. Ilya Orlov atravessou a destruição com uma pistola baixa ao lado do corpo.
Mara o conhecia. Não bem. O suficiente para saber que não devia sentir alívio.
Ele recolhera estojos restaurados para Rusan duas vezes durante o verão. Pagara em dinheiro, recusara café e, uma vez, esperara do lado de fora enquanto Mara terminava uma ligação, observando a rua em vez do trabalho. Ela se lembrava do peso de seu olhar quando enfim chegara à porta. Ele a olhara como se lhe tivesse ocorrido um pensamento que preferia não ter.
Agora olhava para a mão ao redor do pulso dela.
— Solte.
O homem do gorro a soltou. Sem lentidão. Mara se afastou um passo e se apoiou na bancada. O pulso doía, mas conseguia mover os dedos. Continuou fazendo isso, discretamente, enquanto Ilya atravessava a sala.
— Rusan nos mandou — disse o careca.
— Mandou a mim também.
— Então sabe o que ela tem.
Ilya encostou a pistola no frasco de metal. Não no corpo do homem. No objeto, firme o bastante para fazer o careca congelar.
— Feche isso.
Mara observou a tampa girar. Os vapores continuavam em sua garganta. O homem pôs o frasco na bancada quando Ilya mandou. Em algum lugar lá fora, uma mulher riu, distante por trás da porta quebrada. A rua não entendera o que acontecia dentro da loja. Podia continuar assim até todos ali terem ido embora.
— A garota vai conosco — disse o careca.
— A mulher — disse Mara. — A mulher de trinta e um anos cuja loja vocês invadiram.
Nenhum dos homens olhou para ela. Ilya olhou. Seus olhos eram cor de avelã, embora parecessem mais escuros na luz ruim, e sua atenção pousou no pulso dela antes de voltar aos homens.
— Ela vem comigo.
Mara estendeu a mão sob a bancada e encontrou o molde pesado de madeira usado para dar forma a um estojo. Não podia lutar com os três. Podia tornar caro tocar nela. O peso se acomodou em sua mão. Ilya viu e não mandou que largasse.
— Ligue para ele — disse o careca.
— Você liga. Diga que Orlov tomou posse do que devia ser devolvido.
— Da mulher?
Ilya se moveu tão de repente que Mara só viu o fim: o careca contra o armário, o frasco pego antes de cair, um antebraço pressionado sob seu queixo. A pistola continuava apontada para o chão. O homem do gorro deu um passo e parou quando Ilya olhou para ele.
— Vocês vão embora — disse Ilya. — Vão manter as mãos vazias. Amanhã podem decidir se querem outra conversa.
Soltou o homem. Os dois recuaram na direção da porta quebrada. Mara segurou o molde de madeira até saírem, depois por um pouco mais de tempo. Conseguia ouvir a nota falsa na própria respiração.
Ilya pôs o frasco numa bacia, longe da bancada, e guardou a arma no coldre.
— Casaco — disse ele.
— Você não dá ordens aqui dentro.
Ele olhou para a fechadura quebrada. — Não por muito mais tempo.
Ela o odiou por ter razão. Odiou o fato de a loja ainda ser sua e já não poder protegê-la nem por uma única noite. Ele pegou o casaco cinzento dela na cadeira e o estendeu, sem chegar perto o bastante para vesti-la. Mara pousou o molde de madeira e vestiu o casaco sozinha. O pulso esquerdo protestou. Abotoou com a mão direita.
— Onde? — perguntou.
— Um lugar aonde eles não vão nos seguir.
— Você trabalha para ele.
— Esta noite sou o motivo de você ainda ter uma escada.
Era um fato, não uma promessa. Ela podia usar fatos. Foi até o estojo, empurrou o envelope mais fundo sob o bolso solto e fechou os fechos. Ilya esperou. Sua imobilidade fazia a sala parecer menor. Quando ela estendeu a mão para a alça, ele pegou o estojo. Mara segurou sua manga.
— Fica onde eu possa ver.
— No carro. Pode me ver pôr lá dentro.
— E meu telefone fica comigo.
Ele indicou o bolso do casaco com a cabeça. — Fique com ele.
Ela desligou o aquecedor da bancada. Conferiu as tampas dos potes porque suas mãos precisavam de uma tarefa útil antes de partir. O vidro quebrado junto à entrada capturava a luz. Ilya pegou um rolo de fita na prateleira e cobriu a borda exposta do batente para que ela pudesse passar. Não consertou a porta. Só tornara a saída menos propensa a cortá-la.
Lá fora, um sedã escuro esperava, com gelo nas janelas. Ela o observou pôr o estojo no porta-malas. Anotou a placa, enviou a Viktor com um aviso breve de que ligaria e guardou o telefone no bolso antes de Ilya voltar. Ele vira. Ela percebia pela pausa antes de ele abrir a porta do passageiro.
— Ótimo — disse.
Ela entrou porque os dois homens observavam de um carro do outro lado da rua. Porque já cometera o erro de acreditar que Rusan honraria um recibo. Porque querer sobreviver não a obrigava a confiar no próximo homem que oferecesse uma porta.
O trajeto levou menos de quinze minutos. Ilya conferia o retrovisor a cada curva. Mara mantinha as mãos no colo e procurava pontos de referência. No prédio de apartamentos, ele mesmo levou o estojo para cima. Subiu atrás dela pelos degraus estreitos, perto o bastante para impedir que corresse de volta para baixo. Ela entendeu isso antes de ele abrir o apartamento.
Lá dentro havia calor, uma mesinha, um radiador estalando sob uma janela com cortina. Nenhuma outra pessoa. Nenhuma arma deixada logo ali à vista. Ilya pousou o estojo. Mara se virou para perguntar quanto tempo ele esperava que ficasse. Ele já saíra para o corredor.
A fechadura estalou atrás dela, e o homem lá fora ficara com a chave.
O Quarto Trancado
Ilya
Ilya calculou doze segundos até que ela tentasse a porta. A maçaneta se moveu aos nove.
Ele ficou no corredor, com o telefone junto à orelha, ouvindo metal bater em metal do outro lado. Não um punho. Algo mais duro. Mara encontrara o porta-guarda-chuvas, então. Ele esquecera a bengala que Olya guardava ali. Um descuido que lhe teria rendido uma surra anos antes. Naquela noite, sentiu um orgulho breve e impróprio.
— Você levou minha propriedade — disse Pavel Rusan.
— Seus homens estavam prestes a queimar o lugar que a contém.
— Estavam incentivando a cooperação.
A bengala bateu de novo na porta. Ilya se afastou pelo corredor. Atrás dele, a televisão de um vizinho murmurava através do reboco. Escolhera aquele prédio porque as pessoas ficavam atrás de suas portas e porque Olya nunca perguntara por que ele pagava um ano de aluguel em dinheiro. Nenhum dos fatos tornava aquele um bom lugar para manter uma mulher assustada. Não havia lugar bom. Havia apenas aquele que usara.
— O instrumento não estava lá — disse.
— Então pergunte à mulher onde está.
— É o que pretendo fazer.
Rusan respirou pesadamente ao telefone. Ilya o imaginou na sala particular atrás de seu escritório de importação, um copo equilibrado contra a barriga, dedos gordos puxando a mesma abotoadura de ouro. Pavel gostava de se sentar sob uma fotografia tirada perto de uma mesa de doadores dos Volkov na sala de recitais de Brighton Beach. Havia outros três homens entre ele e Maksim Volkov na foto. Ele os cortara da imagem. Associação virava autoridade se o enquadramento fosse estreito o bastante.
— Dei uma tarefa a você, Orlov.
Uma última tarefa. A promessa viera envolta em números cujo significado mudava sempre que Ilya se aproximava do fim. Ele pagara a suposta dívida do pai três vezes. Rusan chamava os pagamentos extras de juros, depois de multas, depois de custo para manter certas acusações antigas enterradas. Seu pai estava morto. As acusações nunca tinham sido postas à prova. Ilya aprendera a obedecer muito antes de aprender a questionar uma soma.
— Você me mandou recolher uma devolução. Recolhi o estojo.
— E a mulher?
A porta ficou quieta. Isso o preocupou mais do que as pancadas.
— Está sob minha proteção.
Rusan riu uma vez. — Cuidado. Você parece ter alguma coisa a perder.
Ilya encerrou a ligação. Ainda podia fingir que aquilo era cautela profissional. Um instrumento valioso, relatos conflitantes, um proprietário ansioso demais para destruir o registro. Podia usar essas razões até deixarem de lhe servir. Não explicavam por que reconhecera o casaco de Mara antes de ver seu rosto, nem por que a marca dos dedos de outro homem no pulso dela estreitara sua visão.
Ele reparara nela meses antes. Voltara uma vez quando não havia nada para recolher, ficara do outro lado da rua e a observara virar a placa para fechado. Não se aproximara. Desejá-la parecera menos perigoso enquanto continuasse sendo seu fracasso particular.
Agora a pusera atrás de uma fechadura.
Abriu a porta com a mão vazia à vista. Mara estava ao lado da mesa, segurando a bengala como uma lança. O casaco cinzento continuava abotoado. Cachecol verde bem ajustado à garganta. Ela puxara uma cadeira para diante da janela do quarto; a cortina estava aberta, expondo uma escada de incêndio de metal e a parede lateral cega de outro prédio.
— Você disse que eles não iam nos seguir — disse ela.
— Não disse que deixaria você ir embora esta noite.
— Então devia ter dito.
Ele não tinha resposta que não a insultasse. Entrou e fechou a porta. Dessa vez manteve a chave na mão, onde ela podia vê-la. O olhar de Mara acompanhou o pedacinho de metal. A bengala não baixou.
— Há dois homens procurando você. Um deles levou combustível à sua loja.
— Eu estava lá.
— Se voltar para casa…
— Não descreva meu perigo como se isso fizesse sua parte desaparecer.
As palavras o atingiram em cheio. Ele pôs a chave na prateleira estreita junto à porta. Fora do alcance dela. Não escondida. Depois haveria tempo para odiar a precisão daquela distinção.
— Você fica aqui até eu saber para onde Rusan vai mandá-los.
— E o que você faz enquanto espero? Pede um preço melhor?
— Descubro por que ele mandou um estojo vazio.
Ela olhou na direção do estojo. Uma fração de segundo. O bastante. Ilya passara anos usando um rosto antes que seu dono pudesse fechá-lo. Desejou ter adquirido outra habilidade.
— Sente-se — disse ele.
— Não.
Ele tirou o sobretudo. Devagar. Pendurou no gancho e se afastou da porta para que ela não precisasse ficar encurralada entre ele e a janela. A pistola continuou no coldre. Também não havia maneira honesta de fazê-la desaparecer.
— Já comeu?
— Já terminou de fazer o inventário?
— Ainda não.
Ela o encarou. Ele entrou na cozinha, onde Olya deixara pão, ovos e uma panela de sopa de repolho. Pagava a ela para verificar o apartamento vazio uma vez por semana. Ela tratava o dinheiro dele como permissão para julgar sua alimentação. Em geral, ele deixava metade do que ela trazia. Naquela noite, ergueu a panela até o fogão e sentiu gratidão pela interferência.
Mara se moveu quando ele virou de costas. Ele ouviu a bengala tocar o chão, os passos rápidos rumo à entrada. A chave raspou na madeira. Chegou à entrada no instante em que ela a encaixava na fechadura.
— Pare.
Ela girou a chave.
Ele segurou a borda da porta antes que abrisse o bastante para ela passar. Não tocou no pulso dela. Não precisou. Seu peso segurava o painel. Mara estava a polegadas de distância, respirando com dificuldade, os dedos apertados na chave como se pudesse girá-la através do corpo dele.
— Saia da frente — disse ela.
— Não.
Por um instante, nenhum dos dois se moveu. Ele sentia o frio ainda preso no cachecol dela, alguma coisa levemente acre por baixo, vinda da oficina. Adesivo, talvez. Ela ergueu o olhar para ele, não assustada o suficiente para esconder a fúria. Aquilo era pior do que a gratidão teria sido. Gratidão podia ser usada para mentir para si mesmo.
— Quero meu telefonema — disse ela.
— Você está com o telefone.
— Então entenda que já contei a alguém onde estou.
— Ótimo.
— Pare de dizer isso como se eu tivesse passado num teste.
Ele só recuou depois que ela soltou a maçaneta. Ela deixou a chave na fechadura. Ele a pegou, mas dessa vez manteve a porta do apartamento destrancada enquanto voltava à cozinha. A porta de segurança externa do prédio exigia outra chave; ela ainda não sabia disso. Ele teria de contar antes do fim da noite. Cada fato não dito estava se tornando outra parede.
A chaleira começou a tremer. Ele despejou água num copo de lata e numa caneca branca grossa, deixou a caneca na mesa e pôs uma tigela ao lado. Nada de vinho. Lembrava de vê-la sair de uma recepção no escritório de Rusan com uma taça intocada na mão. Ela a devolvera à bandeja ao sair. Observá-la rejeitar uma oferta social comum não lhe ensinara nada sobre o direito de oferecer uma prisão.
— É chá — disse ele. — A sopa está quente. Aceite ou não.
— Você primeiro.
Ele bebeu da caneca dela, comeu uma colherada da panela e então lhe deu uma colher limpa. Ela esperou mais meio minuto. Por fim se sentou. A mão esquerda pairava sem jeito junto à tigela. O pulso começara a inchar um pouco onde o homem a segurara. Ilya trouxe um pano envolvendo gelo do congelador, pôs ao lado dela sem estender a mão para seu braço e se sentou do outro lado da sala.
Mara comia como quem se ressente da própria necessidade. Ele conhecia aquela forma de fome. Não tinha nada a ver com quanto pão restava. Era possível pôr comida ao alcance e ainda fazer alguém pagar por pegá-la, apenas observando de perto demais. Ele desviou o olhar.
— O violino que mandaram para você — disse depois de um tempo. — Onde está?
— Onde não pode ser devolvido sem alguém perguntar por quê.
— Preciso de um nome.
— Você quer um nome. Há uma diferença.
Ele pousou o copo de lata na borda do radiador. O copo chacoalhou quando o cano bateu atrás da parede. Mara acompanhou o som com os olhos, medindo a sala por perturbações que ele parara de ouvir. O apartamento parecia mais pobre sob a atenção dela. Uma mesa lascada. Ganchos vazios. Uma manta dobrada com o tipo de cuidado que vinha de ter muito poucos pertences.
— Rusan alega que seu pai nunca pagou.
— Meu pai não terminou de pagar. Eu terminei.
— Você tem provas?
Ela riu sem humor. — Tenho prova de que dei dinheiro a ele. Homens assim têm um suprimento infinito de razões pelas quais o dinheiro não significa o que significava ontem.
Ilya sentiu a velha pressão atrás das costelas. Viera com a intenção de testar a história dela contra a de Rusan. O relato simples dela se encaixava no seu de um jeito desconfortavelmente próximo. Não queria que o reconhecimento suavizasse seu julgamento. Reconhecimento nunca fizera uma testemunha dizer a verdade. Tampouco um escritório caro tornara um mentiroso honesto.
— Me mostre — disse.
Mara pousou a colher. — Abra a porta.
Ele lhe contou sobre a fechadura de segurança externa. Observou o rosto dela mudar ao entender que o apartamento destrancado de antes oferecera menos do que parecia. Ela se levantou, afastou a tigela e foi até o estojo vazio. Ele permaneceu sentado. A pistola não se moveu. Nem a chave.
Ela abriu a tampa e levantou o forro com a mão direita. Um pequeno envelope apareceu. Ela o segurou contra o peito, não na direção dele.
— Meu pai fechou uma rachadura no instrumento verdadeiro anos atrás. Há um registro do formato dela aqui. A coisa que Pavel mandou não tem esse reparo. Não preciso tocar para saber que não é o nosso.
— Posso ver?
Ela pareceu gostar menos da pergunta do que de uma ordem. Talvez porque oferecesse uma cortesia dentro de uma condição que não aceitara. Ainda assim, pôs o envelope na mesa e o abriu ela mesma. Ele se inclinou para a frente, mantendo as mãos afastadas.
O papel tinha uma impressão fina e irregular. Ao lado, uma lasca envernizada. Ilya não saberia distinguir um violino do século dezenove de uma cópia convincente. Via o cuidado com que Mara manuseava provas que, antes daquele inverno, poderia facilmente ter confundido com lixo.
— Isso prova que o antigo existiu — disse ele. — Prova quem é o dono?
— Sozinho, não. As fotografias, os registros do papai e o histórico dos pagamentos importam. Viktor está com as fotografias. E com o instrumento falso.
Ali estava o nome. Ela escolhera dá-lo. Ilya sentiu a diferença com um desconforto que merecera.
— Um avaliador?
— Um negociante que não é Pavel.
— Isso não é uma qualificação.
— Uma arma também não.
Ele quase sorriu. Teria sido a hora errada. Olhou para o decalque até conseguir fazer a pergunta seguinte sem transformá-la numa acusação.
— Quando Viktor espera você?
— Amanhã de manhã.
— Eu levo você.
— Você vai me deixar ir até ele. São coisas diferentes também.
— Por enquanto, é a mesma viagem.
Mara guardou o papel. Ele esperava outra recusa. Em vez disso, ela perguntou o que Rusan tinha contra ele. Nenhuma aproximação cautelosa, nenhuma oferta de compaixão antes da exigência. Negociava com a única moeda que restava na sala e que ele ainda não tomara: a possibilidade de conhecê-lo.
— Uma dívida — disse ele.
— Sua?
— Do meu pai.
— Onde ele está?
— Morto.
A mão dela parou no fecho do estojo. Ele sabia o que viria a seguir. O pesar, a delicadeza que o fazia querer retirar cada fato útil que dera. Em vez disso, Mara fechou o estojo.
— Então Pavel tem uma história sobre um homem morto — disse ela. — Não é necessariamente a mesma coisa.
Ele olhou para ela por muito tempo. Ela pegara o alicerce de sua vida e o chamara de história. Ele queria contar o que acontecia com homens que contestavam as contas de Rusan. Ajudara a fazer algumas daquelas coisas acontecerem. Era a parte de si que não podia oferecer como advertência sem lhe dar mais um motivo para temê-lo.
— Cobro o que ele diz que as pessoas devem — contou a ela. — Às vezes não querem entregar.
Mara olhou para a arma e de volta para ele. — Imaginou que eu não tivesse entendido?
— Entender não é o mesmo que me ouvir dizer.
— Então continue dizendo direito. Você não só cobra.
Ele aceitou a correção. Ela se assentou entre os dois, junto da tigela vazia de sopa e do papel de reparo, outra coisa que não podia voltar aonde estivera.
Em algum lugar abaixo, a porta externa do prédio abriu e fechou. Passos subiram um lance de escada, pararam, desceram. Um visitante que encontrara o apartamento errado, talvez. Ou um homem testando um caminho. Ilya se levantou e escutou até a porta da rua soar de novo.
Levou o telefone para o corredor, ligou para Anton e deu ao jovem motorista a entrada do prédio para vigiar do outro lado da rua. Nenhuma explicação sobre Mara além de que ninguém deveria se aproximar dela. Anton perguntou se Rusan sabia. Ilya disse que, se Pavel ligasse para ele, Anton devia deixar tocar. O silêncio do outro lado carregava o peso de uma primeira desobediência.
Quando voltou, Mara tirara o casaco. Estava sentada com o pano de gelo contra o pulso, o cachecol dobrado ao lado da tigela. Uma pequena concessão ao calor, nada mais. Ele se recusou a transformar aquilo em confiança.
— Quarto — disse, indicando a porta. — Tem um ferrolho por dentro. Use. Vou ficar aqui.
— E de manhã?
— Viktor. Como combinado.
Ela pegou o estojo e o carregou sozinha. Ele deixou, embora o pulso esquerdo tornasse o movimento desajeitado. Na entrada do quarto, ela parou e olhou para trás. Por um instante, ele achou que talvez dissesse seu nome. Em vez disso, perguntou se alguém no prédio sabia consertar uma porta.
A porta da oficina dela. Ela ainda pensava além do quarto trancado. Ele disse que poderia providenciar uma tábua provisória e uma fechadura nova adequada, e que a pessoa que fizesse o serviço fotografaria tudo e deixaria os pertences dela intocados. Ela considerou, depois indicou um profissional de reparos local por conta própria. Ilya anotou o número. Não mandaria um dos homens de Rusan fazer o estrago parecer bem cuidado.
Mara fechou a porta do quarto. O ferrolho deslizou até o encaixe.
Ele se sentou onde podia ver a entrada do apartamento. Seu telefone tinha três chamadas perdidas de Rusan e uma mensagem que ainda não abrira. Encontrara uma mulher capaz de olhar para um violino falso e recusar a certeza de um homem mais rico. A pusera dentro de seu quarto mais seguro e chamara aquilo de resposta. Atrás da parede, ela encostou o estojo na cama.
Ele a levara aonde ninguém poderia tomá-la e começara a entender quem mais estava incluído nisso.























































